Uma velha tia do seu patrão foi curada de enfermidade pertinaz, com a simples imposição das mãos e as preces ao Cristo. Dois filhinhos do oleiro restabeleceram-se com a intervenção de Barnabé. Os dois emissários do Evangelho ganharam logo muito conceito. A gente simples vinha solicitar -lhes orações, cópias dos ensinos de Jesus, enquanto muitos enfermos se restabeleciam. Se o bem estava crescendo, a animosi dade contra eles também crescia, da parte dos mais altamente colocados na cidade. Iniciou -se o movimento contrário ao Cristo. Não obstante a continuidade das pregações de Paulo, aumentava, entre os israelitas pode rosos, a perseguição, o apodo e a ironia. Os mensageiros da Boa Nova, entretanto, não desanimaram. Conforta dos pelos mais sinceros, fundaram a igreja na casa de Ibraim. Quando tudo ia bem, eis que o ex-rabino, ainda em conseqüência das vicissitudes experimentadas na tra vessia dos pântanos da Panfília, cai gravemente enfermo, preocupando a todos os irmãos. Durante um mês, esteve sob a influência maligna de uma febre devoradora. Barnabé e os novos amigos foram inexcedíveis em cuidados. Explorando o incidente, os inimigos do Evangelho puseram -se em campo, ironizando a situação. Havia mais de três meses que os dois anunciavam o novo Reino, reformavam as noções religiosas do povo, curavam as moléstias mais pertinazes e, por que motivo o poderoso pregador não se curava a si mesmo? Fervilhavam, assim, os ditos mord azes e os conceitos deprimentes. Os confrades, entretanto, foram de uma dedicação sem limites. Paulo foi tratado com extremos de ternura, no lar de Ibraim, como se houvesse encontrado um novo lar. Após a convalescença, o desassombrado tecelão vol tou mais alvissareiro à pregação das verdades novas. Observando-lhe a coragem, os elementos judaicos, ralados de despeito, tramaram sua expulsão sem qual quer condescendência. Por vários meses o ex-doutor de Jerusalém lutou contra os golpes do farisaísmo domi nante na cidade, mantendo-se superior a calúnias e insul tos. Mas, quando revelava seu poder de resolução e firmeza de ânimo, eis que os israelitas descontentes ameaçam Ibraim e Eustáquio com a supressão de regalias e bani mento. Os dois antigos habitantes de Antioquia de Pisídia eram acusados como partidários da revolução e da desor dem. Altamente comovidos, receberam a notificação de que somente a retirada de Paulo e Barnabé poderia sal vá-los do cárcere e da flagelação. Os missionários de Jesus consideram a penosa situação dos amigos e resolvem partir. Ibraim tem os olhos rasos de lágrimas. Eustáquio não consegue esconder o abatimento. Ante as interrogações de Barnabé, o ex -rabino expõe o plano das atividades futuras. Demandariam Icônio. Pregariam ali as verdades de Deus. O discípulo de Simão Pedro aprova sem hesitar. Reunindo os irmãos em noite memorável para quantos lhe viveram as pro fundas emoções, os mensageiros da Boa Nova se despe dem. Por mais de oito meses haviam ensinado o Evangelho. Afrontaram zom barias e apodos, haviam conhecido provações bem amargas. Seus labores estavam sendo premiados pelo mundo com o banimento, como se eles fossem criminosos comuns, mas a igreja do Cristo estava fundada. Paulo falou nisso, quase com orgulho, não obstante as lá grimas que lhe rolavam dos olhos. Os novos discípulos do Mestre não deveriam estranhar as incompreensões do mundo, mesmo porque, o próprio Salvador não escapara à cruz da ignomínia, acrescentando que a palavra “cristão” significava seguidor do Cristo. Para descobrir e conhecer as sublimidades do Reino de Deus era preciso trabalhar e sofrer sem descanso. A assembléia afetuosa, por sua vez, acolheu as exor tações, lavada em lágrimas. Na manhã imediata, munidos de uma carta de reco mendação de Eustáquio e carregando vasta provisão de pequeninas lembranças dos companheiros de fé, puseram-se a caminho, intrépidos e felizes. O percurso excedente a cem quilômetros foi difícil e doloroso, mas os pioneiros não se detiveram na con sideração de qualquer obstáculo. Chegados à cidade, apresentaram -se ao amigo de Eustáquio, de nome Onesíforo. Recebidos com generosa hospitalidade, no sábado imediato, antes mesmo de fixar-se no trabalho profissional, Paulo foi expor os objeti vos de sua passagem pela região. A estréia na si nagoga provocou animadas discussões, O elemento político da cidade constituía -se de judeus ricos e instruídos na Lei de Moisés; contudo, os gentios representavam, em grande número, a classe média. Estes últimos receberam a pala vra de Paulo com profundo in teresse, mas os primeiros desfecharam grande reação logo de início. Houve tumul tos. Os orgulhosos filhos de Israel não podiam tolerar um Salvador que se entregara, sem resistência, à cruz dos ladrões. A palavra do Apóstolo, entretanto, alcançara tão grand e favor público que os gentios de Icônio ofere ceram-lhe um vasto salão para que lhes fosse ministrado o ensinamento evangélico, todas as tardes. Queriam no tícias do novo Messias, interessavam se pelos seus menores feitos e por suas máximas mais simples. O ex-rabino aceitou o encargo, cheio de gratidão e simpatia. Diaria mente, terminada a tarefa comum, compacta multidão de iconienses aglomerava -se ansiosa por lhe ouvir o verbo vibrante. Dominando a administração, os judeus não tardaram em reagir, mas foi inútil a tentativa de inti midar o pregador com as mais fortes ameaças. Ele continuou pregando intrépida, desassombradamente. Onesí foro, a seu turno, dava-lhe mão forte e, dentro em pouco, fundava -se a igreja em sua própria casa. Os israelitas mantinham viva a idéia da expulsão dos missionários, quando um incidente ocorreu em auxílio deles. É que uma jovem noiva, ouvindo ocasionalmente as pregações do Apóstolo dos gentios, diariamente penetrava no salão em busca de novos ensinamentos. Enlevada com as pro messas do Cristo e sentindo extrema paixão pela figura empolgante do orador, fanatizara -se lamentavelmente, esquecendo os deveres que a prendiam ao noivo e à ternura maternal. Tecla, que assim se chamava, não mais atendia aos laços sacrossantos que deveria honrar no ambiente doméstico. Abandonou o trabalho diuturno para esperar o crepúsculo, com ansiedade. Teóclia, sua mãe, e Tamíris, o noivo, acompanham o caso com desa gradável surpresa. Atribuíam a Paulo semelhante desequilíbrio. O ex-doutor, por sua vez, estranhava a atitude da jovem, que, diariamente, insinuava -se com perguntas, olhares e momices singulares. Certa vez, quando se dispunha a voltar para casa de Onesíforo, em companhia de Barnabé, a moça lhe pediu uma palavra em particular. Ante suas perguntas atenciosas, Tecla corava, ga guejando: — Eu... eu... — Dize, filha — murmurou o Apóstolo um tanto preocupado —, deves considerar-te em presença de um pai. — Senhor — conseguiu dizer ofegante —, não sei por quê, tenho recebido grande impressão com a v ossa palavra. — O que tenho ensinado — esclareceu Paulo — não é meu; vem de Jesus, que nos deseja todo o bem. — De qualquer modo, porém — disse ela com mais timidez —, amo-vos muito!... — Paulo assustou-se. Não contava com essa decla ração. A expressão “amo-vos muito” não era articulada em tom de fraternidade pura, mas com laivos de particularismo que o Apóstolo percebeu sobremaneira im pressionado. Depois de meditar muito na situação impre vista, respondeu convicto: — Filha, os que se amam em espírito, un em-se em Cristo para a eternidade das emoções mais santas; mas, quem sabe está amando a carne que vai morrer? — Tenho necessidade da vossa afeição — exclamou a jovem, de olhar lacrimoso. — Sim — esclareceu o ex-rabino —, mas os dois temos necessidade da afeição do Cristo. Somente ampa rados nele poderemos experimentar algum ânimo em nossas fraquezas. — Não poderei esquecer-vos — soluçou a moça, des pertando-lhe compaixão. Paulo ficou pensativo. Recordou a mocidade. Lem brou os sonhos que tecera ao lado de Abigail. Num minuto, seu espírito devassou um mundo de suaves e angustiosas reminiscências; e como se voltasse de um misterioso país de sombras, exclamou como se falasse consigo mesmo: — Sim, o amor é santo, mas a paixão é venenosa. Moisés recomendou que amássemos a Deus acima de tudo; e o Mestre acrescentou que nos amássemos uns aos outros, em todas as circunstâncias da vida... E fixando os olhos, agora muito brilhantes, na jovem que chorava, exclamou quase acrimonioso: — Não te apaixones por um homem feito de lodo e de pecado, e que se destina a morrer!... Tecla ainda não voltara a si da própria surpresa, quando o noivo desolado penetrou no recinto deserto. Tamíris faz as primeiras objeções em grandes brados, ao passo que o mensageiro da Boa Nova lhe ouve a s reprimendas com grande serenidade. A noiva replica mal -humorada. Reafirma sua simpatia por Paulo, expõe francamente as intenções mais íntimas, O rapaz escan daliza-se, O Apóstolo espera pacientemente que o noivo o interrogue. E, quando convocado a justificar-se, explica em tom fraternal: — Amigo, não te acabrunhes nem te exaltes, em face dos sucessos que se originam de profundas incom preensões. Tua noiva está simplesmente enferma. Estamos anunciando o Cristo, mas o Salvador tem os seus inimigos ocultos em toda parte, como a luz tem por inimiga a treva permanente. Mas a luz vence a treva de qualquer natureza. Iniciamos o labor missionário nesta cidade, sem grandes obstáculos. Os judeus nos ridicularizam e, todavia, nada encontraram em nossos atos que just ifique a perseguição declarada. Os gentios nos abraçam com amor. Nosso esforço desenvolve -se pacificamente e nada nos induz ao desânimo. Os adversários invisíveis, da verdade e do bem, certo se lembraram de influenciar esta pobre criança, para fazê -la instrumento perturbador de nossa tarefa. Ë possível que não me compreendas de pronto; no entanto, a realidade não éoutra. Tamíris, contudo, deixando entrever que padecia da mesma influência perniciosa, bradou enraivecido: — Sois um feiticeiro imundo! Esta é qu e é a verdade.