1. INTRODUÇÃO
Temos visto, reiteradamente, neste estudo, que os fenômenos psíquicos se enquadram em duas categorias distintas: A-os anímicos - produzidos pelo espírito do próprio sensitivo, ainda que, eventualmente em colaboração ou com o suporte de espíritos desencarnados B -e os mediúnicos - nos quais o sensitivo é que se coloca na posição de colaborador de espíritos desencarnados, cedendo-lhes, nem sempre voluntariamente, o comando temporário de seu corpo físico, via perispírito, a fim de que o ser desencarnado, que não dispõe no momento de seu próprio corpo material, possa comunicar-se com os encarnados.
No primeiro caso, ou seja, no animismo, a realidade percebida pelo sensitivo, por ele interpretada e transmitida, não tem, em princípio, necessidade de outro ser encarnado ou desencarnado que participe do fenômeno. É como se qualquer um de nós, não dotado de faculdades especiais, estivesse em cima de um muro descrevendo às pessoas que ficaram de um lado o que se passa do outro.
Para facilitar o entendimento de tais fenômenos, embora vivamos todos numa só realidade - a vida - com todas as leis físicas e morais que a regulam, para fins didáticos e de clareza expositiva convém dividir essa realidade única em duas fases ou planos a que chamaremos realidade I e realidade II. Digamos que a realidade I seja aquela que percebemos com os nossos sentidos habituais: visão, audição, tato, olfato e paladar.
Não podemos ignorar, a esta altura da civilização, que existe uma realidade II que transcende à de número I e que, portanto, fica fora dos limites impostos aos nossos sentidos habituais. Talvez seja hoje mais fácil compreender essa realidade invisível, inaudível, impalpável, quando nos lembramos de que à nossa volta, onde quer que estejamos, o espaço está literalmente saturado de programas de rádio e tv, dos quais não temos a mínima idéia a não ser que disponhamos da aparelhagem necessária para 'traduzi-los' para um ou mais de nossos sentidos. Mas não só ondas de rádio e tv povoam o espaço à nossa volta. Há sons que nossos ouvidos não captam por estarem programados para uma faixa relativamente estreita de quarenta ou cinqüenta ciclos até doze ou quinze mil, quando muito. Para vinte mil ciclos, somente o ouvido de um cão.
Da mesma forma, para percebermos determinadas vibrações luminosas precisaríamos ter os olhos de um gato ou de uma ave noturna, tanto quanto vibrações mais elevadas, que ultrapassam os limites da nossa visão e nos cegam momentaneamente ou, talvez, para sempre. Videntes experimentados nos dizem que não conseguem ver determinados espíritos de elevada condição evolutiva, por se apresentarem como focos de luz intensíssima.
Assim como somos cegos acima ou abaixo de certos padrões visuais e surdos acima ou abaixo de nossas limitações auditivas, também somos cegos e surdos a fenômenos que ocorrem em planos ou dimensões diferentes do nosso, a não ser que sejamos dotados de faculdades especiais para detectá-las. Tais faculdades, porém, não estão implantadas nos nossos sentidos habituais, como já observamos, e sim, nos centros nervosos que as comandam, pois já vimos que os sensitivos dotados de vidência 'vêem' de olhos abertos ou fechados, indiferentemente, da mesma forma que os dotados de faculdades audientes (não apenas auditiva), 'ouvem' vozes e sons que não vibram ne meio ambiente usual da mesma forma como ouvimos o grito de uma criança ou o latido de um cão que nos chega da rua. Propusemos para esses dois tipos de percepção, como o leitor deve estar lembrado, os nomes de visão diencefálica e de audição coclear.
É certo, portanto, que os encarnados vivem dentro das limitações impostas pela sua própria condição de seres espirituais ligados a um corpo físico. Para voltar à idéia do rádio e da tv, há pouco utilizada, a coisa se passa como se, ao renascer, cada um de nós fosse dotado de um simples radinho de pilha para apenas cinco estações ou, se quisermos ampliar a imagem um receptor portátil de TV para cinco canais, cada um deles correspondendo a um dos nossos sentidos. Não importa que em torno de nós trezentas emissoras de tv estejam em pleno funcionamento e alguns milhões delas pelo mundo afora. Só conseguimos 'receber' som, imagem, cheiro, paladar e tato pelos canais apropriados da nossa instrumentação pessoal, à que estamos condicionados enquanto estivermos na carne. Essa é a nossa realidade. Propus chamá-la de realidade I por ser a que está ao nosso alcance, ou melhor, ao alcance dos sentidos habituais. Sabemos, no entanto, que acima, abaixo, em paralelo, por toda a parte, embutidas umas nas outras sem se misturarem jamais, há uma compacta multidão de vibrações: sons, imagens, movimento, emoção, vida em outra realidade paralela fora do nosso alcance. É o que chamamos realidade II.
Alguns de nós, dotados de faculdades especiais, conseguem perceber sons e imagens da realidade II. São os sensitivos, palavra que lhes assenta bem precisamente porque dispõem de sensibilidade mais apurada do que o comum das pessoas. Não que sejam melhores ou piores, são apenas diferentes. Não se pode dizer que um músico seja melhor do que um pintor ou este pior do que um arquiteto, um médico ou um economista. Cada um aplica seu talento e suas inclinações a determinado ramo de atividade ou conhecimento. O trabalho de um músico ou de um arquiteto só é comparável com o de outro músico ou arquiteto e aí, sim, podemos dizer que um nos parece melhor do que outro. Mesmo assim, muitas vezes por um critério subjetivo, pessoal. Fulano é melhor do que sicrano nesta ou naquela atividade para nós, segundo o nosso modo de observar e avaliar. Apenas isso.
É certo, contudo, que vivemos dentro de uma só realidade, mas, quando encarnados, só temos acesso a uma das faces, ou seja, à realidade I. No entanto, não somos corpos físicos e, sim, seres espirituais, eventualmente aprisionados num corpo material. Somos espíritos, apenas estamos num corpo físico. E por isso, ainda que nossos cinco sentidos não consigam ultrapassar as contigências da realidade I, não podemos ignorar sumariamente a realidade II, dado que, como espíritos, também participamos dela. E é como espíritos que às vezes percebemos fenômenos que ocorrem no seu âmbito. O fenômeno dito anímico é, portanto, uma percepção da realidade II, por quem está condicionado à realidade I.
2. O MÉDIUM
Às vezes, porém, os habitantes da realidade II - os espíritos desencarnados - desejam, por motivações diversas, comunicar-se conosco, fazer-se vistos, ouvidos, percebidos ou transmitir para nós suas idéias, pensamentos, reflexões, sua realidade, enfim. Como não dispõem de corpo físico para isso, precisam tomar emprestado o corpo de alguém que o tenha em condições de sintonia apropriada. Ou, em outras palavras: precisam de um intermediário. Se tomarmos a palavra INTERMEDIÁRIO e a desmontarmos cuidadosamente, veremos que contém um radical (MÉDIO ou meio), um prefixo (INTER) e um sufixo (ÁRIO). O que significa que o intermediário é alguém que fica no meio de duas posições, que se propõem a cena forma de comunicação. O intermediário de um negócio - às vezes chamam-no corretor, por exemplo - é alguém que põe em contato para que se comuniquem e se entendam (ou se desentendam) comprador e vendedor. Ele é, portanto, o termo médio de uma operação de comunicação. Quando a comunicação é espírita, ou seja, entre um espírito desencarnado e os encarnados, dizemos que o intermediário é um MÉDIUM. Por isso é que Allan Kardec conceituou o médium em O livro dos médiuns da seguinte maneira: MÉDIUM - (Do latim medium, meio, intermediário) - Pessoa que pode servir de intermediária entre os espíritos e os homens.
A definição proposta pelo Codificador é irretocável por poucas e boas razões.
1) O médium é uma pessoa, ou seja, um ser humano dotado de certas faculdades especiais de sensibilidade; 2) pode servir, mas nem sempre quer e nem sempre tem tarefas a exercer no campo específico da mediunidade, ou, no âmbito mais limitado desta, poderá ter tarefas em determinado tipo de mediunidade e não em outros; 3) é um instrumento para que a comunicação se faça, mas não a fonte geradora da mensagem, seja ela visual, auditiva, olfativa ou qualquer outra; 4) opera entre espíritos desencarnados, de um lado, e espíritos encarnados, de outro.
Podemos acrescentar um quinto elemento na análise da definição kardequiana - a de que o médium é uma pessoa que serve e, portanto, é um servidor. Cabe-lhe fazê-la com dignidade, fidelidade e honestidade, nada acrescentando, ou subtraindo às impressões que, plantado na realidade I, ele colhe na realidade II, de espíritos desencarnados.
Discorrendo sobre fenômenos de efeito físico - especialmente dos que hoje seriam classificados de poltergeist - Kardec adverte, em O livro dos médiuns, (Cap. V, 91) ser necessário "não atribuir origem oculta a tudo que não (se) compreenda". Acrescenta, logo adiante, que "seria verdadeira superstição ver por toda parte espíritos ocupados em derrubar móveis quebrar louças, provocar, enfim, as mil e uma perturbações que ocorre nos lares, quando mais racional é atribuí-las ao desazo". (Desazo - desmanzelo, desleixo, descuido).
Tais fenômenos ocorrem com relativa freqüência, como se demonstra hoje em extensa e bem-documentada literatura científica. O leitor interessado nesse aspecto particular deve recorrer à publicação O poltergeist de Suzano, de Hernani Guimarães Andrade ou, do mesmo autor poltergeist de Guarulhos.
Quando autênticos - e não devidos ao desazo -, surge uma que que Kardec não hesitou em colocar para os instrutores da Codificação, já que fenômenos mediúnicos precisam de médiuns para ocorrer, médiuns produzem fenômenos físicos aparentemente 'espontâneo'? informa-nos Kardec: Os espíritos nos disseram que, em tal caso, há sempre alguém cujo poder se exerce à sua revelia.
Quer dizer, há alguém por perto que fornece a energia, ainda que inconscientemente.