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Espíritos
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Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec Deus na Natureza (Por Camille Flammarion)
Por Camille Flammarion Como se sabe, depois de haver tratado, do ponto de vista da Ciência, a questão da habitabilidade dos mundos, que se liga intimamente ao Espiritismo, o Sr. Flammarion hoje aborda a demonstração de uma outra verdade, incontestavelmente a mais capital, porque é a pedra angular do edifício social, aquela sem a qual o Espiritismo não teria sua razão de ser: A existência de Deus. O título de sua obra – Deus na Natureza – resume toda a sua economia; logo de saída ele diz que não é um livro litúrgico, nem místico, mas filosófico. Do cepticismo de um grande número de sábios, concluiu-se erradamente que, por si mesma, a Ciência era atéia, ou conduzia fatalmente ao ateísmo. É um erro que o Sr. Flammarion se empenha em refutar, demonstrando que se os cientistas não viram Deus em suas pesquisas, foi porque não o quiseram ver. Aliás, estão longe de ser ateus todos os sábios, embora muitas vezes se confunda o cepticismo relativo aos dogmas particulares de tal ou qual culto com o ateísmo. O Sr. Flammarion se dirige especialmente à classe dos filósofos, que abertamente fazem profissão de materialismo. Diz ele: “O homem traz em sua natureza uma necessidade tão imperiosa de se deter numa convicção, particularmente do ponto de vista da existência de um ordenador do mundo e do destino dos seres, que se nenhuma fé o satisfaz, ele sente necessidade de demonstrar a si mesmo que Deus não existe, buscando o repouso de sua alma no ateísmo e na doutrina do nada. Assim, a questão atual que nos apaixona não é mais saber qual a forma do Criador, o caráter da mediação, a influência da graça, nem discutir o valor dos argumentos teológicos: a verdadeira questão é saber se Deus existe ou não existe.” Nesse trabalho o autor procedeu da mesma maneira que na sua Pluralidade dos mundos habitados, colocando-se no próprio terreno de seus adversários. Se tivesse haurido seus argumentos na teologia, no Espiritismo ou em doutrinas espiritualistas quaisquer, teria estabelecido premissas que seriam rejeitadas. É por isso que toma a dos negadores e demonstra, pelos próprios fatos, que se chega a uma conclusão diametralmente oposta; não invoca novos argumentos controvertíveis; não se perde nas nuvens da metafísica, do subjetivo e do objetivo, nas argúcias da dialética; fica no terreno do positivismo; combate os ateus com suas próprias armas. Tomando um a um os seus argumentos, ele os destrói com o auxílio da mesma ciência que invocam. Não se apóia na opinião dos homens; sua autoridade é a Natureza e aí mostra Deus em tudo e por toda parte. “A natureza explicada pela Ciência, diz ele, no-lo mostrou num caráter particular. Ele está lá, visível, como a força íntima de todas as coisas. Nenhuma poesia humana nos pareceu comparável à verdade natural, e o verbo eterno nos falou com mais eloqüência nas mais modestas obras da Natureza, do que o homem nos seus mais pomposos cantos.” Dissemos os motivos que levaram o Sr. Flammarion a colocar-se fora do Espiritismo, e não podemos senão louvá-lo. Se algumas pessoas pensavam que foi por antagonismo pela doutrina, bastaria, para desenganá-los, citar a passagem seguinte: “Poderíamos acrescentar, para fechar o capítulo da personalidade humana, algumas reflexões sobre certos assuntos de estudo ainda misteriosos, mas não insignificantes. O sonambulismo natural, o magnetismo, o Espiritismo oferecem aos experimentadores sérios, que os sabem examinar cientificamente, fatos característicos, que bastariam para demonstrar a insuficiência das teorias materialistas. Confessamos que é triste, para o observador consciencioso, ver o charlatanismo descarado insinuar sua avidez pérfida em causas que deveriam ser respeitadas; é triste constatar que noventa e nove fatos em cem podem ser falsos ou imitados; mas um único fato bem constatado lança por terra todas as negações. Ora, que partido tomam certas doutas personagens diante dos fatos? Simplesmente os negam. “A Ciência não duvida – disse em particular o Sr. Buchner – que todos os casos de pretensa clarividência sejam efeitos de astúcia e de conluio. A lucidez é, por razões naturais, uma impossibilidade. Está nas leis da Natureza que os efeitos dos sentidos sejam reduzidos a certos limites do espaço, que não podem ser transpostos. Ninguém tem a faculdade de adivinhar os pensamentos, nem ver com os olhos fechados o que se passa à sua volta. Estas verdades são baseadas nas leis naturais, que são imutáveis e não comportam exceções.” “Ora, senhor juiz, então conheceis perfeitamente as leis naturais? Homem feliz! Como sucumbis sob o excesso de vossa ciência! Mas, que? Volto duas páginas e eis o que leio: “O sonambulismo é um fenômeno do qual infelizmente não temos senão observações muito inexatas, embora fosse desejável que dele tivéssemos noções precisas, dada a sua importância para a Ciência. Contudo, sem ter dele dados certos (escutai!), pode-se relegar entre as fábulas todos os fatos maravilhosos que se contam dos sonâmbulos. Não é dado a um sonâmbulo escalar paredes, etc. Ah! Senhor, como raciocinais com sabedoria! e como vos teria feito bem, antes de escrever, saber um pouco o que pensais!” Uma apreciação analítica da obra exigiria desenvolvimentos que a falta de espaço nos interdiz e, aliás, seria supérfluo. Bastaria mostrar o ponto de vista em que se colocou o autor para se compreender a sua utilidade. Reconciliar a Ciência com as idéias espiritualistas, é aplainar as vias de sua aliança com o Espiritismo. O autor fala em nome da ciência pura, e não de uma ciência fantasista ou superficial, e o faz com a autoridade que lhe dá seu saber pessoal. Seu livro é um desses que tem lugar marcado nas bibliotecas espíritas, porque é uma monografia de uma das partes constituintes da doutrina, onde o crente encontra para se instruir tanto quanto o incrédulo. Teremos mais de uma vez ocasião de a ele voltar. Allan Kardec
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Mês Setembro
Ano 1867
Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec O Homem Frente à História – Ancianidade da raça humana
Na história da Terra, a Humanidade talvez não passe de um sonho; e quando o nosso velho mundo adormecer nos gelos de seu inverno, a passagem de nossas sombras sobre sua face talvez nele não tenha deixado qualquer lembrança. A Terra possui uma história própria, incomparavelmente mais rica e mais complexa que a do homem. Muito tempo antes do aparecimento de nossa raça, durante séculos e séculos, ela foi seguidamente ocupada por habitantes diversos, por seres primordiais, que estenderam sua dominação sucessiva à sua superfície, e desapareceram com as modificações elementares da física do globo. Num destes últimos períodos, na época terciária, à qual podemos fixar sem medo uma data de várias centenas de milhares de anos, antes de nós, o sítio onde hoje Paris ostenta os seus esplendores era um Mediterrâneo, um golfo do oceano universal, acima do qual apenas se elevaram na França o terreno cretáceo de Troie, Rouen, Tours; o terreno jurássico de Chaumont, Bourges, Niort; o terreno triásico dos Vosges, e o terreno primitivo dos Alpes, do Auvergne e das costas da Bretanha. Mais tarde a configuração mudou. Na época em que ainda viviam o mamute, o urso das cavernas e o rinoceronte de narinas separadas, podia-se ir por terra de Paris a Londres; e talvez esse trajeto fosse efetuado por nossos antepassados daquele tempo, porque havia homens aqui, antes da formação da França geográfica. Sua vida diferia tanto da nossa quanto a dos selvagens de que nos ocupávamos recentemente. Uns tinham construído suas aldeias sobre palafitas, no meio dos grandes lagos; essas cidades lacustres, comparáveis às dos castores, foram descobertas em 1853, quando, em conseqüência de uma longa estiagem, os lagos da Suíça baixaram, pondo a descoberto palafitas, utensílios de pedra, de chifre, de ouro e de argila, vestígios inequívocos da antiga habitação do homem; e essas cidades aquáticas não eram uma exceção: só na Suíça foram encontradas mais de duzentas. Conta Heródoto que os Paeonianos habitavam cidades semelhantes sobre o lago Prasias. Cada cidadão que tomava mulher era obrigado a mandar três pedras da floresta vizinha e as fixar no lago. Como o número das mulheres não era limitado, o piso da cidade cresceu depressa. As cabanas estavam em comunicação com a água por um alçapão, e as crianças eram amarradas pelo pé a uma corda, por medo de acidente. Homens, cavalo, gado, viviam juntos, alimentando-se de peixe. Hipócrates relata os mesmos costumes dos habitantes de Phase. Em 1826, Dumont d’Urville descobriu cidades lacustres análogas nas costas da Nova-Guiné. Outros habitavam as cavernas, as grutas naturais ou construíam um refúgio grosseiro contra os animais ferozes. Hoje se encontram seus ossos misturados aos da hiena, do urso das cavernas, do rinoceronte ticorino. Um cavouqueiro, em 1852, querendo saber a profundidade de um buraco pelo qual os coelhos se esquivavam dos caçadores, em Aurignac (Haute-Garonne), retirou dessa abertura ossos de grande dimensão. Atacando então o flanco do montículo, na esperança de ali encontrar um tesouro, logo se achou em frente de um verdadeiro ossuário. O rumor público, apoderando-se do fato, pôs em circulação relatos de moedeiros falsos, de assassinatos, etc. O prefeito julgou por bem mandar reunir todas as ossadas para as levar ao cemitério; e quando, em 1860, o Sr. Lartet quis examinar esses velhos restos, o coveiro nem mais se lembrava do lugar da sepultura. Não obstante, com o auxílio de raros vestígios que cercavam a caverna, traços de um foco, ossos quebrados para extrair a medula, pode-se assegurar que as três espécies acima referidas viveram nesse ponto da França ao mesmo tempo que o homem. O cão já era companheiro do homem, e sem dúvida foi a sua primeira conquista. O alimento desses homens primitivos já era muito variado. Pretende um professor que a proporção entre carnívoros e frugívoros era de doze para vinte. Acha o Sr. Florens que eles se nutriam exclusivamente de frutos. Mas a verdade é que, desde o começo, o homem foi onívoro. Os kjokkenmoddings da Dinamarca nos conservam restos de cozinha antidiluviana, provando este fato até a evidência. Já almoçavam ostras e peixes, conheciam o ganso, o cisne, o pato; apreciavam o galo silvestre, o cervo, o cabrito-montês, a rena, que caçavam, dos quais foram encontrados restos trespassados por flechas de pedra. O bisão ou boi primitivo já lhe dava leite; o lobo, a raposa, o cão e o gato lhes serviam de prato principal. As landes, a cevada, a aveia, as ervilhas, as lentilhas lhes davam o pão e os legumes; o trigo só veio mais tarde. As avelãs, as bolotas, as maçãs, as peras, os morangos e as framboesas rematavam essas iguarias dos antigos dinamarqueses. Os suíços da idade da pedra se apoderaram da carne do bisão, do alce e do touro selvagem, tinham domesticado a cabra e a ovelha. A lebre e o coelho eram desdenhados por alguma razão supersticiosa; mas, em compensação, o cavalo já havia tomado lugar em suas refeições. Todas essas carnes eram comidas cruas e fumegantes na origem e, observação curiosa, os antigos dinamarqueses não se serviam, como nós, dos dentes incisivos para cortar, mas segurar, reter e mastigar o alimento, de sorte que esses dentes não eram cortantes, como os nossos, mas achatados, como nossos molares e as duas arcadas dentárias pousavam uma sobre a outra, em vez de se encaixarem. Nem todos os selvagens primitivos eram nus. Os primeiros habitantes das latitudes boreais, da Dinamarca, da Gália e da Helvécia, tiveram que se garantir contra o frio com agasalhos de peles. Mais tarde pensaram nos ornamentos. O coquetismo, o amor aos enfeites não datam de hoje, senhoras: testemunham esses colares formados com dentes de cão, de raposa e de lobo, atravessados por um furo de suspensão. Mais tarde os grampos para cabelo, os braceletes, os pegadores de bronze se multiplicaram ao infinito, e é surpreendente a variedade e até o bom-gosto dos objetos que serviam à toalete das senhorinhas e dos homens elegantes daquele tempo. Naquelas idades recuadas, enterravam os mortos sob abóbadas sepulcrais. Os cadáveres eram colocados em posição agachada, os joelhos quase tocando o queixo, os braços cruzados sobre o peito e aproximados da cabeça. Como se observou, é esta a posição da criança no seio materno. Esses homens primordiais certamente o ignoravam, e é por uma espécie de intuição que equiparavam o túmulo a um berço. Vestígios de idades que se foram, esses grandes túmulos, esses montículos, essas colinas que nos séculos passados eram chamados “túmulos de gigantes” e que serviam de limites invioláveis, são câmaras mortuárias, sob as quais nossos antepassados escondiam seus mortos. Quais eram esses primeiros homens? “Não é apenas por curiosidade, diz Virchow, que perguntamos quem eram esses mortos, se em vida pertenciam a uma raça de gigantes. Essas questões nos interessam. Esses mortos são nossos antepassados, e as perguntas que dirigimos a esses túmulos se ligam igualmente à nossa própria origem. De que raça saímos? De que fonte saiu nossa cultura atual e para onde ela nos conduz?” Não é preciso remontar à criação para receber algum clarão sobre as nossas origens; do contrário ver-nos-íamos condenados a permanecer sempre numa noite completa a esse respeito. Apenas sobre a data da criação contaram-se mais de 140 opiniões, e da primeira à última não há menos de 3.194 anos de diferença! Acrescentar uma 141a hipótese não esclareceria o problema. Assim, limitar-nos-emos a esclarecer que, do ponto de vista geológico, o último período da história da Terra, o período quaternário, o que dura ainda hoje, foi dividido em três fases: a fase diluviana, durante a qual houve imensas inundações parciais, e vastos depósitos e acumulações de areia; a fase glaciária, caracterizada pela formação de geleiras e por um maior resfriamento do globo; enfim a fase moderna. Em suma, a importante questão, hoje mais ou menos resolvida, era saber se o homem não data senão desta última época, ou das precedentes. Ora, agora está comprovado que data no mínimo da primeira, e que os nossos primeiros ancestrais têm direito ao título de fósseis, considerando-se que suas ossadas (o pouco que resta) jazem com as do ursus spelaeus, da hiena e dos felis spelaea, do elephas primigenius, do megacero, etc., numa camada pertencente a uma ordem de vida diferente da ordem atual. Nessas épocas longínquas reinava uma Natureza muito diferente da que hoje desdobra os seus esplendores em volta de nós; outros tipos de plantas decoravam as florestas e os campos; outras espécies de animais viviam na superfície do solo e nos mares. Quais foram os primeiros homens que despertaram nesse mundo primordial? Que cidades foram edificadas? Que língua foi falada? Que costumes estiveram em uso? Estas questões ainda estão cercadas para nós de profundo mistério. Mas o de que temos certeza é que ali onde fundamos dinastias e monumentos, várias raças de homens habitaram sucessivamente, durante períodos seculares. Sir John Lubbock, na obra assinalada no começo deste estudo, demonstrou a ancianidade da raça humana pelas descobertas relativas aos usos e costumes de nossos ancestrais, como Sir Charles Lyell o tinha demonstrado do ponto de vista geológico. Seja qual for o mistério que ainda envolve as nossas origens, preferimos esse resultado ainda incompleto da ciência positiva, às fábulas e aos romances da antiga mitologia. Camille Flammarion
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Mês Dezembro
Ano 1867
Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec Lúmen, por C. Flammarion (no prelo)
interessante trabalho, cuja primeira parte foi inserida na Revue du XIXe siècle, hoje completada por importantes adições, será publicada brevemente em um volume. (Revista Espírita de março e maio de 1867.) Aviso Importante
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Mês Julho
Ano 1869
Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec A Vida Universal (Camille Flammarion)
I NO INFINITO E NA ETERNIDADE (Camille Flammarion) Todas as religiões que se sucederam na história da Humanidade, desde a teogonia dos arianos, que parece datar de quinze mil anos e nos oferece o tipo mais antigo, até o babismo da Ásia, surgido neste século e que, não obstante, não conta muitos sectários; desde as teologias mais vastas e consolidadas que, como o budismo na Ásia, o Cristianismo na Europa e o Islamismo na África, dominaram regiões imensas, durante longos séculos, até os sistemas isolados e frustrados que, como a igreja francesa do abade Chatel, ou a religião fusionista de Toureil, ou o templo positivista de Auguste Comte, não viveram mais que o espaço de uma manhã; – todas as religiões, digo, não tiveram por objetivo senão o conhecimento da vida eterna. Entretanto, até hoje nenhuma soube nos dizer o que é a vida eterna; nenhuma nos soube ensinar sequer o que seja a vida atual, em que difere ou em que se liga à vida eterna; o que é a Terra onde vivemos; o que é o céu, para o qual se voltam todos os olhares ansiosos, para pedir o segredo do grande problema. A incapacidade de todas as religiões, antigas e modernas, de nos explicar o sistema do mundo moral, levou a filosofia, acabrunhada pelo silêncio e pelas ficções, a formar em seu seio uma escola de cépticos, que não só duvidaram da existência do mundo moral, mas chegaram ao cúmulo de negar a presença de Deus na Natureza e a imortalidade das almas intelectuais. Nossa filosofia espiritualista das ciências, fundada sobre a síntese das ciências positivas e especialmente sobre as conseqüências metafísicas da Astronomia moderna, é mais sólida do que todas as religiões antigas, mais bela do que todos os sistemas filosóficos, mais fecunda do que todas as doutrinas, crenças e opiniões emitidas até agora pelo espírito humano. Nascida no silêncio do estudo, nossa doutrina cresce na sombra e se vai aperfeiçoando incessantemente por uma interpretação cada vez mais desenvolvida do conhecimento do Universo. Sobreviverá aos sistemas teológicos e psicológicos do passado, porque é a própria Natureza que observamos, sem idéias preconcebidas, sem especulação e sem medo. Quando em meio a uma noite profunda e silenciosa nossa alma solitária se eleva para esses mundos longínquos que brilham acima de nossas cabeças, instintivamente procuramos interpretar os raios que nos chegam das estrelas, porque sentimos que esses raios são outros tantos laços fluídicos, ligando os astros entre si na imensa rede da solidariedade. Agora que as estrelas já não são para nós cravos de ouro fixadas na abóbada celeste; agora que sabemos que essas estrelas são outros tantos sóis análogos ao nosso, centros de sistemas planetários variados e disseminados a incríveis distâncias através do infinito dos espaços; agora que a noite não é mais para nós um fenômeno que se estende ao Universo inteiro, mas simplesmente uma sombra passageira situada por detrás do globo terrestre relativamente ao Sol, sombra que se estende a uma certa distância, mas não até às estrelas, e que atravessamos todos os dias durante algumas horas por força da rotação diurna do globo; – aplicamos esses conhecimentos físicos à explicação filosófica de nossa situação no Universo, e constatamos que habitamos a superfície de um planeta que, longe de ser o centro e a base da Criação, não passa de uma ilha flutuante do grande arquipélago, arrastado, ao mesmo tempo que miríades de outros análogos, pelas forças diretivas do Universo, não tendo sido marcado pelo Criador com nenhum privilégio especial. Sentirmo-nos arrastados no espaço é uma condição útil à compreensão exata do nosso lugar relativo no mundo; mas, fisicamente não temos e nem podemos ter essa sensação, pois que estamos fixados à Terra por sua atração e participamos integralmente de todos os seus movimentos. A atmosfera, as nuvens, todos os objetos móveis ou imóveis que pertencem à Terra são por ela arrastados, a ela ligados e, por conseguinte, relativamente imóveis. Seja qual for a altura a que nos elevemos na atmosfera, jamais chegaremos a nos colocar fora da atração terrestre e a nos isolar de seu movimento para o constatar. A própria Lua, a 96.000 léguas daqui, é arrastada no espaço pela translação da Terra. Não podemos, pois, sentir o movimento do nosso planeta senão pelo pensamento. Ser-nos-ia possível chegar a essa curiosa sensação? Tentemos. Para começar, imaginemos que o globo sobre o qual nos encontramos avance no vazio à razão de 660.000 léguas por dia, ou 27.500 léguas por hora! 30.550 metros por segundo: é uma velocidade mais de cinqüenta vezes mais rápida que a de uma bala de canhão (550 metros). Por certo não podemos simbolizar exatamente essa rapidez inaudita, mas dela podemos formar uma idéia, representando uma linha de 458 léguas de extensão e imaginando que o globo terrestre a percorra num minuto. Perpetuamente, sem parar, sem trégua, a Terra voa assim. Supondo-nos colocados no espaço, ao lado de seu caminho, na expectativa de vê-la passar diante de nós como um trem expresso, nós a veríamos chegar de longe sob a forma de uma estrela brilhante. Quando não estivesse a mais do que 600 ou 700.000 léguas de nós, isto é, vinte e quatro horas antes de chegar, pareceria maior do que qualquer estrela conhecida, menor do que nos parece a Lua: como uma grande bólide, semelhante às que por vezes atravessam o espaço. Quatro horas antes de sua chegada, parece cerca de quatorze vezes mais volumosa que a Lua e, continuando a inflar-se desmesuradamente, logo ocupará um quarto do céu. Já distinguimos em sua superfície os continentes e os mares, os pólos carregados de neve, as faixas de nuvens tropicais, a Europa com as bordas recortadas... e talvez distingamos um pequeno lugar esverdeado, que não passa da milésima parte da superfície inteira do globo e que se chama França... Já notamos seu movimento de rotação sobre o seu eixo... mas, aumentando, aumentando sempre, de repente o globo se desdobra como uma sombra gigantesca sobre o céu inteiro, levando seis minutos e meio para passar, o que talvez nos permita ouvir os gritos dos animais selvagens nas florestas equatoriais e o canhão dos povos humanos, para, em seguida, afastando-se com majestade nas profundezas do espaço, mergulhar no vazio e encolher-se na imensidade sem fim, não deixando outro traço de sua passagem, senão um misto de espanto e de terror em nosso olhar apavorado. É nesta bola colossal de 3.000 léguas de diâmetro e 5.875 sextilhões de toneladas de peso, que estamos disseminados, pequenos seres imperceptíveis, arrastados com uma energia indescritível por seus diversos movimentos de translação, de rotação, de oscilação, e por suas inclinações alternativas, mais ou menos como os grãos de poeira aderem a uma bala de canhão lançada no espaço. Conhecer e sentir esta marcha da Terra é possuir uma das primeiras e mais importantes condições do saber cosmográfico. Assim voa a Terra no céu. A descrição desse movimento pode parecer puramente do domínio da Astronomia. Logo constataremos que a filosofia religiosa é altamente interessada nesses fatos e que, na realidade, o conhecimento do universo físico dá as bases da religião do futuro. Continuemos o exame científico do nosso planeta. Como qualquer edifício, as teologias não podem ser construídas no vazio. Têm como arcabouço o antigo sistema do mundo, que supunha a Terra imóvel no centro do Universo. Ao demonstrar a fatuidade da ilusão antiga, a Astronomia moderna demonstra a presunção das teologias fundadas sobre ela. Este planeta é povoado por um número considerável de espécies vivas, classificadas em duas grandes divisões naturais: o reino vegetal e o reino animal. Cada um desses seres difere das coisas puramente materiais, dos objetos inanimados, em virtude de ser formado por uma unidade anímica que rege o seu organismo. Que se considere uma planta, um animal ou um homem, constata-se que o que constitui a vida é um princípio especial, dotado da faculdade de agir sobre a matéria, de formar um ser determinado, uma roseira, por exemplo, um carvalho, um lagarto, um cão, um homem; de fabricar órgãos como uma folha, um pistilo, um estame, uma asa, um olho, – princípio especial cujo caráter distintivo é ser pessoal. Para nos atermos à raça humana, que há mais de cem séculos estabeleceu o reino da inteligência neste planeta, notamos que atualmente ela se compõe de 1.200.000.000 indivíduos, que em média vivem 34 anos. Na Europa, a duração média da vida, que no último século aumentou 9% com o progresso e o bem-estar, é hoje de 38 anos. Mas ainda há na Terra raças atrasadas, menos afastadas da barbárie primitiva, miseráveis e fracas, cuja vida média não ultrapassa 28 anos. Em cifras redondas, morrem por ano 32 milhões de indivíduos humanos, 80.000 por dia ou mais ou menos 1 por segundo. Nascem 33 milhões por ano, ou pouco mais de 1 por segundo. Cada batimento de nossos corações, correspondendo mais ou menos ao número de oscilações do pêndulo do relógio, marca aproximadamente o nascimento e a morte de um ser na Terra.
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Mês Dezembro
Ano 1869
Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec A Vida Universal (Camille Flammarion)
Tudo correndo no espaço com a rapidez que reconhecemos acima, a Terra vê a sua população humana renovar-se constantemente, com uma rapidez que também não deixa de ser espantosa. A cada segundo uma alma encarna no mundo corporal e outra dele se evade. Um sexto das crianças morrem no primeiro ano, um quarto antes da idade de 4 anos, um terço aos 14 anos e a metade aos 42 anos. Que lei preside aos nascimentos? Que lei preside às mortes? É um problema que só a Ciência poderá resolver um dia. É importante para todo homem que procura a verdade, ver as coisas face a face, tais como são, adquirindo, assim, noções exatas sobre a ordem do Universo. Antes de tudo mais, constatemos os fatos, pura e simplesmente; depois nos sirvamos da realidade para tentar penetrar as leis desconhecidas, de que os fatos físicos são a sua realização. Pois bem! Constatamos, por um lado, que a Terra é um astro do céu, da mesma forma que Júpiter ou Sírius, e que circula no espaço eterno por meio de movimentos que nos dão uma medida do tempo: os anos e os dias – medidas de tempo que esses movimentos criam por si mesmos e que não existe no espaço eterno. Por outro lado, observamos que os seres vivos, particularmente os homens, são formados por uma alma organizadora, que é o princípio imaterial, independente das condições de espaço e de tempo e das propriedades físicas que caracterizam a matéria, e que as existências humanas não são o fim da Criação, mas, antes, dão idéia de passagens, de meios. Por si só, a vida na Terra carece de objetivo. É o que ressalta incontestavelmente da própria organização da vida e da morte neste mundo. Aliás, a vida terrena nem é um começo, nem um fim. Realiza-se no Universo, ao mesmo tempo que grande número de outros modos de existência, após muitas outras que se deram nos mundos passados, e antes de muitas que se efetuarão nos mundos futuros. A vida terrestre não é oposta a uma outra vida celeste, como supõem os teólogos que não se apóiam na Natureza. A vida que floresce na superfície do nosso planeta é uma vida celeste, tanto quanto a que resplandece em Mercúrio e Vênus. Estamos atualmente no céu, tão exatamente como se habitássemos a estrela polar ou a nebulosa de Orion. Assim a Terra, suspensa no espaço pelo fio da atração solidária dos mundos, arrasta em sua superfície as gerações humanas que nascem, brilham por alguns anos e se extinguem. Tudo está em movimento, e a circulação dos seres através do tempo não é menos certa, nem menos rápida, do que sua circulação através do espaço. Este aspecto do Universo nos surpreende, sem dúvida, e nos parece difícil defini-lo com segurança. O aspecto aparente com o qual se contentaram durante tantos séculos era muito mais simples: a Terra, imóvel, era a base do mundo físico e espiritual. A raça adâmica era a única raça humana do Universo; era colocada aqui para viver lentamente, para orar e chorar até o dia em que, sendo decretado o fim do mundo, o Deus corporal, assistido por seus santos e anjos, descesse do empíreo para julgar a Terra e em seguida transformar o Universo em duas grandes secções: o céu e o inferno. Esse sistema, mais teológico do que astrológico, era, repito, muito simples e se baseava nas tradições venerandas de um ensino quinze vezes secular. Quando, pois, neste século dezenove, eu venho dizer: “Em verdade as nossas antigas crenças estão fundadas em aparências enganosas; agora não devemos reconhecer outra filosofia religiosa além da que deriva da Ciência”, podemos não estar prontos para aceitar imediatamente a imensa transformação que resulta dos nossos estudos modernos e querer examinar severamente nossa doutrina antes de se reconhecer como seu discípulo. Mas é precisamente isso que todos desejamos; a liberdade de consciência deve preceder todo julgamento nas almas, e todas as opiniões devem ser livremente, sucessivamente ordenadas conforme as indicações do espírito e do coração. A Terra é um astro habitado, planando no céu em companhia de miríades de outros astros, habitados como ela. Nossa atual vida terrestre faz parte da vida universal e eterna, dando-se o mesmo com a vida atual dos habitantes dos outros mundos. O espaço é povoado de colônias humanas vivendo, ao mesmo tempo, em globos afastados uns dos outros e ligados entre si por leis, das quais sem dúvida ainda não conhecemos senão as mais patentes. O esboço geral de nossa fé57 na vida eterna compõe-se, portanto, dos seguintes pontos: 1o – A Terra é um astro do céu; 2o – Os outros astros são habitados como ela; 3o – A vida da humanidade terrestre é um departamento da vida universal; 4o – A existência atual de cada um de nós é uma fase de sua vida eterna – eterna no passado como no futuro. Este simples esboço geral de nossa concepção da vida eterna, embora apoiada na observação e no raciocínio e sendo indestrutível nesses quatro princípios elementares, longe está, entretanto, de não permitir alguma objeção. Ao contrário, podem-se-lhe opor certo número de dificuldades, como já aconteceu, seja pelos partidários das teologias antigas, seja pelos filósofos antiespiritualistas. Eis as principais dificuldades: Que provas se podem obter de que a nossa existência atual seja uma fase de uma pretensa vida eterna? Se a alma sobrevive ao corpo, como pode existir sem matéria e privada dos sentidos que a poriam em relação com a Natureza? – Se preexiste, de que maneira encarnou em nosso corpo e em que momento? O que é uma alma? em que consiste esse ser? ocupa um lugar? como age sobre a matéria? – Se já vivemos, por que em geral não temos qualquer lembrança? – Como a personalidade de um ser pode existir sem a memória? Nossas lembranças estão em nosso cérebro ou na nossa alma? – Se reencarnamos sucessivamente de mundo em mundo, quando terminará essa transmigração, e para que serve? etc., etc. Em vez de afastar as objeções ou parecer desdenhá-las, nosso dever, o dos que buscamos a verdade e não cremos obtê-la senão pelo trabalho, é, ao contrário, de as provocar e não nos deixar iludir, imaginando que nossas crenças já se tenham estabelecido e sejam inatacáveis. A Ciência marcha lentamente, progressivamente, e é sondando a profundeza dos problemas e atacando as questões de frente que aplicaremos a esses estudos filosóficos a severidade e o rigor necessários para assegurar aos nossos argumentos a solidez que lhes convém. A revelação moderna não provém da boca de um Deus encarnado, mas dos esforços da inteligência humana para o conhecimento da verdade. Num próximo estudo procuraremos saber qual é a natureza da alma, aplicando a este exame, não os silogismos da logomaquia escolástica, pelos quais se perorou durante quinze séculos sem se chegar a nada de sério, mas os processos do método científico experimental, ao qual deve o nosso século toda a sua grandeza. Hoje estabelecemos um primeiro aspecto muito importante do problema natural (e não sobrenatural) da vida eterna: o de saber que nossa vida atual se realiza no céu, que faz parte da série de existências celestes que constituem a vida universal, e que atualmente estamos no céu de Deus e na presença do Espírito eterno, tão completamente como se habitássemos um outro astro qualquer do grande arquipélago estrelado. Que esta certeza física inspire às nossas almas uma simpatia mais direta, mais humana para com os mundos que resplandecem na noite, e que até então olhávamos como se nos fossem estranhos! São as residências de nossas humanidades irmãs, as residências menos distantes! Olhando uma estrela que se eleva no horizonte, estamos na mesma situação de um observador que, de seu balcão, contempla as árvores de uma paisagem distante, ou que se inclina sobre o parapeito do navio ou do aeróstato para examinar um barco no mar ou uma nuvem na atmosfera; porque a Terra é uma nau celeste que vaga no espaço e olhamos ao seu redor quando nossos olhos se voltam para os outros mundos que aparecem e desaparecem seguindo o seu rastro. Sim, esses outros mundos são outras tantas terras análogas à nossa, baloiçando na amplidão sob os raios do mesmo Sol, e todas essas estrelas cintilantes são sóis ao redor dos quais gravitam planetas habitados. Em tais mundos, como no nosso, há paisagens silenciosas e solitárias. Em sua superfície também se disseminam cidades populosas e ativas. Lá também há poentes de nuvens purpurinas e deslumbrantes auroras mágicas; mares de cantos melancólicos, regatos de doces murmúrios, pequenas flores de tenras corolas, banhando na água limpada suas cabeças perfumadas. Lá também há bosques sombrios, sob os quais reside a inalterável paz da Natureza; lagos, suaves espelhos que parecem sorrir aos céus e montanhas formidáveis, que levantam seus cumes sublimes acima das nuvens carregadas de relâmpago e que, do alto dos ares tranqüilos, olham tudo o que está em baixo. Mas nesses mundos variados há mais desses panoramas inenarráveis, desconhecidos na Terra, esta inimaginável variedade de coisas e de seres que a Natureza desenvolveu em profusão em seu império sem limites. Quem nos revelará o espetáculo da Criação sobre os anéis de Saturno? Quem nos revelará as metamorfoses maravilhosas do mundo dos cometas? Quem nos desvendará os sistemas mágicos dos sóis múltiplos e coloridos, oferecendo aos seus mundos as mais singulares variedades de estações, de dias, de luzes e de calor?
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Mês Dezembro
Ano 1869
Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec A Vida Universal (Camille Flammarion)
Quem nos fará adivinhar a considerável variedade das formas vivas que as forças da Natureza construíram nos outros mundos, com a diversidade peculiar a cada mundo em seu volume, peso, densidade, constituição geológica e química, propriedades físicas de suas diversas substâncias, numa palavra, com a infinita variedade de que a matéria e as forças são susceptíveis? As metamorfoses da mitologia antiga não passam de um sonho, comparadas às obras universais da natureza celeste. Hoje esboçamos a situação cosmográfica da alma em sua encarnação terrena. Nosso próximo estudo terá como objeto a natureza mesma da alma, resolvendo por si só as objeções resumidas acima. É estudando separadamente os diversos pontos do grande problema que chegaremos à solução esperada há tantos séculos.
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Mês Dezembro
Ano 1869
Revista Espírita - Pelo espírito  Camille Flammarion  através da codificação de Allan Kardec Inteligência dos Animais
“Graus inferiores da série zoológica, dos quais acabamos de ter um aspecto particular em nosso precedente estudo sobre a vida dos insetos, elevam-nos mais e nos põem agora em relação com as manifestações mais altas da vida terrestre. “A Natureza inteira é construída sobre o mesmo plano e manifesta a expressão permanente da mesma idéia. A grande lei de unidade e de continuidade se revela não só na forma plástica dos seres, mas ainda na força que os anima, desde o humilde vegetal até o homem mais eminente. Na planta, uma força orgânica agrupa as células conforme o modo de cada espécie, aproximando-se para o tipo ideal do reino. O cedro das montanhas do Líbano, o salgueiro da margem dos rios, as árvores das florestas cerradas e as flores de nossos jardins sonham, adormecidas nos limbos indecisos da vida. Num certo número delas, constata-se movimentos espontâneos e expressões que parecem revelar o aparecimento de algum rudimento de sistema nervoso. Os degraus inferiores do reino animal, que habitam as móveis regiões do oceano – os zoófitos – parecem pertencer, sob certos aspectos, ao mundo das plantas. À medida que se eleva na escala da vida, o espírito afirma pouco a pouco uma personalidade mais bem determinada; atinge seu mais elevado desenvolvimento no homem, último elo da imensa corrente sobre a Terra. “Esta contemplação da vida na Natureza abarca, sob uma mesma concepção, o conjunto dos seres e nos põe em relação com a unidade viva manifestada sob as formas terrestres e siderais. Inspirada e afirmada pelas fecundas descobertas da ciência contemporânea, ela ultrapassa majestosamente as idéias de uma outra idade, que retalhavam a Criação e não deixavam subsistir senão o homem no trono da inteligência. Hoje sabemos que o homem não está isolado no Universo, nem na Terra; está ligado aos outros mundos pelos liames da vida universal e eterna, e à população terrena, pelos laços da organização comum dos habitantes do nosso planeta. Não há mais um abismo intransponível entre o homem e Júpiter, nem entre o homem branco e o homem negro, nem entre o homem e o macaco, o cão ou a planta. Todos os seres são filhos da mesma lei e todos tendem para o mesmo objetivo, a perfeição. “A reação teológica do século dezessete havia separado rigorosamente o homem de seus irmãos mais velhos na obra inexplicada da Criação. Descartes representou os animais como simples máquinas vivas. Grandes discussões se levantaram sobre a questão da alma dos animais, e de tempos em tempos encontramos as variadas peças deste imenso arrazoado. Dos numerosos tratados sobre esse assunto, escritos naquela época, citaremos sobretudo o do padre Daniel, discípulo de Descartes, que completa sua viagem à Lua, e o do padre Boujeaut, que toma o partido dos animais... e mesmo encontrando tanto espírito que acaba por nelas ver a encarnação dos mais astutos diabos... “Os animais são dotados da faculdade de pensar; neles reside uma alma, diferente da nossa (e talvez tão diferente que nenhuma comparação possa ser estabelecida). A faculdade de pensar se revela em graus diversos conforme as espécies, e aí está a grande dificuldade do assunto! Porque, concedendo uma alma ao cão, aos poucos somos levados a concedê-la à ostra; e se a ostra é animada por uma mônada espiritual, mesmo adotando a classificação de Leibnitz, não vemos por que a sensitiva e a rosa dela fossem privadas. Eis, assim, uma série de almas imortais em números incalculáveis, com as quais nos embaraçaríamos muito se fôssemos obrigados a dirigir as suas metempsicoses. Felizmente, o misterioso autor da Natureza, ao nos deixar a faculdade de sonhar e de conjecturar, tirou-nos desta dificuldade. “Este estudo não teria fim se não apresentássemos aqui todos os materiais que temos à mão em favor da alma dos animais superiores. Não podemos senão relegar esses fatos tão numerosos às notas complementares por nós reportadas. Pela amizade e pelo ódio, pelo apego que as diferentes espécies animais estabelecem entre si, somos autorizados a admitir nos animais, faculdades intelectuais análogas às nossas. Esta questão comporta um dos mais curiosos e mais graves problemas da filosofia natural. “Concluindo, declaramos que Buffon se enganou por não ter ousado dizer, depois de expor as ações racionais do pungo: “e, contudo, o pungo não pensa”, e que o grande Leibnitz se equivocava quando afirmava “que o mais estúpido dos homens é incomparavelmente mais racional e mais dócil que o mais espirituoso dos animais.” O certo é que há no mundo homens grosseiros, brutos, mais maus e menos inteligentes do que certos animais de boa natureza.” C. Flammarion
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Ano 1869