Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências é ou não é contrária a certos dogmas da Igreja, eu me limitarei a dizer: das duas uma, ou a reencarnação existe ou não existe; se ela existe é porque está nas leis da natureza. Para provar que a reencarnação não existe, seria preciso demonstrar que ela é contrária, não aos dogmas, mas a essas leis, e também que se encontrasse uma outra que explicasse mais claramente e mais logicamente as questões que somente ela pode resolver.
Não obstante, é fácil demonstrar que certos dogmas encontram na reencarnação uma sanção racional que os fez serem aceitos por aqueles que os repeliam por não compreendê-los. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar; é o que acontecerá mais tarde, pela força dos acontecimentos. Aqueles que não querem aceitar a interpretação serão perfeitamente livres, como o são hoje em dia, para acreditar que é o Sol que gira em torno da Terra. A idéia da pluralidade das existências se vulgariza com espantosa rapidez, em razão da sua extrema lógica e da sua conformidade com a justiça de Deus. Quando ela for reconhecida como verdade natural, e aceita por todo o mundo, que fará a Igreja?
Em resumo, a reencarnação não é um sistema imaginado para as necessidades de uma causa, nem uma opinião pessoal; é, ou não é um fato. Se está demonstrado que certas coisas que existem são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitir que elas são o resultado da reencarnação; logo, se ela está na natureza, não seria anulada por uma opinião contrária.
O padre: — No dizer dos espíritos, aqueles que não acreditam neles nem nas suas manifestações são menos dotados na vida futura?
A. K.: — Se essa crença fosse indispensável à salvação dos homens, o que aconteceria àqueles que, desde que o mundo existe, não foram capazes de tê-la, e àqueles que, ainda durante muito tempo, morrerão sem possuí-la? Deus pode lhes fechar a porta do futuro?
Não; os espíritos que nos instruem são muito mais lógicos, eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom, e não faz a sorte futura do homem depender de condições alheias à vontade do próprio homem. Eles não dizem: fora do Espiritismo não há salvação, mas, como o Cristo, afirmam: fora da caridade não há salvação.
O padre: — Permita, então, que eu lhe diga, já que os espíritos só ensinam os princípios da moral que encontramos no Evangelho, eu não vejo que utilidade pode ter o Espiritismo, já que podíamos alcançar a nossa salvação antes dele e podemos alcançá-la ainda sem ele. Não seria o mesmo se os espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas, alguns desses princípios que mudam a face do mundo, como fez o Cristo. Ao menos ele era só, sua doutrina era única, enquanto que os espíritos são milhares que se contradizem, uns dizem branco, outros, negro, daí resultando que, desde o início, seus partidários já formam várias seitas. Não seria melhor deixar os espíritos tranqüilos e nos limitarmos ao que temos?
A. K.: — O senhor está errado, meu amigo, em não sair do seu ponto de vista, e tomar a Igreja como único critério dos conhecimentos humanos. Se Cristo disse a verdade, o Espiritismo não podia dizer outra coisa, e, em lugar de apedrejá-lo, devia-se acolhê-lo como um poderoso auxiliar que veio para confirmar, por todas as vozes do além-túmulo, as verdades fundamentais da religião refutadas pela incredulidade.
Que o materialismo seja contra ele compreende-se, mas que a Igreja se una ao materialismo para combatê-lo, é menos concebível. O que é também incoerente é que ela qualifica de demoníaco um ensinamento que se apóia sobre a mesma autoridade, e proclama a missão divina do fundador do Cristianismo.
Cristo, porém, disse tudo? Pôde revelar tudo? Não, já que ele mesmo afirmou: “Eu teria ainda muitas coisas para dizer, elas, porém, não seriam compreendidas por vós, é por essa razão que eu vos falo em parábolas.”
O Espiritismo veio, agora que o homem está preparado para compreendê-lo, completar e explicar o que o Cristo, deliberadamente, só deu uma leve idéia ou falou sob uma forma alegórica. Sem dúvida, o senhor dirá que a responsabilidade dessa explicação competia à Igreja. Mas, a qual? À Igreja romana, grega ou protestante? Visto não estarem de acordo, cada uma teria dado a sua explicação e reivindicado esse privilégio. Qual é a que conseguiria reunir todos os cultos dissidentes?
Deus, que é sábio, prevendo que os homens nela iriam misturar suas paixões e seus preconceitos, não quis lhes dar o encargo dessa nova revelação; confiou-a aos espíritos, seus mensageiros, que a proclamaram sobre todos os pontos do globo, fora de qualquer culto particular, a fim de que ela possa se aplicar a todos, e ninguém a desvie em seu proveito.
Por outro lado, os diversos cultos cristãos não terão se afastado em nada da rota traçada pelo Cristo? Seus preceitos de moral são escrupulosamente observados? Não se tem torcido o sentido das suas palavras para que sirvam de apoio à ambição e às paixões humanas, quando, na verdade, elas são a condenação de tudo isso? Ora, o Espiritismo, pela voz dos espíritos enviados de Deus, vem chamar, para a rigorosa observação desses preceitos, aqueles que se afastam deles; não seria principalmente esse último motivo que o fez ser classificado de obra satânica?
O senhor é injusto quando dá o nome de seitas a algumas divergências de opiniões referentes aos fenômenos espíritas. Não é motivo de espanto que, no começo de uma ciência, enquanto para muitos as observações ainda eram incompletas, tenham surgido teorias contraditórias, porém, essas teorias repousam sobre questões de detalhes e não sobre o princípio fundamental. Elas podem constituir escolas que expliquem certos fatos à sua maneira, mas não são seitas, assim como também não o são os diferentes sistemas que dividem nossos sábios sobre as ciências exatas: Medicina, Física, etc. Portanto, risque a palavra seita que é totalmente imprópria neste caso.
Aliás, desde o seu aparecimento, a quantas seitas o próprio Cristianismo deu origem? Por que a palavra do Cristo não teve bastante poder para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que ela é suscetível de interpretações que, ainda hoje, separam os cristãos em diferentes Igrejas que têm a pretensão de ser, cada uma delas, a detentora da verdade necessária à salvação, que se detestam cordialmente e se amaldiçoam em nome do seu divino mestre, que só pregou o amor e a caridade?
O senhor responderá: por causa da fraqueza dos homens? Seja, mas por que o senhor quer que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza e transforme a humanidade como por encanto?
Eu volto à questão da utilidade. O senhor disse que o Espiritismo não ensina nada de novo; é um erro, ele ensina muito àqueles que não se detêm nas aparências. Se o Espiritismo não tivesse feito mais do que colocar a máxima fora da caridade não há salvação, que reúne os homens, em lugar de fora da Igreja não há salvação, que os divide, ele já teria marcado uma nova era da humanidade.
O senhor disse que se poderia passar sem ele, concordo; assim como se poderia passar sem inúmeras descobertas científicas. Os homens se sentiam muito bem antes da descoberta de todos os novos planetas; antes que se tivesse calculado os eclipses; antes que se conhecesse o mundo microscópico e outras coisas; o camponês, para viver e fazer germinar seu trigo, não tem necessidade de saber o que é um cometa, entretanto ninguém pode negar que todas essas coisas alargam o círculo das idéias e nos fazem entender melhor as leis da Natureza.
Ora, o mundo dos espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz conhecer; ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o mundo corporal. Vamos supor que a sua utilidade se restringisse a isso, já não seria importante a revelação de tal poder?
Vejamos, agora, a sua influência moral. Admitamos que ele não ensine absolutamente nada a esse respeito; qual é o maior inimigo da religião? O materialismo, porque o materialista não crê em coisa alguma; ora, o Espiritismo é a negação do materialismo, que não tem mais razão de ser. Não é mais pelo raciocínio, pela fé cega, que se diz ao materialista que tudo não termina quando ocorre a morte do seu corpo, mas sim pelos fatos que lhe são mostrados, e o convencem com provas visíveis e palpáveis. Não é esse um pequeno serviço que se faz à humanidade e à religião?
Isso, porém, não é tudo; a certeza da vida futura, o quadro vivo apresentado por aqueles que nos precederam, mostram a necessidade do bem, e os resultados inevitáveis do mal. Eis por que, sem ser ele mesmo uma religião, o Espiritismo conduz essencialmente às idéias religiosas; ele as desenvolve em quem não as possui, e as fortifica naqueles em que elas são hesitantes. Portanto, a religião encontra nele um apoio, não para aquelas pessoas de visão estreita que a vêem integralmente na doutrina do fogo eterno, mais na letra que na essência, porém para aqueles que a vêem segundo a grandeza e a majestade de Deus.
Em uma palavra, o Espiritismo desenvolve e eleva as idéias; combate os abusos causados pelo egoísmo, a cobiça e a ambição; mas quem ousaria proibi-los e deles se declarar o protetor? Se ele não é indispensável à salvação, ele a facilita fortalecendo-nos no caminho do bem. Por outro lado, que homem sensato se atreveria a afirmar que a falta de uma absoluta conformidade com uma doutrina é mais repreensível aos olhos de Deus do que o ateísmo e o materialismo?
Eu coloco claramente as seguintes questões para todos aqueles que combatem o Espiritismo no que se refere às conseqüências religiosas:
1a) Qual será o mais mal dotado na vida futura, aquele que não crê em nada ou aquele que, crendo nas verdades gerais, não admite certas partes do dogma?
2a) O protestante e o cismático são confundidos na mesma re provação que o ateu e o materialista?