XIII
Especulações ociosas nada resolvem. Nem hesitações ou adiamentos. É preciso enfrentar o problema e buscar ajuda de alguém que saiba, queira e possa contribuir decisivamente para esclarecimento dos problemas suscitados. Quatro alternativas diferentes podem ocorrer: 1) ausência de orientação, quando o médium iniciante acha que pode resolver sozinho suas faculdades. O risco é grande de acabar mesmo perturbado ou obsessivo, joguete de espíritos irresponsáveis ou vingativos; 2) orientação inadequada, quando a pessoa chamada a opinar não está suficientemente qualificada, agrava a situação com sugestões e 'palpites' de 'entendido' incompetentemente, o que acarreta complicações verdadeiramente desastrosas; 3) desorientação, quando o médium iniciante se apavora, entra em pânico e, em vez de proocurar examinar serenamente a situação e avaliar tudo com bom senso, atira-se atabalhoadamente a uma atividade febril e desordenada, adotando tudo quanto seja sugestão, comparecendo a qualquer centro que lhe seja indicado, submetendo-se a qualquer treinamento ou ritual que lhe digam necessário para desenvolver suas faculdades. Pode ser até que seja um excelente médium em potencial, mas estará em sérias dificuldades dentro em pouco; 4) orientação correta, neste caso, o médium incipiente teve a sorte (ou o bom senso) de encontrar a pessoa certa que o ajuda a ordenar as coisas, orientando-o a observar os fenômenos com espírito crítico, a estudar os aspectos teóricos da questão em livros confiáveis e, eventualmente, a integrar-se num grupo que lhe proporcione as condições de que necessita para desenvolver a sua tarefa. Em suma: é preciso admitir que o problema existe e buscar ajuda competente para avaliar a situação e finalmente traçar (e cumprir) um programa de estudo e treinamento. 3. MEDIUNIDADE E SENSIBILIDADE Só há fenômenos mediúnicos quando o sensitlvo funciona como intermediário entre espíritos e seres humanos encarnados. Nos demais casos, ele é apenas uma pessoa dotada de certa sensibilidade para perceber o que se passa na realidade II que aos demais seres encarnados é, habitualmente, imperceptível. Vejamos se conseguimos explicar isso graficamente. Assim, por exemplo: A) FENÔMENO ANÍMICO; B) FENÔMENO MEDIÚNICO: O que vemos aí? No primeiro caso, o do fenômeno anímico, o sensitivo fica entre as duas realidades, usualmente com o corpo físico em, uma delas (número 1) e o perispírito na outra (II). Pode assim contemplar: realidade II como que embutida na realidade I (caso da janela psíquica de que falamos anteriormente) ou apenas a realidade II, sem nenhuma obstrução ou interferência da de número I, quando, por exemplo, se desloca no espaço ou no tempo e vai a locais onde certos eventos estão ocorrendo, já ocorreram ou ainda irão acontecer. Ele não está servindo de intermediário entre espíritos desencarnados e seres humanos encarnados. É apenas um sensitivo que dispõe de faculdades que lhe permitem perceber uma faixa mais ampla da realidade global. Ou ainda: é um ser que, além da visão normal ou da audição normal, tem também a visão diencefálica e audição coclear. Já no fenômeno mediúnico o processo é diferente. Ele se destaca, se isola da realidade I, na qual vive, e se coloca em posição tal que permite a um ser da realidade II transmitir-lhe imagens, sons, pensamentos, idéias, emoções, operando-lhe o corpo físico através dos dispositivos de controle localizados no corpo perispiritual. No fenômeno anímico ele é um observador direto, tem um papel ativo, relata uma experiência pessoal de contato com a realidade II, fenômeno mediúnico o seu papel é passivo, funcionando como instrumento de comunicação após destacar-se ou isolar-se da realidade I, abstraindo-a. Coloca-se, a seguir, numa posição intermediária na qual se torna acessível aos seres que vivem na realidade II, transmitindo aos que ficaram na realidade I, à qual pertence pelo corpo físico, aquilo que é induzido a transmitir. Seu papel é semelhante ao de um telefone, por meio do qual duas pessoas conversam, ao de um teletipo que transmite mensagens escritas, ou ao de um rádio transmissor que funciona como intermediário de sons. Na realidade, porém, o médium é muito mais do que um telefone, um teletipo ou um transmissor de rádio ou tv porque, por mais passiva que seja a sua postura, é sempre um ser pensante, dotado de livre-arbítrio, condicionado ao seu grau de cultura e evolução, de moral e inteligência, de fidelidade ou dedicação, de harmonia ou desarmonia íntimas. Dessa forma, o pensamento que ele recebe da entidade manifestante acaba retocado com um tom mais leve ou mais carregado de seu próprio colorido pessoal. Um dos eminentes pesquisadores ingleses desencarnado, empenhado em transmitir seu pensamento através de um médium - e dos bons -, ficou impressionado ante as dificuldades que teve de enfrentar. Disse que era o mesmo que falar através de uma grossa placa de vidro a uma secretária meio surda e não muito competente (em verdade, chamou-a de burra - stupid). Ele poderia ter acrescentado que, quase sempre, o vidro está meio sujo, o colorido é muito forte ou há um barulho terrível do lado do médium e coisas assim. Como um aparelho transmissor, o médium também está sujeito a períodos tempestuosos, estática emocional, defeitos técnicos, antena quebrada ou fora de posição, circuitos internos deficientes. O bom médium, portanto, é aquele que mantém o seu vidro bem limpo, não permite que as paixões carreguem nas suas cores e está atento o bastante ao que lhe dizem do outro lado. Procura, ainda, ser um secretário competente, estudando e aperfeiçoando sua técnica, buscando adquirir uma boa cultura geral, (se possível com conhecimento de outros idiomas), ter um comportamento pessoal condigno, desenvolver hábitos de civilidade, ser atento e cuidadoso para evitar erros ou interpretações defeituosas. Nada retirar ou acrescentar aos textos ou às informações que lhe incumbiram de transmitir. Voltaremos ao assunto quando cuidarmos do complexo processo de desenvolvimento mediúnico. No momento, temos ainda outra observação a acrescentar. 4. FENÔMENOS MISTOS Repassando na mente alguns dos fenômenos relatados neste livro, podemos notar que alguns deles são mistos, ou seja, não são totalmente anímicos. Isto quer dizer que, em muitos deles, há participação ostensiva, presumida ou inferida, de espíritos desencarnados. O sensitivo desdobrado encontra-se com outros espíritos e realiza certas tarefas em conjunto com eles sem, contudo, nada ter a transmitir, ou seja, sem funcionar como intermediário entre esses espíritos e os seres encarnados. Pode ser que ele assista a uma projeção de imagens suscitadas por uma regressão da memória espontânea, mas também pode ser que tais projeções sejam promovidas por companheiros espirituais invisíveis que o tenham induzido à condição que lhe permite o acesso a tais imagens. No caso dos rapazes australianos afogados, por exemplo, o sensitivo funcionou também como médium. Ou seja, ele desdobrou-se, assistiu a toda a aventura, em replay, narrou-a com minúcias para os pais e, posteriormente, atuou como médium para um dos rapazes. Na primeira parte do trabalho, ele operou ativamente, deslocando-se no tempo e no espaço, observando e narrando o que via. Na segunda, funcionou passivamente, limitando-se a transmitir o que lhe 'dizia' o jovem recém-desencarnado por afogamento. São muitos, portanto, os fenômenos ou os episódios dentro de cada fenômeno específico em que o animismo é suscitado, apoiado ou dirigido pelos espíritos, o que equivale dizer que são fenômenos anímicos com um componente mediúnico. Não nos arriscaríamos a fixar limite percentuais para essa participação. Como dizia Lutero, estaríamos tentando medir o vento com uma vara. Digamos, porém, para figurar uma hipótese de trabalho, que o fenômeno anímico fosse de cor amarela e o fenômeno mediúnico de cor azul. Neste caso, a fenomenologia mista resultante teria uma coloração esverdeada, desde o verde pálido mais suave até os tons mais carregados de verde, dependendo não apenas tonalidade original de cada cor como da dosagem de cada uma na composição do tom final. O que pretendo deixar bem marcado é que pode haver - e, com freqüência, há mesmo - um componente mediúnico em muitos fenômenos anímicos. Essa participação pode ser ostensiva ou facilmente identificada quando o sensitivo vê, ouve e conversa mentalmente com os espíritos durante o desenrolar dos fenômenos anímicos, ou apenas percebe a presença deles, intuitivamente, mas não os vê nem os ouve. Ou, afinal, não tem a menor idéia de que eles estejam por ali, a participar ou até a promover os fenômenos. É difícil, portanto, no estado atual dos nossos conhecimentos, determinar com maior precisão até que ponto o fenômeno anímico traz consigo um componente mediúnico, ou seja, a participação de espíritos desencarnados. Acredito que mais tarde isto ficará mais bem-definido ainda que não com rigor matemático, em tantos microvolts para cada um, segundo a deliciosa brincadeira de Guy Lyon Playfair em seu livro "The indefinite boundaries. 5. FENÔMENO MEDIÚNICO PURO? E isto nos leva a uma recíproca não menos autêntica. Será que todo fenômeno mediúnico é puro ou, para usar o impacto preciso dos números, cem por cento mediúnico, sem participação anímica? Estou consciente de que minha resposta poderá surpreender ou até mesmo desagradar a muita gente, mas não vejo como deixar de dizer não. Como ficou dito alhures, no meu entender, não há fenômeno mediúnico puro, pois haverá neles, sempre, um inevitável componente anímico. A razão é simples, direta, objetiva e irrecusável: a comunicação mediúnica só se torna possível quando o espírito se utiliza de um companheiro encarnado, ou seja, de uma alma (anima = espírito encarnado, como a conceituaram os espíritos). É o que está dito, sem rodeios nem meias palavras, na resposta à questão número 134 de O livro dos espíritos: - Que é alma? - perguntou Kardec. - Um espírito encarnado - responderam os espíritos.
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Nome do Capítulo Mediunidade