Capítulo 7
Tudo fizera para pagar o quinhentos mil cruzeiros... Desesperava-se. Tudo debalde... O desejo de auto-eliminação escaldava-lhe o crânio. Sentia a necessidade de orar... Mas, como? Abnegado amigo dispôs-se a conduzi-lo a determinado templo espírita, a fim de que pudesse recolher algum esclarecimento e consolo. Apreensivo, recebeu a palavra de generoso Mentor, que lhe dizia, em página breve: “- Irmão Avelino. Deus esteja conosco. Não desespere. Simples quarto de hora está revestido de imenso valor e, por vezes, modifica inteiramente o destino. Volte ao lar e ouça Jesus no Evangelho. Somente o Evangelho guarda bastante luz para a solução de nossos problemas.” Terminada a reunião, afastou-se Avelino, sem dar-se por satisfeito. Estava desapontado e desgostoso. Fugiria do mundo. Ninguém lhe evitaria semelhante propósito. Ao retornar a casa, inquieto em suas cogitações, reparou que os faróis do ônibus incidiram sobre a frente de um transportador de carga, a movimentar-se em sentido contrário, e pode ler, nitidamente, no pára-choque: “- Deus viaja conosco.” Sorriu, irônico. “Todo motorista é engraçado” – pensou. Chegando em casa, entrega-lhe a esposa afetuosa carta de um companheiro. Retira-lhe o conteúdo. Começa a leitura e esbarra com a saudação: “- Deus esteja conosco, hoje e sempre”. Deixou a missiva, contrafeito, e falou de si para consigo: “- Sempre filosofia religiosa!...” Ainda assim, enfadado de tudo, notou que a esposa andara lendo o Evangelho, porque um exemplar do Novo Testamento descansava na mesa, a pequena distância. Mais curioso que interessado, abriu o livro, e seus olhos caíram sobre o versículo onze do capítulo treze, na segunda carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios: “- Quanto ao mais, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será convosco.” Abandonou o livro desalentado. Esparramou-se em velha poltrona e ouviu conhecido locutor encerrando o programa naquelas primeiras horas da madrugada: “- Deus esteja conosco.” Desligou o aparelho, sem dizer palavra. Beijou a esposa, então recolhida, com o enternecimento de quem se despede pela última vez. Tornou à copa. Estava decidido. Terminaria tudo. O gargalo de uma garrafa verte a cerveja sobre alta dose de violento corrosivo. Antes, porém, do gesto infeliz, pensa um pouco. Fita, angustiado, a cena familiar que o rodeia... No cimo de grande armário vê, rasgado, o verde papagaio de papel que lhe recorda o filhinho. Guardando a taça entre as mãos, dirige-se ao quarto próximo e inclina-se, quase em pranto, para Ricardo, o garoto que dorme. O leito pressiona, estala de leve e o menino acorda, atarantado. À frente da inesperada visita, atira-se nos braços paternos, fazendo ir ao chão o copo que se estilhaça no piso, ao mesmo tempo em que exclama expansivo: - Papai! Papai! Hoje na aula escrevi sem errar o primeiro ditado da Professora: “Confiemos em Deus!” Avelino, agora chorando e rindo, abraçou o petiz. Deus vencera! Deus, que o cercava por toda parte, ajudá-lo-ia a pagar o quinhentos mil cruzeiros. - Obrigado meu filho! – clamou, feliz, levando o lenço aos olhos. A seguir, descerrando larga janela, contemplou o céu rutilante de estrelas... E tomando de júbilo inconsciente, gritou, espontâneo: - Obrigado, meu Deus! Delirando de alegria, apertou o filhinho com mais ternura e, aliviado, respirou, a longos haustos, como se estivesse encontrado a felicidade pela primeira vez...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 7
Nome do Capítulo Rendição