A seguinte instrução sobre o assunto nos foi dada por um Espírito de quem temos inserido muitas comunicações:
“Como já dissemos, os médiuns exercem influência meramente secundária nas comunicações dos Espíritos, se levarmos em conta somente a faculdade mediúnica em si mesma. O papel deles é o de uma máquina elétrica que transmite telegramas entre dois pontos afastados da Terra. Assim, quando queremos ditar uma comunicação, agimos sobre o médium como o telegrafista age sobre o aparelho, isto é, do mesmo modo que o tique-taque do telégrafo vai traçando, a milhares de léguas, sobre uma tira de papel, os sinais reprodutores do telegrama, nós também transmitimos, por meio do aparelho mediúnico, através das distâncias incomensuráveis que separam o mundo visível do mundo invisível, o mundo imaterial do mundo carnal, aquilo que queremos vos ensinar. Mas assim como as influências atmosféricas perturbam, não raras vezes, as transmissões do telégrafo elétrico, também a influência moral do médium pode perturbar a transmissão das nossas mensagens de além-túmulo, já que somos obrigados a fazê-las passar por um meio que lhes é contrário. Entretanto, na maioria das vezes essa influência é anulada pela nossa energia e pela nossa vontade, de modo que nenhum ato perturbador se manifesta. Com efeito, ditados de elevado alcance filosófico e comunicações de perfeita moralidade são transmitidos algumas vezes por médiuns pouco apropriados a esses ensinos superiores. Em contrapartida, comunicações pouco edificantes chegam algumas vezes por médiuns que se envergonham de lhes haverem servido de condutores.
“De maneira geral, pode-se afirmar que os Espíritos atraem Espíritos que lhes são similares, e que raramente os Espíritos das plêiades elevadas se comunicam por aparelhos maus condutores, quando têm à mão bons aparelhos mediúnicos, isto é, quando dispõem de bons medianeiros.
“Os médiuns levianos e pouco sérios atraem, pois, Espíritos da mesma natureza. É por isso que suas comunicações se mostram cheias de banalidades, frivolidades, ideias truncadas e, não raro, pouco ortodoxas, espiriticamente falando. Certamente eles podem dizer, e à s vezes dizem, coisas aproveitáveis, mas é principalmente nesse caso que se deve submetê-los a um exame severo e escrupuloso, porque, no meio de coisas aproveitáveis, alguns Espíritos hipócritas insinuam, com habilidade e calculada perfídia, fatos de pura invenção, asserções mentirosas, a fim de iludir a boa-fé dos que lhes dispensam atenção. Deve-se então eliminar sem piedade toda palavra, toda frase equívoca e só conservar do ditado o que a lógica possa aceitar, ou o que a Doutrina já ensinou. As comunicações desta natureza só são de temer para os espíritas que trabalham isolados, para os grupos novos ou pouco esclarecidos, visto que, nas reuniões em que os adeptos estão mais adiantados e já adquiriram experiência, a gralha perde o seu tempo a se adornar com as penas do pavão: acaba sempre desmascarada.
“Não falarei dos médiuns que se comprazem em solicitar e receber comunicações obscenas. Deixemos que se deleitem na companhia dos Espíritos cínicos. Aliás, a natureza das comunicações desta ordem exige, por si mesma, a solidão e o isolamento; em todo o caso, não despertarão senão desprezo e repugnância entre os membros dos grupos filosóficos e sérios. Onde, porém, a influência moral do médium se faz realmente sentir é quando ele substitui, pelas ideias que lhe são pessoais, aquelas que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir, e também quando tira da sua imaginação teorias fantásticas que, de boa-fé, julga resultarem de uma comunicação intuitiva. Nesse caso, haverá mil possibilidades contra uma de que isso não passa de reflexo do próprio Espírito do médium. Dá-se mesmo o fato curioso de mover-se a mão do médium, quase mecanicamente às vezes, impelida por um Espírito secundário e zombeteiro. É contra essa pedra de toque que se vêm quebrar as imaginações ardentes, porque, arrebatados pelo ardor de suas próprias ideias, pelo brilho artificial de seus conhecimentos literários, os médiuns desconhecem o ditado modesto de um Espírito criterioso e, abandonando a presa pela sombra, o substituem por uma paráfrase empolada. Contra este escolho terrível vêm chocar-se, igualmente, as personalidades ambiciosas que, em falta das comunicações que os Espíritos bons lhes recusam, apresentam as suas próprias obras como desses Espíritos. Daí a necessidade de os dirigentes dos grupos espíritas serem dotados de fino tato e de rara sagacidade, para discernir as comunicações autênticas das que não o são, e para não ferir os que se iludem a si mesmos.
“Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos velhos provérbios. Não admitais, portanto, senão o que seja para vós de inegável evidência. Quando aparecer uma ideia nova, por menos duvidosa que vos pareça, fazei-a passar pelo crivo da razão e da lógica e rejeitai corajosamente o que a razão e o bom senso reprovarem. É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea. Efetivamente, sobre essa teoria poderíeis edificar um sistema completo, que desabaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento edificado sobre areia movediça, ao passo que, se rejeitardes hoje algumas verdades, porque não vos são demonstradas clara e logicamente, mais tarde um fato brutal ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade.
“Lembrai-vos, no entanto, ó espíritas! de que nada é impossível para Deus e para os Espíritos bons, a não ser a injustiça e a iniquidade.
“O Espiritismo já está bastante espalhado entre os homens, e já moralizou suficientemente os adeptos sinceros da sua santa doutrina, para que os Espíritos ainda se vejam constrangidos a usar de maus instrumentos, de médiuns imperfeitos. Portanto, se agora um médium, seja ele quem for, se tornar objeto de legítima suspeição, em virtude do seu proceder, dos seus costumes, do seu orgulho e da sua falta de amor e de caridade, repeli, repeli suas comunicações, porque aí estará uma serpente oculta entre as ervas. Eis a conclusão a que chego sobre a influência moral dos médiuns.”
ERASTO