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Espíritos
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O Evangelho segundo o Espiritismo - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 20
Não escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres. Não mais vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. Certamente falareis a criaturas que não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos, como aos déspotas! Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai! Ó todos vós, homens de boa-fé, conscientes da vossa inferioridade em face dos mundos disseminados pelo Infinito!... lançai-vos em cruzada contra a injustiça e a iniquidade. Ide e proscrevei esse culto do bezerro de ouro, que cada dia mais se alastra. Ide, Deus vos guia! Homens simples e ignorantes, vossas línguas se soltarão e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, que as populações atentas recolherão ditosas as vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz. Que importam as emboscadas que vos armem pelo caminho! Somente lobos caem em armadilhas para lobos, porquanto o pastor saberá defender suas ovelhas das fogueiras imoladoras. Ide, homens, que, grandes diante de Deus, mais ditosos do que Tomé, credes sem fazerdes questão de ver e aceitais os fatos da mediunidade, mesmo quando não tenhais conseguido obtê-los por vós mesmos; ide, o Espírito de Deus vos conduz. Marcha, pois, avante, falange imponente pela tua fé! Diante de ti os grandes batalhões dos incrédulos se dissiparão, como a bruma da manhã aos primeiros raios do sol nascente. “A fé é a virtude que desloca montanhas”, disse Jesus. Todavia, mais pesados do que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios de coragem, para removerdes essa montanha de iniquidades que as futuras gerações só deverão conhecer como lenda, do mesmo modo que vós, que só muito imperfeitamente conheceis os tempos que antecederam a civilização pagã. Sim, em todos os pontos do globo vão produzir-se as subversões morais e filosóficas; aproxima-se a hora em que a luz divina se espargirá sobre os dois mundos. Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena, encontrareis fervor e fé. Ide; estes receberão, com hinos de gratidão e louvores a Deus, a santa consolação que lhes levareis, e baixarão a fronte, rendendo-lhe graças pelas aflições que a Terra lhes destina. Arme-se a vossa falange de decisão e coragem! Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai! Ide e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, vosso caminho e segui a verdade. Pergunta. – Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho? Resposta. – Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de sua lei; os que seguem sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. – Erasto, anjo da guarda do médium. (Paris, 1863.)¹⁹
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Nome do Capítulo Os trabalhadores da última hora
Tema Instruções dos Espíritos
Sub-Tema Missão dos espíritas
Item 4
O Evangelho segundo o Espiritismo - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 21
Desconfiai dos falsos profetas. É útil em todos os tempos essa recomendação, mas, sobretudo, nos momentos de transição em que, como no atual, se elabora uma transformação da Humanidade, porque, então, uma multidão de ambiciosos e intrigantes se arvoram em reformadores e messias. É contra esses impostores que se deve estar em guarda, correndo a todo homem honesto o dever de os desmascarar. Perguntareis, sem dúvida, como reconhecê-los. Aqui tendes o que os assinala: Somente a um hábil general, capaz de o dirigir, se confia o comando de um exército. Julgais que Deus seja menos prudente do que os homens? Ficai certos de que só confia missões importantes aos que Ele sabe capazes de as cumprir, porquanto as grandes missões são fardos pesados que esmagariam o homem carente de forças para carregá-los. Em todas as coisas, o mestre há de sempre saber mais do que o discípulo; para fazer que a Humanidade avance moralmente e intelectualmente, são precisos homens superiores em inteligência e em moralidade. Por isso, para essas missões são sempre escolhidos Espíritos já adiantados, que fizeram suas provas noutras existências, visto que, se não fossem superiores ao meio em que têm de atuar, nula lhes resultaria a ação. Isto posto, haveis de concluir que o verdadeiro missionário de Deus tem de justificar, pela sua superioridade, pelas suas virtudes, pela grandeza, pelo resultado e pela influência moralizadora de suas obras, a missão de que se diz portador. Tirai também esta outra consequência: se, pelo seu caráter, pelas suas virtudes, pela sua inteligência, ele se mostra abaixo do papel com que se apresente, ou da personagem sob cujo nome se coloca, mais não é do que um histrião de baixo estofo, que nem sequer sabe imitar o modelo que escolheu. Outra consideração: os verdadeiros missionários de Deus ignoram-se a si mesmos, em sua maior parte; desempenham a missão a que foram chamados pela força do gênio que possuem, secundado pelo poder oculto que os inspira e dirige a seu mau grado, mas sem desígnio premeditado. Numa palavra: os verdadeiros profetas se revelam por seus atos, são adivinhados, ao passo que os falsos profetas se dão, eles próprios, como enviados de Deus. O primeiro é humilde e modesto; o segundo, orgulhoso e cheio de si, fala com altivez e, como todos os mendazes, parece sempre temeroso de que não lhe deem crédito. Alguns desses impostores têm havido, pretendendo passar por apóstolos do Cristo, outros pelo próprio Cristo, e, para vergonha da Humanidade, hão encontrado pessoas assaz crédulas que lhes creem nas torpezas. Entretanto, uma ponderação bem simples seria bastante a abrir os olhos do mais cego, a de que se o Cristo reencarnasse na Terra, viria com todo o seu poder e todas as suas virtudes, a menos se admitisse, o que fora absurdo, que houvesse degenerado. Ora, do mesmo modo que, se tirardes a Deus um só de seus atributos, já não tereis Deus, se tirardes uma só de suas virtudes ao Cristo, já não mais o tereis. Possuem todas as suas virtudes os que se dão como o Cristo? Essa a questão. Observai-os, perscrutai-lhes as ideias e os atos e reconhecereis que, acima de tudo, lhes faltam as qualidades distintivas do Cristo: a humildade e a caridade, sobejando-lhes as que o Cristo não tinha: a cupidez e o orgulho. Notai, ademais, que neste momento há, em vários países, muitos pretensos Cristos, como há muitos pretensos Elias, muitos João ou Pedro e que não é absolutamente possível sejam verdadeiros todos. Tende como certo que são apenas criaturas que exploram a credulidade dos outros e acham cômodo viver à custa dos que lhes prestam ouvidos. Desconfiai, pois, dos falsos profetas, máxime numa época de renovação, qual a presente, porque muitos impostores se dirão enviados de Deus. Eles procuram satisfazer na Terra à sua vaidade; mas uma terrível justiça os espera, podeis estar certos. – Erasto. (Paris, 1862.)
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Nome do Capítulo Haverá falsos cristos e falsos profetas
Tema Instruções dos Espíritos
Sub-Tema Caracteres do verdadeiro profeta
Item 9
O Evangelho segundo o Espiritismo - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 21
Os falsos profetas não se encontram unicamente entre os encarnados. Há-os também, e em muito maior número, entre os Espíritos orgulhosos que, aparentando amor e caridade, semeiam a desunião e retardam a obra de emancipação da Humanidade, lançando-lhe de través seus sistemas absurdos, depois de terem feito que seus médiuns os aceitem. E, para melhor fascinarem àqueles a quem desejam iludir, para darem mais peso às suas teorias, se apropriam sem escrúpulo de nomes que só com muito respeito os homens pronunciam. São eles que espalham o fermento dos antagonismos entre os grupos, que os impelem a isolarem-se uns dos outros e a olharem-se com prevenção. Isso por si só bastaria para os desmascarar, pois, procedendo assim, são os primeiros a dar o mais formal desmentido às suas pretensões. Cegos, portanto, são os homens que se deixam cair em tão grosseiro embuste. Há, porém, muitos outros meios de serem reconhecidos. Espíritos da categoria em que eles dizem achar-se têm de ser não só muito bons, como também eminentemente racionais. Pois bem: passai-lhes os sistemas pelo crivo da razão e do bom senso e vede o que restará. Convinde, pois, comigo, em que, todas as vezes que um Espírito indica, como remédio aos males da Humanidade ou como meio de conseguir-se a sua transformação, coisas utópicas e impraticáveis, medidas pueris e ridículas; quando formula um sistema que as mais rudimentares noções da Ciência contradizem, não pode ser senão um Espírito ignorante e mentiroso. Por outro lado, crede que, se nem sempre os indivíduos apreciam a verdade, esta é apreciada sempre pelo bom senso das massas, constituindo isso mais um critério. Se dois princípios se contradizem, achareis a medida do valor intrínseco de ambos, verificando qual dos dois encontra mais ecos e simpatias. Fora, com efeito, ilógico admitir-se que uma doutrina cujo número de adeptos diminua progressivamente seja mais verdadeira do que outra que veja o dos seus em contínuo aumento. Querendo que a verdade chegue a todos, Deus não a confina num círculo acanhado: fá-la surgir em diferentes pontos, a fim de que por toda a parte a luz esteja ao lado das trevas. Repeli sem condescendência todos esses Espíritos que se apresentam como conselheiros exclusivos, pregando a separação e o insulamento. São quase sempre Espíritos vaidosos e medíocres, que procuram impor-se a homens fracos e crédulos, prodigalizando-lhes exagerados louvores, a fim de os fascinar e de tê-los dominados. São, geralmente, Espíritos sequiosos de poder e que, déspotas públicos ou nos lares, quando vivos, ainda querem vítimas para tiranizar depois de terem morrido. Em geral, desconfiai das comunicações que trazem um caráter de misticismo e de singularidade, ou que prescrevem cerimônias e atos extravagantes. Há sempre, nesses casos, motivo legítimo de suspeição. Estai certos, igualmente, de que quando uma verdade tem de ser revelada aos homens, é, por assim dizer, comunicada instantaneamente a todos os grupos sérios, que dispõem de médiuns também sérios, e não a tais ou quais, com exclusão dos outros. Nenhum médium é perfeito, se está obsidiado; e há manifesta obsessão quando um médium só é apto a receber comunicações de determinado Espírito, por mais alto que este procure colocar-se. Conseguintemente, todo médium e todo grupo que considerem privilégio seu receber as comunicações que obtêm e que, por outro lado, se submetem a práticas que tendem para a superstição, indubitavelmente se acham presas de uma obsessão bem caracterizada, sobretudo quando o Espírito dominador se pavoneia com um nome que todos, encarnados e desencarnados, devem honrar e respeitar e não permitir seja declinado a todo propósito. É incontestável que, submetendo ao crivo da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos Espíritos, fácil se torna rejeitar a absurdidade e o erro. Pode um médium ser fascinado, e iludido um grupo; mas a verificação severa a que procedam os outros grupos, a ciência adquirida, a alta autoridade moral dos diretores de grupos, as comunicações que os principais médiuns recebam, com um cunho de lógica e de autenticidade dos melhores Espíritos, justiçarão rapidamente esses ditados mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de Espíritos mistificadores ou maus. – Erasto, discípulo de Paulo. (Paris, 1862.) (Veja-se, na Introdução, item II: Controle universal do ensino dos Espíritos. O livro dos médiuns, 2a Parte, cap. XXIII, Da obsessão.)
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Nome do Capítulo Haverá falsos cristos e falsos profetas
Tema Instruções dos Espíritos
Sub-Tema Os falsos profetas da erraticidade
Item 10
O Livro dos Médiuns - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 5
A teoria do fenômeno dos transportes e das manifestações físicas em geral se acha resumida, de maneira notável, na seguinte dissertação feita por um Espírito, cujas comunicações trazem o cunho incontestável de profundeza e lógica. Muitas delas aparecerão no curso desta obra. Ele se dá a conhecer pelo nome de Erasto, discípulo de Paulo, e como protetor do médium que lhe serviu de intérprete: “Para a obtenção de fenômenos desta ordem, é indispensável que se disponha de médiuns a que chamarei sensitivos, isto é, dotados, no mais alto grau, das faculdades mediúnicas de expansão e de penetrabilidade, porque o sistema nervoso facilmente excitável de tais médiuns lhes permite, por meio de certas vibrações, projetar abundantemente, em torno de si, o fluido animalizado que lhes é próprio. “As naturezas impressionáveis, as pessoas cujos nervos vibram à menor impressão, à mais insignificante sensação; as que se deixam sensibilizar pela influência moral ou física, interna ou externa, são muito mais aptas a se tornarem excelentes médiuns para os efeitos físicos de tangibilidade e de transportes. De fato, o sistema nervoso dessas pessoas as torna capazes para a produção destes diversos fenômenos, em razão de não dispor aquele sistema do envoltório refratário que o isola na maioria dos outros encarnados. Em consequência, com um indivíduo de tal natureza e cujas demais faculdades não sejam hostis à mediunidade, facilmente se obterão os fenômenos de tangibilidade, as pancadas nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes e mesmo a suspensão no espaço da mais pesada matéria inerte. Com mais forte razão ainda se obterão os mesmos resultados se, em vez de um médium, pudermos contar com o auxílio de muitos outros, igualmente bem-dotados. “Mas da produção de tais fenômenos à obtenção da variedade de transporte há grande distância, porque, neste caso, não só o trabalho do Espírito é mais complexo, mais difícil, como ele ainda se vê na contingência de operar por meio de um único aparelho mediúnico, já que se torna impossível o concurso simultâneo de vários médiuns para a produção do mesmo fenômeno. Ao contrário, a presença de algumas pessoas antipáticas ao Espírito operador pode entravar radicalmente a sua ação. Além desses motivos que, como se vê, são importantes, deve- se acrescentar o fato de os transportes reclamarem sempre maior concentração e, ao mesmo tempo, maior difusão de certos fluidos, que só podem ser obtidos com médiuns superiormente dotados, com aqueles, em suma, cujo aparelho eletromediúnico ofereça melhores condições. “Em geral, os fenômenos de transporte são e continuarão a ser extremamente raros. Não preciso demonstrar porque eles são e serão menos frequentes do que os outros fatos de tangibilidade; vós mesmos podeis deduzi-lo, com base no que afirmo. Aliás, esses fenômenos são de tal natureza que nem todos os médiuns são capazes de produzi-los; direi mais: nem todos os Espíritos estão aptos a realizá-los. Com efeito, é preciso que exista certa afinidade, certa analogia, certa semelhança entre o Espírito e o médium influenciado, capaz de permitir que a parte expansiva do fluido perispirítico⁸ do encarnado se misture, se una, se combine com o fluido do Espírito que queira fazer um transporte. Esta fusão deve ser tal que a força resultante dela se torne, por assim dizer, una, do mesmo modo que, agindo sobre o carvão, a corrente elétrica produz um só foco, uma só claridade. Por que essa união, essa fusão? — perguntareis. É que, para a produção de tais fenômenos, faz-se necessário que as propriedades essenciais do Espírito motor sejam aumentadas com algumas das propriedades do médium; é que o fluido vital, indispensável à produção de todos os fenômenos mediúnicos, é atributo exclusivo do encarnado e que, por conseguinte, o Espírito operador fica obrigado a se impregnar dele. Só então ele pode, por meio de algumas propriedades do vosso ambiente, desconhecidas para vós, isolar, tornar invisíveis e fazer que se movam alguns objetos materiais e mesmo os encarnados. “Não me é permitido, por enquanto, desvendar-vos as leis particulares que regem os gases e os fluidos que vos cercam, mas, antes que alguns anos tenham decorrido, antes que uma existência de homem se tenha esgotado, a explicação destas leis e destes fenômenos vos será revelada e vereis surgir e produzir-se uma nova variedade de médiuns, que cairão num estado cataléptico especial ao serem mediunizados. “Vedes, assim, de quantas dificuldades está cercada a produção do fenômeno dos transportes. Muito logicamente podeis concluir, tal como eu já havia dito, que os fatos desta natureza são extremamente raros, sobretudo em razão de os Espíritos se prestarem muito pouco a produzi-los, uma vez que isso requer, da parte deles, a execução de um trabalho quase material, que lhes causa aborrecimento e fadiga. Por outro lado, e isto é muito frequente, o estado do próprio médium opõe aos Espíritos uma barreira intransponível, apesar da energia e da vontade que os animam. “É, pois, evidente, e o vosso raciocínio sem dúvida o confirmará, que os fatos de tangibilidade, como pancadas, suspensão e movimentos de objetos, são fenômenos simples, que se operam mediante a concentração e a dilatação de certos fluidos e que podem ser provocados e obtidos pela vontade e pelo trabalho dos médiuns aptos a isso, quando secundados por Espíritos amigos e benevolentes, ao passo que os fatos de transporte são múltiplos, complexos, exigem o concurso de circunstâncias especiais, só podem ser realizados por um único Espírito e um único médium e necessitam, além dos recursos para a produção da tangibilidade, de uma combinação muito especial para isolar e tornar invisíveis o objeto ou os objetos a serem transportados. “Todos vós, espíritas, compreendeis as minhas explicações e entendeis perfeitamente o que seja essa concentração de fluidos especiais, para a locomoção e a tatilidade da matéria inerte. Acreditais nisso, como acreditais nos fenômenos da eletricidade e do magnetismo, com os quais os fatos mediúnicos têm grande analogia e de que são, por assim dizer, a confirmação e o desenvolvimento. Quanto aos incrédulos e aos sábios, estes piores do que aqueles, não me compete convencê-los e com eles não me ocupo. Um dia se deixarão convencer pela força da evidência, pois é preciso que se curvem diante do testemunho unânime dos fatos espíritas, como já se inclinaram diante de outros fatos, que a princípio repeliram. “Resumindo: os fenômenos de tangibilidade são frequentes, mas os fatos de transporte são raríssimos, porque as condições para a produção destes últimos são muito difíceis. Consequentemente, nenhum médium pode dizer que em tal hora ou em tal momento obterá um transporte, porque muitas vezes o próprio Espírito se encontra impedido de fazê-lo. Devo acrescentar que esses fenômenos são duplamente difíceis em público, porque aí quase sempre se encontram elementos energicamente refratários, que paralisam os esforços do Espírito e, com mais forte razão, a ação do médium. Tende, ao contrário, como certo, que esses fenômenos se produzem quase sempre espontaneamente nas reuniões particulares, na maioria das vezes à revelia dos médiuns e sem premeditação, sendo muito mais raros quando esses estão prevenidos. Deveis concluir daí que há motivo legítimo de suspeição todas as vezes que um médium se vangloria de os obter à vontade, ou, por outra, de dar ordens aos Espíritos, como se fossem seus empregados, o que é simplesmente absurdo. Tende ainda como regra geral que os fenômenos espíritas não se produzem para constituir espetáculo, nem para divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a tais coisas, só pode ser para a produção de fenômenos simples, não para os que, como os de transporte e outros semelhantes, exigem condições excepcionais. “Lembrai-vos, espíritas, de que assim como é absurdo repelir sistematicamente todos os fenômenos de além-túmulo, também não é prudente aceitá-los todos, cegamente. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição, de visibilidade ou de transporte se manifesta espontaneamente e de modo instantâneo, aceitai-o. Porém, nunca será demasiado repetir: não aceiteis coisa alguma às cegas; submetei cada fato a um exame minucioso, aprofundado e severo, pois o Espiritismo, tão rico em fenômenos sublimes e grandiosos, nada tem a ganhar com essas pequenas manifestações, que prestidigitadores hábeis podem imitar. “Direis, certamente, que esses fenômenos são úteis para convencer os incrédulos. Mas ficai sabendo, se não dispusésseis de outros meios de convicção, não contaríeis hoje a centésima parte dos espíritas que existem. Falai ao coração: por aí é que fareis maior número de conversões sérias. Se, para certas pessoas, julgardes conveniente a utilização de fatos materiais, ao menos os apresentai de tal maneira que não possam dar motivo a nenhuma interpretação falsa e, sobretudo, não vos afasteis das condições normais dos mesmos fatos, porque, apresentados em más condições, eles fornecem argumentos aos incrédulos, em vez de convencê-los.” ERASTO
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Manifestações físicas espontâneas
Tema Fenômeno de transporte
Item 98
O Livro dos Médiuns - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 20
A seguinte instrução sobre o assunto nos foi dada por um Espírito de quem temos inserido muitas comunicações: “Como já dissemos, os médiuns exercem influência meramente secundária nas comunicações dos Espíritos, se levarmos em conta somente a faculdade mediúnica em si mesma. O papel deles é o de uma máquina elétrica que transmite telegramas entre dois pontos afastados da Terra. Assim, quando queremos ditar uma comunicação, agimos sobre o médium como o telegrafista age sobre o aparelho, isto é, do mesmo modo que o tique-taque do telégrafo vai traçando, a milhares de léguas, sobre uma tira de papel, os sinais reprodutores do telegrama, nós também transmitimos, por meio do aparelho mediúnico, através das distâncias incomensuráveis que separam o mundo visível do mundo invisível, o mundo imaterial do mundo carnal, aquilo que queremos vos ensinar. Mas assim como as influências atmosféricas perturbam, não raras vezes, as transmissões do telégrafo elétrico, também a influência moral do médium pode perturbar a transmissão das nossas mensagens de além-túmulo, já que somos obrigados a fazê-las passar por um meio que lhes é contrário. Entretanto, na maioria das vezes essa influência é anulada pela nossa energia e pela nossa vontade, de modo que nenhum ato perturbador se manifesta. Com efeito, ditados de elevado alcance filosófico e comunicações de perfeita moralidade são transmitidos algumas vezes por médiuns pouco apropriados a esses ensinos superiores. Em contrapartida, comunicações pouco edificantes chegam algumas vezes por médiuns que se envergonham de lhes haverem servido de condutores. “De maneira geral, pode-se afirmar que os Espíritos atraem Espíritos que lhes são similares, e que raramente os Espíritos das plêiades elevadas se comunicam por aparelhos maus condutores, quando têm à mão bons aparelhos mediúnicos, isto é, quando dispõem de bons medianeiros. “Os médiuns levianos e pouco sérios atraem, pois, Espíritos da mesma natureza. É por isso que suas comunicações se mostram cheias de banalidades, frivolidades, ideias truncadas e, não raro, pouco ortodoxas, espiriticamente falando. Certamente eles podem dizer, e à s vezes dizem, coisas aproveitáveis, mas é principalmente nesse caso que se deve submetê-los a um exame severo e escrupuloso, porque, no meio de coisas aproveitáveis, alguns Espíritos hipócritas insinuam, com habilidade e calculada perfídia, fatos de pura invenção, asserções mentirosas, a fim de iludir a boa-fé dos que lhes dispensam atenção. Deve-se então eliminar sem piedade toda palavra, toda frase equívoca e só conservar do ditado o que a lógica possa aceitar, ou o que a Doutrina já ensinou. As comunicações desta natureza só são de temer para os espíritas que trabalham isolados, para os grupos novos ou pouco esclarecidos, visto que, nas reuniões em que os adeptos estão mais adiantados e já adquiriram experiência, a gralha perde o seu tempo a se adornar com as penas do pavão: acaba sempre desmascarada. “Não falarei dos médiuns que se comprazem em solicitar e receber comunicações obscenas. Deixemos que se deleitem na companhia dos Espíritos cínicos. Aliás, a natureza das comunicações desta ordem exige, por si mesma, a solidão e o isolamento; em todo o caso, não despertarão senão desprezo e repugnância entre os membros dos grupos filosóficos e sérios. Onde, porém, a influência moral do médium se faz realmente sentir é quando ele substitui, pelas ideias que lhe são pessoais, aquelas que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir, e também quando tira da sua imaginação teorias fantásticas que, de boa-fé, julga resultarem de uma comunicação intuitiva. Nesse caso, haverá mil possibilidades contra uma de que isso não passa de reflexo do próprio Espírito do médium. Dá-se mesmo o fato curioso de mover-se a mão do médium, quase mecanicamente às vezes, impelida por um Espírito secundário e zombeteiro. É contra essa pedra de toque que se vêm quebrar as imaginações ardentes, porque, arrebatados pelo ardor de suas próprias ideias, pelo brilho artificial de seus conhecimentos literários, os médiuns desconhecem o ditado modesto de um Espírito criterioso e, abandonando a presa pela sombra, o substituem por uma paráfrase empolada. Contra este escolho terrível vêm chocar-se, igualmente, as personalidades ambiciosas que, em falta das comunicações que os Espíritos bons lhes recusam, apresentam as suas próprias obras como desses Espíritos. Daí a necessidade de os dirigentes dos grupos espíritas serem dotados de fino tato e de rara sagacidade, para discernir as comunicações autênticas das que não o são, e para não ferir os que se iludem a si mesmos. “Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos velhos provérbios. Não admitais, portanto, senão o que seja para vós de inegável evidência. Quando aparecer uma ideia nova, por menos duvidosa que vos pareça, fazei-a passar pelo crivo da razão e da lógica e rejeitai corajosamente o que a razão e o bom senso reprovarem. É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea. Efetivamente, sobre essa teoria poderíeis edificar um sistema completo, que desabaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento edificado sobre areia movediça, ao passo que, se rejeitardes hoje algumas verdades, porque não vos são demonstradas clara e logicamente, mais tarde um fato brutal ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade. “Lembrai-vos, no entanto, ó espíritas! de que nada é impossível para Deus e para os Espíritos bons, a não ser a injustiça e a iniquidade. “O Espiritismo já está bastante espalhado entre os homens, e já moralizou suficientemente os adeptos sinceros da sua santa doutrina, para que os Espíritos ainda se vejam constrangidos a usar de maus instrumentos, de médiuns imperfeitos. Portanto, se agora um médium, seja ele quem for, se tornar objeto de legítima suspeição, em virtude do seu proceder, dos seus costumes, do seu orgulho e da sua falta de amor e de caridade, repeli, repeli suas comunicações, porque aí estará uma serpente oculta entre as ervas. Eis a conclusão a que chego sobre a influência moral dos médiuns.” ERASTO
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Influência moral do médium
Tema Dissertação de um Espírito sobre a influência moral do médium⁵⁰
Item 230
O Livro dos Médiuns - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 31
Repeli impiedosamente todos esses Espíritos que exigem que seus conselhos sejam aceitos com exclusividade, pregando a divisão e o isolamento. São quase sempre Espíritos vaidosos e medíocres, que procuram impor-se a homens fracos e crédulos, prodigalizando-lhes louvores exagerados, a fim de os fascinar e manter sob o seu domínio. São geralmente Espíritos famintos de poder que, déspotas públicos ou privados, quando vivos, ainda querem tiranizar outras vítimas, depois de mortos. Em geral, desconfiai das comunicações que trazem caráter de misticismo e de estranheza ou que prescrevam cerimônias e atos extravagantes. Sempre haverá, nesses casos, legítimo motivo de suspeição. Por outro lado, crede que, quando uma verdade tenha de ser revelada aos homens, ela é comunicada, por assim dizer, instantaneamente, a todos os grupos sérios, que disponham de médiuns sérios, e não a este ou àquele em particular, com exclusão dos demais. Ninguém pode ser médium perfeito se estiver obsidiado, e há obsessão manifesta quando um médium só se mostra apto a receber comunicações de determinado Espírito, por maior que seja a altura em que este procure colocar-se. Por conseguinte, todo médium e todo grupo que julguem ter o privilégio de comunicações que só eles podem receber e que, por outro lado, se entreguem a práticas de natureza supersticiosa, encontram-se inegavelmente sob o império de uma das obsessões mais bem caracterizadas, sobretudo quando o Espírito dominador se enfeita com um nome que todos, Espíritos e encarnados, devemos honrar e respeitar e não deixar que seja profanado sob qualquer pretexto. É incontestável que, submetendo ao crivo da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos Espíritos, será fácil repelir-se o absurdo e o erro. Um médium pode ser fascinado e um grupo mistificado, mas o controle severo de outros grupos, o conhecimento adquirido, a elevada autoridade moral dos dirigentes de grupos e as comunicações dos principais médiuns, marcadas pela lógica e pela autenticidade dos melhores Espíritos, farão justiça rapidamente a esses ditados mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de Espíritos enganadores e malignos. ERASTO (DISCÍPULO DE PAULO) OBSERVAÇÃO – Uma das características distintivas desses Espíritos, que procuram impor-se e fazer que sejam aceitas suas ideias extravagantes e sistemáticas, é a pretensão — bom seria que eles fossem os únicos dessa opinião — de ter razão contra todo o mundo. A tática deles consiste em evitar a discussão e ,quando se veem vitoriosamente combatidos com as armas irresistíveis da lógica, negam-se desdenhosamente a responder e ordenam a seus médiuns que se afastem dos centros onde suas ideias não são aceitas. Nada é mais fatal para os médiuns do que esse isolamento, porque, assim, eles sofrem sem defesa o jugo dos Espíritos obsessores que os guiam, como cegos, e os levam frequentemente aos caminhos mais perigosos.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Dissertações espíritas
Tema Sobre as Sociedades Espíritas
Item 27
O Livro dos Médiuns - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 31
Os falsos profetas não se encontram apenas entre os encarnados, mas também, e em número muito maior, entre os Espíritos orgulhosos que, sob falsas aparências de amor e caridade semeiam a desunião e retardam a obra de emancipação da Humanidade, lançando de permeio os seus sistemas absurdos e fazendo que seus médiuns os aceitem. Para melhor fascinarem os que querem enganar, a fim de darem maior peso às suas teorias, eles se apoderam sem o menor escrúpulo de nomes que só com muito respeito os homens pronunciam, como os de santos venerados, os de Jesus, de Maria e mesmo o de Deus. São eles que semeiam o fermento da discórdia entre os grupos, que os impelem a se isolarem uns dos outros e a se olharem com animosidade. Só isto bastaria para os desmascarar, porque, procedendo assim, eles próprios dão o mais formal desmentido ao que pretendem ser. Cegos, pois, são os homens que se deixam apanhar em tão grosseira armadilha. Há, porém, muitos outros meios de serem reconhecidos. Espíritos da ordem a quem esses dizem pertencer devem ser não somente bons, mas, além disso, eminentemente lógicos e racionais. Pois bem! Submetei-lhes os sistemas ao crivo da razão e do bom senso e vereis o que restará. Concordai, pois, comigo: todas as vezes que um Espírito indicar, como remédio aos males da Humanidade, ou como meios de chegar-se à sua transformação, coisas utópicas e impraticáveis, medidas pueris e ridículas; quando formular um sistema que as mais vulgares noções da Ciência contradigam, não pode se tratar senão de um Espírito ignorante e mentiroso. Por outro lado, tende a certeza de que, se a verdade nem sempre é apreciada pelos indivíduos, sempre o é pelo bom senso das massas e esse é também um critério para opinardes. Se dois princípios se contradizem, tereis a medida do seu valor intrínseco procurando saber qual o que produz mais eco e encontra mais simpatia. Seria realmente ilógico que uma doutrina, cujo número de partidários diminua gradualmente, fosse mais verdadeira do que outra, cujos adeptos se vão tornando cada vez mais numerosos. Querendo que a verdade chegue a todos, Deus não a confina em um círculo acanhado e restrito; ao contrário, faz que ela surja em diferentes pontos, a fim de que por toda parte a luz esteja ao lado das trevas. ERASTO OBSERVAÇÃO – A melhor garantia de que um princípio é a expressão da verdade, consiste em ser ensinado e revelado por diferentes Espíritos, com o concurso de médiuns diversos, desconhecidos uns dos outros e em vários lugares e, além disso, em ser confirmado pela razão e sancionado pela adesão do maior número. Só a verdade pode fornecer raízes a uma doutrina. Um sistema errôneo pode, certamente, reunir alguns adeptos, mas como lhe falta a primeira condição de vitalidade, a sua existência será efêmera. Não há, pois, motivo para nos inquietarmos com ele. Seus próprios erros o matam e a sua queda será inevitável diante da poderosa arma da lógica.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Dissertações espíritas
Tema Sobre as Sociedades Espíritas
Item 28
Revista Espírita - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Origem da linguagem
(Sociedade Espírita de Paris – Médium: Sr. d’Ambel) Pedis-me hoje, caros e amados ouvintes, que vos dite ao meu médium a história da origem da linguagem. Esforçar-me-ei por vos satisfazer. Deveis, porém, compreender que me será impossível, nalgumas linhas, tratar inteiramente esta grave questão, à qual se liga, forçosamente, outra ainda mais importante: a da origem das raças humanas. Que Deus Todo-Poderoso, tão benevolente para com os espíritas, conceda-me a lucidez necessária para afastar de minha dissertação a obscuridade, a confusão e, principalmente, todo o erro! Entro na matéria dizendo-vos: Admitamos como princípio esta verdade: que o Criador deu a todos os seres da mesma raça um modo especial, mas seguro, para se entenderem e para se comunicarem entre si. Entretanto, essa linguagem, esse modo de comunicação era tanto mais restrito quanto mais inferiores as espécies. É em virtude desta verdade, desta lei, que os selvagens e as tribos pouco civilizadas possuem línguas tão pobres que uma porção de termos utilizados nas regiões favorecidas pela civilização lá não encontram palavras correspondentes. E é em obediência a essa mesma lei que as nações que progridem criam novas expressões para descobertas e necessidades novas. Como disse alhures, a Humanidade já atravessou três grandes períodos: a fase bárbara, a fase hebraica e pagã e a fase cristã. A esta última sucederá o grande período espírita, cujos fundamentos iniciais lançamos entre vós. Examinemos, pois, a primeira fase e o começo da segunda. Não repetirei senão o que já disse. A primeira fase humana, que poderemos chamar pré-hebraica ou bárbara, arrastou-se lentamente e por tempo prolongado em horrores e convulsões de uma terrível barbárie. Aí o homem é peludo como um animal selvagem e, como as feras, abriga-se em cavernas e nos bosques. Vive de carne crua e se repasta de seu semelhante, qual se fora excelente caça. É o mais absoluto reino da antropofagia. Nada de sociedade, nada de família! Alguns grupos dispersos aqui e ali, vivendo na mais completa promiscuidade e sempre prontos a se entredevorarem: tal é o quadro desse período cruel. Nenhum culto, nenhuma tradição, nenhuma idéia religiosa. Apenas necessidades animais a satisfazer, eis tudo! Prisioneira de uma matéria estupefaciente, a alma fica morna e latente em sua prisão carnal; nada pode contra o invólucro grosseiro que a encerra e sua inteligência apenas se pode mover nos recônditos de um cérebro limitado. O olho é apagado, a pálpebra pesada, o lábio grosso, o crânio achatado e a linguagem se restringe a alguns sons guturais. Nada prenuncia que desse animal bruto sairá o pai das raças hebraicas e pagãs. Todavia, com o tempo eles sentem necessidade de se defenderem contra outros carnívoros, como o leão e o tigre, cujas presas terríveis e garras afiadas venciam facilmente o homem isolado. Entretanto, o reino da matéria e da força bruta se manteve durante toda essa frase cruel. Não procureis no homem dessa época nem sentimentos, nem razão, nem linguagem propriamente dita; ele apenas obedece à sensação grosseira e só tem um objetivo: beber, comer e dormir. Nada além disso. Pode dizer-se que o homem inteligente aí está em germe, mas não existe ainda. Contudo é preciso constatar que, entre as raças brutais, já aparecem alguns seres superiores, Espíritos encarnados com a incumbência de conduzir a Humanidade ao seu objetivo e apressar o advento das eras hebraica e pagã. Devo acrescentar que, além desses Espíritos encarnados, o globo terrestre era visitado freqüentemente por esses ministros de Deus, cuja tradição a memória consagrou sob os nomes de anjos e arcanjos e que, quase todos os dias, estes se punham em contato com os seres superiores, Espíritos encarnados, de que acabo de falar. A missão de alguns desses anjos continuou durante grande parte da segunda fase, ou humanitária. Devo aditar que o quadro que acabo de esboçar, dos primeiros tempos da Humanidade, vos ensina um pouco a que leis rigorosas estão submetidos os Espíritos que ensaiam viver em planetas de formação recente. A linguagem propriamente dita, como a vida social, só começa a ter um caráter certo a partir da era hebraica e pagã, durante a qual o Espírito encarnado, sempre sujeito à matéria, começa a se revoltar e a quebrar alguns elos de sua pesada cadeia. A alma fermenta e se agita em sua prisão carnal; por esforços reiterados reage energicamente contra as paredes do cérebro, cuja matéria sensibiliza; melhora e aperfeiçoa, por um trabalho constante, o jogo de suas faculdades, desenvolvendo, conseqüentemente, os órgãos físicos; enfim o pensamento pode ser lido num olhar límpido e claro. Já estamos longe das frontes achatadas! É que a alma se sente, se reconhece, tem consciência de si mesma e começa a compreender que é independente do corpo. Desde então luta com ardor para se desvencilhar da opressão de sua robusta rival. O homem se modifica cada vez mais e a inteligência se movimenta mais livremente num cérebro mais desenvolvido. Constatamos, todavia, que nessa época o homem ainda é circunscrito e considerado como animal; o homem é escravo do homem. A escravidão é consagrada pelo Deus dos hebreus, tanto quanto pelos deuses pagãos; e Jeová, assim como Júpiter Olímpico, pede sangue e vítimas vivas. Esta segunda fase oferece aspectos curiosos, do ponto de vista filosófico. Já tracei um quadro rápido, que meu médium vos comunicará oportunamente. Seja como for, e para voltar ao tema em estudo, tende certeza de que não foi senão na época dos grandes períodos pastorais e patriarcais que a linguagem humana tomou um aspecto regular e adotou formas e sons especiais. Durante essa época primitiva, em que a Humanidade se libertava das fraldas e do balbuciar da primeira infância, poucas palavras bastavam aos homens, para os quais ainda não tinha nascido a ciência, cujas necessidades eram muito restritas e as relações sociais não ultrapassavam a porta das tendas, o âmbito da família e, mais tarde, os confins das tribos. Era a época em que o pai, o pastor, o ancião, o patriarca, numa palavra, dominava como senhor absoluto, com direito de vida e morte. A língua primitiva era uniforme; porém, à medida que crescia o número de pastores, estes, deixando por sua vez a tenda paterna, foram constituir novas famílias em regiões desabitadas, formando novas tribos. Então a língua por eles usada se modificou gradativamente, de geração em geração, da que era usada na tenda paterna, que outrora haviam abandonado. Assim foram criados os vários idiomas. Aliás, embora não seja minha intenção dar um curso de lingüística, já deveis ter notado que as línguas mais discordantes apresentam palavras cujo radical pouco variou e cujo significado é quase o mesmo. Por outro lado, conquanto tenhais a pretensão de formardes um velho mundo, a mesma razão, que corrompeu a língua primitiva, ainda reina soberana em vossa França tão orgulhosa de sua civilização, onde vedes as concordâncias, os termos e a significação variarem, já não direi de província em província, mas de comuna em comuna. Apelo aos que percorreram a Bretanha, como aos que viajaram à Provença e ao Languedoc. É uma variedade de idiomas e de dialetos que espanta a quem os quisesse coligir num único dicionário. Uma vez que os homens primitivos, ajudados pelos missionários do Eterno, emprestaram a certos sons especiais outras tantas idéias especiais, foi criada a língua falada; as modificações que mais tarde ela sofreu o foram sempre em razão do progresso humano. Por conseguinte, conforme a riqueza da língua, pode estabelecer-se facilmente o grau de civilização a que chegou o povo que a fala. O que posso acrescentar é que a Humanidade marcha para uma língua única, conseqüência forçada de uma comunhão de idéias morais, políticas e, sobretudo, religiosas. Tal será a obra da filosofia nova – o Espiritismo – que hoje ensinamos. Erasto
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Mês Novembro
Ano 1862
Revista Espírita - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec Os fatos realizados
(Sociedade Espírita de Paris, 26 de dezembro de 1862 – Médium: Sr. d’Ambel) Nota – Esta comunicação foi dada a propósito de um relatório feito à Sociedade sobre as novas sociedades espíritas que se formam em toda parte, na França e no estrangeiro. Hoje o progresso se manifesta de maneira brilhante na crença e nas doutrinas regeneradoras que trazemos ao vosso mundo, para que, doravante, seja necessário constatá-lo. Cego é quem não vê a marcha triunfante de nossas idéias! Quando homens eminentes, oriundos das mais liberais funções, gente de ciência, de estudo, médicos, filósofos, jurisconsultos se lançam resolutamente à busca da verdade nas novas vias abertas pelo Espiritismo; quando a classe militante aí vem buscar consolações e novas forças, quem pois, entre os humanos, se julgaria bastante forte para opor uma barreira ao desenvolvimento desta nova ciência filosófica? Ultimamente dizia Lamennais, nesse estilo conciso e eloqüente a que vos habituastes, que o futuro estava no Espiritismo. Hoje tenho o direito de exclamar: Não está aí um fato realizado? Com efeito, a estrada torna-se larga; o regato de ontem se transforma em rio e, a partir dos vales transpostos, seu curso majestoso sorrirá das frágeis eclusas e das tardias barricadas que alguns ribeirinhos atrasados tentarão estabelecer, a fim de entravar a sua marcha para o grande oceano do infinito. Pobre gente! em breve a corrente vos arrastará e logo vos ouviremos gritar, também vós: “É verdade! a Terra gira!” Se as ondas de sangue derramado nas Américas não chamassem a atenção de todos os pensadores sérios e de todos os amigos da paz, cujo coração sangra ao relato dessas lutas sangrentas e fratricidas; se as nações mal estabelecidas não buscassem em toda a região encontrar a sua base normal; enfim, se as aspirações de todos não tendessem para o melhoramento material e moral, há tanto tempo perseguido, poder-se-ia negar a utilidade dos cataclismos morais, anunciados por alguns Espíritos iniciadores. Mas todos esses sinais característicos são muito aparentes para que não se reconheça a necessidade, a urgência de um novo farol, que ainda possa salvar o mundo em perigo. Antigamente, quando o mundo pagão, minado pela mais completa desmoralização, vacilava em sua base, de todos os lados vozes proféticas anunciavam a próxima vinda de um redentor. Desde alguns anos não tendes ouvido, ó espíritas, as mesmas vozes proféticas? Ah! bem o sei: nenhum dentre vós o esqueceu. Pois bem! tende por certo que o tempo é chegado; e, como outrora na Judéia, gritemos juntos: “Glória a Deus no mais alto dos céus!” Erasto
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Mês Julho
Ano 1863
Revista Espírita - Pelo espírito  Erasto  através da codificação de Allan Kardec A guerra surda
(Paris, 14 de agosto de 1863) “A luta vos espera, meus caros filhos; eis por que convido a todos a imitar os antigos lutadores, isto é, a cingir os rins. Os anos que vão seguir estão plenos de promessas, mas, também, de ansiedades. Não venho dizer: Amanhã será o dia da batalha! não, porque a hora do combate ainda não está fixada; mas venho vos advertir, a fim de que estejais prontos para qualquer eventualidade. Até agora o Espiritismo só encontrou uma rota fácil e quase florida, porque as injúrias e as zombarias que vos dirigem não têm nenhum alcance sério e ficaram sem efeito, ao passo que, doravante, os ataques que forem dirigidos contra vós terão um caráter totalmente diverso: eis que é chegada a hora em que Deus vai fazer apelo a todos os devotamentos, em que vai julgar seus servidores fiéis, para dar a cada um a parte que tiver merecido. Não vos martirizarão corporalmente, como nos primeiros tempos da Igreja; não erguerão fogueiras homicidas, como na Idade Média, mas vos torturarão moralmente; armarão ciladas, armadilhas tanto mais perigosas quanto usarão mãos amigas; agirão na sombra; recebereis golpes, sem que saibais de onde partem, e sereis feridos em pleno peito pelas setas envenenadas da calúnia. Nada faltará às vossas dores; suscitarão defecções em vossas fileiras e os pretensos espíritas, perdidos pelo orgulho e pela vaidade, se prevalecerão de sua independência, exclamando: “Somos nós que estamos no reto caminho!”, a fim de que os vossos adversários natos possam dizer: “Vede como são unidos!” Tentarão semear o joio entre os grupos, provocando a formação de grupos dissidentes; cooptarão os vossos médiuns para fazê-los entrar no mau caminho ou para os desviar dos grupos sérios; empregarão a intimidação para uns, a captação para os outros; explorarão todas as fraquezas. Depois, não esqueçais que alguns viram no Espiritismo um papel a desempenhar, e um papel de primazia, que hoje experimentam mais de uma desilusão em sua ambição. Prometer-lhes-ão de um lado o que não puderem achar no outro. Depois, enfim, com dinheiro, tão poderoso em vosso século atrasado, não poderão encontrar comparsas para representar indignas comédias, visando a lançar o descrédito e o ridículo sobre a doutrina? “Eis as provas que vos esperam, meus filhos, mas das quais saireis vitoriosos, se implorardes, do âmago do coração, o socorro do Todo-Poderoso. Eis por que eu vo-lo repito, de toda a minha alma: meus filhos, cerrai fileiras, permanecei alertas, porque é o vosso Gólgota que se ergue; e se nele não fordes crucificados em carne e osso, sê-lo-eis nos vossos interesses, nas vossas afeições, na vossa honra! “A hora é grave e solene; para trás, então, todas as mesquinhas discussões, todas as preocupações pueris, todas as questões ociosas e todas as vãs pretensões de preeminência e de amor-próprio; ocupai-vos dos grandes interesses que estão em vossas mãos e cujas contas o Senhor vos pedirá. Uni-vos para que o inimigo encontre vossas fileiras compactas e cerradas; tendes uma contra-senha sem equívoco, pedra de toque com o auxílio da qual podeis reconhecer os verdadeiros irmãos, pois esta fórmula implica abnegação e devotamento e resume todos os deveres do verdadeiro espírita. “Coragem e perseverança, meus filhos! pensai que Deus vos olha e vos julga; lembrai-vos também de que os vossos guias espirituais não vos abandonarão enquanto vos acharem no caminho certo. Aliás, toda esta guerra só terá um tempo e se voltará contra os que julgavam criar armas contra a doutrina. O triunfo, e não mais o holocausto sangrento, irradiará do Gólgota espírita. “Até logo, meus filhos; saúde a todos. Erasto, discípulo de São Paulo, apóstolo.” Uma das manobras previstas na comunicação acima, ao que nos informam, acaba de se realizar. Escrevem-nos que uma jovem, que tinha sido levada uma única vez a uma reunião, deixou a família sem motivo e retirou-se para a casa de uma pessoa estranha, de onde foi conduzida para um hospício de alienados, como acometida de loucura espírita, à revelia de seus pais, que só foram informados depois que a coisa estava feita. Ao cabo de vinte dias, tendo estes obtido autorização para ir vê-la, censuraram-na por os haver deixado. Então ela confessou que lhe haviam prometido dinheiro para simular a loucura. Até este momento foram infrutíferas as diligências para fazê-la sair. Se é assim que recrutam os loucos espíritas, o meio é mais perigoso para os que o empregam do que para o Espiritismo. Reduzir-se a semelhantes expedientes para defender a própria causa é fornecer a mais evidente prova de que se está exausto de boas razões. Diremos, pois, aos espíritas: Quando virdes semelhantes coisas, rejubilai-vos, em vez de vos inquietar, pois sinalizam um triunfo próximo. Aliás, uma outra circunstância vos deve ser motivo de encorajamento: é que nossas fileiras aumentam, não só em número, mas, também, em força moral; já vedes mais de um homem de talento tomar resolutamente a defesa do Espiritismo e, com mão vigorosa, levantar a luva atirada por nossos adversários. Escritos de lógica irresistível diariamente lhes mostram que nem todos os espíritas são loucos. Nossos leitores conhecem a excelente refutação dos sermões do reverendo padre Letierce, por um espírita de Metz. Eis agora a não menos interessante, dos espíritas de Villenave de Rions (Gironde), sobre os sermões do padre Nicomède. O Vérité de Lyon é conhecido por seus profundos artigos; o número de 22 de novembro, sobretudo, merece especial atenção. A Ruche de Bordeaux se enriquece de novos colaboradores, tão capazes quão zelosos. Enfim, se os agressores são numerosos, os defensores não o são menos. Assim, pois, espíritas, coragem, confiança e perseverança, porque tudo vai bem, conforme foi previsto. A comunicação a seguir desenvolve uma das fases da grave questão de que acabamos de tratar e não pode deixar de prevenir os espíritas sobre as dificuldades que vão acumular-se neste período.
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Mês Dezembro
Ano 1863