Terceira Conversação
A.K.: — Satã, segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos, não é um ser real, é a personificação do mal, como outrora Saturno era a personificação do tempo. A Igreja prende à letra essa figura alegórica; é uma questão de opinião que eu não discutirei. Admitamos, por um instante, que Satã seja um ser real; a Igreja, à força de exagerar seu poder, com o objetivo de intimidar, chega a um resultado totalmente contrário, ou seja, à destruição, não somente de todo o medo, mas também de toda a crença nessa pessoa, pois, segundo o provérbio, “quem muito quer provar, não prova nada”. Ela o representa como eminentemente fino, sagaz e astuto, e na questão do Espiritismo ela o faz representar o papel de um tolo e de um desastrado. Já que o objetivo de Satã é alimentar o inferno com suas vítimas e arrancar as almas a Deus, compreende-se que ele se dirija àqueles que estão no bem para induzi-los ao mal e que, para isso, ele se transforme, segundo uma bela alegoria, em anjo de luz, isto é, que ele faça o hipócrita simulando a virtude; mas que ele deixe escapar aqueles que já estavam em suas garras, é o que não se pode compreender. Aqueles que não crêem em Deus nem em sua própria alma, que desprezam a prece e estão jogados no vício são dele tanto quanto é possível ser; ele não tem nada a acrescentar para afundá-los mais no lamaçal. Ora, instigá-los a voltar para Deus, a orar, a se submeterem à sua vontade, encorajá-los a renunciar ao mal, mostrando-lhes a felicidade dos eleitos, e a triste sorte que aguarda os perversos, seria o ato de um ingênuo, mais bobo do que se dar liberdade a pássaros de gaiola com a idéia de tornar a agarrá-los em seguida. Portanto, na teoria da comunicação exclusiva dos demônios, há uma contradição que impressiona todo homem sensato, porque ninguém se convencerá nunca de que os espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o renegavam, ao bem aqueles que faziam o mal, que consolam os aflitos, dão força e coragem aos fracos, que, pela sublimidade de seus ensinamentos, elevam a alma acima da vida material, sejam os cúmplices de Satã, e que, por esse motivo, deve-se impedir toda relação com o mundo invisível. O padre: — Se a Igreja proíbe as comunicações com os espíritos dos mortos é porque são contrárias à religião, assim como são formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés.(57) Pronunciando a pena de morte contra essas práticas, Moisés prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus. A.K.: — Eu lhe peço desculpas, mas essa proibição não se encontra em parte alguma do Evangelho, ela está somente na lei mosaica. Trata-se, então, de saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da lei evangélica; falando de uma forma diferente: se ela é mais judaica do que cristã. Deve-se mesmo observar que, de todas as religiões, a que tem feito menos oposição ao Espiritismo, é a Judaica, e que ela não recorreu à lei de Moisés, sobre a qual se apóiam as seitas cristãs, contra as evocações. Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã, por que vetar a leitura da Bíblia? O que se diria se fosse proibido a um cidadão estudar o código das leis do seu país? A proibição feita por Moisés tinha, na época, a sua razão de ser, porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os costumes herdados dos egípcios, ainda mais que, aquele a que nos referimos aqui, era motivo de abusos. Os mortos não eram evocados pelo respeito e afeição a eles, nem com sentimento de piedade, mas como um meio de adivinhação, o objeto de um tráfico odioso explorado pelo charlatanismo e a superstição; Moisés, portanto, teve razão ao proibi-lo. Se ele decretou uma penalidade severa contra esse abuso, é porque eram necessários meios rigorosos para disciplinar aquele povo; a pena de morte também era muito empregada na sua legislação. Provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos, apoiando-se na severidade do castigo, é um erro. Se a proibição de evocar os mortos vem mesmo de Deus, como a Igreja afirma, deve ter sido Deus quem ordenou a pena de morte contra os delinqüentes. Essa pena, portanto, tem uma origem tão sagrada quanto a proibição, por que não a conservaram? Moisés promulgou todas essas leis em nome de Deus, e por sua ordem; por que elas não são mais observadas se acreditam que Deus seja o seu autor? Se a lei de Moisés é, para a Igreja, um artigo de fé sobre um ponto, por que não o é sobre todos? Por que recorrem a ela no que têm necessidade e a repudiam no que não convém? Por que não seguem todas as suas prescrições, a circuncisão entre outras, que Jesus sofreu e não aboliu? Havia na lei mosaica duas partes: primeiro, a lei de Deus, resumida nas tábu-as do Sinai; esta lei permaneceu porque é divina e o Cristo apenas a desenvolveu; segundo, a lei civil ou disciplinar apropriada aos costumes do tempo, e que o Cristo aboliu. Hoje as circunstâncias não são mais as mesmas, e a proibição de Moisés não tem sentido. Aliás, se a Igreja proíbe chamar os espíritos, ela poderá impedir que eles venham sem serem chamados? Diariamente não se vêem pessoas que jamais se ocuparam com o Espiritismo, e que nem o conheciam antes que ele fosse divulgado, terem manifestações de todos os gêneros? Outra contradição: se Moisés proibiu evocar os espíritos dos mortos, então é porque esses espíritos podem vir, caso contrário a sua proibição seria inútil. Se, na época de Moisés, eles podiam vir, ainda hoje eles podem fazê-lo; se são os espíritos dos mortos, logo não são exclusivamente demônios. É preciso ser lógico antes de tudo. O padre: — A Igreja não nega que bons espíritos possam se comunicar, já que reconhece que os santos se manifestam; no entanto ela não pode considerar como bons aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. Os espíritos ensinam as penas e as recompensas futuras, mas eles não as ensinam da mesma forma que a Igreja, somente ela pode julgar seus ensinamentos e discernir os bons dos maus. A. K: — Eis a grande questão. Galileu(58) foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demônio, porque veio revelar uma lei da Natureza provando o erro de uma crença que se julgava inatacável. Se fossem considerados como “bons” aqueles que vieram contradizer todos os pontos que estão de acordo com a opinião exclusiva da Igreja ou se não tivessem proclamando a liberdade de consciência e condenado certos abusos, eles teriam sido os bem-vindos e não seriam qualificados de demônios. É essa também a razão pela qual todas as religiões, os muçulmanos como os católicos, se acreditam de posse exclusiva da verdade absoluta, olhando como obra do demônio toda doutrina que, do seu ponto de vista, não seja inteiramente ortodoxa. Ora, os espíritos não vêm derrubar a religião, mas, da mesma forma que Galileu, revelar novas leis da Natureza. Se alguns pontos de fé são atingidos, é porque, da mesma forma que a crença no movimento do Sol em torno da Terra, eles estão em contradição com essas leis. A questão é saber se um artigo de fé pode anular uma lei da Natureza que é a obra de Deus, e se, sendo essa lei reconhecida, não é mais sensato interpretar o dogma segundo a lei em lugar de atribuí-la ao demônio. O padre: — Deixemos a questão dos demônios; eu sei que ela é interpretada de diversas formas pelos teólogos, porém a teoria da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas, já que ela é a metempsicose(59) de Pitágoras renovada. A. K.: — Este não é o momento de discutir uma quest ão que exigiria longos desenvolvimentos; o senhor a encontrará tratada no O Livro dos Espíritos e no O Evangelho Segundo o Espiritismo,(60) sobre o assunto direi apenas duas palavras. A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem para os animais, o que implicava uma degradação. Entretanto, essa doutrina não era o que vulgarmente se acredita. A transmigração para os animais não era considerada como uma condição inerente à natureza da alma humana, mas como um castigo temporário; assim, as almas dos assassinos passariam pelos corpos de animais ferozes para ali receber sua punição; a dos impudicos pelos porcos e javalis; a dos inconstantes e levianos pelos pássaros; a dos preguiçosos e ignorantes pelos animais aquáticos. Após alguns milhares de anos, mais ou menos, segundo a culpabilidade dessa espécie de prisão, a alma voltava à humanidade. Logo, a encarnação animal não era uma condição absoluta, e ela se aliava, como se vê, à encarnação humana, e a prova disso é que a punição dos homens tímidos consistia em passar por corpos de mulheres expostas ao desprezo e às injúrias.(61) Era uma espécie de “bicho-papão” para os simples, bem mais que um artigo de fé entre os filósofos. Assim como se diz às crianças: “se vocês forem más, o lobo comerá vocês”, os antigos diziam aos criminosos: “vocês se transformarão em lobos”, e hoje lhes dizem: “o diabo pegará vocês e os levará para o inferno.” A pluralidade das existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, porque ela não admite a encarnação da alma nos animais, mesmo como punição. Os espíritos ensinam que a alma não retrocede, mas progride sempre. Suas diferentes existências corporais se realizam na humanidade; cada existência é para ela um passo adiante na estrada do progresso intelectual e moral, o que é bem diferente. Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma única existência, muitas vezes abreviada por causas acidentais, Deus lhe permite continuar, em uma nova encarnação, a tarefa que ela não pôde acabar, ou então recomeçar o que fez errado. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos.
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Título O Padre
Capítulo I
Título do Capítulo Pequena Conferência Espírita
Tradutor Albertina Escudeiro Sêco
Editora CELD
Edição 1ª edição, 2008
ISBN 978-85-7297-421-9