Capítulo 6
Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é o homem. O senso moral é o que mais tardiamente se desenvolve nele, razão pela qual não pode fazer de Deus, dos seus atributos e da vida futura, senão uma ideia muito vaga e imperfeita. Assimilando-o à sua própria natureza, Deus não passa para ele de um soberano absoluto, tanto mais terrível quanto invisível, como um rei despótico que, fechado no seu palácio, jamais se mostrasse aos súditos. Sem compreenderem o seu poder moral, só o aceitam pela força material, e não o veem senão armado com o raio, ou no meio de relâmpagos e tempestades, semeando de passagem a ruína e a desolação, tal como fazem os guerreiros invencíveis. Um Deus de mansuetude e misericórdia não seria um Deus, mas um ser fraco a quem seria impossível obedecer. A vingança implacável, os castigos terríveis, eternos, nada tinham de incompatíveis com a ideia que se fazia de Deus, nada que lhes repugnassem à razão. Como eles mesmos fossem implacáveis nos seus ressentimentos, cruéis com os inimigos e inexoráveis com os vencidos, Deus, que lhes era superior, deveria ser ainda mais terrível. Para tais homens havia necessidade de crenças religiosas compatíveis com a sua natureza ainda rústica. Uma religião exclusivamente espiritual, toda amor e caridade, não podia aliar-se à brutalidade dos costumes e das paixões, de modo que não se deve censurar a legislação draconiana⁵³ de Moisés, que apenas podia conter seu povo indócil, nem o fato de haver feito de Deus um Deus vingativo. A época assim o exigia, sem o que a doutrina de Jesus não teria encontrado eco e até mesmo se anularia.
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Doutrina das penas eternas
Tema Origem da doutrina das penas eternas
Item 3