Às vésperas da partida em busca da gentilidade es panhola, eis que o Apóstolo recebe uma carta comovente de Simão Pedro. O ex -pescador de Cafarnaum escrevia-lhe de Corinto, avisando sua próxima chegada à cidade imperial. A missiva era afetuos a e enternecedora, cheia de confidências amargas e tristes. Pedro confiava ao amigo suas derradeiras desilusões na Ásia e mostrava-se-lhe vivamente interessado pelo que lhe sucedera em Roma. Ignorando que o ex -rabino fora restituido à liber dade, procurava confortá-lo fraternalmente. Também ele, Simão, deliberara exilar -se junto dos irmãos da metrópole imperial, esperando ser útil ao amigo, em quaisquer cir cunstâncias. Ainda no mesmo documento íntimo, rogava aproveitasse o portador para comunicar aos confr ades romanos o propósito de se demorar algum tempo entre eles. O convertido de Damasco leu e releu a mensagem amiga, altamente sensibilizado. Pelo emissário, irmão da igreja de Corinto, foi avi sado de que o venerando Apóstolo de Jerusalém chegaria ao port o de Óstia dentro de dez dias, mais ou menos. Não hesitou um momento. Lançou mão de todos os meios ao seu alcance, preveniu os íntimos e preparou uma casa modesta, onde Pedro pudesse alojar se com a família. Criou o melhor ambiente para a recepção do res peitável companheiro. Valendo-se do argumento de sua próxima excursão à Espanha, dispensava as dádivas dos amigos, indicando -lhes as necessidades de Simão, para que nada lhe faltasse. Transportou quanto possuía, em objetos de uso doméstico, do singelo apose nto que alugara junto à Porta Lavernal para a casinha destinada a Simão, próximo dos cemitérios israelitas da Via Ápia. Esse exemplo de cooperação foi altamente apreciado por todos. Os irmãos mais humildes fizeram questão de oferecer pe queninas utilidades ao Apóstolo venerando que chegaria desprovido. Informado de que a embarcação entrava no porto, o ex -rabino largou-se pressurosamente para Óstia. Lucas e Timóteo, sempre em sua companhia, junto de outros cooperadores devotados, o amparavam nos pequenos aci dentes do caminho, dando -lhe o braço, aqui e ali. Não fora possível organizar uma recepção mais os tensiva. A perseguição surda aos adeptos do Nazareno apertava o cerco por todos os lados. Os últimos conselheiros honestos do Imperador estavam desaparecen do. Roma assombrava-se com a enormidade e quantidade de crimes que se repetiam diariamente. Nobres figuras do patriciado e do povo eram vítimas de atentados cruéis. Atmosfera de terror dominava todas as atividades polí ticas e, no cômputo dessas calamidade s, os cristãos eram os mais rudemente castigados, em vista da atitude hostil de quantos se acomodavam com os velhos deuses e se regalavam com os prazeres de uma existência dissoluta e fácil. Os seguidores de Jesus eram acusados e respon sabilizados por quaisquer dificuldades que sobrevinham. Se caía uma tempestade mais forte, devia -se o fenômeno aos adeptos da nova doutrina. Se o inverno era mais rigoroso, a acusação pesava sobre eles, porqüanto nin guém como os discípulos do Crucificado havia desprezado ta nto os santuários da crença antiga, abominando os favores e os sacrifícios aos numes tutelares. A partir do reinado de Cláudio, espalhavam -se lendas torpes a res peito das práticas cristãs. A fantasia do povo, ávido das distribuições de trigo nas grandes festas do circo, imaginava situações inexistentes, gerando conceitos extra vagantes e absurdos, com relação aos crentes do Evan gelho. Por isso mesmo, desde o ano de 58, os cristãos imbeles eram levados ao Circo como escravos revolucio nários ou rebeldes, que deveriam desaparecer. A opressão agravara -se dia a dia. Os romanos mais ou menos ilus tres, pelo nome ou pela situação financeira, que simpatizavam com a doutrina do Cristo, continuavam indenes de públicos vexames; mas os pobres, os operários, os fil hos da plebe, eram levados ao martírio, às centenas. Assim, os amigos do Evangelho não prepararam nenhuma homenagem pública à chegada de Simão Pedro. Ao invés, procuraram dar ao fato um cunho todo íntimo, de ma neira a não despertar represálias dos esbirros da situação. Paulo de Tarso estendeu os braços ao velho amigo de Jerusalém, tomado de alegria. Simão trouxera a es posa e os filhos, além de João. Sua palavra generosa estava cheia de novidades para o Apóstolo do gentilismo. Em poucos minutos, ficou sabendo da morte de Tiago e das novas torturas infligidas pelo Sinédrio à igreja de Jerusalém. O velho pescador contava as últimas peripécias da sua sorte, bem-humorado. Comentava os tes temunhos mais pesados com um sorriso nos lábios e intercalava toda a nar rativa de louvores a Deus. Depois de reportar-se às lutas que empenhara em muitas e repetidas peregrinações, contava ao ex-rabino que se refugiara alguns dias em Éfeso, junto de João, sendo acompanhado pelo filho de Zebedeu até Corinto, onde resolveram demandar a capital do Império. Paulo, por sua vez, relatou as tarefas recebidas de Jesus, nos últimos anos, e era de ver -se o otimismo e a coragem desses homens que, inflamados do espírito messiânico e amoroso do Mestre, comentavam as desilusões e as dores d o mundo como láureas da vida. Depois das suaves alegrias do reencontro, o grupo se encaminhou discretamente para a casinha reservada a Simão Pedro e sua família. O ex-pescador, sentindo a excelência da acolhida carinhosa, não encontrava palavras para tradu zir os júbilos dalma. Como Paulo quando chegou a Pouzzoles, tinha a impressão de estar num mundo diferente daquele em que vivera até então. Com a sua chegada, recrudesceram os serviços apos tólicos: mas o pregador do gentilismo não abandonou a idéia de ir à Espanha. Alegando que Pedro o substituiria com vantagem, deliberou embarcar no dia pre fixado, num pequeno navio que se destinava à costa gau lesa. Não valeram amistosos protestos, nem mesmo a Insistência de Simão para que adiasse a viagem. Acompanhado de Lucas, Timóteo e Demas, o velho advogado dos gentios partiu ao amanhecer de um dia lindo, cheio de projetos generosos. A missão visitou parte das Gálias, dirigindo -se ao território espanhol, demorando-se mais na região de Tor tosa. Em toda parte, a pa lavra e feitos do Apóstolo ganhavam novos corações para o Cristo, multiplicando os serviços do Evangelho e renovando as esperanças populares, à luz do Reino de Deus. Em Roma, todavia, a situação prosseguia cada vez mais grave. Com a perversidade de Tigelino à frente da Prefeitura dos Pretorianos, acentuara -se o terror entre os discípulos de Jesus. Faltava somente um édito em que os cidadãos romanos, simpatizantes do Evangelho, fossem condenados publicamente, porque os libertos, os descendentes de outros pov os e os filhos da plebe já enchiam as prisões. Simão Pedro, como figura de relevo do movimento, não tinha descanso. Não obstante a fadiga natural da senectude, procurava atender a todas as necessidades emergentes. Seu espírito poderoso sobrepunha -se a todas as vicissitudes e desempenhava os mínimos deveres com devotamento máximo à causa da Verdade. Assistia os doentes, pregava nas catacumbas, percorria longas distâncias, sempre animoso e satisfeito. Os cristãos do mun do inteiro jamais poderão esquecer aqu ela falange de abnegados que os precedeu nos primeiros testemunhos da fé, afrontando situações dolorosas e injustas, regando com sangue e lágrimas a sementeira do Cristo, abra çando-se mutuamente confortados nas horas mais negras da história do Evangelho, nos espetáculos hediondos do circo, nas preces de aflição que se elevavam dos cemitérios abandonados. Tigelino, grande inimigo dos prosélitos do Naza reno, buscava agravar a situação por todos os meios ao alcance da sua autoridade odiosa e perversa. O filho de Zebedeu preparava -se para regressar à Ásia, quando um grupo de esbirros dos perseguidores o colheu em pregação carinhosa e inspirada, na qual se despedia dos confrades de Roma, com exortações de to cante reconhecimento a Jesus. Apesar das atenciosas explicações, João foi preso e esbordoado impiedosamente. E, com ele, dezenas de irmãos foram trancafiados nos cárceres imundos do Esquilino. Pedro recebeu a notícia dolorosamente surpreendido. Conhecia a extensão dos trabalhos que aguardavam na Ásia o comp anheiro generoso e rogou ao Senhor não o abandonasse, a fim de obter absolvição justa. Como proceder em tão difíceis circunstâncias? Recorreu às relações prestigiosas que a cidade lhe oferecia. Entretanto, seus afeiçoados eram igualmente pobres de influên cia política nos gabinetes administrativos da época. Os cristãos de posição financeira mais destacada não ousavam enfrentar a onda avassaladora, de perseguição e tirania. O antigo chefe da igreja de Jerusalém não desanimou. Precisava libertar o amigo, conc orrendo, para isso, com todo o potencial de energia, na esfera de suas possibilidades. Compreendendo a timidez natural dos romanos simpatizantes do Cristo, buscou reunir apressadamente uma assembléia de amigos íntimos, para examinar o caso. No meio dos debates alguém se lembrou de Paulo. O Apóstolo dos gentios dispunha na capital do Império de grande número de afeiçoados eminentes. No caso da sua absolvição, a providência partira do círculo dileto de Popéia Sabina. Muitos militares colaboradores de Afrâ nius Búrrus eram seus admiradores. Acácio Domício, que dispunha de valiosos empenhos junto dos pretorianos, era seu amigo dedicado e incondicional. Ninguém melhor que o ex -tecelão de Tarso poderia incumbir -se da delicada missão de salvar o prisioneiro. Não se ria razoável pedir sua ajuda? Comentava-se o caráter urgente da medida, mesmo porque, numerosos cristãos morriam todos os dias na prisão do Esquilino, vítimas das queimaduras de azeite fervente. Tigelino e alguns comparsas da administração criminosa distraíam-se com os suplícios das vítimas. O azeite era lançado aos infelizes no poste do martírio. Outras vezes, os prisioneiros maniatados eram mergulha dos em grandes barris de água em ebulição.