Capítulo 5
A teoria do fenômeno dos transportes e das manifestações físicas em geral se acha resumida, de maneira notável, na seguinte dissertação feita por um Espírito, cujas comunicações trazem o cunho incontestável de profundeza e lógica. Muitas delas aparecerão no curso desta obra. Ele se dá a conhecer pelo nome de Erasto, discípulo de Paulo, e como protetor do médium que lhe serviu de intérprete: “Para a obtenção de fenômenos desta ordem, é indispensável que se disponha de médiuns a que chamarei sensitivos, isto é, dotados, no mais alto grau, das faculdades mediúnicas de expansão e de penetrabilidade, porque o sistema nervoso facilmente excitável de tais médiuns lhes permite, por meio de certas vibrações, projetar abundantemente, em torno de si, o fluido animalizado que lhes é próprio. “As naturezas impressionáveis, as pessoas cujos nervos vibram à menor impressão, à mais insignificante sensação; as que se deixam sensibilizar pela influência moral ou física, interna ou externa, são muito mais aptas a se tornarem excelentes médiuns para os efeitos físicos de tangibilidade e de transportes. De fato, o sistema nervoso dessas pessoas as torna capazes para a produção destes diversos fenômenos, em razão de não dispor aquele sistema do envoltório refratário que o isola na maioria dos outros encarnados. Em consequência, com um indivíduo de tal natureza e cujas demais faculdades não sejam hostis à mediunidade, facilmente se obterão os fenômenos de tangibilidade, as pancadas nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes e mesmo a suspensão no espaço da mais pesada matéria inerte. Com mais forte razão ainda se obterão os mesmos resultados se, em vez de um médium, pudermos contar com o auxílio de muitos outros, igualmente bem-dotados. “Mas da produção de tais fenômenos à obtenção da variedade de transporte há grande distância, porque, neste caso, não só o trabalho do Espírito é mais complexo, mais difícil, como ele ainda se vê na contingência de operar por meio de um único aparelho mediúnico, já que se torna impossível o concurso simultâneo de vários médiuns para a produção do mesmo fenômeno. Ao contrário, a presença de algumas pessoas antipáticas ao Espírito operador pode entravar radicalmente a sua ação. Além desses motivos que, como se vê, são importantes, deve- se acrescentar o fato de os transportes reclamarem sempre maior concentração e, ao mesmo tempo, maior difusão de certos fluidos, que só podem ser obtidos com médiuns superiormente dotados, com aqueles, em suma, cujo aparelho eletromediúnico ofereça melhores condições. “Em geral, os fenômenos de transporte são e continuarão a ser extremamente raros. Não preciso demonstrar porque eles são e serão menos frequentes do que os outros fatos de tangibilidade; vós mesmos podeis deduzi-lo, com base no que afirmo. Aliás, esses fenômenos são de tal natureza que nem todos os médiuns são capazes de produzi-los; direi mais: nem todos os Espíritos estão aptos a realizá-los. Com efeito, é preciso que exista certa afinidade, certa analogia, certa semelhança entre o Espírito e o médium influenciado, capaz de permitir que a parte expansiva do fluido perispirítico⁸ do encarnado se misture, se una, se combine com o fluido do Espírito que queira fazer um transporte. Esta fusão deve ser tal que a força resultante dela se torne, por assim dizer, una, do mesmo modo que, agindo sobre o carvão, a corrente elétrica produz um só foco, uma só claridade. Por que essa união, essa fusão? — perguntareis. É que, para a produção de tais fenômenos, faz-se necessário que as propriedades essenciais do Espírito motor sejam aumentadas com algumas das propriedades do médium; é que o fluido vital, indispensável à produção de todos os fenômenos mediúnicos, é atributo exclusivo do encarnado e que, por conseguinte, o Espírito operador fica obrigado a se impregnar dele. Só então ele pode, por meio de algumas propriedades do vosso ambiente, desconhecidas para vós, isolar, tornar invisíveis e fazer que se movam alguns objetos materiais e mesmo os encarnados. “Não me é permitido, por enquanto, desvendar-vos as leis particulares que regem os gases e os fluidos que vos cercam, mas, antes que alguns anos tenham decorrido, antes que uma existência de homem se tenha esgotado, a explicação destas leis e destes fenômenos vos será revelada e vereis surgir e produzir-se uma nova variedade de médiuns, que cairão num estado cataléptico especial ao serem mediunizados. “Vedes, assim, de quantas dificuldades está cercada a produção do fenômeno dos transportes. Muito logicamente podeis concluir, tal como eu já havia dito, que os fatos desta natureza são extremamente raros, sobretudo em razão de os Espíritos se prestarem muito pouco a produzi-los, uma vez que isso requer, da parte deles, a execução de um trabalho quase material, que lhes causa aborrecimento e fadiga. Por outro lado, e isto é muito frequente, o estado do próprio médium opõe aos Espíritos uma barreira intransponível, apesar da energia e da vontade que os animam. “É, pois, evidente, e o vosso raciocínio sem dúvida o confirmará, que os fatos de tangibilidade, como pancadas, suspensão e movimentos de objetos, são fenômenos simples, que se operam mediante a concentração e a dilatação de certos fluidos e que podem ser provocados e obtidos pela vontade e pelo trabalho dos médiuns aptos a isso, quando secundados por Espíritos amigos e benevolentes, ao passo que os fatos de transporte são múltiplos, complexos, exigem o concurso de circunstâncias especiais, só podem ser realizados por um único Espírito e um único médium e necessitam, além dos recursos para a produção da tangibilidade, de uma combinação muito especial para isolar e tornar invisíveis o objeto ou os objetos a serem transportados. “Todos vós, espíritas, compreendeis as minhas explicações e entendeis perfeitamente o que seja essa concentração de fluidos especiais, para a locomoção e a tatilidade da matéria inerte. Acreditais nisso, como acreditais nos fenômenos da eletricidade e do magnetismo, com os quais os fatos mediúnicos têm grande analogia e de que são, por assim dizer, a confirmação e o desenvolvimento. Quanto aos incrédulos e aos sábios, estes piores do que aqueles, não me compete convencê-los e com eles não me ocupo. Um dia se deixarão convencer pela força da evidência, pois é preciso que se curvem diante do testemunho unânime dos fatos espíritas, como já se inclinaram diante de outros fatos, que a princípio repeliram. “Resumindo: os fenômenos de tangibilidade são frequentes, mas os fatos de transporte são raríssimos, porque as condições para a produção destes últimos são muito difíceis. Consequentemente, nenhum médium pode dizer que em tal hora ou em tal momento obterá um transporte, porque muitas vezes o próprio Espírito se encontra impedido de fazê-lo. Devo acrescentar que esses fenômenos são duplamente difíceis em público, porque aí quase sempre se encontram elementos energicamente refratários, que paralisam os esforços do Espírito e, com mais forte razão, a ação do médium. Tende, ao contrário, como certo, que esses fenômenos se produzem quase sempre espontaneamente nas reuniões particulares, na maioria das vezes à revelia dos médiuns e sem premeditação, sendo muito mais raros quando esses estão prevenidos. Deveis concluir daí que há motivo legítimo de suspeição todas as vezes que um médium se vangloria de os obter à vontade, ou, por outra, de dar ordens aos Espíritos, como se fossem seus empregados, o que é simplesmente absurdo. Tende ainda como regra geral que os fenômenos espíritas não se produzem para constituir espetáculo, nem para divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a tais coisas, só pode ser para a produção de fenômenos simples, não para os que, como os de transporte e outros semelhantes, exigem condições excepcionais. “Lembrai-vos, espíritas, de que assim como é absurdo repelir sistematicamente todos os fenômenos de além-túmulo, também não é prudente aceitá-los todos, cegamente. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição, de visibilidade ou de transporte se manifesta espontaneamente e de modo instantâneo, aceitai-o. Porém, nunca será demasiado repetir: não aceiteis coisa alguma às cegas; submetei cada fato a um exame minucioso, aprofundado e severo, pois o Espiritismo, tão rico em fenômenos sublimes e grandiosos, nada tem a ganhar com essas pequenas manifestações, que prestidigitadores hábeis podem imitar. “Direis, certamente, que esses fenômenos são úteis para convencer os incrédulos. Mas ficai sabendo, se não dispusésseis de outros meios de convicção, não contaríeis hoje a centésima parte dos espíritas que existem. Falai ao coração: por aí é que fareis maior número de conversões sérias. Se, para certas pessoas, julgardes conveniente a utilização de fatos materiais, ao menos os apresentai de tal maneira que não possam dar motivo a nenhuma interpretação falsa e, sobretudo, não vos afasteis das condições normais dos mesmos fatos, porque, apresentados em más condições, eles fornecem argumentos aos incrédulos, em vez de convencê-los.” ERASTO
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Manifestações físicas espontâneas
Tema Fenômeno de transporte
Item 98