Maomé e o Islamismo (2o artigo)
Foi em Medina que Maomé mandou construir a primeira mesquita, na qual trabalhou com as próprias mãos e organizou um culto regular. Aí pregou pela primeira vez em 623. Todas as medidas tomadas por ele testemunhavam a sua solicitude e previdência. Diz o Sr. Barthélemy Saint-Hilaire que “Um traço característico, ao mesmo tempo, do homem e de seu tempo, é a escolha feita por Maomé de três poetas de Medina, oficialmente encarregados de o defender contra as sátiras dos poetas de Meca. Provavelmente, não porque nele o amor fosse mais excitável do que convinha; mas, numa nação espirituosa e viva esses ataques tinham uma repercussão análoga à que podem ter os nossos jornais, atualmente, e eles eram muito perigosos.” Dissemos que Maomé foi constrangido a fazer-se guerreiro. Com efeito, ele absolutamente não era de humor belicoso, como o havia provado nos primeiros cinqüenta anos de sua vida. Ora, mal tinham passados dois anos de sua permanência em Medina e os coraicitas de Meca, coligados com outras tribos hostis, vieram sitiar a cidade. Maomé teve que se defender; desde então começou para ele o período guerreiro, que durou dez anos e durante o qual se mostrou, sobretudo, um tático hábil. Num povo em que a guerra era um estado normal, que só conhecia o direito da força, o chefe da nova religião necessitava do prestígio da vitória para firmar a sua autoridade, mesmo sobre os seus partidários. A persuasão tinha pouco domínio sobre essas populações ignorantes e turbulentas; uma mansuetude em demasia teria sido tomada como fraqueza. Em seu pensamento, o Deus forte não podia manifestar-se senão por um homem forte, e o Cristo, com sua inalterável doçura, teria fracassado nessas regiões. Maomé foi, pois, guerreiro pela força das circunstâncias, muito mais que por seu caráter, e terá sempre o mérito de não ter sido o provocador. Uma vez iniciada a luta, tinha de vencer ou morrer; só com esta condição poderia ser aceito como o enviado de Deus; era preciso que os seus inimigos fossem abatidos para se convencerem da superioridade de seu Deus sobre os ídolos que adoravam. Com exceção de um dos primeiros combates, onde foi ferido, e os muçulmanos derrotados em 625, suas armas foram constantemente vitoriosas, submetendo à sua lei, no espaço de alguns anos, a Arábia inteira. Quando viu sua autoridade consolidada e a idolatria destruída, entrou triunfalmente em Meca, após dez anos de exílio, seguido de quase cem mil peregrinos, aí realizando a célebre peregrinação dita do adeus, cujos ritos os muçulmanos conservaram escrupulosamente. Morreu no mesmo ano, dois meses depois de seu regresso a Medina, no dia 8 de junho de 632, com sessenta e dois anos de idade. Deve-se julgar Maomé pela história autêntica e imparcial, e não conforme as lendas ridículas que a ignorância e o fanatismo espalharam por sua conta ou as descrições feitas pelos que tinham interesse em desacreditá-lo, apresentando-o como um ambicioso sanguinário e cruel. Também não se deve responsabilizá-lo pelos excessos de seus sucessores, que quiseram conquistar o mundo para a fé muçulmana de espada em punho. Sem dúvida houve grandes infâmias no último período de sua vida; ele pode ser censurado por ter abusado, em algumas circunstâncias, do direito de vencedor e de nem sempre ter agido com a moderação necessária. Entretanto, ao lado de alguns atos que a nossa civilização reprova, é preciso dizer, em sua defesa, que muitíssimas vezes ele se mostrou muito mais humano e clemente para com os inimigos do que vingativo e que inúmeras vezes deu provas de verdadeira grandeza de alma. Deve-se reconhecer, também, que mesmo em meio aos seus sucessos e quando havia chegado ao ponto culminante de sua glória, ele se fechou, até o seu último dia, no seu papel de profeta, sem jamais usurpar uma autoridade temporal despótica. Não se fez rei, nem potentado e jamais, em sua vida privada, se manchou por algum ato de fria barbárie ou de baixa cupidez. Sempre viveu simplesmente, sem fausto e sem luxo, mostrando-se bom e benevolente para com todos. Isto é da História. Se nos reportarmos ao tempo e ao meio em que ele vivia; se considerarmos sobretudo as perseguições de que ele e os seus foram alvo, o encarniçamento de seus inimigos e os atos de barbárie que estes cometeram contra os seus partidários, é de admirar que no entusiasmo da vitória por vezes tenha usado de represálias? Deve-se censurá-lo por ter estabelecido a sua religião pelo ferro, num povo bárbaro que o combatia, quando a Bíblia registra, como fatos gloriosos para a fé, carnificinas de tal atrocidade que se é tentado a tomá-las como lendas? Quando, mil anos depois dele, nos países civilizados do Ocidente, cristãos, que tinham por guia a sublime lei do Cristo, atirando-se sobre vítimas pacíficas, sufocavam as heresias nas fogueiras, nas torturas, nos massacres e em ondas de sangue? Se o papel guerreiro de Maomé lhe foi uma necessidade, e se esse papel pode escusá-lo de certos atos políticos, o mesmo não se dá com outros aspectos. Até a idade de cinqüenta anos, e enquanto viveu sua primeira mulher Cadija, quinze anos mais velha que ele, seus costumes foram irreprocháveis; mas desde esse momento suas paixões não conheceram nenhum freio e foi, incontestavelmente, para justificar o abuso que delas fez, que consagrou a poligamia em sua religião. Foi o seu mais grave erro, porque foi a barreira que ergueu entre o islamismo e o mundo civilizado; por isso sua religião não pôde, após doze séculos, transpor os limites de certas raças. É também o lado pelo qual o seu fundador mais se rebaixa aos nossos olhos. Os homens de gênio perdem sempre o seu prestígio quando se deixam dominar pela matéria; ao contrário, crescem tanto mais quanto mais se elevam acima das fraquezas da Humanidade. Entretanto, tais eram os desregramentos dos costumes na época de Maomé, que uma reforma radical era muito difícil em homens habituados a se entregar às suas paixões com uma brutalidade bestial. Pode, pois, dizer-se que, regulamentando a poligamia, ele impôs limites à desordem e conteve abusos bem mais graves; mas nem por isso a poligamia deixará de ser o verme roedor do islamismo, porque é contrária às leis da Natureza. Pela igualdade numérica dos sexos, a própria Natureza traçou os limites das uniões. Permitindo quatro mulheres legítimas, Maomé não pensou que, para que sua lei se tornasse a da universalidade dos homens, seria preciso que o sexo feminino fosse ao menos quatro vezes mais numeroso que o masculino. A despeito de suas imperfeições, o islamismo não deixou de ser um grande benefício para a época em que surgiu e para o país onde nasceu, porque fundou o culto da unidade de Deus sobre as ruínas da idolatria. Era a única religião possível para esses povos bárbaros, aos quais não era preciso pedir grandes sacrifícios às suas idéias e costumes. Era-lhes necessário algo de simples como a Natureza, em meio da qual viviam; a religião cristã tinha muitas sutilezas metafísicas; por isso, todas as tentativas feitas durante cinco séculos para implantá-la nessas regiões, tinham fracassado completamente; o próprio judaísmo, muito argumentador, tinha feito poucos prosélitos entre os árabes embora os judeus propriamente ditos aí fossem bastante numerosos. Superior à sua raça, Maomé tinha compreendido os homens de seu tempo. Para os tirar do aviltamento em que os mantinham grosseiras crenças, rebaixadas a um estúpido fetichismo, deu-lhes uma religião apropriada às suas necessidades e ao seu caráter. Essa religião era a mais simples de todas: “Crença num Deus único, todo-poderoso, eterno, infinito, presente em toda parte, clemente e misericordioso, criador dos céus, dos anjos e da Terra, Pai do homem, sobre o qual vela e o cumula de bens; remunerador e vingador numa outra vida, onde nos espera para nos recompensar ou nos punir conforme os nossos méritos; vendo nossas ações mais secretas e presidindo ao destino inteiro de suas criaturas, que não abandona um só instante, nem neste mundo, nem no outro; a mais humilde submissão e confiança absoluta em sua santa vontade.” Eis os dogmas. Quanto ao culto, consiste na prece, repetida cinco vezes por dia, os jejuns e as mortificações do mês de ramadã, e em certas práticas, das quais diversas tinham um fim higiênico, tais as abluções quotidianas, a abstenção do vinho, dos licores inebriantes, da carne de certos animais, e que os fiéis consideram um caso de consciência observar escrupulosamente. A sexta-feira foi adotada como o dia santo da semana e Meca indicada como o ponto para o qual todo muçulmano deve voltar-se ao orar. O serviço público nas mesquitas consiste em preces em comum, sermões, leitura e explicação do Alcorão. A circuncisão não foi instituída por Maomé, mas por ele conservada; era praticada entre os árabes desde tempos imemoriais. A proibição de reproduzir pela pintura ou pela escultura qualquer ser vivo, homens e animais, foi feita visando destruir a idolatria, e impedir que ela tornasse a crescer. Enfim, a peregrinação a Meca, que todo fiel deve realizar ao menos uma vez na vida, é um ato religioso; mas tinha outro objetivo na época, um objetivo político, o de aproximar, por um laço fraternal, as diversas tribos inimigas, reunindo-as num comum sentimento de piedade, num mesmo lugar consagrado.
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Mês Novembro
Ano 1866