2ª Parte - Cap. 1: Rumo ao deserto
— Ananias, meu mestre — disse o ex-rabino, com entusiasmo —, onde poderei obter o Evangelho sagrado? O antigo discípulo sorriu com bondade, e observou: — Antes de tudo, não me chames mestre. Este é e será sempre o Cris to. Nós outros, por acréscimo da misericórdia divina, somos discípulos, irmãos na necessidade e no trabalho redentor. Quanto à aquisição do Evangelho, somente na igreja do “Caminho”, em Jerusalém, poderíamos obter uma cópia integral das anotações de Levi. E revolvendo o interior de surrada patrona, reti rava alguns pergaminhos amarelentos, nos quais con seguira reunir alguns elementos da tradição apostólica. Apresentando essas notas dispersas, Ananias acrescen tava: — Verbalmente, tenho de cor quase todos os ensinamentos; mas, no que se refere à parte escrita, aqui tens tudo que possuo. O moço convertido recebeu as anotações, assaz admi rado - Debruçou-se imediatamente sobre os velhos rabis cos e devorava-os com indisfarçável interesse. Depois de refletir alguns minutos, acentuava: — Se possível, pedir-vos-ia deixar-me estes preciosos ensinamentos, até amanhã. Empregarei o dia em copiá -los para meu uso particular. O estalajadeiro me comprará os pergaminhos necessários. E como que já iluminado daquele espí rito missionário que lhe assinalou as menores ações, para o resto da vida, ponderava atento: — Precisamos estudar um meio de difundir a nova revelação com a maior amplitude possível. Jesus é um socorro do Céu. Tardar na sua mensagem é delongar o desespero dos homens. Aliás, a palavra “evangelho” significa “boas notícias”. É indispensável espalhar essas notícias do plano mais elevado da vida. Enquanto o velho pregador do “Caminho” obser vava-o interessado, o convertido de Damasco chamou o hoteleiro para com prar os pergaminhos. Judas surpreendeu-se ao verificar a cura insólita. Satisfazendo -lhe a curiosidade, o jovem de Tarso falou sem rebuços: — Jesus enviou-me um médico. Ananias veio curar -me em seu nome. E antes que o homem se recobrasse do espanto, cumul ava-o de recomendações a respeito dos pergami nhos que desejava, entregando -lhe a quantia necessária. Dando largas ao entusiasmo que lhe ia nalma, diri giu-se novamente a Ananias, expondo-lhe seus planos: — Até aqui, ocupava o meu tempo no estudo e na exeg ese da Lei de Moisés; agora, porém, encherei as horas com o espírito do Cristo. Trabalharei nesse mister até ao fim dos meus dias. Buscarei iniciar meu trabalho aqui mesmo em Damasco. E, fazendo uma pausa, perguntava ao benfeitor que o ouvia em silêncio: — Conheceis na cidade um rapaz fariseu de nome Sadoc? — Sim, é quem tem chefiado as perseguições nesta cidade. — Pois bem — continuava o jovem tarsense aten cioso —, amanhã é sábado e haverá preleção na sinagoga. Pretendo procurar os amigos e falar lhes publicamente do apelo que o Cristo me endereçou. Quero estudar vos sas anotações ainda hoje, porque me darão assunto para a primeira prédica do Evangelho. — Para ser sincero — disse Ananias com a sua experiência dos homens — , acho que deves ser muito prudente nesta nova fase religiosa. É possível que teus amigos da sinagoga não estejam preparados para rece ber a luz da verdade toda. A má-fé tem sempre caminhos para tentar a confusão do que é puro. — Mas se eu vi Jesus, não tenho o direito de ocultar uma revela ção incontestável — exclamou o neófito, como a salientar, antes de tudo, a boa intenção que o animava. — Sim, não digo que fujas do testemunho — explicou, calmo, o velho discípulo —‘ mas devo encarecer a maior prudência nas atitudes, não pela doutrina do Cristo, superior e invulnerável a quaisquer ataques dos homens, mas, por ti mesmo. — Por mim nada posso temer. Se Jesus me res tituiu a luz dos olhos, não deixará de iluminar meus caminhos. Quero comunicar a Sadoc a ocorrência que deu novos rumos ao meu de stino. E o ensejo não poderia ser mais oportuno, porque sei que hospeda em sua casa, ainda agora, alguns levitas de renome, recém-chegados de Chipre. — Que o Mestre te abençoe os bons propósitos — disse o velho sorridente. Saulo sentia-se feliz. A presença de Ananias confortava-o sobremodo. Como velhos e fiéis amigos, almo çaram juntos. Em seguida e sempre satisfeito, o generoso enviado do Cristo retirou -se, deixando o ex-rabino todo entregue à meticulosa cópia dos textos. No dia seguinte, Saulo de Tarso levantou-se lépido e bem disposto. Sentia se revigorado para uma vida nova. As recordações amargas lhe desertaram da memória. A influência de Jesus enchia -o de alegrias subs tanciosas e duradouras. Tinha a impressão de haver aberto uma porta nova em sua a lma, por onde sopravam céleres as inspirações de um mundo maior. Depois da primeira refeição, não obstante o dissa bor que a atitude de Sadoc lhe causara, procurou avis tar-se com o amigo, levado pela sinceridade que lhe pautava os mínimos atos da vida. Nã o o encontrou, contudo, na residência particular. Um servo informou que o amo saíra com alguns hóspedes em direção à sinagoga. Saulo foi até lá. Os trabalhos do dia estavam ini ciados. Fora feita a leitura dos textos de Moisés. Um dos levitas de Citium ha via tomado a palavra para os respectivos comentários. A entrada do ex-rabino provocou curiosidade geral. A maioria dos presentes tinha conhecimento da sua im portância pessoal, bem como do seu verbo ardoroso e seguro. Sadoc, porém, ao vê -lo, fez-se pálido, e mais ainda quando e jovem de Tarso lhe pediu uma palavra em particular. Embora contrafeito, foi-lhe ao encontro. Cumprimentaram -se sem dissimular a nova impressão que, já agora, mantinham entre si. Em face das primeiras observações do novel evan gelista, formuladas em tom amável, o amigo de Damasco explicou, evidenciando o seu orgulho ofendido: — De fato, sabia que estavas na cidade e cheguei mesmo a procurar -te na pensão de Judas; tais foram, porém, as informações do hoteleiro, que me abstive de ir ao teu aposento. E cheguei até a pedir -lhe segredo da minha visita. Com efeito, parece incrível que te ren desses, também tu, passivamente, aos sortilégios do “Caminho”! Não posso compreender semelhante transmuta ção em tua robusta mentalidade. — Mas, Sadoc — replicou o jovem tarsense muito calmo —, eu vi Jesus ressuscitado... O outro fez grande esforço para conter uma ruidosa gargalhada. — Será possível — objetou com zombaria — que tua índole sentimental, tão contrária a manifestações de misticismo, tenha capi tulado nesse terreno? Acreditarias mesmo em tais visões? Não poderias imaginar -te vítima de algum desfaçado adepto do carpinteiro? Tuas atitudes de agora nos causarão profunda vergonha. Que dirão os homens irresponsáveis, que nada conhecem da Lei de Moisés? E a nossa posição no partido dominante, da raça? Os colegas do farisaísmo hão de arregalar os olhos, quando souberem da tua clamorosa defecção. Quando aceitei o encargo de perseguir os companheiros do operá rio de Nazaré, reprimindo-lhes as atividades perigosas, fi-lo pela amizade que te consagrava; e não te doerá a traição dos votos anteriores? Considera como se dificultará nosso escopo, quando se espalhar a notícia de que capitulaste perante esses homens sem cultura e sem consciência. Saulo fitou o amigo, revelando imensa preocupação no olhar ansioso. Aquelas acusações eram as premissas do acolhimento que o aguardava no cenáculo dos velhos companheiros de lutas e edificações religiosas. — Não — disse ele sentindo fundamente cada pa lavra —, não posso aceitar as tuas argüições. Repito que vi Jesus de Nazaré e devo proclamar que nele reconheço o Messias prometido pelos nossos profetas mais eminentes. Enquanto o outro fazia largo gesto admirativo, ao observar aquela inflexão de certeza e sinceridade. Saulo continuava convicto: — Quanto ao mais, considero que, a todo tempo, devemos e podemos reparar os erros do passado. E é com esse ardor de fé que me proponho regenerar minhas próprias estradas. Trabalharei, doravante, pela minha certeza em Cristo Jesus. Nã o é justo que me perca em ponderações sentimentalistas, olvidando a ver dade; e assim procederei em benefício dos meus pró prios amigos. Os amantes das realidades da vida sempre foram os mais detestados, ao tempo em que viveram. Que fazer? Até aqui, minhas pregações nasciam dos textos recebidos dos antepassados veneráveis, mas, hoje, minhas asserções se baseiam não somente nos repositórios da tradição, senão também na prova testemunhal. Sadoc não conseguiu ocultar a surpresa. — Mas... a tua posição? E os t eus parentes? E o nome? E tudo que recebeste dos que rodeiam tua personalidade com fervorosos compromissos? — perguntou Sadoc revocando-o ao passado. Agora, estou com o Cristo e todos nós lhe per tencemos. Sua palavra divina convocou-me a esforços mais ar dentes e ativos. Aos que me compreenderem devo, naturalmente, a gratidão mais sagrada; entretanto, para os que não possam entender guardarei a melhor atitude de serenidade, considerando que o próprio Mes sias foi levado à cruz. — Também tu com a mania do m artírio? O interpelado guardou uma bela expressão de digni dade pessoal e concluiu: — Não posso perder-me em opiniões levianas. Espe rarei que o teu amigo de Chipre termine a preleção, para relatar minha experiência diante de todos. — Falar nisso aqui? — Por que não? — Seria mais razoável descansares da viagem e da enfermidade, meditando melhor no assunto, mesmo por que tenho esperança nas tuas reconsiderações, relativa mente ao acontecido. — Sabes, porém, que não sou nenhuma criança e cumpre -me esclarecer a verdade, em qualquer circunstância. — E se te apuparem? E se fores considerado traidor? — A fidelidade a Deus deve ser maior que tudo isso, aos nossos olhos. — É possível, no entanto, que não te concedam a palavra — ponderou Sadoc após esbarrar com a for ça daquelas profundas convicções. — Minha condição é bastante para que ninguém se atreva a negar -me o que é de justiça. — Então, seja. Responderás pelas conseqüências — concluiu Sadoc constrangido. Naquele momento, ambos compreenderam a imen sidão da linha divisória que os extremava.
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Capítulo 1
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