Barnabé empalideceu ligeiramente, mas Paulo estava sereno e impassível. — Entreguem o que têm ou morrem — exclamou o outro bandido, alçando o punhal. Olhando fixamente o companheiro, o ex -rabino ordenou: — Dá-lhes o dinheiro que resta, Deus suprirá nos sas necessidades de outro modo. Barnabé esvaziou a bolsa que trazia entre as dobras da túnica , enquanto os malfeitores recolhiam, ávidos, a pequena quantia. Reparando nos pergaminhos do Evangelho que os missionários consultavam à luz da tocha improvisada, um dos ladrões interrogou desconfiado e irônico: — Que documentos são esses? Faláveis de um p ríncipe opulento... Ouvimos referências a um tesouro... Que significa tudo isso? Com admirável presença de espírito, Paulo explicou: — Sim, de fato estes pergaminhos são o roteiro do imenso tesouro que nos trouxe o Cristo Jesus, que há de reinar sobre os príncipes da Terra. Um dos bandidos, grandemente interessado, exami nou o rolo das anotações de Levi. — Quem encontrar esse tesouro — prosseguia Paulo, resoluto —, nunca mais sentirá necessidades. Os ladrões guardaram o Evangelho cuidadosamente. — Agradecei a Deus não vos tirarmos a vida — disse um deles. E apagando a tocha bruxuleante, desapareceram na escuridão da noite. Quando se viram a sós, Barnabé não conseguiu dissimular o assombro. — E agora? — perguntou com voz trêmula. — A missão continua bem — glosou Paulo cheio de bom ânimo —, não contávamos com a excelente opor tunidade de transmitir a Boa Nova aos ladrões. O discípulo de Pedro, admirando -se de tamanha serenidade, voltou a dizer: — Mas, levaram-nos, também, os derradeiros pães de cevada, bem co mo as capas... — Haverá sempre alguma fruta na estrada — esclarecia Paulo, decidido — e, quanto às coberturas, não tenhamos maior cuidado, pois não nos faltará o musgo das árvores. E, desejoso de tranqüilizar o companheiro, acres centava: — De fato, não temos mais dinheiro, mas julgo não será difícil conseguir trabalho com os tapeceiros de Antioquia de Pisídia. Além disso, a região está muito distante dos grandes centros e posso levar certas novi dades aos colegas do ofício. Esta circunstância será van tajosa para nós. Depois de tecerem esperanças novas, dormiram ao relento, sonhando com as alegrias do Reino de Deus. No dia seguinte, Barnabé continuava preocupado. Interpelado pelo companheiro, confessou compungido: — Estou resignado com a carência absoluta de recursos materiais, mas não posso esquecer que nos sub trairam também as anotações evangélicas que possuíamos. Como recomeçar nossa tarefa? Se temos de cor grande parte dos ensinamentos, não poderemos conferir todas as expressões... Paulo, todavia, fez um gesto significativo e, desa botoando a túnica, retirou alguma coisa que guardava junto do coração. — Enganas-te, Barnabé — disse com um sorriso otimista —, tenho aqui o Evangelho que me recorda a bondade de Gamaliel. Foi um presente de Simão Pedro ao meu velho mentor, que, por sua vez, mo deu pouco antes de morrer. O missionário de Chipre apertou nas mãos o tesouro do Cristo. O júbilo voltou a iluminar-lhe o coração. Poderiam dispensar todo o conforto do mundo, mas a palavra de Jesus era imprescindível . Vencendo obstáculos de toda sorte, chegaram a Antioquia fundamente abatidos. Paulo, principalmente, a determinados momentos da noite, sentia-se cansado e febril. Barnabé tinha freqüentes acessos de tosse. O primeiro contacto com a natureza hostil acarretara aos dois mensageiros do Evangelho fortes desequilíbrios orgânicos. Não obstante a precária saúde, o tecelão de Tarso procurou informar -se, logo na manhã da chegada, sobre as tendas de artefatos de couro existentes na cidade. Antioquia de Pisídia cont ava grande número de is raelitas. Seu movimento comercial era mais que regular, As vias públicas ostentavam lojas bem sortidas e pequenas indústrias variadas. Confiando na Providência Divina, alugaram um quar to muito simples, e, enquanto Barnabé repousav a da fadiga extrema, Paulo procurou uma das tendas indicadas por um negociante de frutas. Um judeu de bom aspecto, cercado de três auxilia res, entre numerosas prateleiras com sandálias, tapetes e outras utilidades numerosas, atinentes à sua profissão, dirigia extensa banca de serviço. Ciente do seu nome, dado o interesse de sua indagação junto ao comerciante referido, o ex -doutor de Jerusalém chamou pelo senhor Ibraim, sendo atendido com enorme curiosidade. — Amigo — explicou Paulo, sem rodeios —, sou vosso colega de ofício e, premido por necessidades urgen tes, venho solicitar-vos o imenso obséquio de admitir-me nas atividades da vossa tenda. Tenho de fazer longa viagem e, não possuindo recurso algum, apelo para vossa generosidade, esperando favorável acolhimento. O tapeceiro contemplava-o com simpatia, mas, um tanto desconfiado. Espantava-se e agradava-se, simultaneamente, da sua franqueza e desembaraço. Depois de refletir algum tempo, respondeu algo vagamente: — Nosso trabalho é muito escasso e, para us ar de sinceridade, não disponho de capital para remunerar a muitos empregados. Nem todos compram sandálias; os arreamentos de tropa ficam à espera das caravanas que somente passam de tempos a tempos; poucos tapetes ven demos, e se não fossem os tecidos de couro para tendas improvisadas, suponho que não teríamos o necessário para manter o negócio. Como vedes, não seria fácil arranjar-vos trabalho. — Entretanto — tornou o ex-rabino, comovido com a sinceridade do interlocutor —, ouso insistir no pedido. Será t ão-só por alguns dias... Além do mais, ficaria satisfeito em trabalhar a troco de pão e teto, para mim e um companheiro enfermo. O bondoso Ibraim sensibilizou -se com aquela confissão. Depois de uma pausa longa, em que o tapeceiro de Antioquia ainda hesita va entre o “sim” e o “não”, Paulo rematou: — Tão grande é a minha necessidade que insisto convosco, em nome de Deus. — Entrai — disse o negociante, vencido pela argu mentação. Embora doente, o emissário do Cristo atirou -se ao trabalho com afã. Um velho tear foi instalado apressadamente, junto à banca cheia de facas, martelos e peças de couro. Paulo entrou a trabalhar, tendo um olhar amigo e uma boa palavra para cada companheiro. Longe de se impor pelos conhecimentos superiores que possuía, observava o sistema de trabalho dos auxiliares de Ibraim e sugeria novas providências favoráveis ao serviço, com bondade, sem afetação. Comovido pelas suas declarações sinceras, o dono da casa mandou a refeição a Barnabé, enquanto o ex -rabino vencia galhardamente as prim eiras dificuldades, experimentando o júbilo de um grande triunfo. Naquela noite, junto do companheiro de lutas, ele vou a Jesus a prece do mais entranhado agradecimento. Ambos comentaram a nova situação. Tudo ia bem, mas era necessário pensar no dinheiro i ndispensável, com que atender ao aluguel do quarto. Edificado na exemplificação do amigo, agora era Barnabé que procurava confortá-lo: — Não importa, Jesus levará em conta a nossa boa -vontade, não nos deixará ao desamparo. No dia seguinte, quando Paulo reg ressou da oficina, teve de esperar o companheiro, com alguma ansiedade. O mensageiro de Ibraím, que levara a refeição de Barnabé, não o havia encontrado. Após alguma inquietação, o ex rabino abriu-lhe a porta com inexcedível surpresa. O discípulo de Pedro parecia extremamente abatido, mas profunda alegria lhe transbordava do olhar. Explicou que também ele conseguira trabalho remunerador. Em pregara-se com um oleiro necessitado de operários para aproveitar o bom tempo. Abraçaram se comovidos. Se houvessem a lcançado o domínio do mundo, com a for tuna fácil, não experimentariam tanto júbilo. Pequena fração de serviço honesto lhes bastava ao coração iluminado por Jesus-Cristo. No primeiro sábado de permanência em Antioquia, os arautos do Evangelho dirigiram-se à sinagoga local. Ibraim, satisfeitíssimo com a cooperação do novo em pregado, dera-lhe duas túnicas usadas, que Paulo e Barnabé envergaram com alegria. Toda a população “temente a Deus” comprimia -se no recinto. Sentaram -se os dois no local reservado aos visitantes ou desconhecidos. Terminado o estudo e comentários da Lei e dos Profetas, o diretor dos serviços religiosos perguntou-lhes, em voz alta, se desejariam dizer algumas palavras aos presentes. De pronto, Paulo levantou -se e aceitou o convite. Dir igiu-se à modesta tribuna em atitude nobre e começou a discorrer sobre a Lei, tomado de eloqüência sublime. O auditório, não afeito a raciocínios tão altos, seguia -lhe a palavra fluente como se houvera encontrado um profeta autêntico, a espalhar maravilhas. Os israelitas não cabiam em si de contentes. Quem era aquele homem de quem se poderia orgulhar o próprio Templo de Jeru salém? Em dado momento, contudo, as palavras do orador passaram a ser quase incompreensíveis para todos. Seu verbo sublime anunciava u m Messias que já viera ao mundo. Alguns judeus aguçaram os ouvidos. Tratava -se do Cristo Jesus, por intermédio de quem as criaturas deveriam esperar a graça e a verdade da salvação. O ex doutor observou que numerosas fisionomias mostra vam-se contrariadas, mas a maioria escutava-o com indefinível vibração de simpatia. A relação dos feitos de Jesus, sua exemplificação divina, a morte na cruz, arran cavam lágrimas do auditório. O próprio chefe da sinagoga estava profundamente surpreendido... Terminada a longa oração, o novo missionário foi abraçado por grande número de assistentes. Ibraim, que acabava de conhecê -lo sob novo aspecto, cumprimentou-o radiante. Eustáquio, o oleiro que dera trabalho a Bar nabé, aproximou-se para as saudações, altamente sensi bilizado. Os descontentes, no entanto, não faltaram. O êxito de Paulo contrariou o espírito fariseu da assembléia. No dia imediato, Antioquia de Pisídia estava em polgada pelo assunto. A tenda de Ibraim e a olaria de Eustáquio foram locais de grandes discussões e entendimentos. Paulo falou, então, das curas que se poderiam fazer em nome do Mestre.