(12 de agosto) 33. [A São João] Poderíamos evocar o Espírito da esposa de G. Remone?
Resp. – Não; ela está reencarnada.
34. Na Terra?
Resp. – Sim.
35. Se não a podemos evocar como Espírito errante, poderíamos fazê-lo como encarnado? E não poderíeis dizer-nos quando estará dormindo?
Resp. – Podeis fazê-lo neste momento, porque, para esse Espírito, as noites são os dias para vós.
36. Evocação do Espírito da esposa de Remone.
Resp. – (O Espírito se manifesta).
37. Lembrai-vos da existência em que éreis chamada de Sra. Remone?
Resp. – Sim. Oh! por que me recordar minha vergonha e minha infelicidade?
38. Se estas perguntas vos causam algum desgosto, nós pararemos.
Resp. – Por obséquio, fazei-as.
39. Nosso objetivo não é vos causar desgosto. Não vos conhecemos e talvez jamais vos conheçamos. Queremos apenas fazer estudos espíritas.
Resp. – Meu Espírito está tranqüilo; por que agitá-lo com lembranças dolorosas? Não poderíeis fazer tais estudos com Espíritos errantes?
40. [A São João] Devemos cessar as perguntas, que parecem despertar neste Espírito aflitiva recordação?
Resp. – Eu vo-lo aconselho. É ainda uma criança e a fadiga do seu Espírito reagiria sobre o corpo. Aliás, seria mais ou menos a repetição do que já disse o marido.
41. Remone e a esposa se perdoaram reciprocamente?
Resp. – Não; para isso é necessário que alcancem um grau de perfeição mais elevado.
42. Se esses dois Espíritos se reencontrassem na Terra como encarnados, que sentimentos experimentariam um pelo outro?
Resp. – Apenas antipatia.
43. Se G. Remone revisse, como visitante, o seu corpo no jazigo subterrâneo de São Miguel, experimentaria uma sensação desconhecida pelos outros curiosos?
Resp. – Sim; mas tal sensação parecer-lhe-ia muito natural.
44. Ele reviu o corpo desde que foi retirado da Terra?
Resp. – Sim.
45. Quais foram as suas impressões?
Resp. – Nulas. Sabeis perfeitamente que os Espíritos, uma vez desprendidos de seu invólucro, vêem as coisas terrenas de modo diverso do dos encarnados.
46. Poderíamos obter algumas informações sobre a posição atual da esposa de Remone?
Resp. – Perguntai.
47. Qual é hoje o seu sexo?
Resp. – Feminino.
48. Seu país natal?
Resp. – Ela está nas Antilhas, como filha de um rico negociante.
49. As Antilhas pertencem a várias potências. Qual a sua nação?
Resp. – Mora em Havana.
50. Poderíamos saber o seu nome?
Resp. – Não o pergunteis.
51. Qual a sua idade?
Resp. – Onze anos.
52. Quais serão as suas provas?
Resp. – A perda da fortuna; um amor ilegítimo e sem esperança, aliados à miséria e aos trabalhos mais penosos.
53. Dizeis um amor ilegítimo. Amará, talvez, seu pai, o irmão ou um dos seus?
Resp. – Amará um homem consagrado a Deus, só e sem esperança de ser correspondida.
54. Agora que conhecemos as provas desse Espírito, se o evocássemos de vez em quando durante o sono, em seus dias de infortúnio, não poderíamos dar-lhe alguns conselhos para reerguer sua coragem e depositar sua esperança em Deus? Isto influiria sobre as resoluções que pudesse tomar em vigília?
Resp. – Muito pouco. Essa jovem já tem uma imaginação de fogo e uma cabeça de ferro.
55. Dissestes que no país em que ela vive as noites são os dias para nós. Ora, entre Havana e Saint-Jean d’Angely há uma diferença de apenas cinco horas e meia. No momento da evocação, como aqui eram duas horas, em Havana deveriam ser oito horas e meia da manhã.
Resp. – Vá lá! ela cochilava ainda quando a evocastes, ao passo que despertastes há bastante tempo. Naquelas paragens dorme-se tarde, quando se é rico e nada se tem a fazer.
Observação – Desta evocação ressaltam vários ensinamentos. Se, na vida exterior de relação, o Espírito encarnado não se lembra do seu passado, dele se recorda quando desprendido do corpo durante o sono. Não há, pois, solução de continuidade na vida do Espírito que, nos momentos de emancipação, pode lançar um olhar retrospectivo sobre suas existências anteriores e daí trazer uma intuição, que poderá dirigi-lo em estado de vigília.
Em diversas ocasiões já ressaltamos os inconvenientes que, em vigília, representaria a lembrança precisa do passado. Essas evocações nos fornecem um exemplo. Foi dito que, se G. Remone e sua esposa se encontrassem, experimentariam antipatia um pelo outro. Que seria, então, se se lembrassem das antigas relações! O ódio entre eles despertaria inevitavelmente.
Em vez de dois seres apenas antipáticos ou indiferentes um para com o outro, talvez fossem inimigos mortais. Com sua ignorância, são mais eles mesmos e marcham mais livremente na nova rota que devem percorrer. A lembrança do passado os perturbaria, humilhando-os aos seus próprios olhos e aos dos outros.
O esquecimento não lhes faz perder o fruto da experiência, porque nascem com aquilo que adquiriram em inteligência e em moralidade; são aquilo que se fizeram e, para eles, isto é um novo ponto de partida. Se, com as novas provas que o Sr.
Remone terá de sofrer, se juntasse a lembrança das torturas de sua derradeira morte, seria um suplício atroz que Deus quis evitar, ao lançar um véu sobre o seu passado.
A. K.