Capítulo 3
Basílio chegara ao rancho, ao pôr do Sol. Comeu calmamente o guisado de palmito que Emerenciana lhe dera a jantar. Saboreou, em seguida, a pamonha bem-feita, e se dispôs a sair. A esposa viajara na véspera, em visita a parentes. O calor abafava. - Meren - disse à doce vovó que arranjava a cozinha -, deixe a casa aberta. Vou até ao curral, mas já volto. E, passo lesto, chegou ao cercado, onde a vacaria procurava descanso, mastigando o repasto. Acariciou o bezerro da Lilinda, que nascera robusto, e melhorou a cama de palha. Dirigiu-se, depois, ao moinho e renovou a provisão de milho para o fubá. Ar parado. A Lua apareceu inteirinha. Basílio visitou, não longe, a casa de Jorge, companheiro do arado, e ambos, felizes da vida, se dirigiram ao mandiocal, espantando os tatus. Dez da noite quando voltou. Emerenciana premia a máquina com o pé e costurava, fitando o pano com atenção pelos óculos fortes. - Boa noite, vó - disse ele, depois de cerrar as janelas. - Durma com Deus, meu filho. Basílio beijou-lhe a mão encarquilhada e lhe enviou um sorriso bom. No quarto, ouviu por alguns instantes as cigarras cantarem, perto, como se quisessem esquecer o vigor da canícula. Não tinha sono. Contudo, no outro dia, bem cedo, o milharal novo esperava por ele, acima do barrocão. Sentia falta da esposa. Ainda assim, como na noite anterior, leria, a sós, o "momento espiritual". Acendeu o candeeiro e sentou-se renteando a cama toda branquinha. Orou por alguns instantes e, logo após, tomou " O Evangelho segundo o Espiritismo" e abriu ao acaso. Surgiu-lhe aos olhos, no capítulo vinte e oito, dedicado à oração, o item 34: "Num perigo iminente." Tratava-se de uma prece para ocasião importante. "Como é isso? Já orei ... " - pensou. E, fechando as páginas, descerrou-as de novo. Queria material para refletir. Entretanto, o livro ofereceu-lhe a mesma passgem. Por que? Intrigado, voltou à consulta. O volume, porém, como se mantido por mãos invisíveis, deu-lhe a mesma resposta. Basílio fez-se grave. Não poderia ser coincidência. Algum benfeitor espiritual, que os seus olhos de carne não conseguiam ver, certamente o prevenia. Recordou um amigo que desencarnara, semanas antes, de um colapso cardíaco. Em rápidos segundos, considerou que a vida é patrimônio de Deus, que Deus a dá e retoma, quando lhe apraz. Agradeceu à Divina Bondade o benefício da consciência tranqüila e, baixando o olhar para a folha, repetiu, solenemente: "Deus Todo-Poderoso e tu, meu anjo guardião, socorrei- me! Se tenho de sucumbir, que a Vontade de Deus se cumpra. Se devo ser salvo, que o restante da minha vida repare o mal que eu haja feito e do qual me arrependo." Depondo o Evangelho sobre a colcha do leito, ergueu-se, pensativo, e abriu novamente a janela, buscando a visão do céu. Debruçou-se para a noite. Estaria, acaso, em momento crucial, que ele mesmo desconhecia? Nisso, porém, ouve leve cicio à retaguarda. Na luz frouxa do candeeiro projeta-se um vulto. - Quem é? - grita ele, aprontando a defensiva. Volta-se inquieto e estaca, lívido. Acordada de chofre ao impacto do livro, colocado na cama, enorme cascavel emergira dos lençóis e, a fitá-lo, ameaçadora, preparava-se para desferir- lhe o golpe certeiro ...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 3
Nome do Capítulo Perigo Eminente