2ª Parte - Cap. 10: Ao encontro do Mestre
O Prefeito dos Pretorianos exigia que os correligionários assist issem ao suplício, para escarmento geral. Os encarcerados acompanhavam as tristes operações, banhados em pranto silencioso. Verificada a morte da vítima, um soldado se encarregava de lançar as vísceras aos peixes famintos, nos tanques vastos das prisões od iosas. Dada a situação geral, apavorante, poder -se-ia contar com a intervenção de Paulo? A Espanha ficava muito distante. Era possível que a sua vinda não aproveitasse ao caso pessoal de João. Pedro, porém, considerou a oportunidade do recurso e advertiu q ue seguiriam trabalhando a favor do filho de Zebedeu. Nada impedia, porém, de recorrer desde logo para o prestígio de Paulo, ainda porque a situação piora va de instante a instante. Aquele ano de 64 começara com terríveis perspectivas. Não se podia dispens ar um homem enérgico e resoluto à frente dos interesses da causa. Dado este parecer do venerando Apóstolo de Jeru salém, a assembléia concordou com a medida aventada. Um irmão que se tornara devotado cooperador de Paulo, em Roma, foi mandado à Espanha, com urgência. Esse emissário era Crescêncio, que saiu de Óstia, com enorme ansiedade, levando a missiva de Simão. O Apóstolo dos gentios, depois de muito peregrinar, demorava -se em Tortosa, onde conseguira reunir grande número de colaboradores devotados a Jesus. Suas atividades apostólicas continuavam ativas, conquanto atenua das, em virtude do cansaço físico. O movimento das epístolas diminuira, mas não se interrompera de todo Atendendo à necessidade das igrejas do Oriente, Timóteo partira da Espanha para a Ásia, carregado de cartas e recomendações amigas. Em torno do Apóstolo agrupa ra-se novo contingente de cooperadores diligentes e sinceros. Em todos os recantos, Paulo de Tarso ensinava o trabalho e a renúncia, a paz da consciência e o culto do bem. Quando planejava novas viagens na companhia de Lucas. eis que surge em Tortosa o mensageiro de Simão. O ex-rabino lê a carta e resolve regressar à cidade imperial, imediatamente. Através das linhas afetuosas do velho antigo, entreviu a gravidade dos acontecimentos. Além disso, João necessitava voltar à Ásia. Não ignorava a influência benéfica que ele exercia em Jeru salém. Em Éfeso, onde a igreja se compunha de ele mentos judaicos e gentios, o filho de Zebedeu fora sempre um vulto nobre e exemplar, indene de es pírito sectarista. Paulo de Tarso passou em revista as necessidades do serviço evangélico entre as comunidades orientais, e con cluiu pela urgência do regresso de João, deliberando in tervir no assunto sem perda de tempo. Como de outras vezes, nada valeram as considerações dos amigos, no tocante ao problema de sua saúde. O homem enérgico e decidido, apesar dos cabelos brancos, mantinha o mesmo ânimo resoluto, elevado e firme, que o caracterizara na mocidade distante. Favorecido pela grande movimentação de barcos, nos princípios de maio de 64, não lhe foi difícil retornar ao porto de Óstia, junto dos companheiros. Simão Pedro recebeu-o enternecido. Em poucas ho ras o convertido de Damasco conhecia a situação intole rável criada em Roma pela ação delituosa de Tigelino. João continuava encarcerado, apesar dos recursos leva dos aos tribunais, O antigo pescador de Cafarnaum, em significativas confidências, revelava ao companheiro que o coração lhe pressagiava novas dores e testemunhos cruciantes. Um sonho proféti co anunciava-lhe perseguições e provas ásperas. Numa das últimas noites, contem plara um quadro singular, em que uma cruz de propor ções gigantescas parecia envolver com sua sombra toda a família dos discípulos do Senhor. Paulo de Tarso ou viu-o, com interesse, manifestando-se de inteiro acordo com os seus pressentimentos. Apesar dos horizontes car regados, deliberaram uma ação conjunta para libertar o filho de Zebedeu. Corria o mês de junho. O ex-rabino desdobrou-se em atividades intensas, procurou Acácio Domicio, solicitando a sua intervenção e valimento. Mais ainda: considerando que as providências morosas poderiam redundar num fracasso, auxiliado por amigos eminentes procurou avistar -se com numerosos áulicos da Corte Imperial, chegando à presença de P opéia Sabina, a fim de rogar seus bons ofícios, no caso do filho de Zebedeu. A célebre favorita ouviu -lhe a confidência com enorme surpresa. Aquelas revelações de uma vida eterna, aquela concepção da Divindade assus tavam-na. Embora inimiga declarada dos cristãos, dada a simpatia que mantinha pelo judaísmo, Popéia impres sionou-se com a figura ascética do Apóstolo e com os argumentos de reforço ao seu pedido. Sem ocultar sua admiração, prometeu atendê -lo, apontando desde logo as providências imediatas. Paulo retirou-se esperançoso da absolvição do com panheiro, porque Sabina prometera libertá-lo dentro de três dias. Voltando à comunidade, deu ciência aos irmãos da entrevista que tivera com a favorita de Nero; mas, ter minada a exposição, notou, algo surpres o, que alguns companheiros reprovavam a sua iniciativa. Pediu, então, que o esclarecessem e justificassem quaisquer dúvidas. Surgiram fracas considerações que ele acolheu com a sua inesgotável serenidade. Alegava-se que não era louvável dirigir -se a uma cortesã dissoluta, para impetrar um favor. Semelhante proceder afigurava -se de Éfeso a seguidores do Cristo. Popéia era mulher de vida notadamente dissoluta, banqueteava -se nas orgias do Palatino, caracte rizava-se por sua luxúria escandalosa. Seria razoável pedir-lhe proteção para os discípulos de Jesus? Paulo de Tarso aceitou as mofinas argüições com beatífica paciência e objetou, sensatamente: — Respeito e acato a vossa opinião, mas, antes de tudo, considero necessário libertar João. Fosse eu o pri sioneiro e não haveria de julgar o caso tão urgente e tão grave. Estou velho, alquebrado, e, portanto, melhor me fora, e mais útil quiçá, meditar na misericórdia de Jesus, através das grades do cárcere. Mas João está relativa mente moço, é forte e dedicado; o Cr istianismo da Ásia não pode dispensar -lhe a atividade construtiva, até que outros trabalhadores sejam chamados à semeadura di vina. Com referência às vossas dúvidas, porém, cumpre-me aduzir um argumento que requer ponderação. Por que considerais imprópria uma solicitação a Popéia Sabina? Teríeis a mesma idéia, se me dirigisse a Tigelino ou ao próprio imperador? Não serão eles vítimas da mesma prostituição que estigmatiza as favoritas de sua Corte? Se combinasse com um militar embriagado, do Pa latino, as providências imprescindíveis à libertação do companheiro, talvez aplaudísseis meu gesto, sem restrições. Irmãos, é indispensável compreender que a der rocada moral da mulher, quase sempre, vem da prostitui ção do homem. Concordo em que Popéia não é a figura mais conveniente ao feito, em virtude das inquietações da sua vida; entretanto, é a providência que as circunstâncias indicaram e nós precisamos libertar o devotado discípulo do Senhor. Aliás, procurei valer -me de semelhantes recursos, recordando a exor tação do Mestre, na qual recomenda ao homem granjear amigos com as rique zas da iniqüidade (1). Considero que quaisquer relações com o Palatino constituem expressões da fortuna iníqua, mas suponho útil mobilizar os que se conservam “mortos” no pecado para algum ato de caridade e de fé, pelo qual se desliguem dos laços com o passado delituoso, auxilia dos pela intercessão de amigos fiéis. A elucidação do Apóstolo espalhou grande calma em todo o recinto. Em poucas palavras, Paulo de Tarso fi zera ver, aos companheiros, transcendentes conclusões de ordem espiritual. A promessa não falhara. Em três dias o filho de Zebedeu era restituído à liberdade. João estava abati díssimo. Os maus tratos, a contemplação dos quadros (1) Lucas. Capítulo 16º, versículo 9. — (Nota de Emmanuel.) terríveis do cárcere, a expectação angustiosa, haviam -lhe mergulhado o espírito em perplexidades dolorosas. Pedro regozijava-se, mas o ex-rabino, atento à tensão ambiente, sugeriu o regresso do Apóstolo galileu à Ásia, sem perda de temp o. A igreja de Éfeso esperava-o. Jerusalém devia contar com a sua colaboração desinte ressada e amiga. João não teve tempo para muitas considerações, porque Paulo, como que possuído de amargos pressentimentos, foi ao porto de Óstia para predispor o seu embarque, aproveitando um navio napolitano prestes a largar para Mileto. Colhido pelas providências e im possibilitado de resistir ao resoluto ex-rabino, o filho de Zebedeu embarcou em fins de junho de 64, enquanto os demais amigos permaneceriam em Roma para a boa batalha em prol do Evangelho. Quanto mais sombrios os horizontes, mais coeso se tornava o grupo dos irmãos na fé, em Cristo Jesus. Multiplicavam -se as reuniões nos cemitérios distantes e abandonados. Naqueles dias de sofrimentos, as prega ções pareciam mais belas. Paulo de Tarso e os cooperadores desdobravam -se em edificações espirituais, quando a cidade foi sacudida, de súbito, por espantoso acontecimento. Na manhã de 16 de julho de 64 irrompeu violento incêndio nas proximidades do Grande Circo, abr angendo toda a região do bairro localizado entre o Célio e o Palatino. O fogo começara em vastos armazéns repletos de material inflamável e propagara-se com rapidez assombrosa. Debalde foram convocados os operários e homens do povo para atenuar -lhe a violência; em vão a turba numerosa e compacta movimentou recursos para aliviar a situação. As labaredas subiam sempre, alastrando -se com furor, deixando montões de escombros e ruínas. Roma inteira acudia a ver o sinistro espetáculo, já empolgada pelas suas pa ixões ameaçadoras e terríveis. O fogo, com prodigiosa rapidez, deu volta ao Palatino e invadiu o Velabro. O primeiro dia findava-se com angustiosas perspectivas. O firmamento cobria -se de fumo espesso, iluminando-se grande parte das colinas com o clarão od ioso do incêndio terrível. As elegantes construções do Aventino e do Célio pareciam árvores secas de floresta em chamas. Acentuara -se a desolação das vítimas da enorme catástrofe.
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Capítulo 10
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