2ª Parte - Cap. 10: Ao encontro do Mestre
Tudo ardia nas adjacências do Fórum. Começou o êxodo com infinitas dificuld ades. As portas da cidade congestionavam -se de pessoas tomadas de profundo terror. Animais espavoridos corriam ao longo das vias públicas, como acossados por perseguidores invisíveis. Prédios antigos, de sólida constru ção, ruiam com sinistro estrondo. To dos os habitantes de Roma desejavam distanciar -se da zona comburente. Ninguém mais se atrevia a atacar a fogueira indômita. O segundo dia apresentou-se com o mesmo espetáculo inesquecível. Os populares desistiram de salvar alguma coisa; contentavam -se em poder enterrar os mortos sem conta, encontrados nos locais de possível acesso. Dezenas de pessoas percorriam as ruas em gargalhadas de hor rível acento; a loucura generalizava se entre as criaturas mais impressionáveis. Macas improvisadas conduziam feridos sem destino certo. Longas procissões invadiam os santuários para salvar as suntuosas imagens dos deuses. Milhares de mulheres acompanhavam a figura impassível dos numes tutelares, em dolorosas súplicas, fazendo votos de penosos sacrifícios, em vozes esten tóricas. Homens piedosos apanhavam, no remoinho das multidões estonteadas, as crianças massacradas ou apenas feridas. Toda a zona de acesso a Via Ápia, em direção de Alba Longa, estava entupida de retirantes apressados e desiludidos. Centenas de mães grit avam pelos filhinhos desaparecidos e, não raro, tomavam-se providências, à pressa, para socorrer as que enlouque ciam. A população em peso desejava abandonar a cidade, ao mesmo tempo. A situação tornara-se perigosa. A turba amotinada atacava as liteiras do s patrícios. Somente os cavaleiros desassombrados conseguiam romper a mole humana, provocando novas blasfêmias e lamen tações. O fogo já havia devorado, quase totalmente, os pala cetes nobres e preciosos das Carinas e continuava des troçando os bairros romanos, entre os vales e as colinas, onde a população era muito densa. Durante uma semana, dia e noite, lavrou o fogo destruidor, espalhando deso lações e ruínas. Das catorze circunscrições em que se dividia a metrópole imperial, apenas quatro ficaram incólumes. Três eram uma aluvião de escombros fumegan tes e as outras sete conservavam tão -só alguns vestígios dos edifícios mais preciosos. O imperador estava em Áncio (Antium), quando irrompeu a fogueira por ele mesmo idealizada, pois a verdade é que, desejo so de edificar uma cidade nova com os imensos recursos financeiros que chegavam das pro víncias tributárias, projetara o incêndio famoso, assim vencendo a oposição do povo, que não desejava a transferência dos santuários. Além dessa medida de ordem urbaní stica, o filho de Agripina caracterizava se, em tudo, pela sua origi nalidade satânica. Presumindo -se genial artista, não passava de monstruoso histrião, assinalando a sua passagem pela vida pública com crimes indeléveis e odiosos. Não seria interessante apresentar ao mundo uma Roma em chamas? Nenhum espetáculo, a seus olhos, seria ines quecível como esse. Depois das cinzas mortas, reedifi caria os bairros destruídos. Seria generoso para com as vítimas da imensa catástrofe. Passaria à história do Império como administrador magnânimo e amigo dos súditos sofredores. Alimentando tais propósitos, combinou o atentado com os áulicos de sua maior confiança e intimidade, ausentando -se da cidade para não despertar suspeitas no espírito dos políticos mais honestos. Entretanto, não pudera prever, ele próprio, a exten são da espantosa calamidade. O incêndio tomara pro porções indesejáveis. Seus conselheiros menos dignos não puderam pressentir a amplitude do desastre. Arran cado, à pressa, dos seus prazeres criminosos, o imperador chegou a tempo de observar o último dia de fogo, verificando o caráter da medida odiosa. Dirigindo-se a um dos pontos mais elevádos, contemplou o montão de ruínas e sentiu a gravidade da situação. O extermínio da propriedade particular atingira proporções quase infinitas. Não se pudera prever tão dolorosas conseqüências. Reconhecendo a irritação justa do povo, Nero pro curou falar, em público, esboçando algumas lágrimas na sua profunda capacidade de dissimulação. Prometeu auxiliar a restauração das casas particulares, declarou que compartilhava do sofrimento geral e que Roma. se levan taria novamente sobre os escombros fumegantes, mais imponente e mais bela. Imensa multidão ouvia-lhe a palavra, atenta aos seus mínimos gestos. O imperador na sua mímica teatral, assumia atitudes comovedoras. Referia -se aos santuários perdidos, debulhado em pranto. Invocava a proteção dos deuses, a cada frase de maior efeito. A turba sensibilizara -se. Jamais o César se mos trara tão paternalmente comovido. Não seri a razoável duvidar das suas promessas e observações. Em dado instante, a sua palavra vibrou mais patética e expres siva. Comprometia-se, solenemente, com o povo, a punir inexoravelmente os responsáveis. Procuraria os incendiários, vingaria a desgraça roman a sem piedade. Rogava, mesmo, a todos os habitantes da cidade cooperassem com ele, procurando e denunciando os culpados. Nesse ínterim, quando o verbo imperial se tornara mais significativo, notou se que a massa popular se agi tava estranhamente. Maioria esmagadora irmanava-se, agora, num grito terrível: —Cristãos às feras! Às feras! O filho de Agripina encontrara a solução que pro curava. Ele que procurava, em vão, no espírito super -excitado, as novas vítimas das suas maquinações execrandas, às quais pudesse atribuir a culpa dos sucessos lamentáveis, viu no brado ameaçador da turba uma resposta às próprias cogitações sinistras. Nero conhecia o ódio que o vulgo votava aos seguidores humildes do Nazareno, Os discípulos do Evangelho mantinham -se alheios e superiores aos costumes dissolutos e brutais da época. Não freqüentavam os circos, afastavam-se dos templos pagãos, não se prosternavam diante dos ídolos nem aplaudiam as tradições políticas do Império. Além disso, pregavam ensinamentos estranhos e pare ciam aguardar um novo reino. O grande histrião do Palatino sentiu uma onda de alegria invadir -lhe os olhos míopes e congestos. A escolha do povo romano não poderia ser melhor. Os cristãos deviam ser mesmo os criminosos. Sobre eles deveria cair o gládio vingad or. Trocou um olhar inteligente com Tigelino, como a expri mir que haviam apanhado, ao acaso, a solução imprevista e logo afirmou à massa enfurecida que tomaria providências imediatas para reprimir os abusos e castigar os culpados da catástrofe; finalment e, que o incêndio seria considerado crime de lesa-majestade e sacrilégio, para que os castigos também fossem excepcionais. O povo aplaudia freneticamente, antegozando as sen sações do circo, com esgares de feras e cânticos de martírio. A nefanda acusação pesou sobre os discípulos de Jesus, como fardo hediondo. As primeiras prisões realizaram -se como flagelo mal dito. Numerosas famílias refugiaram-se nos cemitérios e nos arredores da cidade meio destruída, receosas dos algozes implacáveis. Praticava -se toda a espécie de abusos. Jovens indefesas eram entregues, nos cárceres, ao instinto feroz de soldados sem entranhas. Anciães res peitáveis conduzidos à enxovia, sob algemas e pancadas. Os filhos arrancados do colo maternal, entre lágrimas e apelos comovedores. Tempestade sinistra caíra sobre os seguidores do Crucificado, que se submetiam a puni ções injustas, de olhos postos no céu. De nada valeram, para Nero, as ponderações dos patrícios ilustres, que ainda cultivavam as tradições de prudência e honestidade. Quantos se aproximavam da autoridade imperial, com a valiosa contribuição de alvi tres justos, eram declarados suspeitos, agravando a situação. O filho de Agripina e seus áulicos imediatos deli beraram que se oferecesse ao povo o primeiro espetáculo no pri ncípio de agosto de 64, como positiva demonstração das providências oficiais, contra os supostos autores do nefando atentado. As demais vítimas, isto é, todos os prisioneiros que chegassem ao cárcere, depois da festa inicial, serviriam de ornamento aos fu turos regozijos, à medida que a cidade pudesse recompor -se com as novas construções em perspectiva. Para isso, determinara -se a reedificação imediata do Grande Circo. Antes de atender às próprias necessidades da Corte, o imperador dese java as simpatias do povo ignorante e sofredor, alimen tando o que pudesse satisfazer seus estranhos caprichos. A primeira carnificina, destinada a distrair o ânimo popular, foi levada a efeito em jardins imensos, na parte que permanecera imune da destruição, por entre orgias indecorosas, de que participaram a plebe e a grande fra ção do patriciado que se entregara à dissolução e ao desregramento. A festividade prolongou-se por noites sucessivas, sob a claridade de esplêndida iluminação e o ritmo harmonioso de numerosas orque stras, que inundavam o ar de melodias enternecedoras. Nos lagos artifi ciais deslizavam barcos graciosos, artisticamente iluminados. No seio da paisagem, favorecida pelas sombras da noite, que as tochas poderosas não conseguiam afastar de todo, repastava -se a devassidão em jogo franco. Ao Lado das expressões festivas, enfileiravam -se as do martírio dos pobres condenados. Os cristãos eram entregues ao povo para o castigo que ele julgasse mais justo. Para isso, com intervalos regulares, os jardins estavam cheios de cruzes, de postes, de açoites e numerosos instrumentos outros de flagelação. Havia guardas imperiais para auxi liarem as atividades punitivas - Em fogueiras preparadas, encontravam -se água e azeite fervente, bem como pontas de ferro em brasa, par a os que desejassem aplicá las. Os gemidos e soluços dos desgraçados casavam -se ironicamente com as notas harmoniosas dos alaúdes. Uns expiravam entre lágrimas e preces, aos apupos do povo; outros, entregavam -se estoicamente ao martírio, contemplando o céu alto e estrelado. A linguagem mais forte será pobre para traduzir as dores imensas da grei cristã, naqueles dias angustio sos.
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Capítulo 10
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