A Vida Universal (Camille Flammarion)
Tudo correndo no espaço com a rapidez que reconhecemos acima, a Terra vê a sua população humana renovar-se constantemente, com uma rapidez que também não deixa de ser espantosa. A cada segundo uma alma encarna no mundo corporal e outra dele se evade. Um sexto das crianças morrem no primeiro ano, um quarto antes da idade de 4 anos, um terço aos 14 anos e a metade aos 42 anos. Que lei preside aos nascimentos? Que lei preside às mortes? É um problema que só a Ciência poderá resolver um dia. É importante para todo homem que procura a verdade, ver as coisas face a face, tais como são, adquirindo, assim, noções exatas sobre a ordem do Universo. Antes de tudo mais, constatemos os fatos, pura e simplesmente; depois nos sirvamos da realidade para tentar penetrar as leis desconhecidas, de que os fatos físicos são a sua realização. Pois bem! Constatamos, por um lado, que a Terra é um astro do céu, da mesma forma que Júpiter ou Sírius, e que circula no espaço eterno por meio de movimentos que nos dão uma medida do tempo: os anos e os dias – medidas de tempo que esses movimentos criam por si mesmos e que não existe no espaço eterno. Por outro lado, observamos que os seres vivos, particularmente os homens, são formados por uma alma organizadora, que é o princípio imaterial, independente das condições de espaço e de tempo e das propriedades físicas que caracterizam a matéria, e que as existências humanas não são o fim da Criação, mas, antes, dão idéia de passagens, de meios. Por si só, a vida na Terra carece de objetivo. É o que ressalta incontestavelmente da própria organização da vida e da morte neste mundo. Aliás, a vida terrena nem é um começo, nem um fim. Realiza-se no Universo, ao mesmo tempo que grande número de outros modos de existência, após muitas outras que se deram nos mundos passados, e antes de muitas que se efetuarão nos mundos futuros. A vida terrestre não é oposta a uma outra vida celeste, como supõem os teólogos que não se apóiam na Natureza. A vida que floresce na superfície do nosso planeta é uma vida celeste, tanto quanto a que resplandece em Mercúrio e Vênus. Estamos atualmente no céu, tão exatamente como se habitássemos a estrela polar ou a nebulosa de Orion. Assim a Terra, suspensa no espaço pelo fio da atração solidária dos mundos, arrasta em sua superfície as gerações humanas que nascem, brilham por alguns anos e se extinguem. Tudo está em movimento, e a circulação dos seres através do tempo não é menos certa, nem menos rápida, do que sua circulação através do espaço. Este aspecto do Universo nos surpreende, sem dúvida, e nos parece difícil defini-lo com segurança. O aspecto aparente com o qual se contentaram durante tantos séculos era muito mais simples: a Terra, imóvel, era a base do mundo físico e espiritual. A raça adâmica era a única raça humana do Universo; era colocada aqui para viver lentamente, para orar e chorar até o dia em que, sendo decretado o fim do mundo, o Deus corporal, assistido por seus santos e anjos, descesse do empíreo para julgar a Terra e em seguida transformar o Universo em duas grandes secções: o céu e o inferno. Esse sistema, mais teológico do que astrológico, era, repito, muito simples e se baseava nas tradições venerandas de um ensino quinze vezes secular. Quando, pois, neste século dezenove, eu venho dizer: “Em verdade as nossas antigas crenças estão fundadas em aparências enganosas; agora não devemos reconhecer outra filosofia religiosa além da que deriva da Ciência”, podemos não estar prontos para aceitar imediatamente a imensa transformação que resulta dos nossos estudos modernos e querer examinar severamente nossa doutrina antes de se reconhecer como seu discípulo. Mas é precisamente isso que todos desejamos; a liberdade de consciência deve preceder todo julgamento nas almas, e todas as opiniões devem ser livremente, sucessivamente ordenadas conforme as indicações do espírito e do coração. A Terra é um astro habitado, planando no céu em companhia de miríades de outros astros, habitados como ela. Nossa atual vida terrestre faz parte da vida universal e eterna, dando-se o mesmo com a vida atual dos habitantes dos outros mundos. O espaço é povoado de colônias humanas vivendo, ao mesmo tempo, em globos afastados uns dos outros e ligados entre si por leis, das quais sem dúvida ainda não conhecemos senão as mais patentes. O esboço geral de nossa fé57 na vida eterna compõe-se, portanto, dos seguintes pontos: 1o – A Terra é um astro do céu; 2o – Os outros astros são habitados como ela; 3o – A vida da humanidade terrestre é um departamento da vida universal; 4o – A existência atual de cada um de nós é uma fase de sua vida eterna – eterna no passado como no futuro. Este simples esboço geral de nossa concepção da vida eterna, embora apoiada na observação e no raciocínio e sendo indestrutível nesses quatro princípios elementares, longe está, entretanto, de não permitir alguma objeção. Ao contrário, podem-se-lhe opor certo número de dificuldades, como já aconteceu, seja pelos partidários das teologias antigas, seja pelos filósofos antiespiritualistas. Eis as principais dificuldades: Que provas se podem obter de que a nossa existência atual seja uma fase de uma pretensa vida eterna? Se a alma sobrevive ao corpo, como pode existir sem matéria e privada dos sentidos que a poriam em relação com a Natureza? – Se preexiste, de que maneira encarnou em nosso corpo e em que momento? O que é uma alma? em que consiste esse ser? ocupa um lugar? como age sobre a matéria? – Se já vivemos, por que em geral não temos qualquer lembrança? – Como a personalidade de um ser pode existir sem a memória? Nossas lembranças estão em nosso cérebro ou na nossa alma? – Se reencarnamos sucessivamente de mundo em mundo, quando terminará essa transmigração, e para que serve? etc., etc. Em vez de afastar as objeções ou parecer desdenhá-las, nosso dever, o dos que buscamos a verdade e não cremos obtê-la senão pelo trabalho, é, ao contrário, de as provocar e não nos deixar iludir, imaginando que nossas crenças já se tenham estabelecido e sejam inatacáveis. A Ciência marcha lentamente, progressivamente, e é sondando a profundeza dos problemas e atacando as questões de frente que aplicaremos a esses estudos filosóficos a severidade e o rigor necessários para assegurar aos nossos argumentos a solidez que lhes convém. A revelação moderna não provém da boca de um Deus encarnado, mas dos esforços da inteligência humana para o conhecimento da verdade. Num próximo estudo procuraremos saber qual é a natureza da alma, aplicando a este exame, não os silogismos da logomaquia escolástica, pelos quais se perorou durante quinze séculos sem se chegar a nada de sério, mas os processos do método científico experimental, ao qual deve o nosso século toda a sua grandeza. Hoje estabelecemos um primeiro aspecto muito importante do problema natural (e não sobrenatural) da vida eterna: o de saber que nossa vida atual se realiza no céu, que faz parte da série de existências celestes que constituem a vida universal, e que atualmente estamos no céu de Deus e na presença do Espírito eterno, tão completamente como se habitássemos um outro astro qualquer do grande arquipélago estrelado. Que esta certeza física inspire às nossas almas uma simpatia mais direta, mais humana para com os mundos que resplandecem na noite, e que até então olhávamos como se nos fossem estranhos! São as residências de nossas humanidades irmãs, as residências menos distantes! Olhando uma estrela que se eleva no horizonte, estamos na mesma situação de um observador que, de seu balcão, contempla as árvores de uma paisagem distante, ou que se inclina sobre o parapeito do navio ou do aeróstato para examinar um barco no mar ou uma nuvem na atmosfera; porque a Terra é uma nau celeste que vaga no espaço e olhamos ao seu redor quando nossos olhos se voltam para os outros mundos que aparecem e desaparecem seguindo o seu rastro. Sim, esses outros mundos são outras tantas terras análogas à nossa, baloiçando na amplidão sob os raios do mesmo Sol, e todas essas estrelas cintilantes são sóis ao redor dos quais gravitam planetas habitados. Em tais mundos, como no nosso, há paisagens silenciosas e solitárias. Em sua superfície também se disseminam cidades populosas e ativas. Lá também há poentes de nuvens purpurinas e deslumbrantes auroras mágicas; mares de cantos melancólicos, regatos de doces murmúrios, pequenas flores de tenras corolas, banhando na água limpada suas cabeças perfumadas. Lá também há bosques sombrios, sob os quais reside a inalterável paz da Natureza; lagos, suaves espelhos que parecem sorrir aos céus e montanhas formidáveis, que levantam seus cumes sublimes acima das nuvens carregadas de relâmpago e que, do alto dos ares tranqüilos, olham tudo o que está em baixo. Mas nesses mundos variados há mais desses panoramas inenarráveis, desconhecidos na Terra, esta inimaginável variedade de coisas e de seres que a Natureza desenvolveu em profusão em seu império sem limites. Quem nos revelará o espetáculo da Criação sobre os anéis de Saturno? Quem nos revelará as metamorfoses maravilhosas do mundo dos cometas? Quem nos desvendará os sistemas mágicos dos sóis múltiplos e coloridos, oferecendo aos seus mundos as mais singulares variedades de estações, de dias, de luzes e de calor?
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Mês Dezembro
Ano 1869