Inteligência dos Animais
“Graus inferiores da série zoológica, dos quais acabamos de ter um aspecto particular em nosso precedente estudo sobre a vida dos insetos, elevam-nos mais e nos põem agora em relação com as manifestações mais altas da vida terrestre. “A Natureza inteira é construída sobre o mesmo plano e manifesta a expressão permanente da mesma idéia. A grande lei de unidade e de continuidade se revela não só na forma plástica dos seres, mas ainda na força que os anima, desde o humilde vegetal até o homem mais eminente. Na planta, uma força orgânica agrupa as células conforme o modo de cada espécie, aproximando-se para o tipo ideal do reino. O cedro das montanhas do Líbano, o salgueiro da margem dos rios, as árvores das florestas cerradas e as flores de nossos jardins sonham, adormecidas nos limbos indecisos da vida. Num certo número delas, constata-se movimentos espontâneos e expressões que parecem revelar o aparecimento de algum rudimento de sistema nervoso. Os degraus inferiores do reino animal, que habitam as móveis regiões do oceano – os zoófitos – parecem pertencer, sob certos aspectos, ao mundo das plantas. À medida que se eleva na escala da vida, o espírito afirma pouco a pouco uma personalidade mais bem determinada; atinge seu mais elevado desenvolvimento no homem, último elo da imensa corrente sobre a Terra. “Esta contemplação da vida na Natureza abarca, sob uma mesma concepção, o conjunto dos seres e nos põe em relação com a unidade viva manifestada sob as formas terrestres e siderais. Inspirada e afirmada pelas fecundas descobertas da ciência contemporânea, ela ultrapassa majestosamente as idéias de uma outra idade, que retalhavam a Criação e não deixavam subsistir senão o homem no trono da inteligência. Hoje sabemos que o homem não está isolado no Universo, nem na Terra; está ligado aos outros mundos pelos liames da vida universal e eterna, e à população terrena, pelos laços da organização comum dos habitantes do nosso planeta. Não há mais um abismo intransponível entre o homem e Júpiter, nem entre o homem branco e o homem negro, nem entre o homem e o macaco, o cão ou a planta. Todos os seres são filhos da mesma lei e todos tendem para o mesmo objetivo, a perfeição. “A reação teológica do século dezessete havia separado rigorosamente o homem de seus irmãos mais velhos na obra inexplicada da Criação. Descartes representou os animais como simples máquinas vivas. Grandes discussões se levantaram sobre a questão da alma dos animais, e de tempos em tempos encontramos as variadas peças deste imenso arrazoado. Dos numerosos tratados sobre esse assunto, escritos naquela época, citaremos sobretudo o do padre Daniel, discípulo de Descartes, que completa sua viagem à Lua, e o do padre Boujeaut, que toma o partido dos animais... e mesmo encontrando tanto espírito que acaba por nelas ver a encarnação dos mais astutos diabos... “Os animais são dotados da faculdade de pensar; neles reside uma alma, diferente da nossa (e talvez tão diferente que nenhuma comparação possa ser estabelecida). A faculdade de pensar se revela em graus diversos conforme as espécies, e aí está a grande dificuldade do assunto! Porque, concedendo uma alma ao cão, aos poucos somos levados a concedê-la à ostra; e se a ostra é animada por uma mônada espiritual, mesmo adotando a classificação de Leibnitz, não vemos por que a sensitiva e a rosa dela fossem privadas. Eis, assim, uma série de almas imortais em números incalculáveis, com as quais nos embaraçaríamos muito se fôssemos obrigados a dirigir as suas metempsicoses. Felizmente, o misterioso autor da Natureza, ao nos deixar a faculdade de sonhar e de conjecturar, tirou-nos desta dificuldade. “Este estudo não teria fim se não apresentássemos aqui todos os materiais que temos à mão em favor da alma dos animais superiores. Não podemos senão relegar esses fatos tão numerosos às notas complementares por nós reportadas. Pela amizade e pelo ódio, pelo apego que as diferentes espécies animais estabelecem entre si, somos autorizados a admitir nos animais, faculdades intelectuais análogas às nossas. Esta questão comporta um dos mais curiosos e mais graves problemas da filosofia natural. “Concluindo, declaramos que Buffon se enganou por não ter ousado dizer, depois de expor as ações racionais do pungo: “e, contudo, o pungo não pensa”, e que o grande Leibnitz se equivocava quando afirmava “que o mais estúpido dos homens é incomparavelmente mais racional e mais dócil que o mais espirituoso dos animais.” O certo é que há no mundo homens grosseiros, brutos, mais maus e menos inteligentes do que certos animais de boa natureza.” C. Flammarion
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Mês Dezembro
Ano 1869