Maomé e o Islamismo (2o artigo)
Do ponto de vista histórico, a religião muçulmana admite o Antigo Testamento por inteiro, até Jesus-Cristo, inclusive, que reconhece como profeta. Segundo Maomé, Moisés e Jesus eram enviados de Deus para ensinar a verdade aos homens; o Evangelho, assim como a lei do Sinai, é a palavra de Deus; mas os cristãos lhe alteraram o sentido. Declara, em termos explícitos, que não traz crenças novas, nem culto novo, mas que vem restabelecer o culto do Deus único professado por Abraão. Só fala com respeito dos patriarcas e dos profetas que o precederam: Moisés, Davi, Isaías, Ezequiel e Jesus-Cristo; do Pentateuco, dos Salmos e do Evangelho. São os livros que precederam e prepararam o Alcorão. Longe de ocultar os empréstimos que lhes faz, disto se vangloria, e a grandeza deles é o fundamento da sua. Pode-se julgar de seus sentimentos e do caráter de suas instruções pelo fragmento seguinte do último discurso que pronunciou em Meca, quando da peregrinação do adeus, pouco antes de sua morte, e conservado na obra de Ibn-Ishâc e de Ibn-Ishâm: “Ó povos! escutai minhas palavras, pois não sei se, no próximo ano, poderei encontrar-me ainda convosco neste lugar. Sede humanos e justos entre vós. Que a vida, a propriedade de cada um sejam invioláveis e sagradas para os outros; que aquele que recebeu um depósito o devolva fielmente àquele que o confiou. Comparecereis diante do Senhor e ele vos pedirá contas de vossas ações. Tratai bem as mulheres; elas são vossas auxiliares e nada podem por si sós. Vós as tomastes como um bem que Deus vos confiou e delas tomastes posse por palavras divinas. “Ó povos! escutai minhas palavras e fixai-as em vossos espíritos. Eu vos revelei tudo; deixo-vos uma lei que vos preservará para sempre do erro, se a ela vos manterdes ligados fielmente; uma lei clara e positiva, o livro de Deus e o exemplo de seu profeta. “Ó povos! escutai minhas palavras e fixai-as em vossos espíritos. Sabei que todo muçulmano é irmão do outro; que todos os muçulmanos são irmãos entre si, que sois todos iguais entre vós e que sois apenas uma família de irmãos. Guardai-vos da injustiça; ninguém deve cometê-la em detrimento de seu irmão: ela ocasionará a vossa perda eterna. “Ó Deus! Dei meu recado e terminei minha missão? – A multidão que o cercava respondeu: ‘Sim, tu a concluíste.’ E Maomé exclamou: Ó Deus, digna-te receber este testemunho!” Eis agora o julgamento de Maomé e da influência de sua doutrina, feito por um de seus historiógrafos, o Sr. G. Weil, em sua obra alemã intitulada: Mohammet der Prophet, às páginas 400 e seguintes: “A doutrina de Deus e dos santos destinos do homem, pregada por Maomé num país que estava entregue à mais brutal idolatria, e que da imortalidade da alma apenas fazia uma idéia, tanto mais nos deve reconciliar com ele, apesar de suas fraquezas e de suas faltas, quanto sua vida particular não podia exercer sobre os seus adeptos nenhuma influência prejudicial. Longe de se dar jamais por modelo, ele queria sempre que o olhassem como um ser privilegiado, a quem Deus permitia pôr-se acima da lei comum. E, de fato, ele foi cada vez mais considerado sob essa luz especial. “Seríamos injustos e cegos se não reconhecêssemos que seu povo lhe deve ainda outra coisa de verdadeiro e de bom. Ele reuniu numa só grande nação, crente fraternalmente em Deus, as inumeráveis tribos árabes, até então inimigas entre si. Em lugar do mais violento arbítrio, do direito da força e da luta individual, ele estabeleceu um direito inquebrantável que, a despeito de suas imperfeições, forma sempre a base de todas as leis do islamismo. Limitou a vingança do sangue que, antes dele, se estendia até os parentes mais afastados e a limitou àquele que os juízes reconhecessem por assassino. Mereceu bem sobretudo do belo sexo, não só protegendo as meninas contra o atroz costume que muitas vezes as imolavam por seus pais; mas, além disso, protegendo as mulheres contra os parentes de seus maridos, que as herdavam como coisas materiais, protegendo-as contra os maus-tratos dos homens. Restringiu a poligamia, não permitindo aos crentes senão quatro mulheres legítimas, em vez de dez, como era uso, principalmente em Medina. Sem ter emancipado inteiramente os escravos, foi bom e útil para eles de várias maneiras. Para os pobres, não só recomendou sempre a beneficência para com eles, mas estabeleceu formalmente um imposto em seu favor e lhes concedeu uma parte especial no espólio e no tributo. Proibindo o jogo, o vinho e todas as bebidas inebriantes, preveniu muitos vícios, muitos excessos, muitas querelas e muitas desordens. “Embora não consideremos Maomé como um verdadeiro profeta, porque, para propagar sua religião empregou meios violentos e impuros; porque ele próprio foi muito fraco para se submeter à lei comum; e porque se dizia o selo dos profetas, declarando que Deus sempre podia substituir o que ele havia dado por algo de melhor, teve, não obstante, o mérito de ter feito penetrar as mais belas doutrinas do Antigo e do Novo Testamento num povo que não era esclarecido por nenhum raio da fé; nessa qualidade deve parecer, mesmo a olhos não maometanos, como um enviado de Deus.” Como complemento deste estudo, citaremos algumas passagens textuais do Alcorão, tomadas da tradução de Savary: Em nome de Deus clemente e misericordioso. – Louvor a Deus, soberano dos mundos. – A misericórdia é a sua partilha. – Ele é o rei no dia do juízo. – Nós te adoramos, Senhor, e imploramos a tua assistência. – Dirige-nos na senda da salvação – na senda dos que cumulastes com os teus benefícios; – dos que não mereceram a tua cólera e se preservaram do erro. (Introdução, Surata I). Ó mortais, adorai o Senhor que vos criou, vós e vossos pais, a fim de que o temais; que vos deu a terra por leito e o céu por teto; que fez descer a chuva dos céus para produzir todos os frutos de que vos alimentais. Não deis sócio ao Altíssimo; vós o sabeis. (Surata II, v. 19 e 20). Por que não credes em Deus? Estáveis mortos, ele vos deu a vida; ele extinguirá vossos dias e lhes acenderá o facho. Voltareis a ele. – Ele criou para vosso refúgio tudo que há sobre a Terra. Voltando depois seu olhar para o firmamento, formou os sete céus. É ele cuja ciência abarca o Universo. (Surata II, v. 26, 27). O Oriente e o Ocidente pertencem a Deus; para qualquer lugar que se voltem vossos olhos, encontrareis sua face. Ele enche o Universo com a sua imensidade e com a sua ciência. – Ele formou a Terra e os céus. Quer produzir alguma obra? diz: “Seja feita”; e a obra está feita. – Os ignorantes dizem: “Se Deus não nos fala e se não nos fazes ver um milagre, não cremos.” Assim falavam seus pais; seus corações são semelhantes. Fizemos brilhar bastantes prodígios para os que têm fé. (Surata II, v. 109 a 112). Deus não exigirá de cada um de nós senão conforme as suas forças. Cada um terá em seu favor suas boas obras e contra si o mal que houver feito. Senhor, não nos castigues por faltas cometidas por esquecimento. Perdoa nossos pecados; não nos imponhas o fardo que carregaram os nossos pais. Não nos carregues acima de nossas forças . Faze brilhar para os teus servos o perdão e a indulgência. Tem compaixão de nós; és o nosso socorro. Ajuda-nos contra as nações infiéis. (Surata II, v. 286). Ó Deus, rei supremo, dás e tiras à vontade as coroas e o poder. Elevas e rebaixas os humanos à tua vontade; o bem está em tuas mãos: tu és o Todo-Poderoso. – Mudas o dia em noite e a noite em dia. Fazes sair a vida do seio da morte e a morte do seio da vida. Derramas teus tesouros infinitos sobre quem te apraz. (Surata III, v. 25 e 26). Ignorais quantos povos fizemos desaparecer da face da Terra? Nós lhes havíamos dado um império mais estável que o vosso. Mandávamos as nuvens derramar a chuva sobre os seus campos; aí fazíamos correrem os rios. Só os seus crimes causaram a sua ruína. Nós os substituímos por outras nações. (Surata VI, v. 6). É a Deus que deveis o sono da noite e o despertar da manhã. Ele sabe o que fazeis durante o dia. Ele vos deixa realizar o percurso da vida. Reaparecereis diante dele e ele vos mostrará as vossas obras. – Ele domina os seus servos. Ele vos dá como guardas anjos encarregados de terminar vossos dias no momento prescrito. Eles executam cuidadosamente a ordem do céu. – Voltareis em seguida diante do Deus da verdade. Não é a ele que compete julgar? Ele é o mais exato dos juízes. – Quem vos livra das tribulações da terra e dos mares, quando, invocando-o em público ou no íntimo de vossos corações, exclamais: “Senhor, se afastares de nós esses males, nós te seremos reconhecidos?” – É Deus que deles vos livra. É sua bondade que vos alivia da pena que vos oprime; e depois voltais à idolatria. (Surata VI, v. 60 a 64).
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Mês Novembro
Ano 1866