Dentro de poucos dias, singela embarcação deixa va-os em Atália, onde Paulo e Barnabé encontraram sin gular encanto nas paisagens que circundavam o Cestro. Nessa localidade muito pobre, pregaram a Boa Nova ao ar livre, com êxito imenso. Observando no compa nheiro um traço superior, Barnabé como que entregara a chefia do movimento ao ex-rabino, cuja palavra, então, sabia despertar encantadores arrebatamentos, O povo simples acolheu a pregação de Paulo, com profundo inte resse. Ele falava de Jesus, como de um príncipe celestial, que visitara o mundo e fora esperar os súdi tos amados na esfera da glorificação espiritual. Via -se a atenção que os habitantes de Atália dispensaram ao assunto. Alguns pediram cópias das lições do Evangelho, outros procuravam obsequiar os mensageiros do Mestre com o que possuíam de melhor. Muito comovidos, recebiam as carinhosas dádivas dos novos amigos, que, quase sem pre, se constituíam em pratos de pão, laranjas ou peixe. A permanência na localidade trouxera novos pro blemas. Era indispensável alguma atividade culinária. Barnabé, delicadamente, d esignou o sobrinho para o mister, mas o rapaz não conseguia disfarçar a contrariedade. Notando -lhe o constrangimento, Paulo adiantou -se, pressuroso: — Não nos impressionemos com os problemas na turais. Procuremos restringir, doravante, as necessida des e gostos alimentares. Comeremos apenas pão, frutas, mel e peixe. Destarte, o trabalho de cozinha ficará sim plificado e reduzido à preparação dos peixes assados, no que tenho grande prática, desde o meu retiro lá no Tauro. Que João não se amofine com o prob lema, pois é justo que essa parte fique a meu cargo. Não obstante a atitude generosa de Paulo, o rapaz continuou acabrunhado. Em breve a missão alugava um barco, largando -se para Perge. Nesta cidade, de regular importância para a região em que se localizav a, anunciaram o Evangelho com imensa dedicação. Na pequena sinagoga, encheram o sábado de grande movimento. Alguns judeus e nume rosos gentios na maioria gente pobre e simples, acolhe ram os missionários, cheios de júbilo. As notícias do Cristo despertaram singular curiosidade e encantamento. O modesto pardieiro, alugado por Barnabé, ficava reple to de criaturas ansiosas por obter cópia das anotações de Levi. Paulo regozijava -se. Experimentava alegria in definível ao contacto daqueles corações humildes e si mples, que lhe davam ao espírito cansado de casuística a doce impressão de virgindade espiritual. Alguns indagavam da posição de Jesus na hierarquia dos deuses do paganismo; outros desejavam saber a razão por que haviam crucificado o Messias, sem consideração aos seus elevados títulos, como Mensageiro do Eterno. A região estava cheia de superstições e crendices. A cultura ju daica restringia-se ao ambiente fechado das sinagogas. A missão, não obstante consagrar seu maior esforço aos israelitas, pregando n o círculo dos que seguiam a Lei de Moisés, interessara as camadas mais obscuras do povo, em razão das curas e do convite amoroso ao Evangelho, movimento esse no qual os trabalhadores de Jesus pu nham todo o seu empenho. Plenamente satisfeitos, Paulo e Barn abé resolveram seguir dali mesmo para Antioquia de Pisídia. Informado a esse respeito, João Marcos não conseguiu sopitar os íntimos receios, por mais tempo, e perguntou: — Supunha que não iríamos além da Panfília. Como, pois, chegar até Antioquia? Não temos recursos para atravessar tamanhos precipícios. As florestas estão infestadas de bandidos, o rio encachoeirado não faculta o trânsito de barcas. E as noites? Como dormir? Essa viagem não se pode tentar sem animais e servos, coisa que não temos. Paulo refletiu um minuto e exclamou: — Ora, João, quando trabalhamos para alguém, de vemos fazê-lo com amor. Julgo que anunciar o Cristo àqueles que não o conhecem, em vista de suas numerosas dificuldades naturais, representa uma glória para nós. O espírito de serviço nunca atira a parte mais difícil para os outros. O Mestre não transferiu sua cruz aos companheiros. Em nosso caso, se tivéssemos muitos escravos e cavalos, não seriam eles os carregadores das responsabilidades mais pesadas, no que se refere às ques tões propriamente materiais? O trabalho de Jesus, entretanto, é tão grande aos nossos olhos que devemos disputar aos outros qualquer parte de sua execução, em benefício próprio. O rapaz pareceu mais angustiado. A energia de Paulo era desconcertante. — Mas não seria mais prudente — continuou muito pálido — demandarmos Alexandria e organizar pelo menos alguns recursos mais fáceis? Enquanto Barnabé acompanhava o diálogo com a serenidade que lhe era peculiar, o ex-rabino continuou: — Dás demasiada importância aos obstáculos. Já pensaste nas dificuldades que o Senhor certamente ven ceu para vir ter conosco? Ainda que pudesse atravessar livremente os abismos espirituais para chegar ao nosso círculo de perversidade e ignorância, temos de considerar a muralha de lodo d e nossas viscerais misérias... E tu te espantas apenas com os palmos de caminho que nos separam da Pisídia? O jovem calou-se, evidentemente contrariado. A argumentação era forte demais, a seus olhos, e não lhe ensejava qualquer nova objeção. Á noite, Barnabé, visivelmente preocupado, aproxi mou-se do companheiro, expondo-lhe as intenções do so brinho. O rapaz resolvera regressar a Jerusalém, de qualquer modo. Paulo ouviu calmamente as explicações, como quem não podia opor qualquer embargo à decisão. — Não poderíamos acompanhá -lo, pelo menos, até algum ponto mais próximo do destino? — perguntou o ex-levita de Chipre, como tio solícito. — Destino? — perguntou Paulo admirado. — Mas já temos o nosso. Desde o primeiro entendimento, pla nejamos a excursão a Antioq uia. Não posso impedir que faças companhia ao rapaz; por mim, contudo, não devo modificar o roteiro traçado. Caso resolvas re gressar, seguirei sozinho. Julgo que as empresas de Jesus têm seu momento justo de atuação. Ë preciso aproveitá -lo. Se deixarmos a visita à Pisídia para o mês próximo, talvez seja tarde. Barnabé refletiu alguns minutos, retrucando con victamente: — Tua observação é incontestável. Não posso que brar os compromissos. Além do mais, João está homem e poderá voltar só. Tem o dinheiro indispensável a esse fim, em virtude dos cuidados maternos. — O dinheiro quando não bem aproveitado — rematou Paulo tranqüilamente — sempre dissolve os laços e as responsabilidades mais santas. A conversação terminou, enquanto Barnabé voltava a aconselhar o sobrinho, altamente impressionado. Daí a dois dias, antes de tomar a barca que o levaria à foz do Cestro, o filho de Maria Marcos despedia -se do ex-doutor de Jerusalém com um sorriso contrafeito. Paulo abraçou-o sem alegria e falou em tom de se rena advertência: — Deus te abençoe e te proteja. Não te esqueças de que a marcha para o Cristo é feita igualmente por fileiras. Todos devemos chegar bem; entretanto, os que se desgarram têm de chegar bem por conta própria. — Sim — disse o jovem envergonhado —, procurarei trabalhar e servir a Deus, de toda a minha alma. — Fazes bem e cumprirás teu dever assim proce dendo — exclamou o exrabino convicto. — Lembra sempre que David, enquanto esteve ocupado, foi fiel ao Todo Poderoso, mas, quando descansou, entregou -se ao adultério; Salomão, durante os serviços pesados da construção do Templo, foi puro na fé, mas, quando chegou ao repouso, foi vencido pela devassidão; Judas começou bem e foi discípulo direto do Senhor, mas bastou a im pressão da triunfal entrada do Mestre em Jerusalém para que cedesse à traição e à morte. Com tantos exem plos expostos aos nossos olhos, será útil não venhamos nunca a descansar. O sobrinho de Barnabé partiu, sinceramente tocado por essas palavras, que o seguiriam, de futuro, como apelo cons tante. Logo após o incidente, os dois missionários deman daram as estradas impérvias. Pela primeira vez, foram obrigados a pernoitar ao relento, no seio da Natureza. Vencendo precipícios, encontraram uma gruta rochosa na qual se ocultaram, para repousar o corpo mortificado e dorido. O segundo dia da marcha escoou-se-lhes com a coragem indômita de sempre. A alimentação constituía-se de alguns pães trazidos de Perge e frutas silvestres, colhidas ali e acolá. Resolutos e bem -humorados, enfrentavam e venciam todos os óbices. De quando em vez, era indispensável ganhar a outra margem do rio, ao toparem barreiras intransponíveis. Ei -los então apalpando o álveo das torrentes, cautelosos, com longas varas verdes, ou desbravando os caminhos perigosos e ignorados. A solidão lhes sugeria belos pensamentos. Sagrado otimismo extravasava dos menores conceitos. Ambos afagavam carinhosas lembranças do passado afetivo e esperançoso. Como homens experimentavam todas as necessidades humanas, mas era profundamente comovedora a f idelidade com que se entregavam ao Cristo, con fiando ao seu amor a realização dos santificados desejos de uma vida mais alta. Na segunda noite acomodaram -se em pequena caverna, algo distante do trilho estreito, logo após os derradeiros tons do crepúsculo . Depois de frugalíssima refeição, passaram a comentar animadamente os feitos da igreja de Jerusalém. Noite fechada e ainda suas vozes quebravam o grande silêncio. Desdobrando os assuntos, passaram a falar das excelências do Evangelho, exaltando a grandeza da missão de Jesus-Cristo. — Se os homens soubessem... — dizia Barnabé fazendo comparações. — Todos se reuniriam em torno do Senhor e descan sariam — rematava Paulo cheio de convicção. — Ele é o Príncipe que reinará sobre todos. — Ninguém trouxe a este m undo riqueza maior. — Ah! comentava o discípulo de Simão Pedro — o tesouro de que foi mensageiro engrandecerá a Terra para sempre. E assim prosseguiam, valendo -se de preciosas imagens da vida comum para simbolizar os bens eternos, quando singular moviment o lhes despertou atenção. Dois homens armados precipitaram -se sobre ambos, à fraca luz de uma tocha acesa em resinas. — A bolsa! — gritou um dos malfeitores.