Isso tem sido demonstrado inúmeras vezes, pois os fenômenos cessam quando se afasta a pessoa que, sem o saber, funciona como médium. Há casos em que os fenômenos 'acompanham' a pessoa por onde ela for, ou seja, continuam ocorrendo na sua presença, onde quer que ela esteja.
Tive uma pessoa dessas na família. Uma ocasião em que passou uns dias conosco, ouvíamos barulhos inexplicáveis, como se alguém estivesse atirando pedras de pequeno tamanho sobre o telhado e dentro de casa. As pedrinhas caíam sobre os tacos do piso com o ruído característico. Uma delas, pelo menos, eu peguei no pequeno corredor interno. Os fenômenos ocorriam tal como Kardec observa, ou seja, à revelia da pessoa que parecia suprir as energias necessárias à ocorrência deles.
Concluiu Kardec: Essas pessoas ignoram possuir faculdades mediúnicas, razão por que lbes chamamos médiuns naturais. São, com relação aos outros médiuns, o que os sonâmbulos naturais são relativamente aos sonâmbulos magnéticos e tão dignos, como aqueles. de observação. (Idem).
Há, portanto, uma categoria de mediunidade espontânea, natural, já em fase operacional e outra que precisa ser cultivada, desenvolvida e treinada a fim de que manifeste todo o seu potencial.
Pela riqueza da fenomenologia anímica e mediúnica ocorrida com Regina, estou convicto de que ela foi, desde o início, médium natural que apenas precisava acomodar-se a um contexto acolhedor e receptivo em que pudesse realizar suas tarefas. Isso não quer dizer que não precisasse ainda fazer alguns ajustes nas suas faculdades ou que nada mais tivesse a aprender e desenvolver. Infelizmente, porém, são muitos os que entendem que desenvolver faculdades mediúnicas é padronizá-las, impor-lhes uma verdadeira camisa-de-força, proibindo autoritariamente qualquer característica pessoal. Em outras palavras: os médiuns de determinado grupo têm de produzir os mesmos fenômenos, de maneira idêntica, desde a postura física até o tom da voz; não podem movimentar-se mais do que o mínimo tolerável; se é mulher, não pode falar com voz grave quando o manifestante for o espírito de um homem; se o espírito ainda está preso à gagueira, o médium não pode gaguejar; se deseja assinar o seu nome e esse nome for considerado importante, não deve permitir que o faça ou estará sendo mistificado, quando não seja o próprio mistificador.
Com tantas obstruções, inibições e freios psíquicos, a comunicação que sai 'do outro lado' de tão densa barreira pouco tem de sua autenticidade e espontaneidade originárias. Ou seja, não é mais o que o manifestante pensou realizar. O fenômeno produzido ou a comunicação transmitida terá como elemento predominante a contribuição do médium e não a do espírito manifestante, o médium deve ser disciplinado e exercer controle sobre o fenômeno, mas não a ponto de inibi-lo ou deformá-lo. AÍ, sim, é que o fenômeno tem mais a ver com animismo do que com mediunidade.
O que se tem a evitar é que a mediunidade natural se exerça sem nenhum controle ou método, em qualquer lugar, a qualquer momento, à inteira revelia do sensitivo, o que não era, definitivamente, o caso de Regina. Kardec afirma que...
"... o que há a fazer-se quando uma faculdade dessa natureza se desenvolve espontaneamente num indivíduo, é deixar que o fenômeno siga o seu curso natural: a natureza é mais prudente do que os homens". (Kardec. Allan, 1975) A observação é sobre médiuns de efeitos físicos, mas é claro que a mediunidade espontânea e natural não ocorre somente nessa categoria, dado que são inúmeros os médiuns que começam a ouvir vozes, testemunhar vidências, psicografar ou até receber espíritos por incorporação, sem que tenham qualquer noção do que lhes esteja acontecendo e nenhum conhecimento teórico sobre a mediunidade. Há, pois, médiuns naturais em qualquer das modalidades conhecidas. Um desses - que se tornaria excelente médium dotado de várias faculdades e teria até projeção nacional - disse-me que não passou por nenhum processo específico de 'desenvolvimento'. Na primeira vez que se sentou à mesa mediúnica, tomou o lápis e psicografou uma comunicação aceitável.
O que é necessário em tais casos, no dizer de Kardec, é que "o indivíduo passe do estado de médium natural ao de médium voluntário". Ou seja: é preciso que o médium aprenda a controlar, pelo poder de sua vontade, a sua mediunidade natural, não a obstruí-la ou deformá-la com a finalidade de padronizá-la segundo modelos arbitrariamente predeterminados.
Tanto é assim que, ainda no capítulo XIV de O Livro dos Médiuns, Kardec recomenda que...
"a faculdade de ver os espíritos pode, sem dúvida, desenvolver-se, mas é uma das que convém esperar o desenvolvimento natural, sem o provocar não se querendo ser joguete da própria imaginação".
Um ou outro fenômeno espontâneo e ocasional não precisa ser tomado como indício de mediunidade a ser desenvolvida e praticada, dado que todos nós, seres encarnados, temos certo grau de sensibilidade e estaremos sujeitos a episódios mediúnicos esparsos. "A mediunidade", escreve Boddington apenas um dos roteiros evolutivos. Outros podem ser mais fáceis para percorrer. Quando, porém, começam a ocorrer com certa freqüência necessitam de atenção, cuidados e esclarecimentos que dificilmente o iniciante tem condições de prover por si mesmo. O mais comum é que comece a rejeitar os fenômenos, seja porque tenha assumido uma atitude preconcebida quanto a eles - ceticismo, convicções materialistas ou ortodoxo-religiosas -, seja porque teme as manifestações ou as considere como sintomas de perturbação mental. São muitos, portanto, os obstáculos iniciais que a mediunidade encontra logo nas suas primeiras manifestações.
Regina, por exemplo, demorou algum tempo a descobrir que os fenômenos que produzia ou testemunhava estavam devidamente estudados e classificados no contexto da doutrina espírita, que ela ignorava. Mas, pelo menos, não se apavorou e não os rejeitou sumariamente. Ao contrário, habituou-se a conviver com eles e considerá-los naturais, embora insólitos. Mesmo assim, passou por um longo período de perplexidade e chegou a temer pela sua sanidade mental.
De fato, é difícil assimilar um conjunto de fenômenos tão ricos e vivos como os que aconteciam com ela e à sua volta, saber-se o epicentro, o elemento gerador deles e ignorar o que realmente está se passando, qual o significado e finalidade de tudo aquilo e o que lhe compete fazer.
Mesmo nos médiuns naturais, portanto, o processo de esclarecimento, entendimento de tudo aquilo, não está livre de umas tantas crises que precisam ser identificadas e superadas. Que crises são essas? Já mencionamos algumas: rejeição dos fenômenos, por exemplo. Se o médium em potencial é materialista, católico praticante, ou protestante convicto - pois a mediunidade desconhece tais condições e fronteiras -, julga -se vitimado por alucinações, ilusões de ótica, ou pelo 'demônio', ou necessitado de exorcismo. Há os que experimentam um pavor realmente patológico de tudo quanto diga respeito a espíritos.
Em qualquer de tais situações, podem ocorrer crises emocionais das quais resultem problemas graves de perturbação. Há pessoas que tanto se obstinam em rejeitar até mesmo um simples exame do assunto que levam uma vida inteira pressionadas por mediunidades embotadas às quais não dão oportunidade de desenvolvimento e de utilização racional e equilibrada a serviço do próximo e, afinal de contas, de si mesmas.
Como vimos há pouco e convém insistir, fenômenos esparsos e ocasionais são sempre indícios de uma forma ou outra de mediunidade em potencial, mas não significam, necessariamente, que a pessoa tenha vindo com o compromisso da tarefa mediúnica, mesmo porque sempre nos resta o direito ao livre-arbítrio. Só porque a mocinha viu o espírito da falecida vovó não temos de levá-la imediatamente a um centro espírita para 'desenvolver-se'. Calma.
Se, porém, os fenômenos continuam a ocorrer e de maneira variada - vidência, efeitos físicos, desdobramentos conjugados com episódios nitidamente mediúnicos, e coisas desse tipo - então é chegada a hora de procurar alguém que possa opinar com conhecimento de causa e orientar com segurança.
Além do mais, a fenomenologia que ocorre nessa primeira fase quase nunca é disciplinada e de elevado teor espiritual. A mediunidade raramente começa com a manifestação suave de entidades de elevada condição evolutiva. Isto é particularmente crítico nos fenômenos de efeito físico, como adverte o sempre seguro Kardec, no capítulo XIV de O Livro dos Médiuns: "Os seres invisíveis que revelam sua presença por efeitos sensíveis são, em geral.
espíritos de ordem inferior e que podem ser dominados pelo ascendente moral. A aquisição deste ascendente é o que se deve procurar".
De fato, é comum que esses primeiros chamamentos para a tarefa mediúnica sejam algo incômodos. insistentes e até perturbadores (achamos sempre inoportuno aquele que nos desperta para o trabalho do dia). É como um processo de iniciação. Torna-se necessário vencer os obstáculos iniciais a fim de que o caminho fique desobstruído para que espíritos de mais elevada condição se aproximem.
Essa primeira crise, portanto, precisa ser superada com equilíbrio, paciência e vigilância. O médium em potencial tem de conquistar o que Kardec define como "ascendente moral" pelo seu procedimento correto, protegido, pelo recurso da prece.
O problema seguinte está em procurar entender o que se passa com o indivíduo. Os fenômenos que se sucedem e o inquietam ou lhe trazem conflitos íntimos (já imaginou um materialista convicto que começa a ver espíritos?) precisam ser avaliados com serenidade e isenção. É preciso recorrer a alguém que realmente tenha condições de o ajudar. Não adianta tentar ignorar o problema. Ele existe e persistirá. Especialmente quando há compromissos programados para o exercício mediúnico como ser encarnado.
Chegou a hora da busca. O que está acontecendo? O que significa tudo isso? Que finalidade tem? O que devo fazer? Estou louco?