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Espíritos
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Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo
Algumas vezes, sobre os homens e as coisas, há opiniões que se acreditam e passam ao estado de coisas aceitas, por mais errôneas que sejam, porque se acha mais fácil as aceitar completamente acabadas. Assim acontece com Maomé e sua religião, da qual quase que só se conhece o lado legendário. Além disso, o antagonismo das crenças, quer por espírito de partido, quer por ignorância, empenhou-se em fazer ressaltar os pontos mais acessíveis à crítica, muitas vezes deixando intencionalmente na sombra as partes mais favoráveis. Quanto ao público imparcial e desinteressado, é preciso dizer em sua defesa que faltaram elementos indispensáveis para julgar por si mesmo. As obras que o poderiam ter esclarecido, escritas numa linguagem apenas conhecida de alguns cientistas, eram-lhe inacessíveis; e como, em última análise, não havia para ele nenhum interesse direto, acreditou sob palavra naquilo que lhe diziam, sem perguntar mais. Disto resultou que sobre o fundador do islamismo se fizeram idéias muitas vezes falsas ou ridículas, baseadas em preconceitos, que não encontravam nenhum corretivo na discussão. Os trabalhos perseverantes e conscienciosos de alguns sábios orientalistas modernos, tais como Caussin de Perceval, na França, o doutor W. Muir, na Inglaterra, G. Weil e Sprenger, na Alemanha, hoje permitem encarar a questão sob sua verdadeira luz15. Graças a eles, Maomé nos aparece completamente diverso dos contos populares. O lugar considerável que sua religião ocupa na Humanidade e sua influência política hoje fazem deste estudo uma necessidade. Durante muito tempo a diversidade das religiões foi uma das principais causas de antagonismo entre os povos. No momento em que elas têm uma tendência manifesta para se aproximarem, fazendo desaparecerem as barreiras que as separam, é útil conhecer, em suas crenças, o que pode favorecer ou retardar a aplicação do grande princípio de fraternidade universal. De todas as religiões, o islamismo é a que, à primeira vista, parece encerrar os maiores obstáculos a essa aproximação. Desse ponto de vista, como se vê, o assunto não poderia ser indiferente aos espíritas, razão pela qual julgamos dever tratá-lo aqui. Sempre se julga mal uma religião quando se toma como ponto de partida exclusivo suas crenças pessoais, porque então é difícil justificar-se um sentimento de parcialidade na apreciação dos princípios. Para lhe compreender o forte e o fraco é preciso vê-la de um ponto de vista mais elevado, abarcar o conjunto de suas causas e de seus efeitos. Se nos reportarmos ao meio onde ela surgiu, aí encontraremos quase sempre, se não uma justificativa completa, ao menos uma razão de ser. É necessário, sobretudo, penetrar-se do pensamento inicial do fundador e dos motivos que o guiaram. Longe de nós a intenção de absolver Maomé de todas as suas faltas, nem sua religião de todos os erros que chocam o mais vulgar bom-senso. Mas a bem da verdade devemos dizer que também seria pouco lógico julgar essa religião conforme o que dela fez o fanatismo, como o seria julgar o Cristianismo segundo a maneira por que alguns cristãos o praticam. É bem certo que, se os muçulmanos seguissem em espírito o Alcorão, que o Profeta lhes deu por guia, seriam, sob muitos aspectos, completamente diferentes do que são. Entretanto esse livro, apesar de tão sagrado para eles, que só o tocam com respeito, que o lêem e relêem sem cessar, que até o sabem de cor os mais fervorosos, quantos o compreendem? Comentam-no, mas do ponto de vista das idéias preconcebidas, de cujo afastamento fariam um caso de consciência, aí não vendo, portanto, senão o que querem ver. Aliás, a linguagem figurada permite aí encontrar tudo o que se quer, e os sacerdotes, que lá como alhures, governam pela fé cega, não buscam descobrir o que lhes pudesse embaraçar. Não é, pois, junto aos doutores da lei que se deve inquirir do espírito da lei de Maomé. Os cristãos também têm o Evangelho, muito mais explícito que o Alcorão, como código de moral, o que não impede que em nome desse mesmo Evangelho, que manda amar até os inimigos, tenham torturado e queimado milhares de vítimas, e que de uma lei toda de caridade tenham feito uma arma de intolerância e de perseguição. Pode-se exigir que povos ainda semibárbaros façam uma interpretação mais justa de suas escrituras sagradas do que o fazem os cristãos civilizados? Para apreciar a obra de Maomé é preciso remontar à sua fonte, conhecer o homem e o povo ao qual ele dera a missão de regenerar, e só então se compreende que, para o meio onde ele vivia, seu código religioso era um progresso real. Lancemos, primeiro, uma vista d’olhos sobre a região. Em tempos imemoriais a Arábia era povoada por uma multidão de tribos, quase todas nômades, e perpetuamente em guerra umas contra as outras, suprindo pela pilhagem a pouca riqueza que proporcionava um trabalho penoso, sob um clima abrasador. Os rebanhos eram seus principais recursos; algumas tribos se davam ao comércio, que era feito por caravanas, partindo anualmente do Sul, para ir à Síria ou à Mesopotâmia. Sendo quase inacessível o centro dessa quase ilha, as caravanas pouco se afastavam do litoral; as principais seguiam o Hidjaz, região que forma, nas margens do mar Vermelho, estreita faixa de quinhentas léguas de extensão, separada do centro por uma cadeia de montanhas, prolongamento das da Palestina. A palavra árabe Hidjaz significa barreira e se dizia da cadeia de montanhas que ladeia essa região e a separa do resto da Arábia. O Hidjaz e o Iêmen ao sul, são as partes mais férteis; o centro não passa de um vasto deserto. Essas tribos haviam estabelecido mercados para onde se dirigiam de todas as partes da Arábia; lá se regulavam os negócios comuns; as tribos inimigas trocavam os seus prisioneiros de guerra e muitas vezes decidiam as suas diferenças por arbitragem. Coisa singular, essas populações, por mais bárbaras que fossem, apaixonavam-se pela poesia. Nesses lugares de reunião e durante os intervalos de lazer, deixados pelos cuidados dos negócios, havia disputa entre os poetas mais hábeis de cada tribo; o concurso era julgado pelos assistentes e, para uma tribo, era uma grande honra conquistar a vitória. As poesias de mérito excepcional eram transcritas em letras de ouro e pregadas nos muros sagrados da Caaba, em Meca, de onde lhes veio o nome de Moudhahbat, ou poemas dourados. Como para ir a esses mercados anuais e deles voltar com segurança era preciso certo tempo, havia quatro meses do ano em que os combates eram interditos e nos quais não se podia perturbar as caravanas e os viajantes. Combater durante esses meses reservados era olhado como um sacrilégio, que provocava as mais terríveis represálias. Os pontos de estação das caravanas, que paravam nos lugares onde encontravam água e árvores, tornaram-se centros onde, pouco a pouco, formaram-se cidades, das quais as duas principais, no Hidjaz, são Meca e Yathrib, hoje Medina. A maior parte dessas tribos pretendia descender de Abraão, razão por que esse patriarca era tido em grande honra entre eles. Sua língua, por suas relações com o hebraico, atestava, com efeito, uma comunidade de origem entre o povo árabe e o povo judeu. Mas não parece menos certo que o sul da Arábia tenha tido seus habitantes nativos. Entre essas populações havia uma crença, tido como certa, de que a famosa fonte de Zemzem, no vale do Meca, era a que tinha feito jorrar o anjo Gabriel, quando Agar, perdida no deserto, ia perecer de sede com seu filho Ismael. A tradição referia igualmente que Abraão, tendo vindo ver seu filho exilado, havia construído com suas próprias mãos, não longe dessa fonte, a Caaba, casa quadrada, de nove côvados de altura por trinta e dois de comprimento e vinte e dois de largura16. Esta casa, religiosamente conservada, tornou-se um lugar de grande devoção, que faziam um dever visitar e que foi transformada em templo. As caravanas aí paravam naturalmente e os peregrinos aproveitavam sua companhia para viajar com mais segurança. Foi assim que a peregrinação a Meca existia desde tempos imemoriais. Maomé não fez senão consagrar e tornar obrigatório um uso estabelecido. Para tanto teve um objetivo político, que veremos mais tarde. Num dos ângulos externos do templo estava incrustada a famosa pedra negra, trazida dos céus, dizem, pelo anjo Gabriel, para marcar o ponto onde deviam começar os giros em que os peregrinos deviam fazer sete vezes ao redor da Caaba. Pretendem que, na origem, esta pedra era de uma brancura deslumbrante, mas que os toques dos pecadores a enegreceram. No dizer dos viajantes que a viram, ela não tem mais de seis polegadas de altura por oito de comprimento. Pareceria um simples pedaço de basalto, ou talvez um aerólito, o que explicaria sua origem celeste, segundo as crenças populares. Construída por Abraão, a Caaba não tinha porta que a fechasse e era ao nível do solo. Destruída pela irrupção de uma torrente lá pelo ano 150 da era cristã, foi reconstruída e elevada acima do solo, para abrigá-la de semelhantes acidentes. Cerca de cinqüenta anos mais tarde, um chefe de tribo do Iêmen aí pôs uma cobertura de estofos preciosos e colocou uma porta com fechadura para pôr em segurança as dádivas valiosas acumuladas incessantemente pela piedade dos peregrinos.
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Mês Agosto
Ano 1866
Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo
A veneração dos árabes pela Caaba e o território que a circundava era tão grande que não tinham ousado aí construir habitações. Essa área tão respeitada, chamada Haram, compreendia todo o vale do Meca, cuja circunferência é de cerca de quinze léguas. A honra de guardar esse templo venerado era muito cobiçada; as tribos a disputavam e o mais das vezes essa atribuição era um direito de conquista. No século quinto, Cossayy, chefe da tribo dos coraicitas, quinto antepassado de Maomé, tendo-se tornado senhor do Haram e tendo sido investido do poder civil e religioso, mandou construir seu palácio ao lado da Caaba, permitindo aos de sua tribo que ali se estabelecessem. Assim foi fundada a cidade de Meca. Parece ter sido ele o primeiro que colocou uma cobertura de madeira na Caaba. A Caaba está hoje na área de uma mesquita, e Meca é uma cidade de aproximadamente quarenta mil habitantes, depois de ter tido, ao que se diz, cem mil. No princípio, a religião dos árabes consistia na adoração de um Deus único, a cujas vontades o homem deve submeter-se completamente. Essa religião, que era a de Abraão, chamava-se Islã e os que a professavam diziam-se muçulmanos, isto é, submissos à vontade de Deus. Mas, pouco a pouco o puro Islã degenerou em grosseira idolatria; cada tribo teve os seus deuses e os seus ídolos, que defendia com exagero pelas armas, para provar a superioridade de seu poder. Muitas vezes estas foram, entre outras, as causas ou o pretexto de guerras longas e encarniçadas. A fé de Abraão, apesar do respeito que conservavam por sua memória, havia desaparecido entre esses povos, ou pelo menos tinha sido de tal modo desfigurada que na realidade não mais existia. A veneração pelos objetos considerados sagrados tinha caído no mais absurdo fetichismo; o culto da matéria tinha substituído o do espírito; atribuía-se um poder sobrenatural aos objetos mais vulgares consagrados pela superstição, a uma imagem, a uma estátua. Tendo o pensamento abandonado o princípio pelo seu símbolo, a piedade não passava de uma série de práticas exteriores minuciosas, das quais a menor infração era encarada como um sacrilégio. Contudo, ainda se encontravam em certas tribos alguns adoradores do Deus único, homens piedosos que praticavam a mais inteira submissão à sua vontade suprema e repeliam o culto dos ídolos; eram chamados Hanyfes. Eram os verdadeiros muçulmanos, os que tinham conservado a fé pura do Islã; mas eram pouco numerosos e sem influência sobre o espírito das massas. Desde muito tempo colônias judias se haviam estabelecido no Hydjaz e tinham conquistado um certo número de prosélitos ao judaísmo, principalmente entre os hanyfes. O Cristianismo também aí teve os seus representantes e propagadores nos primeiros séculos de nossa era, mas nem uma nem outra dessas duas crenças aí produziram raízes profundas e duráveis. A idolatria tinha se tornado a religião dominante; convinha melhor, por sua diversidade, à independência turbulenta e à divisão infinita das tribos, que a praticavam com o mais violento fanatismo. Para triunfar dessa anarquia religiosa e política, era preciso um homem de gênio, capaz de impor-se por sua energia e firmeza, bastante hábil para participar dos costumes e do caráter desses povos, e cuja missão fosse revelada aos seus olhos pelo prestígio de suas qualidades de profeta. Este homem foi Maomé. Maomé nasceu em Meca no dia 27 de agosto de 570 d.C., no ano dito do elefante. Não era, como se crê vulgarmente, um homem obscuro. Ao contrário, pertencia a uma família poderosa e considerada da tribo dos coraicitas, uma das mais importantes da Arábia, e a que então dominava em Meca. Fazem-no descender em linha reta de Ismael, filho de Abraão e de Agar. Seus últimos antepassados, Cossayy, Abd-Menab, Hachim e Abd-el-Moutalib, seu avô, se haviam ilustrado por eminentes qualidades e altas funções que tinham desempenhado. Sua mãe, Amina, era de nobre família coraicita e descendia também de Cossayy. Tendo seu pai Abd-Allah morrido dois meses antes de seu nascimento, ele foi educado com muita ternura por sua mãe, que o deixou órfão com a idade de seis anos; depois por seu avô Abd-el-Moutalib, que se afeiçoou muito a ele e se comprazia muitas vezes em lhe predizer altos destinos, mas que, ele próprio, morreu dois anos depois. Não obstante a posição que tinha ocupado sua família, Maomé passou a infância e a juventude num estado vizinho ao da miséria; sua mãe lhe havia deixado por toda herança um rebanho de carneiros, cinco camelos e uma fiel escrava negra, que o havia cuidado e pela qual ele conservou sempre um vivo apego. Depois da morte de seu avô, foi acolhido pelos tios, cujos rebanhos pastoreou até a idade de vinte anos; acompanhou-os também em suas expedições guerreiras contra outras tribos; mas, sendo de humor suave e pacífico, nelas não tomava parte ativa, sem, contudo, fugir ou temer o perigo, limitando-se a ir apanhar suas flechas. Quando chegou ao apogeu da glória, gostava de lembrar que Moisés e Davi, ambos profetas, tinham sido pastores como ele. Tinha o espírito meditativo e sonhador; seu caráter, de uma solidez e maturidade precoces, aliados a uma extrema retidão, a um perfeito desinteresse e a costumes irrepreensíveis, lhe granjearam tal confiança da parte de seus companheiros que o designavam pelo sobrenome de El-Amin, “o homem seguro, o homem fiel.” E, conquanto jovem e pobre, convocavam-no às assembléias da tribo para os negócios mais importantes. Fazia parte de uma associação formada entre as principais famílias coraicitas, tendo em vista prevenir as desordens da guerra, proteger os fracos e lhes fazer justiça. Vangloriava-se de ter concorrido para isto e, nos últimos anos de sua vida, sempre se via ligado pelo juramento que, neste sentido, havia prestado na mocidade. Dizia que estava pronto a responder ao apelo que lhe fizesse o homem mais obscuro em nome desse juramento, e que não queria, pelos mais belos camelos da Arábia, faltar à fé que jurara. Por esse juramento os associados juravam, diante de uma divindade vingadora, que tomariam a defesa dos oprimidos e se bateriam pela punição dos culpados enquanto houvesse uma gota de água no oceano. Quanto ao físico, Maomé era fortemente constituído e de estatura pouco acima da média; a cabeça muito grande; a fisionomia, marcada de suave gravidade, era agradável sem ser bela e transpirava calma e tranqüilidade. Com a idade de vinte e cinco anos casou-se com sua prima Cadija, rica viúva, no mínimo quinze anos mais velha que ele, cuja confiança havia conquistado pela inteligente probidade que desenvolvera na condução de uma de suas caravanas. Era uma mulher superior. Essa união, que durou vinte e quatro anos e só terminou pela morte de Cadija, aos sessenta e quatro anos, foi constantemente feliz. Maomé tinha, então, quarenta e nove anos e essa perda lhe causou profunda dor. Depois da morte de Cadija seus costumes mudaram. Desposou várias mulheres; teve doze ou treze em casamentos legítimos e, ao morrer, deixou nove viúvas. Incontestavelmente isto foi um erro capital, cujas lamentáveis conseqüências veremos mais tarde. Até os quarenta anos sua vida pacífica nada oferece de extraordinário. Só um fato o tirou um instante da obscuridade; tinha, então, trinta e cinco anos. Os coraicitas resolveram reconstruir a Caaba, que ameaçava desabar. Só com muito trabalho se apaziguaram, pela repartição dos trabalhos, as contendas suscitadas pela rivalidade das famílias que nela queriam participar. Esses conflitos ressurgiram com extrema violência quando se tratou de recolocar a famosa pedra negra. Ninguém queria ceder seu direito, os trabalhos tinham sido interrompidos e de todos os lados corriam às armas. Por proposta do decano concordaram em aceitar a decisão da primeira pessoa que entrasse na sala das deliberações: foi Maomé. Logo que o viram, cada um gritou: “EL-Amin! El-amin! o homem seguro e fiel.” E esperavam o seu julgamento. Por sua presença de espírito resolveu a dificuldade. Tendo lançado o manto no chão, nele pôs a pedra e pediu a quatro dos principais chefes facciosos que o tomassem, cada um por uma ponta, e o levantassem, todos juntos, até à altura que a pedra devia ocupar, isto é, a quatro ou cinco pés acima do solo. Então a tomou e a colocou com suas próprias mãos. Os assistentes se declararam satisfeitos e a paz foi restabelecida. Maomé gostava de passear sozinho nos arredores de Meca e, anualmente, durante os meses sagrados de trégua, retirava-se para o monte Hira, numa gruta estreita, onde se entregava à meditação. Tinha quarenta anos quando, num de seus retiros, teve uma visão durante o sono. O anjo Gabriel lhe apareceu, mostrando-lhe um livro e ordenando que o lesse. Três vezes Maomé resistiu a essa ordem, e só para escapar ao constrangimento exercido sobre ele é que consentiu em o ler. Ao despertar disse ter sentido “que um livro tinha sido escrito em seu coração.” O sentido dessa expressão é evidente; significa que havia tido a inspiração de um livro. Mais tarde, porém, ela foi tomada ao pé da letra, como muitas vezes acontece com as coisas ditas em linguagem figurada.
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Mês Agosto
Ano 1866
Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo
Um outro fato prova a que erros de interpretação podem conduzir a ignorância e o fanatismo. Em algum lugar do Alcorão diz Maomé: “Não abrimos teu coração e não tiramos o fardo de teus ombros?” Estas palavras, relacionadas com um acidente ocorrido a Maomé quando era criança, deram lugar à fábula, acreditada entre os crentes e ensinada pelos sacerdotes como um fato miraculoso, de que dois anjos abriram o ventre do menino e tiraram de seu coração uma mancha negra, sinal do pecado original. Deve-se acusar Maomé por esses absurdos, ou os que não o compreenderam? Dá-se o mesmo com uma imensidade de contos ridículos, sobre os quais o acusam de ter apoiado sua religião. Eis por que não vacilamos em dizer que um cristão esclarecido e imparcial está em melhores condições de dar uma sã interpretação do Alcorão do que um muçulmano fanático. Seja como for, Maomé foi profundamente perturbado em sua visão, que se apressou a contar à sua mulher. Tendo voltado ao monte Hira, presa da mais viva agitação, julgou-se possuído por Espíritos malignos e, para escapar ao mal que temia, ia precipitar-se do alto de um rochedo, quando uma voz, vinda do céu, se fez ouvir e lhe disse: “Ó Maomé! tu és o enviado de Deus; sou o anjo Gabriel.” Então, levantando os olhos, viu o anjo sob forma humana, desaparecendo, pouco a pouco, no horizonte. Esta nova visão não fez senão aumentar a sua perturbação; comunicou-a a Cadija, que se esforçou por o acalmar; mas, pouco segura de si mesma, foi procurar seu primo Varaka, ancião afamado por sua sabedoria e convertido ao Cristianismo, que lhe disse: “Se o que acabas de dizer-me é verdade, teu marido foi visitado pelo grande Nâmous, que outrora visitou Moisés; ele será o profeta deste povo. Anunciai a ele, e que se tranqüilize.” Algum tempo depois Varaka, tendo encontrado Maomé, fez que lhe contasse suas visões e lhe repetisse as palavras que havia dito à sua mulher, acrescentando: “Tratar-te-ão como impostor; expulsar-te-ão; combater-te-ão violentamente. Que eu possa viver até essa hora para te assistir nessa luta!” O que resulta deste e de muitos outros fatos é que a missão de Maomé não foi um cálculo premeditado de sua parte; estava confirmada por outros, mas ainda não o estava por ele; demorou muito tempo para persuadir-se disto; mas desde que o ficou, tomou-a muito a sério. Para ele próprio se convencer, desejava uma nova aparição do anjo que, segundo uns, demorou dois anos e, segundo outros, seis meses. É a esse intervalo de incerteza e de hesitação que os muçulmanos chamam o fitreh. Durante todo esse tempo seu espírito foi presa de perplexidades e dos mais vivos temores. Parecia-lhe que ia perder a razão, e era também a opinião de alguns que o cercavam. Era sujeito a desfalecimentos e síncopes, que os autores modernos atribuíram, sem outras provas além de sua opinião pessoal, a ataques de epilepsia, e que antes poderiam ser o efeito de um estado extático, cataléptico ou sonambúlico espontâneo. Nesses momentos de lucidez extracorpórea, muitas vezes se produziam, como se sabe, fenômenos estranhos, dos quais o Espiritismo se dá conta perfeitamente. Aos olhos de certa gente, ele devia passar por louco; outros viam nesses fenômenos, para eles singulares, algo de sobrenatural, que colocava o homem acima da Humanidade. “Quando se admite a ação da Providência nos negócios humanos, diz o Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, não se pode deixar de a encontrar, também, nessas inteligências dominadoras que aparecem de longe em longe para esclarecer e conduzir o restante dos homens.” O Alcorão não é uma obra escrita por Maomé, com a cabeça fria e de maneira continuada, mas o resumo feito por seus amigos das palavras que pronunciava quando estava inspirado. Nesses momentos, dos quais não era senhor, ele caía num estado extraordinário e muito assustador; o suor corria-lhe da fronte; seus olhos tornavam-se vermelhos de sangue, soltava gemidos e, no mais das vezes, a crise terminava por uma síncope que durava mais ou menos tempo, o que por vezes lhe acontecia em meio à multidão, e mesmo quando montado em seu camelo, tanto quanto em casa. A inspiração era irregular e instantânea, e ele não podia prever o momento em que seria dominado. Segundo o que hoje conhecemos desse estado por uma multidão de exemplos análogos, é provável que, sobretudo no princípio, ele não tivesse consciência do que dizia, e que se suas palavras não tivessem sido recolhidas, teriam ficado perdidas; mais tarde, porém, quando tomou a sério seu papel de reformador, é evidente que falava mais com conhecimento de causa e misturasse às inspirações o produto de seus próprios pensamentos, conforme os lugares e as circunstâncias, as paixões ou os sentimentos que o agitavam, tendo em vista o objetivo que queria atingir, acreditando, talvez de boa-fé, falar em nome de Deus. Esses fragmentos isolados, recolhidos em diversas épocas, em número de 114, formam no Alcorão outros tantos capítulos chamados suratas; ficaram esparsos durante sua vida, e só depois de sua morte foram reunidos oficialmente num corpo de doutrina, pelos cuidados de Abu-Becr e de Omar. Dessas inspirações súbitas, recolhidas à medida que ocorriam, resultou uma falta absoluta de ordem e de método; os mais disparatados assuntos aí são tratados a esmo, muitas vezes na mesma surata, e apresentam tal confusão e tão numerosas repetições que uma leitura seguida é penosa e fastidiosa para quem quer que não seja um fiel. Segundo a crença vulgar, tornada artigo de fé, as páginas do Alcorão foram escritas no céu e trazidas prontas a Maomé pelo anjo Gabriel, porque numa passagem se diz: “Teu Senhor é poderoso e misericordioso, e o Alcorão é uma revelação do Senhor do Universo. O Espírito fiel (o anjo Gabriel) o trouxe do Alto e o depositou em teu coração, ó Maomé, para que fosses apóstolo.” Maomé se exprime da mesma maneira em relação ao livro de Moisés e ao Evangelho; diz (surata III, versículo 2): “Ele fez descer do Alto o Pentateuco e o Evangelho, para servir de direção aos homens”, querendo dizer por isso que esses dois livros tinham sido inspirados por Deus a Moisés e a Jesus, como lhe havia inspirado o Alcorão. Suas primeiras prédicas foram secretas durante dois anos, e nesse intervalo ele se ligou a uma centena de adeptos entre os membros de sua família e seus amigos. Os primeiros convertidos à nova fé foram Cadija, sua mulher; Ali, seu filho adotivo, de dez anos; Zeid, Varaka e Abu-Becr, seu mais íntimo amigo, que devia ser o seu sucessor. Tinha quarenta e dois anos quando começou a pregar publicamente e desde esse momento realizou-se a predição que lhe havia feito Varaka. Sua religião, fundada na unidade de Deus e na reforma de certos abusos, sendo a ruína da idolatria e dos que dela viviam, os coraicitas, guardas da Caaba e do culto nacional, levantaram-se contra ele. A princípio o trataram de louco; depois o acusaram de sacrilégio; amotinaram o povo; perseguiram-no e a perseguição tornou-se tão violenta que, por duas vezes, seus partidários tiveram de buscar refúgio na Abissínia. Entretanto, aos ultrajes ele sempre opunha a calma, o sangue-frio e a moderação. Sua seita crescia e seus adversários, vendo que não a podiam reduzir pela força, resolveram desacreditá-la pela calúnia. A zombaria e o ridículo não lhe foram poupados. Como se viu, os poetas eram numerosos entre os árabes; manejavam a sátira habilmente e seus versos eram lidos com avidez; era o meio empregado pela crítica mal-intencionada e não deixavam de a empregar contra ele. Como ele resistisse a tudo, seus inimigos, enfim, recorreram aos complôs para o matar e ele só escapou pela fuga ao perigo que o ameaçava. Foi então que se refugiou em Yathrib, depois chamada Medina (Medinet-en-Nabi, cidade do Profeta), no ano 622, e é dessa época que data a Hégira, ou era dos muçulmanos. Ele tinha mandado antecipadamente, a essa cidade, em pequenas tropas para não provocar suspeitas, todos os seus partidários de Meca, retirando-se por último, com Abu-Becr e Ali, seus discípulos mais devotados, quando soube que os outros estavam em segurança. Dessa época data também para Maomé uma nova fase em sua existência; de simples profeta que era, foi constrangido a fazer-se guerreiro. (Continua no próximo número)
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Mês Agosto
Ano 1866
Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo (2o artigo)
Foi em Medina que Maomé mandou construir a primeira mesquita, na qual trabalhou com as próprias mãos e organizou um culto regular. Aí pregou pela primeira vez em 623. Todas as medidas tomadas por ele testemunhavam a sua solicitude e previdência. Diz o Sr. Barthélemy Saint-Hilaire que “Um traço característico, ao mesmo tempo, do homem e de seu tempo, é a escolha feita por Maomé de três poetas de Medina, oficialmente encarregados de o defender contra as sátiras dos poetas de Meca. Provavelmente, não porque nele o amor fosse mais excitável do que convinha; mas, numa nação espirituosa e viva esses ataques tinham uma repercussão análoga à que podem ter os nossos jornais, atualmente, e eles eram muito perigosos.” Dissemos que Maomé foi constrangido a fazer-se guerreiro. Com efeito, ele absolutamente não era de humor belicoso, como o havia provado nos primeiros cinqüenta anos de sua vida. Ora, mal tinham passados dois anos de sua permanência em Medina e os coraicitas de Meca, coligados com outras tribos hostis, vieram sitiar a cidade. Maomé teve que se defender; desde então começou para ele o período guerreiro, que durou dez anos e durante o qual se mostrou, sobretudo, um tático hábil. Num povo em que a guerra era um estado normal, que só conhecia o direito da força, o chefe da nova religião necessitava do prestígio da vitória para firmar a sua autoridade, mesmo sobre os seus partidários. A persuasão tinha pouco domínio sobre essas populações ignorantes e turbulentas; uma mansuetude em demasia teria sido tomada como fraqueza. Em seu pensamento, o Deus forte não podia manifestar-se senão por um homem forte, e o Cristo, com sua inalterável doçura, teria fracassado nessas regiões. Maomé foi, pois, guerreiro pela força das circunstâncias, muito mais que por seu caráter, e terá sempre o mérito de não ter sido o provocador. Uma vez iniciada a luta, tinha de vencer ou morrer; só com esta condição poderia ser aceito como o enviado de Deus; era preciso que os seus inimigos fossem abatidos para se convencerem da superioridade de seu Deus sobre os ídolos que adoravam. Com exceção de um dos primeiros combates, onde foi ferido, e os muçulmanos derrotados em 625, suas armas foram constantemente vitoriosas, submetendo à sua lei, no espaço de alguns anos, a Arábia inteira. Quando viu sua autoridade consolidada e a idolatria destruída, entrou triunfalmente em Meca, após dez anos de exílio, seguido de quase cem mil peregrinos, aí realizando a célebre peregrinação dita do adeus, cujos ritos os muçulmanos conservaram escrupulosamente. Morreu no mesmo ano, dois meses depois de seu regresso a Medina, no dia 8 de junho de 632, com sessenta e dois anos de idade. Deve-se julgar Maomé pela história autêntica e imparcial, e não conforme as lendas ridículas que a ignorância e o fanatismo espalharam por sua conta ou as descrições feitas pelos que tinham interesse em desacreditá-lo, apresentando-o como um ambicioso sanguinário e cruel. Também não se deve responsabilizá-lo pelos excessos de seus sucessores, que quiseram conquistar o mundo para a fé muçulmana de espada em punho. Sem dúvida houve grandes infâmias no último período de sua vida; ele pode ser censurado por ter abusado, em algumas circunstâncias, do direito de vencedor e de nem sempre ter agido com a moderação necessária. Entretanto, ao lado de alguns atos que a nossa civilização reprova, é preciso dizer, em sua defesa, que muitíssimas vezes ele se mostrou muito mais humano e clemente para com os inimigos do que vingativo e que inúmeras vezes deu provas de verdadeira grandeza de alma. Deve-se reconhecer, também, que mesmo em meio aos seus sucessos e quando havia chegado ao ponto culminante de sua glória, ele se fechou, até o seu último dia, no seu papel de profeta, sem jamais usurpar uma autoridade temporal despótica. Não se fez rei, nem potentado e jamais, em sua vida privada, se manchou por algum ato de fria barbárie ou de baixa cupidez. Sempre viveu simplesmente, sem fausto e sem luxo, mostrando-se bom e benevolente para com todos. Isto é da História. Se nos reportarmos ao tempo e ao meio em que ele vivia; se considerarmos sobretudo as perseguições de que ele e os seus foram alvo, o encarniçamento de seus inimigos e os atos de barbárie que estes cometeram contra os seus partidários, é de admirar que no entusiasmo da vitória por vezes tenha usado de represálias? Deve-se censurá-lo por ter estabelecido a sua religião pelo ferro, num povo bárbaro que o combatia, quando a Bíblia registra, como fatos gloriosos para a fé, carnificinas de tal atrocidade que se é tentado a tomá-las como lendas? Quando, mil anos depois dele, nos países civilizados do Ocidente, cristãos, que tinham por guia a sublime lei do Cristo, atirando-se sobre vítimas pacíficas, sufocavam as heresias nas fogueiras, nas torturas, nos massacres e em ondas de sangue? Se o papel guerreiro de Maomé lhe foi uma necessidade, e se esse papel pode escusá-lo de certos atos políticos, o mesmo não se dá com outros aspectos. Até a idade de cinqüenta anos, e enquanto viveu sua primeira mulher Cadija, quinze anos mais velha que ele, seus costumes foram irreprocháveis; mas desde esse momento suas paixões não conheceram nenhum freio e foi, incontestavelmente, para justificar o abuso que delas fez, que consagrou a poligamia em sua religião. Foi o seu mais grave erro, porque foi a barreira que ergueu entre o islamismo e o mundo civilizado; por isso sua religião não pôde, após doze séculos, transpor os limites de certas raças. É também o lado pelo qual o seu fundador mais se rebaixa aos nossos olhos. Os homens de gênio perdem sempre o seu prestígio quando se deixam dominar pela matéria; ao contrário, crescem tanto mais quanto mais se elevam acima das fraquezas da Humanidade. Entretanto, tais eram os desregramentos dos costumes na época de Maomé, que uma reforma radical era muito difícil em homens habituados a se entregar às suas paixões com uma brutalidade bestial. Pode, pois, dizer-se que, regulamentando a poligamia, ele impôs limites à desordem e conteve abusos bem mais graves; mas nem por isso a poligamia deixará de ser o verme roedor do islamismo, porque é contrária às leis da Natureza. Pela igualdade numérica dos sexos, a própria Natureza traçou os limites das uniões. Permitindo quatro mulheres legítimas, Maomé não pensou que, para que sua lei se tornasse a da universalidade dos homens, seria preciso que o sexo feminino fosse ao menos quatro vezes mais numeroso que o masculino. A despeito de suas imperfeições, o islamismo não deixou de ser um grande benefício para a época em que surgiu e para o país onde nasceu, porque fundou o culto da unidade de Deus sobre as ruínas da idolatria. Era a única religião possível para esses povos bárbaros, aos quais não era preciso pedir grandes sacrifícios às suas idéias e costumes. Era-lhes necessário algo de simples como a Natureza, em meio da qual viviam; a religião cristã tinha muitas sutilezas metafísicas; por isso, todas as tentativas feitas durante cinco séculos para implantá-la nessas regiões, tinham fracassado completamente; o próprio judaísmo, muito argumentador, tinha feito poucos prosélitos entre os árabes embora os judeus propriamente ditos aí fossem bastante numerosos. Superior à sua raça, Maomé tinha compreendido os homens de seu tempo. Para os tirar do aviltamento em que os mantinham grosseiras crenças, rebaixadas a um estúpido fetichismo, deu-lhes uma religião apropriada às suas necessidades e ao seu caráter. Essa religião era a mais simples de todas: “Crença num Deus único, todo-poderoso, eterno, infinito, presente em toda parte, clemente e misericordioso, criador dos céus, dos anjos e da Terra, Pai do homem, sobre o qual vela e o cumula de bens; remunerador e vingador numa outra vida, onde nos espera para nos recompensar ou nos punir conforme os nossos méritos; vendo nossas ações mais secretas e presidindo ao destino inteiro de suas criaturas, que não abandona um só instante, nem neste mundo, nem no outro; a mais humilde submissão e confiança absoluta em sua santa vontade.” Eis os dogmas. Quanto ao culto, consiste na prece, repetida cinco vezes por dia, os jejuns e as mortificações do mês de ramadã, e em certas práticas, das quais diversas tinham um fim higiênico, tais as abluções quotidianas, a abstenção do vinho, dos licores inebriantes, da carne de certos animais, e que os fiéis consideram um caso de consciência observar escrupulosamente. A sexta-feira foi adotada como o dia santo da semana e Meca indicada como o ponto para o qual todo muçulmano deve voltar-se ao orar. O serviço público nas mesquitas consiste em preces em comum, sermões, leitura e explicação do Alcorão. A circuncisão não foi instituída por Maomé, mas por ele conservada; era praticada entre os árabes desde tempos imemoriais. A proibição de reproduzir pela pintura ou pela escultura qualquer ser vivo, homens e animais, foi feita visando destruir a idolatria, e impedir que ela tornasse a crescer. Enfim, a peregrinação a Meca, que todo fiel deve realizar ao menos uma vez na vida, é um ato religioso; mas tinha outro objetivo na época, um objetivo político, o de aproximar, por um laço fraternal, as diversas tribos inimigas, reunindo-as num comum sentimento de piedade, num mesmo lugar consagrado.
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Ano 1866
Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo (2o artigo)
Do ponto de vista histórico, a religião muçulmana admite o Antigo Testamento por inteiro, até Jesus-Cristo, inclusive, que reconhece como profeta. Segundo Maomé, Moisés e Jesus eram enviados de Deus para ensinar a verdade aos homens; o Evangelho, assim como a lei do Sinai, é a palavra de Deus; mas os cristãos lhe alteraram o sentido. Declara, em termos explícitos, que não traz crenças novas, nem culto novo, mas que vem restabelecer o culto do Deus único professado por Abraão. Só fala com respeito dos patriarcas e dos profetas que o precederam: Moisés, Davi, Isaías, Ezequiel e Jesus-Cristo; do Pentateuco, dos Salmos e do Evangelho. São os livros que precederam e prepararam o Alcorão. Longe de ocultar os empréstimos que lhes faz, disto se vangloria, e a grandeza deles é o fundamento da sua. Pode-se julgar de seus sentimentos e do caráter de suas instruções pelo fragmento seguinte do último discurso que pronunciou em Meca, quando da peregrinação do adeus, pouco antes de sua morte, e conservado na obra de Ibn-Ishâc e de Ibn-Ishâm: “Ó povos! escutai minhas palavras, pois não sei se, no próximo ano, poderei encontrar-me ainda convosco neste lugar. Sede humanos e justos entre vós. Que a vida, a propriedade de cada um sejam invioláveis e sagradas para os outros; que aquele que recebeu um depósito o devolva fielmente àquele que o confiou. Comparecereis diante do Senhor e ele vos pedirá contas de vossas ações. Tratai bem as mulheres; elas são vossas auxiliares e nada podem por si sós. Vós as tomastes como um bem que Deus vos confiou e delas tomastes posse por palavras divinas. “Ó povos! escutai minhas palavras e fixai-as em vossos espíritos. Eu vos revelei tudo; deixo-vos uma lei que vos preservará para sempre do erro, se a ela vos manterdes ligados fielmente; uma lei clara e positiva, o livro de Deus e o exemplo de seu profeta. “Ó povos! escutai minhas palavras e fixai-as em vossos espíritos. Sabei que todo muçulmano é irmão do outro; que todos os muçulmanos são irmãos entre si, que sois todos iguais entre vós e que sois apenas uma família de irmãos. Guardai-vos da injustiça; ninguém deve cometê-la em detrimento de seu irmão: ela ocasionará a vossa perda eterna. “Ó Deus! Dei meu recado e terminei minha missão? – A multidão que o cercava respondeu: ‘Sim, tu a concluíste.’ E Maomé exclamou: Ó Deus, digna-te receber este testemunho!” Eis agora o julgamento de Maomé e da influência de sua doutrina, feito por um de seus historiógrafos, o Sr. G. Weil, em sua obra alemã intitulada: Mohammet der Prophet, às páginas 400 e seguintes: “A doutrina de Deus e dos santos destinos do homem, pregada por Maomé num país que estava entregue à mais brutal idolatria, e que da imortalidade da alma apenas fazia uma idéia, tanto mais nos deve reconciliar com ele, apesar de suas fraquezas e de suas faltas, quanto sua vida particular não podia exercer sobre os seus adeptos nenhuma influência prejudicial. Longe de se dar jamais por modelo, ele queria sempre que o olhassem como um ser privilegiado, a quem Deus permitia pôr-se acima da lei comum. E, de fato, ele foi cada vez mais considerado sob essa luz especial. “Seríamos injustos e cegos se não reconhecêssemos que seu povo lhe deve ainda outra coisa de verdadeiro e de bom. Ele reuniu numa só grande nação, crente fraternalmente em Deus, as inumeráveis tribos árabes, até então inimigas entre si. Em lugar do mais violento arbítrio, do direito da força e da luta individual, ele estabeleceu um direito inquebrantável que, a despeito de suas imperfeições, forma sempre a base de todas as leis do islamismo. Limitou a vingança do sangue que, antes dele, se estendia até os parentes mais afastados e a limitou àquele que os juízes reconhecessem por assassino. Mereceu bem sobretudo do belo sexo, não só protegendo as meninas contra o atroz costume que muitas vezes as imolavam por seus pais; mas, além disso, protegendo as mulheres contra os parentes de seus maridos, que as herdavam como coisas materiais, protegendo-as contra os maus-tratos dos homens. Restringiu a poligamia, não permitindo aos crentes senão quatro mulheres legítimas, em vez de dez, como era uso, principalmente em Medina. Sem ter emancipado inteiramente os escravos, foi bom e útil para eles de várias maneiras. Para os pobres, não só recomendou sempre a beneficência para com eles, mas estabeleceu formalmente um imposto em seu favor e lhes concedeu uma parte especial no espólio e no tributo. Proibindo o jogo, o vinho e todas as bebidas inebriantes, preveniu muitos vícios, muitos excessos, muitas querelas e muitas desordens. “Embora não consideremos Maomé como um verdadeiro profeta, porque, para propagar sua religião empregou meios violentos e impuros; porque ele próprio foi muito fraco para se submeter à lei comum; e porque se dizia o selo dos profetas, declarando que Deus sempre podia substituir o que ele havia dado por algo de melhor, teve, não obstante, o mérito de ter feito penetrar as mais belas doutrinas do Antigo e do Novo Testamento num povo que não era esclarecido por nenhum raio da fé; nessa qualidade deve parecer, mesmo a olhos não maometanos, como um enviado de Deus.” Como complemento deste estudo, citaremos algumas passagens textuais do Alcorão, tomadas da tradução de Savary: Em nome de Deus clemente e misericordioso. – Louvor a Deus, soberano dos mundos. – A misericórdia é a sua partilha. – Ele é o rei no dia do juízo. – Nós te adoramos, Senhor, e imploramos a tua assistência. – Dirige-nos na senda da salvação – na senda dos que cumulastes com os teus benefícios; – dos que não mereceram a tua cólera e se preservaram do erro. (Introdução, Surata I). Ó mortais, adorai o Senhor que vos criou, vós e vossos pais, a fim de que o temais; que vos deu a terra por leito e o céu por teto; que fez descer a chuva dos céus para produzir todos os frutos de que vos alimentais. Não deis sócio ao Altíssimo; vós o sabeis. (Surata II, v. 19 e 20). Por que não credes em Deus? Estáveis mortos, ele vos deu a vida; ele extinguirá vossos dias e lhes acenderá o facho. Voltareis a ele. – Ele criou para vosso refúgio tudo que há sobre a Terra. Voltando depois seu olhar para o firmamento, formou os sete céus. É ele cuja ciência abarca o Universo. (Surata II, v. 26, 27). O Oriente e o Ocidente pertencem a Deus; para qualquer lugar que se voltem vossos olhos, encontrareis sua face. Ele enche o Universo com a sua imensidade e com a sua ciência. – Ele formou a Terra e os céus. Quer produzir alguma obra? diz: “Seja feita”; e a obra está feita. – Os ignorantes dizem: “Se Deus não nos fala e se não nos fazes ver um milagre, não cremos.” Assim falavam seus pais; seus corações são semelhantes. Fizemos brilhar bastantes prodígios para os que têm fé. (Surata II, v. 109 a 112). Deus não exigirá de cada um de nós senão conforme as suas forças. Cada um terá em seu favor suas boas obras e contra si o mal que houver feito. Senhor, não nos castigues por faltas cometidas por esquecimento. Perdoa nossos pecados; não nos imponhas o fardo que carregaram os nossos pais. Não nos carregues acima de nossas forças . Faze brilhar para os teus servos o perdão e a indulgência. Tem compaixão de nós; és o nosso socorro. Ajuda-nos contra as nações infiéis. (Surata II, v. 286). Ó Deus, rei supremo, dás e tiras à vontade as coroas e o poder. Elevas e rebaixas os humanos à tua vontade; o bem está em tuas mãos: tu és o Todo-Poderoso. – Mudas o dia em noite e a noite em dia. Fazes sair a vida do seio da morte e a morte do seio da vida. Derramas teus tesouros infinitos sobre quem te apraz. (Surata III, v. 25 e 26). Ignorais quantos povos fizemos desaparecer da face da Terra? Nós lhes havíamos dado um império mais estável que o vosso. Mandávamos as nuvens derramar a chuva sobre os seus campos; aí fazíamos correrem os rios. Só os seus crimes causaram a sua ruína. Nós os substituímos por outras nações. (Surata VI, v. 6). É a Deus que deveis o sono da noite e o despertar da manhã. Ele sabe o que fazeis durante o dia. Ele vos deixa realizar o percurso da vida. Reaparecereis diante dele e ele vos mostrará as vossas obras. – Ele domina os seus servos. Ele vos dá como guardas anjos encarregados de terminar vossos dias no momento prescrito. Eles executam cuidadosamente a ordem do céu. – Voltareis em seguida diante do Deus da verdade. Não é a ele que compete julgar? Ele é o mais exato dos juízes. – Quem vos livra das tribulações da terra e dos mares, quando, invocando-o em público ou no íntimo de vossos corações, exclamais: “Senhor, se afastares de nós esses males, nós te seremos reconhecidos?” – É Deus que deles vos livra. É sua bondade que vos alivia da pena que vos oprime; e depois voltais à idolatria. (Surata VI, v. 60 a 64).
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Todos os segredos são desvendados aos seus olhos; é grande o Altíssimo. – Aquele que fala em segredo, aquele que fala em público, o que se envolve nas sombras da noite e o que aparece em pleno dia, lhes são igualmente conhecidos. – É ele quem faz brilhar o raio aos vossos olhos para vos inspirar o temor e a esperança. É ele quem eleva as nuvens carregadas de chuva. – O trovão celebra seus louvores. Os anjos tremem em sua presença. Ele lança o raio e este fere as vítimas marcadas. Os homens rivalizam com Deus, mas ele é o forte e o poderoso. – Ele é a verdadeira invocação. Os que imploram outros deuses não serão atendidos. Assemelham-se ao viajante que, premido pela sede, estende a mão para a água que não pode alcançar. A invocação dos infiéis se perde na noite do erro. (Surata XIII, v. 10 a 15). Jamais digas: “Farei isto amanhã”, sem acrescentar: “Se for da vontade de Deus.” Eleva a ele o teu pensamento, quando tiveres esquecido alguma coisa, e dize: “Talvez ele me esclareça e me faça conhecer a verdade.” (Surata XVIII, v. 23). Se as ondas do mar se transmudassem em tinta para descrever os louvores do Senhor, seriam esgotadas antes de ter celebrado todas as suas maravilhas. Um outro oceano semelhante ainda não bastaria. (Surata XVIII, v. 109). Aquele que busca a verdadeira grandeza a encontra em Deus, fonte de todas as perfeições. Os discursos virtuosos sobem ao seu trono. Ele exalta as boas obras; pune rigorosamente o celerado que trama perfídias. Não, o céu jamais revoga o decreto que ele pronunciou. – Não percorreram a Terra? não viram que ela foi o fim deplorável dos povos que, antes deles, marcharam nos caminhos da iniqüidade? Esses povos eram mais fortes e mais poderosos do que eles. Mas nada nos céus e na Terra pode opor-se às vontades do Altíssimo. A ciência e a força são seus atributos. – Se Deus punisse os homens desde o instante em que se tornam culpados, não restaria sobre a Terra um ser animado. Ele adia os castigos até ao termo marcado. – Quando chegar o tempo, ele distingue a ação de seus servidores. (Surata XXXV, v. 11, 41 a 45). Bastam estas citações para mostrar o profundo sentimento de piedade que animava Maomé e a idéia grande e sublime que fazia de Deus. O Cristianismo poderia reivindicar este quadro. Maomé não ensinou o dogma da fatalidade absoluta, como geralmente se pensa. Esta crença, de que estão imbuídos os muçulmanos, e que paralisa sua iniciativa em muitas circunstâncias, não passa de falsa interpretação e falsa aplicação do princípio da submissão à vontade de Deus, levado além dos limites racionais; não compreendem que esta submissão não exclui o exercício das faculdades humanas, e lhes falta como corretivo a máxima: Ajuda-te, e o céu te ajudará. As passagens seguintes tratam de pontos particulares da doutrina: Deus tem um filho, dizem os cristãos. Longe dele esta blasfêmia! Tudo o que está no céu e na Terra lhe pertencem. Todos os seres obedecem à sua voz. (Surata II, v. 110). Ó vós que recebestes as Escrituras, não ultrapasseis os limites da fé; não digais de Deus senão a verdade. Jesus é filho de Maria, o enviado do Altíssimo e o seu Verbo. Ele o fez descer no seio de Maria; ele é seu sopro. Crede em Deus e em seus apóstolos; mas não digais que há uma trindade em Deus. Ele é uno: esta crença vos será mais segura. Longe de ter um filho, ele governa só o céu e a Terra; ele se basta a si mesmo. – O Messias não corará por ser o servo de Deus, assim como os anjos que cercam o seu trono e lhe obedecem. (Surata IV, v. 169, 170). Os que sustentam a trindade de Deus são blasfemos; não há senão um só Deus. Se não mudarem de crença, um doloroso suplício será o prêmio de sua impiedade. (Surata V, v. 77). Os judeus dizem que Ozaï é filho de Deus. Os cristãos dizem a mesma coisa do Messias. Falam como os infiéis que os precederam. O céu punirá suas blasfêmias. Eles chamam senhores aos seus pontífices, seus monges, e o Messias filho de Maria. Mas lhes é recomendado servir a um só Deus: não há outro. Anátema sobre os que eles associam ao seu culto (Surata IX, v. 30, 31). Deus não tem filhos; não partilha o império com outro Deus. Se assim fosse, cada um deles quereria apropriar-se de sua criação e elevar-se acima de seu rival. Louvor ao Altíssimo. Longe dele essas blasfêmias! (Surata XXII, v. 93). Declara, ó Maomé, o que o céu te revelou. – A assembléia os gênios, tendo escutado a leitura do Alcorão, exclamou: “Eis uma doutrina maravilhosa. – Ela conduz à verdadeira fé e não damos uma igual a Deus. – Glória à sua Majestade suprema! Deus não tem esposa; ele não gerou. (Surata LXXII, v. 1 a 4). Dizei: “Cremos em Deus, no livro que nos enviou, no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e às doze tribos. Cremos na doutrina de Moisés, de Jesus e de seus profetas; não fazemos nenhuma diferença entre eles e somos muçulmanos.” (Surata II, v. 130). Não há senão o Deus vivo e eterno. – Ele te enviou o livro que encerra a verdade, para confirmar a verdade das Escrituras que o precederam. Antes dele, fez descer o Pentateuco e o Evangelho, para servirem de guias aos homens; enviou o Alcorão dos céus. – Os que negarem a doutrina divina só devem esperar suplícios; Deus é poderoso e a vingança está em suas mãos. (Surata III, v. 1, 2, 3). Há os que dizem: “Juramos a Deus não crer em nenhum outro profeta, a menos que a oferenda que ele apresenta seja confirmada pelo fogo do céu.” – Responde-lhes: “Tínheis profetas antes de mim; eles operaram milagres e aquele mesmo de que falais. Por que, então, manchastes as vossas mãos com seu sangue, se dizeis a verdade?” – Se negam a tua missão, trataram do mesmo modo os apóstolos que te precederam, embora fossem dotados do dom dos milagres e tivessem trazido o livro que esclarece (O Evangelho) e o livro dos salmos. (Surata III, v. 179 a 181). Nós te inspiramos, como inspiramos Noé, os profetas, Abraão, Ismael, Isaac, Jacob, as tribos, Jesus, Job, Jonas, Aarão e Salomão. Nós demos os salmos de Davi. (Surata IV, v. 161). Em muitas outras passagens Maomé fala no mesmo sentido e com o mesmo respeito dos profetas, de Jesus e do Evangelho. Mas é evidente que se equivocou quanto ao sentido ligado à Trindade e à qualidade de Filho de Deus, que toma ao pé da letra. Se esse mistério é incompreensível para tantos cristãos, e se entre estes suscitou tantos comentários e controvérsias, não é de admirar que Maomé não o tenha compreendido. Nas três pessoas da Trindade ele viu três deuses e não um só em três pessoas distintas; no filho de Deus ele viu uma procriação. Ora, a idéia que ele fazia do ser supremo era tão grande que a menor paridade entre Deus e um ser qualquer e a idéia de que pudesse partilhar o seu poder lhe parecia uma blasfêmia. Não se tendo Jesus jamais apresentado como Deus e não tendo falado da Trindade, esses dogmas lhe pareceram uma derrogação das próprias palavras do Cristo. Ele viu em Jesus e no Evangelho a confirmação do princípio da unidade de Deus, objetivo que ele mesmo perseguia. Eis por que os tinha em grande estima, ao passo que acusava os cristãos por se terem afastado deste ensinamento, fracionando Deus e deificando o seu Messias. Por isso se diz enviado depois de Jesus, para reconduzir os homens à unidade pura da divindade. Toda a parte dogmática do Alcorão repousa nesse princípio, que ele repete a cada passo. Tendo suas raízes no Antigo e no Novo Testamento, o Islamismo é uma derivação deles. Pode-se considerá-lo como uma das numerosas seitas nascidas das dissidências que surgiram desde a origem do Cristianismo, no que respeita à natureza do Cristo, com a diferença que o Islamismo, formado fora do Cristianismo, sobreviveu à maioria dessas seitas e conta hoje cem milhões de sectários. Maomé vinha combater com todo rigor, na sua própria nação, a crença em vários deuses, para aí restabelecer o culto abandonado do Deus único de Abraão e de Moisés; o anátema que lançou contra os infiéis e os ímpios tinha por objeto, principalmente, a grosseira idolatria professada pelos de sua raça, mas, em contrapartida, também feria os cristãos. Tal a causa do desprezo dos muçulmanos por tudo quanto leva o nome de cristão, malgrado seu respeito por Jesus e pelo Evangelho. Esse desprezo se transformou em ódio sob a influência do fanatismo alimentado e superexcitado por seus sacerdotes. Digamos, também, que, por seu lado, os cristãos não estão isentos de censura e que eles mesmos alimentaram este antagonismo por suas próprias agressões. Conquanto censurasse os cristãos, Maomé não tinha por eles sentimentos hostis e no próprio Alcorão recomenda respeito para com eles, mas o fanatismo os englobou na proscrição geral dos idólatras e dos infiéis, cuja presença não deve macular os santuários do islamismo, razão por que a entrada nas mesquitas, em Meca e nos lugares santos lhes é interdita.23 Deu-se o mesmo em relação aos judeus, e se Maomé os castigou rudemente em Medina, foi por se haverem coligado contra ele. Aliás, em parte alguma no Alcorão se encontra a exterminação dos judeus e dos cristãos instituída como um dever, como geralmente se crê. Seria, pois, injusto imputar-lhe os males causados por um zelo ininteligente e pelos excessos de seus sucessores.
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Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo (2o artigo)
Nós te inspiramos a abraçares a religião de Abraão, que reconhece a unidade de Deus e que só adora a sua majestade suprema. – Emprega a voz da sabedoria e da força da persuasão para chamar os homens a Deus. Combate com as armas da eloqüência. Deus conhece perfeitamente os que estão transviados e os que marcham à luz da fé. (Surata XVI, v. 124, 126). Se te acusam de impostura, responde-lhes: “Tenho por mim as minhas obras; que as vossas falem em vosso favor. Não sereis responsáveis pelo que faço e eu sou inocente pelo que fazeis.” (Surata X, v. 42). Quando se cumprirão tuas ameaças? perguntam os infiéis. Marca-nos um termo, se és verídico. Responde-lhes: “Os tesouros e as vinganças celestes não estão em minhas mãos; só Deus é o seu dispensador. Cada nação tem o seu termo fixado; ela não poderia apressá-lo ou retardá-lo um instante.” (Surata X, v. 49, 50). Se negam a tua doutrina, sabe que os profetas vindos antes de ti sofreram a mesma sorte, embora os milagres, a tradição e o livro que esclarece (o Evangelho) atestassem a verdade de sua missão. (Surata XXXV, v. 23). A cegueira dos infiéis te surpreende e eles riem de teu assombro. – Em vão tu queres instruí-los: seu coração rejeita o ensino. – Se vissem milagres, zombariam; – eles o atribuiriam à magia. (Surata XXXVII, v. 12 a 15). Estas não são ordens de um Deus sanguinário, que ordena o extermínio. Maomé não se faz o executor de sua justiça; seu papel é o de instruir. Só a Deus cabe punir ou recompensar neste mundo e no outro. O último parágrafo parece escrito para os espíritas de nossos dias, tanto são os homens os mesmos, sempre e por toda parte. Fazei a prece, dai esmolas; o bem que fizerdes encontrareis junto a Deus, porque ele vê vossas ações. (Surata II, v. 104). Para ser justificado não basta virar o rosto para o oriente e para o ocidente; também é preciso crer em Deus, no juízo final, nos anjos, no Alcorão, nos profetas. É preciso pelo amor de Deus socorrer o próximo, os órfãos, os pobres, os viajantes, os cativos e os que demandam. É preciso fazer a prece, guardar sua promessa, suportar pacientemente a adversidade e os males da guerra. Tais os deveres dos verdadeiros crentes. (Surata II, v. 172). Uma palavra honesta e o perdão das ofensas são preferíveis à esmola que resultasse da injustiça. Deus é rico e clemente. (Surata II, v. 265). Se vosso devedor tem dificuldade em vos pagar, concedei-lhe tempo; ou, se quiserdes fazer melhor, perdoai-lhe a dívida. Se soubésseis! (Surata II, v. 280). A vingança deve ser proporcional à injúria; mas o homem generoso que perdoa tem sua recompensa assegurada junto a Deus, que odeia a violência. (Surata XLII, v. 38). Combatei vossos inimigos na guerra empreendida pela religião, mas não ataqueis primeiro; Deus odeia os agressores. (Surata II, v. 186). Certamente os muçulmanos, os judeus, os cristãos e os sabeístas, que crêem em Deus e no juízo final, e que fizeram o bem, receberão a recompensa de suas mãos; estarão isentos do temor e dos suplícios. (Surata V, v. 73). Não façais violência aos homens por causa de sua fé. A estrada da salvação é bem distinta do caminho do erro. Aquele que abjurar o culto dos ídolos pela religião santa terá agarrado uma coluna inabalável. O senhor sabe e ouve tudo. (Surata II, v. 257). Não disputeis com os judeus e os cristãos senão em termos honestos e moderados. Entre eles confundi os ímpios. Dizei: Nós cremos no livro que nos foi revelado e em vossas escrituras. Nosso Deus e o vosso são apenas um. Somos muçulmanos. (Surata XXIX, v. 45). Os cristãos serão julgados conforme o Evangelho; os que os julgarem de outro modo serão prevaricadores. (Surata V, v. 51). Nós demos o Pentateuco a Moisés. É à sua luz que deve marchar o povo hebreu. Não duvideis de encontrar no céu o guia dos israelitas. (Surta XXXII, v. 23). Se os judeus tivessem a fé e o temor do Senhor, nós apagaríamos os seus pecados; introduzi-los-íamos no jardim das delícias. A observação do Pentateuco, do Evangelho e dos preceitos divinos proporcionar-lhes-ia o gozo de todos os bens. Há entre eles os que marcham no bom caminho, mas em sua maioria são ímpios. (Surata V, v. 70). Dize aos judeus e aos cristãos: “Terminemos nossas diferenças; admitamos apenas um Deus e não lhe demos um igual; que nenhum de nós tenha outro Senhor senão ele.” Se recusarem obedecer, dizei-lhes: “Pelo menos dareis testemunho que, quanto a nós, somos crentes.” (Surata III, v. 57). Eis certas máximas de caridade e de tolerância, que gostaríamos de ver em todos os corações cristãos! Nós te enviamos a um povo, que outros povos precederam, para que lhes ensines as nossas revelações. Eles não crêem nos misericordiosos. Dizei-lhes: “Ele é meu Senhor; não há Deus senão ele. Pus minha confiança em sua bondade. Reaparecerei diante de seu tribunal. (Surata XIII, v. 29). Trouxemos aos homens um livro no qual brilha a ciência que deve esclarecer os fiéis e lhes proporcionar a misericórdia divina. – Esperam eles a realização do Alcorão? No dia em que for cumprido, os que tiverem vivido no esquecimento de suas máximas dirão: “Os ministros do Senhor nos pregavam a verdade. Onde encontraremos agora intercessores? Que esperança teremos de voltar à Terra para nos corrigirmos?” Eles perderam suas almas e suas ilusões desapareceram. (Surata VII, v. 50, 51). A palavra voltar implica a idéia de já ter aparecido, isto é, de ter vivido antes da existência atual. Maomé o exprime claramente quando diz alhures: “Reaparecereis diante dele e ele vos mostrará as vossas obras. Voltareis diante do Deus de verdade.” É o fundo da doutrina da preexistência da alma, ao passo que, segundo a Igreja, a alma é criada ao nascer de cada corpo. A pluralidade das existências terrestres não está indicada no Alcorão de maneira tão explícita quanto no Evangelho; entretanto, a idéia de reviver na Terra entrou no pensamento de Maomé, pois tal seria, segundo ele, o desejo dos culpados de se corrigirem. Assim ele compreendeu que seria útil poder recomeçar uma nova existência. Quando se lhes pergunta: Credes no que Deus enviou do céu? Eles respondem: “Cremos nas escrituras que recebemos.” E repelem o livro verdadeiro, vindo depois, para pôr o selo em seus livros sagrados. Dizei-lhes: “Por que matastes os profetas se tínheis fé?” (Surata II, v. 85). Maomé não é o pai de nenhum de vós. É o enviado de Deus e o selo dos profetas. A ciência de Deus é infinita. (Surata XXXIII, v. 40). Dando-se como o selo dos profetas, Maomé anuncia que é o último, a conclusão, porque disse toda a verdade; depois dele não virão outros. É um artigo de fé entre os muçulmanos. Do ponto de vista puramente religioso, ele caiu no erro de todas as religiões que se julgam inamovíveis, mesmo contra o progresso das ciências; mas para ele era quase uma necessidade, a fim de afirmar a autoridade de sua palavra num povo que lhe havia criado tanta dificuldade para converter à sua fé. Do ponto de vista social era um erro, porque o Alcorão, tanto como legislação civil quanto religiosa, pôs um freio no progresso. Tal a causa que tornou, e ainda tornará por muito tempo, os povos muçulmanos estacionários e refratários às inovações e às reformas que não se acham no Alcorão. É um exemplo do inconveniente que há em confundir o que deve ser distinto. Maomé não levou em conta o progresso humano. É um erro comum a quase todos os reformadores religiosos. Por outro lado, não só era preciso reformar a fé, mas o caráter, os usos, os hábitos sociais de seus povos; era-lhe necessário apoiar suas reformas na autoridade da religião, como o fizeram todos os legisladores dos povos primitivos. A dificuldade era grande, sem dúvida; contudo, ele deixa uma porta aberta à interpretação e às modificações, dizendo que “Deus sempre pode substituir o que deu por algo de melhor.” Não vos é permitido desposar vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs, vossas tias paternas e maternas, vossas sobrinhas, vossas irmãs de leite, as mães de vossas esposas, as meninas confiadas à vossa tutela e filhas de mulheres com as quais tenhais coabitado. Não desposeis, também, as filhas dos vossos filhos que tiverdes gerado, nem duas irmãs. É-vos proibido desposar mulheres casadas, exceto as que caírem em vossas mãos como escravas. (Surata IV, v. 27 e seg.). Estas prescrições podem dar uma idéia da desmoralização destes povos. Para ser obrigado a proibir tais abusos, era preciso que existissem. Esposas do Profeta, ficai no interior de vossas casas. Não vos adorneis faustosamente, como nos dias de idolatria. Fazei a prece e dai esmola. Obedecei a Deus e a seu apóstolo. Ele quer afastar o vício de vossos corações. Sois da família do Profeta e deveis ser puras. – Zeid repudiou a sua esposa. Nós te unimos com ela, para que os fiéis tenham a liberdade de desposar as mulheres de seus filhos adotivos, após o repúdio. O preceito divino deve ter sua execução. – Ó Profeta, a ti é permitido desposar as mulheres que tiveres adotado, as cativas que Deus fez cair em tuas mãos, as filhas de teus tios e de tuas tias que fugiram contigo, e toda mulher fiel que te der seu coração. É um privilégio que nós te concedemos. – Não aumentarás o atual número de tuas esposas; não poderás trocá-las por outras cuja beleza te haja tocado. Mas a convivência com tuas mulheres escravas te é sempre permitida. Deus observa tudo. (Surata XXXIII, v. 37, 49, 52).
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Mês Novembro
Ano 1866
Revista Espírita - Pelo espírito  Maomé  através da codificação de Allan Kardec Maomé e o Islamismo (2o artigo)
É aqui que Maomé realmente desce do pedestal sobre o qual havia subido. Lamenta-se vê-lo cair tão baixo depois de se haver elevado tanto, e fazer Deus intervir para justificar os privilégios que se concedia, para a satisfação de suas paixões. Permitia aos crentes quatro mulheres legítimas, enquanto a si mesmo se permitia treze. O legislador deve ser o primeiro súdito das leis que faz. É uma mancha inapagável, que lançou sobre si e sobre o islamismo. Esforçai-vos por merecer a indulgência do Senhor e a posse do paraíso, cuja extensão iguala os céus e a Terra, morada preparada para os justos – aqueles que dão esmola na prosperidade e na adversidade, e que, senhores dos movimentos de sua cólera, sabem perdoar aos seus semelhantes. Deus ama a beneficência. (Surata III, v. 127, 128). Deus prometeu aos fiéis que houverem praticado a virtude a entrada dos jardins onde os rios correm. Aí habitarão eternamente. As promessas do Senhor são verdadeiras. Que de mais infalível que sua palavra? (Surata IV, v. 121). Eles habitarão eternamente a morada que Deus lhes preparou, os jardins de delícias regados pelos rios, lugares onde reinará a soberana beatitude. (Surata IX, v. 90). Os jardins e as fontes serão a partilha dos que temem o Senhor. Entrarão com a paz e a segurança. – Tiraremos a inveja de seus corações. Repousarão em leitos e terão uns para com os outros uma benevolência fraterna. – A fadiga não se acercará da morada das delícias. Não arrebatarão sua posse. (Surata XV, v. 45 a 48). Os jardins do Éden serão a habitação dos justos. Braceletes de ouro, ornados de pérolas e roupas de seda formarão sua indumentária. – Louvores a Deus, exclamarão eles; ele afastou de nós o sofrimento; ele é misericordioso e compassivo. – Introduziu-nos no palácio eterno, morada de sua magnificência. Nem a fadiga nem a dor se acercam deste asilo. (Surata XXXV, v. 30, 31, 32). Os habitantes do paraíso beberão a longos sorvos na taça da felicidade. – Deitados em leitos de seda, repousarão junto às suas esposas, em sombras deliciosas. – Encontrarão todos os frutos. Todos os seus desejos serão satisfeitos. (Surata XXXVI, v. 55, 56, 57). Os verdadeiros servos de Deus terão um alimento escolhido – frutos delicados e serão servidos com honra. – Os jardins das delícias serão seu asilo. – Cheios de mútua benevolência, repousarão em poltronas. – Oferecer-lhes-ão taças de água pura – límpida e de gosto delicioso – que não lhes obscurecerá a razão nem os embriagará. – Perto deles estarão virgens de olhar recatado, de grandes olhos negros e cuja tez terá a cor dos ovos de avestruz. (Surata XXXVII, v. 39 a 47). Dir-se-á aos crentes que tiverem professado o islamismo: Entrai no jardim das delícias, vós e vossas esposas; abri vossos corações à alegria. – Dar-lhes-ão a beber em taças de ouro. O coração encontrará nessa morada tudo quanto pode desejar, o olho tudo quanto o pode encantar e os prazeres serão eternos. – Eis o paraíso, cuja posse vos proporcionarão vossas obras. – Alimentai-vos dos frutos que ali crescem em abundância. (Surata XLIII, v. 69 a 72). Tal é o famoso paraíso de Maomé, com o qual tanto se divertiram e que, certamente, não procuraremos justificar. Apenas diremos que estava em harmonia com os costumes desses povos e que devia afagá-los muito mais que a perspectiva de um estado puramente espiritual, por mais esplêndido que fosse, porque eram demasiado materiais para o compreender e lhe apreciar o valor. Precisavam de algo mais substancial e pode-se dizer que foram servidos na medida do possível. Sem dúvida se notará que os rios, as fontes, os frutos abundantes e as sombras aí representam grande papel, por faltarem sobretudo aos habitantes do deserto. Os leitos macios e as roupas de seda, para gente habituada a dormir no chão e vestida com grosseiras peles de camelo, também deviam ter grande atrativo. Por mais ridículo que tudo isto nos pareça, pensemos no meio em que vivia Maomé e não o censuremos muito, pois, com o auxílio deste atrativo, ele soube tirar um povo da barbárie e dele fazer uma grande nação. Num próximo artigo examinaremos como o islamismo poderá ligar-se à grande família da humanidade civilizada.
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Ano 1866