Jacques Noulin
(15 de agosto) 56. [A São João] Podemos evocar o cúmplice da esposa de Remone? Resp. – Sim. 57. Evocação. Resp. – (O Espírito se manifesta). 58. Jurai em nome de Deus que sois o Espírito daquele que foi o rival de Remone. Resp. – Jurarei em nome de tudo o que quiserdes. – Jurai em nome de Deus. – Resp. – Juro em nome de Deus. 59. Parece que não sois um Espírito muito adiantado. Resp. – Cuidai dos vossos negócios e deixai que eu me vá. Observação – Como não há portas fechadas para os Espíritos, se este pede que o deixem ir, é que um poder superior o obriga a ficar, certamente para a sua instrução. 60. Ocupamo-nos dos nossos negócios, porque queremos saber como, na outra vida, a virtude é recompensada e o vício castigado. Resp. – Sim, caríssimo, cada um recebe recompensa ou punição, conforme suas obras. Tratai, pois, de andar direito. 61. Vossas fanfarronices não nos intimidam; depositamos nossa confiança em Deus. Mas pareceis ainda muito atrasado. Resp. – Como antes, sou sempre o João-Grande. 62. Então não podeis responder seriamente a perguntas sérias? Resp. – Ó gente séria, por que vos dirigis a mim? Prefiro rir a filosofar. Semprei gostei da boa mesa, das mulheres afáveis e do bom vinho. 63. [Ao anjo-da-guarda do médium] Podeis dar-nos algumas informações sobre este Espírito? Resp. – Não é bastante avançado para vos dar boas razões. 64. Haveria perigo em entrar em comunicação com ele? Poderíamos despertar-lhe melhores sentimentos? Resp. – Isso seria mais proveitoso a ele do que a vós. Tentai; talvez possais decidi-lo a encarar as coisas de outro ponto de vista. 65. [Ao Espírito] Sabeis que o Espírito deve progredir e, por reencarnações sucessivas, chegar até Deus, de quem pareceis afastado? Resp. – Jamais havia pensado nisto. E como estou longe dEle! Não quero empreender tão longa viagem. Observação – Eis um Espírito que, em razão de sua leviandade e pouco adiantamento, não suspeita da reencarnação. Quando lhe chegar o momento de retomar uma nova existência, que escolha poderá fazer? Evidentemente uma escolha em conformidade com seu caráter e com seus hábitos, a fim de gozar e não de expiar, até que seu Espírito se ache bastante desenvolvido para lhe compreender as conseqüências. É a história do garoto inexperiente, que se atira aturdidamente a todas as aventuras e que adquire experiência às próprias custas. Lembremos que, para os Espíritos atrasados, incapazes de fazer uma escolha com conhecimento de causa, há encarnações compulsórias. A. K. 66. Conhecestes G. Remone? Resp. – Sim; na verdade um pobre diabo. 67. Suspeitastes que ele tivesse assassinado a esposa? Resp. – Eu era um pouco egoísta, ocupando-me mais de mim que dos outros. Quando soube da morte da mulher chorei sinceramente, mas não procurei saber a causa. 68. Qual era, então, a vossa posição? Resp. – Eu era um simples auxiliar de portaria; um contínuo, como se diz hoje. 69. Depois da morte daquela mulher, pensastes nela alguma vez? Resp. – Não me lembreis tudo isto. 70. Queremos que vos lembreis porque pareceis melhor do que revelais. Resp. – Pensei nisto algumas vezes, mas, como era naturalmente despreocupado, sua lembrança passava como um relâmpago, sem deixar traços. 71. Qual era o vosso nome? Resp. – Sois muito curioso; se eu não fosse forçado, já vos teria deixado com a vossa moral e os vossos sermões. 72. Vivíeis num século religioso. Então nunca orastes pela mulher que amáveis? Resp. – É assim mesmo. 73. Revistes G. Renome e sua esposa no mundo dos Espíritos? Resp. – Fui encontrar gente como eu; e quando aqueles chorões queriam mostrar-se eu lhes voltava as costas. Não gosto de causar desgosto e... 74. Continuai. Resp. – Não sou tão tagarela quanto vós. Vou ficar por aqui, caso consintais. 75. Sois feliz hoje? Resp. – Por que não? Divirto-me em pregar peças nas pessoas crédulas, que julgam tratar com os Espíritos bons. Desde que se ocupam conosco, nós pregamos boas peças. 76. Isto não é felicidade. A prova de que não sois feliz é que dissestes que fostes forçado a vir. Ora, não é feliz quem é forçado a fazer aquilo que o desagrada. Resp. – A gente não tem sempre superiores? Isto não impede de ser feliz. Cada um agarra a felicidade onde a encontra. 77. Com algum esforço, principalmente pela prece, poderíeis alcançar a felicidade daqueles que vos comandam. Resp. – Não pensei nisto. Ireis tornar-me ambicioso. Não me enganais sempre? Não inquieteis à-toa o meu pobre Espírito. 78. Não vos enganamos. Trabalhai, pois, pelo vosso adiantamento. Resp. – É preciso dar que fazer e eu sou preguiçoso. 79. Quando se é preguiçoso, pede-se a um amigo que nos ajude. Nós vos ajudaremos, orando por vós. Resp. – Orai, então, para que eu mesmo me decida a orar. 80. Oraremos, mas orai também. Resp. – Credes que se eu orasse teria idéias semelhantes às vossas? 81. Sem dúvida; mas orai igualmente. Nós vos evocaremos na quinta-feira, 21, para ver o progresso que tereis feito e vos dar conselhos, caso isto vos agrade. Resp. – Então, até logo. 82. Agora quereis dar o vosso nome? Resp. – Jacques Noulin. No dia seguinte o Espírito foi evocado novamente e lhe foram feitas várias perguntas sobre a esposa de Remone. Suas respostas, pouco edificantes, foram do gênero das primeiras. Consultado, São João respondeu: “Laborastes em erro ao perturbar este Espírito, nele despertando suas antigas paixões. Teria sido melhor esperar o dia marcado; ele se achava em nova perturbação; vossa perturbação o havia lançado em idéias de outra ordem, completamente diferentes das suas idéias habituais. Ainda não tinha podido tomar uma decisão firme, embora se dispusesse a experimentar a prece. Não intervenham até o dia marcado. Daqui até lá, se ele escutar os Espíritos bons, que vos querem ajudar em vossa boa obra, podereis obter alguma coisa dele.” (Quinta-feira, 21) 83. [A São João]. Depois da última evocação Jacques Noulin emendou-se? Resp. – Ele orou, e a luz se fez para a sua alma; agora acredita que está destinado a tornar-se melhor e se dispôs a trabalhar. 84. Que marcha devemos seguir em seu interesse? Resp. – Perguntai-lhe pelo estado atual de sua alma e fazei-o olhar para si mesmo, a fim de que se dê conta de sua mudança. 85. [A Jacques Noulin]. Já refletistes, como prometestes? Podeis dizer qual é hoje a vossa maneira de encarar as coisas? Resp. – Antes de tudo quero vos agradecer. Poupastes-me muitos anos de cegueira. Desde alguns dias compreendo que Deus é o meu objetivo e que devo envidar todos os esforços para me tornar digno de chegar até Ele. Abre-se para mim uma nova era: as trevas se dissiparam e agora vejo o caminho que devo seguir. Tenho o coração cheio de esperança e sou sustentado pelos Espíritos bons que vêm em auxílio dos fracos. Vou seguir esta nova via, na qual já encontrei a tranqüilidade e que me deve levar à felicidade. 86. Éreis realmente feliz, como dissestes? Resp. – Agora vejo que era muito infeliz; mas eu me sentia feliz, como todos aqueles que não olham para cima. Não pensava no futuro; como na Terra, vagava tal qual um ser despreocupado, não me dando ao trabalho de pensar seriamente. Oh! como deploro a cegueira, que me fez perder um tempo tão precioso! Ganhastes um amigo, não o esqueçais. Chamai-me quando quiserdes e, se puder, virei. 87. Que pensam de vossa disposição os Espíritos com os quais vos reuníeis habitualmente? Resp. – Zombam de mim por ter escutado os Espíritos bons, cuja presença e conselho nós detestávamos. 88. Seria permitido que fôsseis vê-los? Resp. – Agora só me ocupo com o meu adiantamento. Aliás, os bons anjos que velam por mim e me cercam de cuidados não me permitem mais olhar para trás, salvo para me mostrarem a que aviltamento cheguei. Observação – Certamente não existe nenhum meio material de constatar a identidade dos Espíritos que se manifestaram nas evocações acima; assim, não o afirmaremos de maneira absoluta. Fazemos esta restrição para os que crêem que aceitamos cegamente tudo quanto vem dos Espíritos. Preferimos pecar por excesso de desconfiança. É que devemos evitar dar como verdade absoluta aquilo que não pode ser controlado. Ora, na ausência de provas positivas, devemos limitar-nos a constatar a possibilidade e buscar as provas morais, em falta de provas físicas. No fato em questão, as respostas têm um caráter evidente de probabilidade, principalmente de alta moralidade; aí não se vê nenhuma contradição, nem faltas de lógica que chocam o bom-senso e denunciam o embuste; tudo se liga e se encadeia perfeitamente; tudo concorda com o que já demonstrou a experiência. Pode, pois, dizer-se que a história é, ao menos, verossímil, o que já é muito. O que é certo é que não se trata de um romance inventado pelos homens, mas, sim, de uma obra mediúnica. Se fosse uma fantasia do Espírito, só poderia vir de um Espírito leviano, pois os Espíritos sérios não se divertem em contar histórias e os levianos sempre se deixam trair.
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Mês Novembro
Ano 1862