2ª Parte - Cap. 1: Rumo ao deserto
A ovelha perseguida vinha buscar o lobo voraz. Saulo compreendeu a lição que o Cristo lhe ministrava. A presença de Ananias revoca-lhe à memória os apelos mais sagrados. Fora ele o iniciador de Abigail na doutrina e o motivo da viagem a Damasco, onde encontrara Jesus e a verdade renovadora. Tomado de profunda veneração, quis avan çar, ajoelharse ante o discípulo do Senhor, que lhe cha mava ternamente “irmão”, oscularlhe enternecido as mãos benfazejas, mas apenas tateou o vácuo, sem conseguir a execução do gratíssimo desejo. — Quisera beijar vossa túnica — falou com humildade e reconhecimento — , mas, como vedes, estou cego!... — Jesus mandou-me, justamente para que tivesses, de novo, o dom da vista. Comovidíssimo, o velho discípulo do Senhor notou que o perseguidor cruel dos apóstolos do “Caminho” estava totalmente transformado. Ouvindo -lhe a palavra plena de fé, Saulo de Tarso deixava transparecer, n o semblante, sinais de profunda alegria interior. Dos olhos ensombrados, manaram lágrimas cristalinas. O moço apaixonado e caprichoso aprendera a ser humano e humilde. — Jesus é o Messias eterno! Depus minha alma em suas mãos!... — disse entre compungido e esperançoso. Penitencio -me do meu caminho!... Banhado no pranto do arrependimento sincero, sem saber manifestar o reconhecimento daquela hora, em vir tude das trevas que lhe dificultavam os passos, ajoelhou-se com humildade. O velhinho generoso quis adian tar-se, impedir aquele gesto de renúncia suprema, considerando a sua própria condição de homem falível e imperfeito; mas, desejando estimular todos os recursos daquela alma ardente, em favor da sua completa conversão ao Cristo, aproximou -se comovido e, colocando a mão calosa naquela fronte ator mentada, exclamou: — Irmão Saulo, em nome de Deus Todo -Poderoso eu te batizo para a nova fé em Cristo Jesus!... Entre as lágrimas ardentes que corriam dos olhos, o moço tarsenSe acentuou, contrito: — Digne-se o Senhor perdoar meus pecados e ilumi nar meus propósitos para uma vida nova. — Agora — disse Ananias, impondo -lhe as mãos nos olhos apagados e num gesto amoroso —, em nome do Salvador, peço a Deus para que vejas novamente. — Se é do agrado de Jesus que isso acon teça — advertiu Saulo compungido —‘ ofereço meus olhos aos seus santos serviços, para todo o sempre. E como se entrassem em jogo forças poderosas e invisíveis, sentiu que das pálpebras doridas caíam subs tâncias pesadas como escamas, à proporção que a vista lhe voltava, embebendo -se de luz. Através da janela aberta, viu o céu claro de Damasco, experimentando indefinível ventura naquele oceano de claridades deslumbrantes. A aragem da manhã, como perfume do Sol, vinha banhar-lhe a fronte, traduzindo para o s eu coração uma bênção de Deus. — Vejo!... Agora vejo!... Glória ao redentor de minha alma!... — exclamava estendendo os braços num transporte de gratidão e de amor. Ananias também não se conteve mais; em face da quela prova inaudita da misericórdia de Jesus, o velho discípulo do Evangelho abraçou -se ao jovem de Tarso, a chorar de reconhecimento a Deus pelos favores rece bidos. Trêmulo de alegria, levantou-o em seus braços generosos, amparando -lhe a alma surpreendida e perturbada de júbilo. — Irmão Saulo — disse pressuroso —, este é o nosso grande dia; abracemo-nos na memória sacrossanta do Mestre que nos irmanou em seu grande amor!... O convertido de Damasco não disse palavra. As lágrimas de gratidão sufocavam-no. Abraçando-se ao antigo pregador, num gesto expressivo e mudo, fê-lo como se houvesse encontrado o pai dedicado e amoroso da sua nova existência. Por momentos, ficaram mudos, maravilhados com a intervenção divina, como dois irmãos muito queridos que se houvessem reconciliado sob as vistas de Deus. Saulo sentia-se agora fortalecido e ágil. Num mi nuto, pareceu reaver todas as energias de sua vida. Voltando a si do contentamento divino que o felicitava, tomou a mão do velho discípulo e beijou -a com veneração. Ananias tinha os olhos rasos de pranto. El e próprio não podia prever as alegrias infinitas que o esperavam na pensão singela da “rua Direita”. — Ressuscitastes-me para Jesus — exclamou jubiloso —; serei dele eternamente. Sua misericórdia suprirá minhas fraquezas, compadecer -se-á de minhas feridas, enviará auxílios à miséria de minhalma pecadora, para que a lama do meu espírito se converta em ouro do seu amor. — Sim, somos do Cristo — ajuntou o generoso ve lhinho com a alegria a transbordar dos olhos. E, como se fosse de súbito transformado num menino ávido de ensinamentos, Saulo de Tarso, sentando -se junto do benfeitor amigo, rogou -lhe todos os informes a respeito do Cristo, dos seus postulados e atos imor redouros. Ananias contou -lhe tudo quanto sabia de Jesus, por intermédio dos Apóstolos, depois da crucificação a que ele também assistira, em Jerusalém, na tarde trágica do Calvário. Esclareceu que era sapateiro em Emaús e tinha ido à cidade santa para as comemorações do Tem plo, tendo acompanhado o drama pungente nas ruas re gurgitantes de povo. Falou da compaixão que lhe causara o Messias coroado de espinhos e apupado pela turba furiosa e inconsciente. Profunda a emoção, ao descrever a marcha penosa com a cruz, protegido por soldados impiedosos, da fúria popular, que vociferava o crime hediondo. Curioso pelo desenrolar dos acontecimentos, seguira o condenado até ao monte. Da cruz do martírio, Jesus lançára -lhe um olhar inesquecível. Para o seu espírito, aquele olhar traduzia um chamamento sagrado, que era indispensável compreender. Profunda mente impressionado, a tudo assistiu até ao fim. Daí a três dias, ainda sob o peso daquelas angustiosas impressões, eis que lhe chega a nova alvissareira de que o Cristo havia ressuscitado dos mortos para a glória eterna do Todo -Poderoso. Seus discípulos estavam ébrios de ventura. Então, procurou Simão Pedro para conhecer melhor a personalidade do Salvador. Tão sublime a narrativa, tão elevados os ensinamentos, tão profunda a revelação que lhe aclarava o espírito, que aceitou o Evangelho sem mais hesitação . Desejoso de compartilhar o trabalho que Jesus legara aos que lhe pertenciam, regressou a Emaús, dispôs dos bens materiais que possuía e esperou os Apóstolos galileus em Jerusalém, onde se associou a Pedro nas primeiras atividades da igreja do “Caminho”. A essência dos ensinamentos do Cristo vitalizara -lhe o espírito, Os achaques da velhice haviam desaparecido. Logo que João e Filipe chegaram a Jerusalém para cooperar com o antigo pescador de Cafarnaum na edificação evangélica, combinaram sua transferência para Jope, a fim de aten der a inúmeros pedidos de irmãos desejosos de conhecer a doutrina. Ali estivera até que as perseguições intensificadas com a morte de Estevão obrigaram -no a retirar-se. Saulo bebia-lhe as palavras com singular enlevo como quem fr anqueava um mundo novo. A referência às perseguições avivava os remorsos acerbos Em compensação, a alma estava repleta de votos sinceros, pro missores de uma vida nova. — É verdade — dizia, enquanto o narrador fazia longa pausa —, vim a Damasco com outorga do Templo para vos levar preso a Jerusalém, mas fostes vós que chegastes com outorga de Jesus e a Ele me jungistes para sempre. Se vos algemasse, na minha ignorância, levar -vos-ia ao tormento e à morte; vós, salvando-me do pecado, me transformastes em escravo voluntário e feliz! Ananias sorriu, sumamente satisfeito. Saulo pediu-lhe, então, falasse de Estevão, no que foi atendido, com solicitude. Em seguida, pediu informes da sua viagem de Jope a Jerusalém. Com muita prudência, desejava do benfeitor qu alquer alusão a Abigail. Formulando o pedido, fê -lo com tal inflexão carinhosa, que o velho discípulo, adivinhando-lhe o intuito, falou com brandura: — Não precisarás confessar teus anseios de moço. Leio em teus olhos o que principalmente desejas. Entre Jo pe e Jerusalém, descansei muito tempo na vizinhança de um compatrício que, apesar de fariseu, nunca privou os empregados de receberem as sagradas alegrias da Boa Nova. Esse homem, Zacarias, tinha sob seu teto um verdadeiro anjo do céu. Era a jovem Abigail, que, depois de receber o batismo de minhas mãos, confessou que te amava muito. Falava do teu amor com ternura ardente e muitas vezes me convidou a orar pela tua conversão a Jesus -Cristo! ... Saulo ouvia emocionado e, após ligeiro intervalo em que o amoros o velhinho parecia meditar, voltou a dizer como se falasse consigo: — Sim, se ela ainda vivesse!... Ananias recebeu a observação sem surpresa e acen tuou: — Desde que se aproximou de mim, notei que Abigail não ficaria muito tempo na Terra. Suas cores esmaecidas, o brilho intenso dos olhos, falavam -me da sua condição de anjo exilado. Mas, devemos crer que ela viva no plano imortal. E quem sabe? Talvez suas rogativas aos pés de Jesus hajam contribuído para que o Mestre te convocasse à luz do Eva ngelho, às portas de Damasco!... O velho discípulo do “Caminho” estava comovido. Recebendo aquelas carinhosas evocações, Saulo chorava. Compreendia, sim, que Abigail não poderia estar morta. A visão de Jesus redivivo bastava para dissipar -lhe todas as dúvidas. Certamente, a escolhida de sua alma apie dara-se de suas misérias, rogara ao Salvador, com insis tência, lhe socorresse o espírito mesquinho e, por venturosa coincidência, o mesmo Ananias que lhe havia preparado o coração para as bênçãos do Céu, esten dera-lhe igualmente as mãos amigas, cheias de caridade e perdão. Agora, pertenceria para sempre àquele Cristo amoroso e justo, que era o Messias prometido. Nas emoções extremas que lhe caracterizavam os sentimen tos, passou a considerar o poder do Evangelho, examinando seus ilimitados recursos transformadores. Queria mergulhar o espírito nas suas lições iluminadas e subli mes, banharse naquele rio de vida, cujas águas do amor de Jesus fecundavam os corações mais áridos e desertos. Aquela meditação profun da empolgava-lhe, agora, a alma toda.
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Capítulo 1
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