Saulo per cebeu que a amizade que Sadoc sempre lhe testemunhara baseava -se nos interesses puramente humanos. Abando nando a falsa carreira que lhe dava prestígio e brilho, via esfumar -se a cordialidade do outro. Mas, de tal cogitação, logo lhe veio à mente que, também ele, assim procederia, provavelmente, se não tivesse Jesus no coração. Sereno e desassombrado, evitou aproximar -Se do local onde se acomodavam os visitantes ilustres, bus cando aproximar-se do largo estrado em que se improvisara uma nova tribuna. Terminada a dissertação do levita de Citium, Saulo surgiu à vista de todos os presentes, que o saudaram com olhares ansiosos. Cumpri mentou, afável, os diretores da reunião e pediu vênia para expor suas idéias. Sadoc não tivera coragem de criar um ambiente antipático, para deixar que tudo corresse à feição das circunstâncias, e foi por isso que os sacerdotes apertaram a mão de Saulo com a simpatia de sempre, acolhendo com imensa alegria o seu alvitre. Com a palavra, o ex-rabino ergueu a fronte, nobre mente, como costumava fazer nos seus dias triunfais. — Varões de Israel! começou em tom solene — em nome do TodoPoderoso, venho anunciar -vos hoje, pela primeira vez, as verdades da nova revelação. Temos ignorado, até agora, o fato culminante da vida da Hu manidade, O Messias prometido já veio, consoante o afirmaram os profetas que se glorificaram na virtude e no sofrimento. Jesus de Nazaré é o Salvador dos pecadores. Uma bomba que estourasse no recinto, não causa ria maior espanto. Todos fixavam o orador, atônitos. A assembléia estava obstúpida. Saulo, contudo, prosseguia intrépido, depois de uma pausa: — Não vos assombreis com o que vos digo. Conhe ceis minha consciência pela retidão de minha vida, pela minha fidelidad e às leis divinas. Pois bem: é com este patrimônio do passado que vos falo hoje, reparando as faltas involuntárias que cometi nos impulsos sinceros de uma perseguição cruel e injusta. Em Jerusalém fui o primeiro a condenar os apóstolos do “Caminho”; provoquei a união de romanos e israelitas para a repressão, sem tréguas, a todas as atividades que se prendessem ao Nazareno; varejei lares sagrados, encarcerei mulheres e crianças, submeti alguns à pena de morte, ocasionei um vasto êxodo das massas operárias que trabalhavam pacificamente na cidade para seu progresso; criei para todos os espíritos mais sinceros um regime de sombras e terrores. Fiz tudo isso, na falsa suposição de defender a Deus, como se o Pai Supremo necessitasse de míseros defensores!... Mas, de viagem para esta cidade, auto rizado pelo Sinédrio e pela Corte Provincial, para invadir os lares alheios e perseguir criaturas inofensivas e ino centes, eis que Jesus me aparece às vossas portas e me pergunta, em pleno meio -dia, na paisagem desolada e deserta: — Saulo, Saulo, por que me persegues? A essa evocação, a voz eloqüente se enternecia e as lágrimas lhe corriam copiosas. Interrompera-se ao recordar a ocorrência decisiva do seu destino. Os ouvintes contemplavam-no assombrados. — Que é isso? — diziam alguns. — O doutor de Tarso graceja!... — afirmavam outros sorrindo, convictos de que o jovem tribuno estivesse buscando maior efeito oratório. — Não, amigos — exclamou com veemência —, jamais gracejei convosco nas tribunas sagradas. O Deus justo n ão permitiu que minha violência criminosa fosse até ao fim, em detrimento da verdade, e consentiu, por misericórdia de acréscimo, que o mísero servo não encon trasse a morte sem vos trazer a luz da crença nova!... Não obstante o ardor da pregação, q ue deixava em todos os ouvidos ressonâncias emocionais, rompeu no recinto estranho vozerio. Alguns fariseus mais exaltados interpelaram Sadoc, em voz baixa, quanto ao ines perado daquela surpresa, obtendo a confirmação de que Saulo, de fato, parecia extremamente perturbado, ale gando ter visto o carpinteiro de Nazaré nas vizinhanças de Damasco. Imediatamente estabeleceu -se enorme confusão em toda a sala, porque havia quem visse no caso perigosa defecção do rabino, e quem opinasse por enfer midade súbita, que o houvesse dementado. — Varões de minha antiga fé — trovejou a voz do moço tarsense, mais incisiva —, é inútil tentardes empa nar a verdade. Não sou traidor nem estou doente. Estamos defrontando uma era nova, em face da qual todos os nossos caprichos religiosos são insignificantes. Uma chuva de impropérios cortou -lhe repentina-mente a palavra. — Covarde! Blasfemo! Cão do “Caminho”!... Fora o traidor de Moisés!... Os apodos partiam de todos os lados. Os mais afei çoados ao ex-rabino, que se inclinavam a supô-lo vítima de graves perturbações mentais, entraram em conflito com os fariseus mais rudes e rigorosos. Algumas ben galas foram atiradas à tribuna com extrema violencia. Os grupos, que se haviam atracado em luta, espalhavam forte celeuma na sinagoga, percebendo o orador que se encontravam na iminência de irreparáveis desastres. Foi quando um dos levitas mais idosos assomou ao grande estrado, levantando a voz com toda a energia de que era capaz e rogando aos presentes acompanhá-lo na recitação de um dos Salmos de David. O convite foi aceito por todos. Os mais exaltados repetiram a prece, tomados de vergonha. Saulo acompanhava a cena com profundo interesse. Terminada a oração, disse o sacerdote, com ênfase irritante: — Lamentemos este episódio, mas evitemos a confusão que em nada aproveita. Até ontem, Saulo de Tarso honrava as nossas fileiras como paradigma de triunfo; hoje, sua palavra é para nós um galho de espinhos. Com um passado respeitável, esta atitude de agora só nos merece condenação. Perjúrio? Demência? Não o sabemos com certeza. Outro fora o tribuno e apedrejá-lo-íamos sem pestanejar; mas, com um antigo colega os processos devem ser outros. Se está doente, só merece compaixão; se traidor, só poderá merecer absoluto desprezo. Que Jerusalém o julgue como seu embaixador. Quanto a nós, encerremos as pregações da sinagoga e recolhamo -nos à paz dos fiéis cumpridores da Lei. O ex-rabino suportou a increpação com grande sere nidade a lhe transparecer dos olhos. Intimamente, sen tia-se ferido no seu amor-próprio. Os remanescentes do “homem velho” exigiam revide e reparação imediata, ali mesmo, à vista de todos. Quis falar novamente, exigir a palavra, obrigar os companheiros a ouvi lo, mas sentia-se presa de emoções incoercíveis, que l he infirmavam os ímpetos explosivos. Imóvel, notou que velhos afeiçoa dos de Damasco abandonavam o recinto calmamente, sem lhe fazer sequer uma ligeira saudação. Observou, também, que os levitas de Citium pareciam entendê -lo, através de um olhar de simpatia, ao mesmo tempo que Sadoc fixava -o com ironia e risinhos de triunfo. Era o repúdio que chegava. Acostumado aos aplausos onde quer que aparecesse, fora vítima da própria ilusão, acreditando que, para falar com êxito, sobre Jesus, bastavam os lour os efêmeros já conquistados ao mundo. Enganara-se. Seus cômparas punham -no à margem, como inútil. Nada lhe doía mais que ser assim desaproveitado, quando lhe ardia nalma a devoção sacerdotal. Preferia que o esbofeteassem, que o prendessem, que o flagelassem, mas não lhe tirassem o ensejo de discutir sem peias, a todos vencendo e convencendo com a lógica de suas definições. Aquele abandono feria-o fundo, porque, antes de qual quer consideração, reconhecia não laborar em benefício pessoal, por vaidade ou egoísmo, mas pelos próprios correligionários atidos às concepções rígidas e inflexíveis da Lei. Aos poucos a sinagoga ficara deserta, sob o calor ardente das primeiras horas da tarde. Saulo sentou-se num banco tosco e chorou. Era a luta entre a vaidade de outros tempos e a renúncia de si mesmo, que começava. Para conforto da alma opressa, recordou a narrativa de Ananias, no capítulo em que Jesus dissera ao velho discípulo que lhe mostraria quanto importava sofrer por amor ao seu nome. Acabrunhado, retirou-se do Templo, em busca do benfeitor, a fim de reconfortar-se com a sua palavra. Ananias não se mostrou surpreendido com a expo sição das ocorrências. — Vejo-me cercado de enormes dificuldades — dizia Saulo um tanto perturbado. Sinto-me no dever de espalhar a nova doutrina, felicitando os nossos semelhantes; Jesus encheu-me o coração de energias inesperadas, mas a secura dos homens é de amedrontar os mais fortes. — Sim — explicava o ancião paciente —, o Senhor conferiu-te a tarefa do semeador; tens muito boa-vontade, mas, que faz um homem recebendo encargos dessa natureza? Antes de tudo, procura ajuntar as sementes no seu mealheiro particular, para que o esforço seja profícuo. O neófito percebeu o alcance da comparação e per guntou: — Mas, que desejais dizer com isso? — Quero dizer que um homem de vida pura e reta, sem os erros da própria boa-intenção, está sempre pronto a plantar o bem e a justiça no roteiro que perlustra; mas aquele que já se enganou, ou que guarda alguma culpa, tem necessidade de testemunhar no sofrimento próprio, antes de ensinar. Os que não forem integralmente puros, ou nada sofreram no caminho, jamais são bem compreendidos por quem lhes ouve simplesmente a palavra. Contra os seus ensinos estão suas próprias vidas. Além do mais, tud o que é de Deus reclama grande paz e profunda compreensão. No teu caso, deves pensar na lição de Jesus permanecendo trinta anos entre nós, preparando -se para suportar nossa presença durante apenas três. Para receber uma tarefa do Céu, David con viveu com a Natureza apascentando rebanhos; para desbravar as estradas do Salvador, João Batista meditou muito tempo nos ásperos desertos da Judéia. As ponderações carinhosas de Ananias caíam -lhe na alma opressa como bálsamo vitalizante. — Quando hajas sofrido mais — continuava o benfeitor e amigo sincero —, terás apurado a compreensão dos homens e das coisas, Só a dor nos ensina a ser humanos.