Maomé e o Islamismo
A veneração dos árabes pela Caaba e o território que a circundava era tão grande que não tinham ousado aí construir habitações. Essa área tão respeitada, chamada Haram, compreendia todo o vale do Meca, cuja circunferência é de cerca de quinze léguas. A honra de guardar esse templo venerado era muito cobiçada; as tribos a disputavam e o mais das vezes essa atribuição era um direito de conquista. No século quinto, Cossayy, chefe da tribo dos coraicitas, quinto antepassado de Maomé, tendo-se tornado senhor do Haram e tendo sido investido do poder civil e religioso, mandou construir seu palácio ao lado da Caaba, permitindo aos de sua tribo que ali se estabelecessem. Assim foi fundada a cidade de Meca. Parece ter sido ele o primeiro que colocou uma cobertura de madeira na Caaba. A Caaba está hoje na área de uma mesquita, e Meca é uma cidade de aproximadamente quarenta mil habitantes, depois de ter tido, ao que se diz, cem mil. No princípio, a religião dos árabes consistia na adoração de um Deus único, a cujas vontades o homem deve submeter-se completamente. Essa religião, que era a de Abraão, chamava-se Islã e os que a professavam diziam-se muçulmanos, isto é, submissos à vontade de Deus. Mas, pouco a pouco o puro Islã degenerou em grosseira idolatria; cada tribo teve os seus deuses e os seus ídolos, que defendia com exagero pelas armas, para provar a superioridade de seu poder. Muitas vezes estas foram, entre outras, as causas ou o pretexto de guerras longas e encarniçadas. A fé de Abraão, apesar do respeito que conservavam por sua memória, havia desaparecido entre esses povos, ou pelo menos tinha sido de tal modo desfigurada que na realidade não mais existia. A veneração pelos objetos considerados sagrados tinha caído no mais absurdo fetichismo; o culto da matéria tinha substituído o do espírito; atribuía-se um poder sobrenatural aos objetos mais vulgares consagrados pela superstição, a uma imagem, a uma estátua. Tendo o pensamento abandonado o princípio pelo seu símbolo, a piedade não passava de uma série de práticas exteriores minuciosas, das quais a menor infração era encarada como um sacrilégio. Contudo, ainda se encontravam em certas tribos alguns adoradores do Deus único, homens piedosos que praticavam a mais inteira submissão à sua vontade suprema e repeliam o culto dos ídolos; eram chamados Hanyfes. Eram os verdadeiros muçulmanos, os que tinham conservado a fé pura do Islã; mas eram pouco numerosos e sem influência sobre o espírito das massas. Desde muito tempo colônias judias se haviam estabelecido no Hydjaz e tinham conquistado um certo número de prosélitos ao judaísmo, principalmente entre os hanyfes. O Cristianismo também aí teve os seus representantes e propagadores nos primeiros séculos de nossa era, mas nem uma nem outra dessas duas crenças aí produziram raízes profundas e duráveis. A idolatria tinha se tornado a religião dominante; convinha melhor, por sua diversidade, à independência turbulenta e à divisão infinita das tribos, que a praticavam com o mais violento fanatismo. Para triunfar dessa anarquia religiosa e política, era preciso um homem de gênio, capaz de impor-se por sua energia e firmeza, bastante hábil para participar dos costumes e do caráter desses povos, e cuja missão fosse revelada aos seus olhos pelo prestígio de suas qualidades de profeta. Este homem foi Maomé. Maomé nasceu em Meca no dia 27 de agosto de 570 d.C., no ano dito do elefante. Não era, como se crê vulgarmente, um homem obscuro. Ao contrário, pertencia a uma família poderosa e considerada da tribo dos coraicitas, uma das mais importantes da Arábia, e a que então dominava em Meca. Fazem-no descender em linha reta de Ismael, filho de Abraão e de Agar. Seus últimos antepassados, Cossayy, Abd-Menab, Hachim e Abd-el-Moutalib, seu avô, se haviam ilustrado por eminentes qualidades e altas funções que tinham desempenhado. Sua mãe, Amina, era de nobre família coraicita e descendia também de Cossayy. Tendo seu pai Abd-Allah morrido dois meses antes de seu nascimento, ele foi educado com muita ternura por sua mãe, que o deixou órfão com a idade de seis anos; depois por seu avô Abd-el-Moutalib, que se afeiçoou muito a ele e se comprazia muitas vezes em lhe predizer altos destinos, mas que, ele próprio, morreu dois anos depois. Não obstante a posição que tinha ocupado sua família, Maomé passou a infância e a juventude num estado vizinho ao da miséria; sua mãe lhe havia deixado por toda herança um rebanho de carneiros, cinco camelos e uma fiel escrava negra, que o havia cuidado e pela qual ele conservou sempre um vivo apego. Depois da morte de seu avô, foi acolhido pelos tios, cujos rebanhos pastoreou até a idade de vinte anos; acompanhou-os também em suas expedições guerreiras contra outras tribos; mas, sendo de humor suave e pacífico, nelas não tomava parte ativa, sem, contudo, fugir ou temer o perigo, limitando-se a ir apanhar suas flechas. Quando chegou ao apogeu da glória, gostava de lembrar que Moisés e Davi, ambos profetas, tinham sido pastores como ele. Tinha o espírito meditativo e sonhador; seu caráter, de uma solidez e maturidade precoces, aliados a uma extrema retidão, a um perfeito desinteresse e a costumes irrepreensíveis, lhe granjearam tal confiança da parte de seus companheiros que o designavam pelo sobrenome de El-Amin, “o homem seguro, o homem fiel.” E, conquanto jovem e pobre, convocavam-no às assembléias da tribo para os negócios mais importantes. Fazia parte de uma associação formada entre as principais famílias coraicitas, tendo em vista prevenir as desordens da guerra, proteger os fracos e lhes fazer justiça. Vangloriava-se de ter concorrido para isto e, nos últimos anos de sua vida, sempre se via ligado pelo juramento que, neste sentido, havia prestado na mocidade. Dizia que estava pronto a responder ao apelo que lhe fizesse o homem mais obscuro em nome desse juramento, e que não queria, pelos mais belos camelos da Arábia, faltar à fé que jurara. Por esse juramento os associados juravam, diante de uma divindade vingadora, que tomariam a defesa dos oprimidos e se bateriam pela punição dos culpados enquanto houvesse uma gota de água no oceano. Quanto ao físico, Maomé era fortemente constituído e de estatura pouco acima da média; a cabeça muito grande; a fisionomia, marcada de suave gravidade, era agradável sem ser bela e transpirava calma e tranqüilidade. Com a idade de vinte e cinco anos casou-se com sua prima Cadija, rica viúva, no mínimo quinze anos mais velha que ele, cuja confiança havia conquistado pela inteligente probidade que desenvolvera na condução de uma de suas caravanas. Era uma mulher superior. Essa união, que durou vinte e quatro anos e só terminou pela morte de Cadija, aos sessenta e quatro anos, foi constantemente feliz. Maomé tinha, então, quarenta e nove anos e essa perda lhe causou profunda dor. Depois da morte de Cadija seus costumes mudaram. Desposou várias mulheres; teve doze ou treze em casamentos legítimos e, ao morrer, deixou nove viúvas. Incontestavelmente isto foi um erro capital, cujas lamentáveis conseqüências veremos mais tarde. Até os quarenta anos sua vida pacífica nada oferece de extraordinário. Só um fato o tirou um instante da obscuridade; tinha, então, trinta e cinco anos. Os coraicitas resolveram reconstruir a Caaba, que ameaçava desabar. Só com muito trabalho se apaziguaram, pela repartição dos trabalhos, as contendas suscitadas pela rivalidade das famílias que nela queriam participar. Esses conflitos ressurgiram com extrema violência quando se tratou de recolocar a famosa pedra negra. Ninguém queria ceder seu direito, os trabalhos tinham sido interrompidos e de todos os lados corriam às armas. Por proposta do decano concordaram em aceitar a decisão da primeira pessoa que entrasse na sala das deliberações: foi Maomé. Logo que o viram, cada um gritou: “EL-Amin! El-amin! o homem seguro e fiel.” E esperavam o seu julgamento. Por sua presença de espírito resolveu a dificuldade. Tendo lançado o manto no chão, nele pôs a pedra e pediu a quatro dos principais chefes facciosos que o tomassem, cada um por uma ponta, e o levantassem, todos juntos, até à altura que a pedra devia ocupar, isto é, a quatro ou cinco pés acima do solo. Então a tomou e a colocou com suas próprias mãos. Os assistentes se declararam satisfeitos e a paz foi restabelecida. Maomé gostava de passear sozinho nos arredores de Meca e, anualmente, durante os meses sagrados de trégua, retirava-se para o monte Hira, numa gruta estreita, onde se entregava à meditação. Tinha quarenta anos quando, num de seus retiros, teve uma visão durante o sono. O anjo Gabriel lhe apareceu, mostrando-lhe um livro e ordenando que o lesse. Três vezes Maomé resistiu a essa ordem, e só para escapar ao constrangimento exercido sobre ele é que consentiu em o ler. Ao despertar disse ter sentido “que um livro tinha sido escrito em seu coração.” O sentido dessa expressão é evidente; significa que havia tido a inspiração de um livro. Mais tarde, porém, ela foi tomada ao pé da letra, como muitas vezes acontece com as coisas ditas em linguagem figurada.
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Mês Agosto
Ano 1866