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Espíritos
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A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira A Vida Escreve
Sim, a vida escreve em toda parte aquilo que pensamos. O caderno em branco chama-se Tempo. E nós somos autores de todos os capítulos que se desenrolam por fatos vivos, no livro da Eternidade. Aqui, a tragédia assombra. Ali, o drama chora. Além, a comédia ri. Adiante, o poema envela. Anota, desse modo, aquilo que desejas, de vez que a vida expressa tudo quanto queremos. Contadora divina, soma os atos, subtrai influências, multiplica valores, divide compromissos e dá-nos a equação de tudo quanto é hoje, a fim de que saibamos o que seja Destino, para nós, amanhã. Hilário Silva (Uberaba, 2 de fevereiro de 1960) (Médium Waldo Vieira)
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Seção Apresentação
Médium Waldo Vieira
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 1
Rossi e Alves eram diretores de conhecido templo espírita e davam-se muito bem na vida particular. Afinidade profunda. Amizade recíproca. Sempre juntos nas boas obras, integravam-se perfeitamente no programa do bem. Alves, com desapontamento, passou a saber que Rossi, nas três noites da semana sem atividades doutrinárias, era visto penetrando a porta de uma casa evidentemente suspeita, lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados. Persistindo semelhante situação por mais de um mês, Alves, certa noite, informado de que o amigo entrara na casa referida, veio esperá-lo à saída. Dez, onze, meia-noite... Alguns minutos depois de zero hora, Rossi saiu calmo e o amigo abordou-º - Meu caro – advertiu Alves, sisudo _, não posso vê-lo reiteradamente neste lugar. Você é casado, pai de família e, além de tudo, carrega nos ombros a responsabilidade de mentor em nossa Casa. Nada podemos condenar, mas você não ignora que álcool e entorpecentes, aí dentro, andam em bica... Rossi coçou a cabeça num gesto característico e observou: - Não há nada. Estou apenas cumprindo um dever cristão. - Dever cristão? - Sim, a filha de um dos meus melhores amigos está freqüentando este circulo. Jovem inexperiente. Ave desprevenida em furna de lobos. Enganada por lamentável explorador de meninas, acreditou nele... Mas a batalha está quase ganha. Convidei-a a pensar. Há mais de um mês prossegue a luta. Hoje, porém, viu com os próprios olhos o logro de que é vítima. Acredito que amanhã surgirá renovada... E ante os olhos desconfiados do amigo: - Você sabe. É preciso agir, sem rumor, sem escândalo. Quem sabe? Talvez em futuro próximo a invigilante pequena possa encontrar companheiro digno. E ser mãe respeitada. Alves riu-se às pampas, de maneira escarninha, e falou: - Vou ver se é verdade. - Não, não! Não vá! – pediu Rossi, em suplica ansiosa. - Tem medo de ser apanhado em mentira? – disse Alves, com a suspeita no rosto. E sem mais nem menos entrou casa adentro encontrando, num pequeno salão, sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 1
Nome do Capítulo Dever Cristão
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 2
- Uma boa palavra auxilia sempre. Às vezes, supomo-nos sozinhos e proferimos inconveniências. Desajudamos quando podíamos ajudar. É preciso aproveitar oportunidades. Falar é um dom de Deus. Se abrirmos a boca para dizer algo, saibamos dizer o melhor. A pequena assembléia ouvia atenta a palavra de Sálus, o instrutor espiritual que falava pelo médium. - Não adianta repetir frases inúteis. E é sempre falta grave conferir saliência ao mal. Comentemos o bem. Destaquemos o bem. Dentre todos os presentes, Belmiro Arruda, escutava em silêncio. *** Decorridos alguns dias, Arruda, nas funções de pedreiro-chefe, orientava o término da construção de grande recinto. O enorme salão parecia completo. Tudo pronto. Acabamento esmerado. Pintura primorosa. - Experimentemos a acústica – disse o engenheiro superior. E virando-se para Belmiro: - Grite algo. Arruda, recordando a lição, bradou: - Confia em Jesus!... Confia em Jesus!... O som estava admiravelmente distribuído. Os operários continuavam na sua faina, quando triste homem penetra o recinto. Cabeleira revolta. Semblante transtornado. - Quem mandou confiar em Jesus? – perguntou. Alguém aponta Belmiro, para quem ele se dirige, abrindo os braços. - Obrigado, amigo! – exclamou. E mostrando um revólver: - Ia encostar o cano no ouvido, entretanto, escutei seu apelo e sustei o tiro... Queria morrer no terreno baldio da construção, mas sua voz acordou-me... Estou desempregado, há muito tempo, e sou pai de oito filhos... Jesus, sim! Confiarei em Jesus!... Arruda abraçou-o, de olhos úmidos. O caso foi conduzido ao conhecimento do diretor do serviço. E o diretor, visivelmente emocionado, estendeu a mão ao desconhecido e falou: - Venha amanhã. Pode vir trabalhar amanhã.
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 2
Nome do Capítulo O Grito
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 3
Basílio chegara ao rancho, ao pôr do Sol. Comeu calmamente o guisado de palmito que Emerenciana lhe dera a jantar. Saboreou, em seguida, a pamonha bem-feita, e se dispôs a sair. A esposa viajara na véspera, em visita a parentes. O calor abafava. - Meren - disse à doce vovó que arranjava a cozinha -, deixe a casa aberta. Vou até ao curral, mas já volto. E, passo lesto, chegou ao cercado, onde a vacaria procurava descanso, mastigando o repasto. Acariciou o bezerro da Lilinda, que nascera robusto, e melhorou a cama de palha. Dirigiu-se, depois, ao moinho e renovou a provisão de milho para o fubá. Ar parado. A Lua apareceu inteirinha. Basílio visitou, não longe, a casa de Jorge, companheiro do arado, e ambos, felizes da vida, se dirigiram ao mandiocal, espantando os tatus. Dez da noite quando voltou. Emerenciana premia a máquina com o pé e costurava, fitando o pano com atenção pelos óculos fortes. - Boa noite, vó - disse ele, depois de cerrar as janelas. - Durma com Deus, meu filho. Basílio beijou-lhe a mão encarquilhada e lhe enviou um sorriso bom. No quarto, ouviu por alguns instantes as cigarras cantarem, perto, como se quisessem esquecer o vigor da canícula. Não tinha sono. Contudo, no outro dia, bem cedo, o milharal novo esperava por ele, acima do barrocão. Sentia falta da esposa. Ainda assim, como na noite anterior, leria, a sós, o "momento espiritual". Acendeu o candeeiro e sentou-se renteando a cama toda branquinha. Orou por alguns instantes e, logo após, tomou " O Evangelho segundo o Espiritismo" e abriu ao acaso. Surgiu-lhe aos olhos, no capítulo vinte e oito, dedicado à oração, o item 34: "Num perigo iminente." Tratava-se de uma prece para ocasião importante. "Como é isso? Já orei ... " - pensou. E, fechando as páginas, descerrou-as de novo. Queria material para refletir. Entretanto, o livro ofereceu-lhe a mesma passgem. Por que? Intrigado, voltou à consulta. O volume, porém, como se mantido por mãos invisíveis, deu-lhe a mesma resposta. Basílio fez-se grave. Não poderia ser coincidência. Algum benfeitor espiritual, que os seus olhos de carne não conseguiam ver, certamente o prevenia. Recordou um amigo que desencarnara, semanas antes, de um colapso cardíaco. Em rápidos segundos, considerou que a vida é patrimônio de Deus, que Deus a dá e retoma, quando lhe apraz. Agradeceu à Divina Bondade o benefício da consciência tranqüila e, baixando o olhar para a folha, repetiu, solenemente: "Deus Todo-Poderoso e tu, meu anjo guardião, socorrei- me! Se tenho de sucumbir, que a Vontade de Deus se cumpra. Se devo ser salvo, que o restante da minha vida repare o mal que eu haja feito e do qual me arrependo." Depondo o Evangelho sobre a colcha do leito, ergueu-se, pensativo, e abriu novamente a janela, buscando a visão do céu. Debruçou-se para a noite. Estaria, acaso, em momento crucial, que ele mesmo desconhecia? Nisso, porém, ouve leve cicio à retaguarda. Na luz frouxa do candeeiro projeta-se um vulto. - Quem é? - grita ele, aprontando a defensiva. Volta-se inquieto e estaca, lívido. Acordada de chofre ao impacto do livro, colocado na cama, enorme cascavel emergira dos lençóis e, a fitá-lo, ameaçadora, preparava-se para desferir- lhe o golpe certeiro ...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 3
Nome do Capítulo Perigo Eminente
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 4
No Rio de Janeiro, pequeno grupo de companheiros, no culto da assistência, entrou no presídio da Rua Frei Caneca. Distribuição de lembranças e guloseimas. Passando por determinada cela, D. Almira Barbosa ouve a voz de um encarcerado: - Madame, quer arranjar-me um cigarro, por favor? D. Almira volta-se para ele e começa a doutrinar. Diz-se habituada aos serviços da saúde, fala dos prejuízos do fumo, comenta os imperativos da higiene, explana sobre as despesas trazidas pelo hábito de fumar e refere-se ao câncer do pulmão. O preso observa a senhora, calmamente, dos pés à cabeça. Quando termina, replica fleumático: - Ora, madame, quem, neste mundo, está sem algum costume censurável? A senhora é assistente de saúde, eu sou sapateiro. Com certeza, não fuma; entretanto, tem belos sapatos "Luís XV", que lhe prejudicam a saúde. Já pensou nos perigos do salto alto? A senhora me desculpe, mas tanto erro eu com o cigarro reprovável quanto a senhora com o calçado inconveniente.
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 4
Nome do Capítulo Conselho Trocado
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 5
I No grande castelo português do século XVII, José Antônio Maria de Alenquer, jovem senhor feudal, chama os três servidores mais íntimos a conselho. Quer liquidar José Joaquim, o pequeno bastardo, nascido nos últimos tempos da existência do pai viúvo. Manuel Macário, o mordomo, a esposa e a filha ouvem-no, interessados. Ganharão pequena fortuna pela cumplicidade. E José Joaquim, menino de sete anos, que se deslumbra perante a vida, é conduzido pelos quatro a extenso poço lotado de peixes vorazes. E, enquanto a criança fita o bojo das águas, o irmão desapiedado arroja-lhe o corpo frágil no precipício. Leve rumor. Um grito abafado. E depois o silêncio. José Antônio Maria de Alenquer senhoreia enorme herança. E a vida continua ... II 8 de fevereiro de 1957. Telegrama dos jornais: " A criança foi devorada em vida pelas piranhas! Em poucos minutos, dela só restava o esqueleto! Presenciada pelos pais do menor a horripilante cena! A população da pequena cidade de Monte Alegre, no Baixo Amazonas, ainda não se refez do choque emocional causado pela tragédia que envolveu uma criança de sete anos, devorada em vida e em poucos minutos por um cardume de famintas piranhas e, o que é pior, na presença dos pais e de irmã menor, todos horrorizados. O menino Adílson, a vítima, filho do pescador Darlan, era uma criança muito estimada pela sua vivacidade e seu temperamento ameno. No dia em que perdeu a vida, de maneira tão brutal, havia sido mandado pelo pai, em companhia de sua irmã Josefina, de onze anos, numa pequena canoa, a fim de levar um recado a um conhecido, na outra margem do rio Gurupatuba, que corre nos fundos da casa do pescador. Já no meio da travessia, Adílson, a um movimento menos feliz, perdeu o equilíbrio e caiu na água. Incontinenti, o local onde mergulhou o menor tingiu-se de sangue. A infortunada criança caíra exatamente num cardume de vorazes piranhas, que em poucos minutos, ou mesmo segundos, a devoraram. Horrorizados, os pais de Adílson e a irmãzinha do menino assistiram à cena impressionante, sem nada poderem fazer, tal a conhecida rapidez com que age essa espécie de peixe. Refeito da brutalidade da cena e passado o cardume, o pai de Adílson, como um louco, mergulhou nas profundas águas do rio e de lá voltou trazendo, apenas, um esqueleto, quase totalmente descarnado. Essa ocorrência deixou chocados a quantos dela tiveram conhecimento." III A voracidade das piranhas e o assombro da pequena família foram o preço da remissão da falta cometida...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 5
Nome do Capítulo O Preço da Remissão
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 6
O distinto causídico não ocultava a ojeriza que experimentava pela Doutrina Espírita. Fosse onde fosse, se a conversa versasse sobre algum tema de Espiritismo, escorregava deliberadamente para o sarcasmo. “Essa história de Espiritismo só num tratado psiquiátrico”. – dizia irônico -, e destilava pequenas difamações como quem debulhava espigas de brasas. Tão azedo adversário se fizera, que aproveitou largo período de férias, em fazenda silenciosa, para escrever um livro contra os postulados espíritas. Livro-acusação. Livro de ódio. Nos serões caseiros, costumava ler para os amigos esse ou aquele trecho, em que médiuns eram denunciados de maneira cruel. E riam-se, ele e os companheiros, entre um e outro gole de uísque, salpicando a lama esfogueante em forma de letras. O distinto advogado assumia as primeiras responsabilidades para enviar o volume à editora, quando sobreveio o inesperado. Dirigia o carro elegante, nas proximidades de um Grupo escolar, quando atarantado pequeno, a correr desorientado, lhe cai sob as rodas. Um passarinho sob um trator não morreria mais depressa. Tumulto. Autoridades em cena. Ele mesmo, suportando os impropérios do povo, apanha o cadáver minúsculo e, de coração agoniado, busca a residência da vítima. Em sã consciência não é culpado, mas tem o coração alanceado de intensa dor. Chorando copiosamente, entrega o menino morto aos pais em pranto, que o recebem sem a mínima queixa. O pai acaricia os cabelos da criança, em silêncio, e a mãezinha ora em lágrimas. Deseja ser humilhado, acusado, ferido. Isso, decerto, lhe diminuiria a tensão. Encontra ali, porém, apenas resignação e a serenidade. O advogado consulta então a família sobre a instauração do processo de indenização, mas o chefe da família responde firme: - Nada disso. O doutor não teve culpa alguma. Ninguém faria isso por querer... Os desígnios de Deus foram cumpridos... E a mãe do menino enxugando o rosto, acrescenta: - Choramos, como é natural, mas não desejamos indenização alguma. Deus sabe o que faz. O causídico, de olhos vermelhos, considerou: - Então... - Doutor, não se preocupe... Compreendemos perfeitamente que o senhor não tem culpa... O senhor está sofrendo tanto quanto nós... Ore conosco, a fim de acalmar-se. Admirando-lhes a paciência cristã, indagou vacilante: - Que religião professam? - Nós somos espíritas – informou o pai da pequena vítima. O advogado baixou a cabeça e ali permaneceu sensibilizado e prestimoso, até a realização dos funerais. E à noite, em casa, de coração opresso e transformado, fechou-se no quarto e rasgou o livro-libelo que havia escrito.
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 6
Nome do Capítulo O Livro - Libelo
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 7
Tudo fizera para pagar o quinhentos mil cruzeiros... Desesperava-se. Tudo debalde... O desejo de auto-eliminação escaldava-lhe o crânio. Sentia a necessidade de orar... Mas, como? Abnegado amigo dispôs-se a conduzi-lo a determinado templo espírita, a fim de que pudesse recolher algum esclarecimento e consolo. Apreensivo, recebeu a palavra de generoso Mentor, que lhe dizia, em página breve: “- Irmão Avelino. Deus esteja conosco. Não desespere. Simples quarto de hora está revestido de imenso valor e, por vezes, modifica inteiramente o destino. Volte ao lar e ouça Jesus no Evangelho. Somente o Evangelho guarda bastante luz para a solução de nossos problemas.” Terminada a reunião, afastou-se Avelino, sem dar-se por satisfeito. Estava desapontado e desgostoso. Fugiria do mundo. Ninguém lhe evitaria semelhante propósito. Ao retornar a casa, inquieto em suas cogitações, reparou que os faróis do ônibus incidiram sobre a frente de um transportador de carga, a movimentar-se em sentido contrário, e pode ler, nitidamente, no pára-choque: “- Deus viaja conosco.” Sorriu, irônico. “Todo motorista é engraçado” – pensou. Chegando em casa, entrega-lhe a esposa afetuosa carta de um companheiro. Retira-lhe o conteúdo. Começa a leitura e esbarra com a saudação: “- Deus esteja conosco, hoje e sempre”. Deixou a missiva, contrafeito, e falou de si para consigo: “- Sempre filosofia religiosa!...” Ainda assim, enfadado de tudo, notou que a esposa andara lendo o Evangelho, porque um exemplar do Novo Testamento descansava na mesa, a pequena distância. Mais curioso que interessado, abriu o livro, e seus olhos caíram sobre o versículo onze do capítulo treze, na segunda carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios: “- Quanto ao mais, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será convosco.” Abandonou o livro desalentado. Esparramou-se em velha poltrona e ouviu conhecido locutor encerrando o programa naquelas primeiras horas da madrugada: “- Deus esteja conosco.” Desligou o aparelho, sem dizer palavra. Beijou a esposa, então recolhida, com o enternecimento de quem se despede pela última vez. Tornou à copa. Estava decidido. Terminaria tudo. O gargalo de uma garrafa verte a cerveja sobre alta dose de violento corrosivo. Antes, porém, do gesto infeliz, pensa um pouco. Fita, angustiado, a cena familiar que o rodeia... No cimo de grande armário vê, rasgado, o verde papagaio de papel que lhe recorda o filhinho. Guardando a taça entre as mãos, dirige-se ao quarto próximo e inclina-se, quase em pranto, para Ricardo, o garoto que dorme. O leito pressiona, estala de leve e o menino acorda, atarantado. À frente da inesperada visita, atira-se nos braços paternos, fazendo ir ao chão o copo que se estilhaça no piso, ao mesmo tempo em que exclama expansivo: - Papai! Papai! Hoje na aula escrevi sem errar o primeiro ditado da Professora: “Confiemos em Deus!” Avelino, agora chorando e rindo, abraçou o petiz. Deus vencera! Deus, que o cercava por toda parte, ajudá-lo-ia a pagar o quinhentos mil cruzeiros. - Obrigado meu filho! – clamou, feliz, levando o lenço aos olhos. A seguir, descerrando larga janela, contemplou o céu rutilante de estrelas... E tomando de júbilo inconsciente, gritou, espontâneo: - Obrigado, meu Deus! Delirando de alegria, apertou o filhinho com mais ternura e, aliviado, respirou, a longos haustos, como se estivesse encontrado a felicidade pela primeira vez...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 7
Nome do Capítulo Rendição
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 8
Na reunião íntima, o benfeitor espiritual Bittencourt Sampaio falava pelo médium, com propriedade e beleza. Em certo ponto da preleção, dizia, veementemente: - Revelamos os nossos sinais dominantes, nas manifestações pequeninas. Cada um tem reflexos diferentes. O heroísmo na praça pública pode ser mero fruto de circunstâncias especiais. É o cotidiano que nos revela o íntimo, nos gestos mais apagados, nas mínimas ações. A maldade aparece num ato de cólera. A calúnia por vezes se entremostra numa simples palavra. A leviandade vem à baila num vago sorriso. A avareza, em muitas ocasiões, surge num vintém... Nisso, alguém bate á porta cerrada. E o silêncio cai, pesado, no ânimo dos ouvintes... O visitante, não se vendo logo atendido, insiste com mais força. Pancadas violentas: duas, três, cinco vezes... O instrutor desencarnado retoma a palavra e explica: - Estudemos. A pessoa que nos procura talvez seja um modelo de cortesia na vida social; entretanto, pelo seu comportamento atrás da porta, anuncia claramente que um dos seus reflexos mais altos é a impaciência.
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 8
Nome do Capítulo Sinais
A Vida Escreve - Pelo espírito  Hilário Silva  através do médium Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira Capítulo 9
I Amigos espirituais diversos, estávamos a postos. E os companheiros encarnados iam chegando. Seriam discutidos os estatutos para a fundação do lar de crianças, junto a grande organização espírita. Mesa-redonda. Cada qual poderia expender francamente seus pontos de vista. Desabafo. Franqueza. Antes, porém, o cafezinho. E, ao cafezinho, Augusto Franco, conselheiro da casa e dos mais experientes, argumentava: - Se Deus não se compadece da Humanidade, estaremos perdidos. O campo social é manicômio sem portas. Todos brincam de viver. Há por toda parte soberano desprezo ao trabalho, e o vício e a criminalidade vão crescendo. Abusos no cinema. Preguiça delituosa. Todas as bebidas liberadas. Maconha. Máquinas e empregados para todos os misteres. Residências superluxuosas. Festas inoportunas. Há domicílios com bilhares, bar interno, cinema próprio, salões de baile e piscinas, quando temos milhares de companheiros a quem falta o estritamente necessário. Altas rodas passam a noite no pif-paf. Pais e mães abandonam meninos a criaturas mercenárias que, muitas vezes, lhes administram entorpecentes para estarem, durante a noite, mais à vontade. E, em conseqüência, temos a granel quadrilhas juvenis, tragédias passionais, crianças delinqüentes e vagabundos inveterados. E alongou-se a crônica verbal. O ponderado orientador da casa, tantas vezes esteio firme da instituição, registrou com acerto todos os desacertos do mundo. A pequena assembléia ouvia, ouvia... NIsso, porém, o horário avançou além do tempo previsto. - E a nossa reunião? _ perguntou Franco, percebendo que retardara. Os companheiros, todavia, pareciam desenxabidos... Todos monossilábicos. - Creio seja melhor adiar... - disse Cunha, o presidente da casa. E Leivas, o tesoureiro, aderiu, aprovando com a cabeça. - Outro dia...- acrescentou D. Ricardina, a secretária. E todos os demais, à uma, pronunciaram a palavra "depois". Franco, porém, não concordou. Sentia-se culpado e pedia escusas. Exigia. Que o perdoassem pela comprida conversação, mas vivia espantado com os desastres morais. II Não houve outro recurso senão atendê-lo. O prestimoso conselheiro instava com tanta humildade que Felício Cunha buscou a papelada e, como de outras vezes, pronunciou a prece de abertura, rogando a inspiração de Jesus. Foram iniciados os estudos para o lançamento da obra, e, porque todos os amigos gaguejassem, como se estivessem receosos de expor o pensamento, Cunha foi claro. - Augusto - falou, corajoso -, creio que todos nós, sem prévia combinação, preferiríamos o entendimento para outra hora, a fim de não contrariarmos a você mesmo. - Ora essa! Como assim? E Cunha, abrindo um relatório: - Você é o autor da maior parte de nossos planos. Veja bem. Você quer uma casa complexa. Esperamo-la simples. Você quer um monumento. Aspiramos a um lar. Você pede a construção de trinta e dois aposentos. Pretendemos apenas quinze, e olhe lá que vão abrigar muitas crianças. Você solicita um salão de festas. Não queremos qualquer ruído inútil. Você reclama empregados pagos. Não tencionamos remunerar cooperador algum. Você julga que as crianças devem ser mantidas sem trabalho. Consideramos que todas devem estudar e servir, segundo a vocação e a capacidade delas, fazendo-se úteis o mais cedo possível. Você espera um parque de brincar, adornado com uma fonte luminosa. Nós tememos semelhante aquisição, que viria favorecer a irresponsabilidade infantil. Você planeja a compra de noventa globos e dez lustres para luzes elétricas. Estamos satisfeitos com quarenta lâmpadas simples. Você propõe a compra de muitos metros quadrados de ladrilhos brancos e azuis. Não contamos com material dessa espécie, crendo que os ladrilhos singelos nada deixam a desejar. Você indica várias peças de mármore. Escolhemos apenas cimento. Você diz que precisaremos de quarenta colchões de mola. Teremos colchões vulgares. Você especifica um número exagerado de pias e banheiros, tapetes e móveis. Sonhamos uma casa confortável, sem ser suntuosa, simples sem ser miserável, onde as crianças não sejam bibelôs para os nossos caprichos e, sim, nossos próprios filhos. E como suspiramos por nossos filhos libertos dos prejuízos morais que vergastam a Terra, admitimos seja nosso dever não enganar a nós próprios, abraçando a realidade sem os perigos da fantasia, porque realmente, meu caro, o futuro vem aí... Augusto Franco, apanhado de surpresa, mastigou em seco, tossiu, pigarreou e disse desapontado: - É... é ..., de fato vocês têm razão ... E depois de um instante em silêncio, como se estivesse falando para dentro de si: - Meu Deus, é muita coisa sobrando! ... Lima, contudo, o vice-presidente da casa, pediu que fosse adiado o debate geral do assunto, e Cunha, com aquiescência de todos, orou, calmo, encerrando a reunião.
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 9
Nome do Capítulo O Lar das Crianças