Resp. – Se vos dissesse que é o apego, acreditaríeis em mim?
P. – Acreditamos. Não obstante, tende a bondade de explicar como conciliais esse apego com a vingança que praticais.
Que era para vós o Espírito dessa criança numa outra existência, e que vos fez ela para merecer tanto rigor?
Resp. – Inútil que mo pergunteis. Já vo-lo disse: não me faleis dessa menina.
P. – Pois bem! não falemos mais nisso. Mas devemos vos felicitar pela mudança em vós operada; estamos felizes por isto.
Resp. – Faço progressos em vossa escola... Que vão dizer os outros?... Vão me vaiar e protestar: Ah! tu te fazes eremita!
P. – Que vos importa seu escárnio, se tendes os louvores dos Espíritos bons?
Resp. – É verdade.
P. – Ora! Para provar aos Espíritos maus, vossos antigos companheiros, que rompeis completamente com eles, deveríeis perdoar completamente, a partir de hoje; mostrar-vos generoso e bom, deixando de modo absoluto a jovem pela qual nos interessamos.
Resp. – Impossível, meu caro senhor. Isto não pode acontecer de maneira tão repentina; Deixai que me desfaça pouco a pouco do que me é uma necessidade. Sabeis a que vos arriscaríeis se eu cessasse subitamente? a me ver voltar de súbito. Entretanto, quero vos prometer uma coisa: é poupar a menina e torturá-la amanhã menos que hoje. Mas imponho uma condição: a de não ser trazido aqui à força; quero vir livremente ao vosso apelo e, se faltar à minha palavra, consinto em perder este favor. Devo dizer-vos que tal mudança em mim é devida a essa figura radiosa que aí está, junto de vós, e que também vejo ao lado da cama da menina, todos os dias, no momento da luta. Sentimo-nos tocado, mesmo sem o querer; sem isto, vós e os santos teríeis dificuldades por alguns dias.
(O Espírito referia-se à pequena Cárita).
P. – Então ela é bonita?
Resp. – Oh! sim, muito bela!
P. – Mas ela não está sozinha junto de vós durante as lutas?
Resp. – Oh! não! Há outros: os antigos do corpo, os amigos. Eles jamais sorriem; mas agora zombo muito deles.
Observação – O interrogador por certo queria falar dos outros Espíritos bons, mas Jules fazia alusão aos Espíritos maus, seus companheiros.
P. – Vamos! Antes de nos deixar, prometemos esta noite fazer uma prece por vós.
Resp. – Eu peço dez; dizei-as de coração e amanhã estareis contentes comigo.
P. – Pois bem! que sejam dez. E já que estais em tão boas disposições, quereis escrever de cor uma prece em três palavras, ditada por mim?
Resp. – De bom grado.
O Espírito escreveu: “Ó meu Deus, dai-me a força de perdoar.”
No dia 15 de janeiro a crise se deu, como sempre, às cinco horas da tarde, mas durou apenas um quarto de hora. A luta foi fraca e seguida de êxtase, sorrisos e lágrimas, que exprimiam alegria e felicidade.
Na reunião da noite, a pequena Cárita nos deu a comunicação seguinte: “Meus caros protegidos, conforme havíamos previsto, o fenômeno espírita que se passa aos vossos olhos se modifica, melhora dia a dia, perdendo seu caráter de gravidade. Antes de mais, um conselho: Que seja para vós um tema de estudo, do ponto de vista das torturas físicas, e de estudos morais. Aos olhos do mundo não façais sinais exteriores; não digais palavras inúteis. Que vos importa o que hão de dizer? Deixai a discussão aos ociosos.
Que o objetivo prático, isto é, a libertação desta menina e a melhora do Espírito que a obsidia, seja o elemento de vossas conversas íntimas e sérias; não faleis de cura em voz alta; pedi-a a Deus no recolhimento e na prece.
“Esta obsessão – sinto-me feliz em dizer – chega ao fim. O Espírito Jules melhorou sensivelmente. Também eu, com todo o meu poder, agi sobre o Espírito da menina, a fim de que essas duas naturezas tão opostas se tornassem mais compatíveis entre si. A combinação dos fluidos não oferecerá mais nenhum perigo real em relação ao organismo; o abalo que sentia esse corpo jovem ao contato fluídico desaparece sensivelmente. Vosso trabalho não acabou; a prece de todos deve sempre preceder e seguir a evocação.”
Pequena Cárita Após a evocação de Jules e a prece, na qual é qualificado de Espírito mau, diz ele: “Eis-me aqui! Em nome da justiça, peço a reforma de certas palavras de vossa prece. Reformei os meus atos; reformai as qualificações que me dais.”
P. – Tendes razão; não erraremos mais. Hoje viestes sem constrangimento?
Resp. – Sim, vim livremente; cumpri minhas promessas.
P. – Agora que estais calmo e com bons sentimentos, concordais em nos confiar os motivos de vosso rigor em relação a essa menina?
Resp. – Por favor, deixai o passado. Quando o mal está cauterizado, para que revolver a ferida? Ah! sinto que o homem deve tornar-se melhor. Tenho horror ao meu passado e encaro o futuro com esperança. Quando uma boca de anjo vos diz: A vingança é uma tortura para quem a exerce; o amor é a felicidade para aquele que o prodigaliza, então esse fermento que azeda e seca o coração se extingue: é preciso amar.
Estais admirados de minhas palavras? Não são criação minha; foram-me ensinadas e tenho prazer em vo-las repetir. Ah!
como seríeis felizes se, mesmo por um minuto, pudésseis perceber este anjo bom, radioso como o sol, suave como o orvalho refrescante que cai em gotículas finas sobre uma planta queimada pelo fogo do dia! Como vedes, não tenho dificuldade de falar: bebo na fonte.
“Um rápido golpe de vista em minha vida vagabunda: “Nascido no seio da miséria, ligado ao vício, desde cedo experimentei os amores grosseiros da vida. Sorvi com o leite a poção envenenada que me ofereciam todas as paixões. Errei sem fé, sem lei, sem honra. Quando se tem de viver ao acaso, tudo é bom. A galinha do camponês, como o carneiro do castelão, servia-nos de refeição. A pilhagem era a minha ocupação, quando sem dúvida o acaso, pois não creio que a Providência cuide de semelhantes celerados, me tomou e me equipou. Orgulhoso da roupa batida, que substituía meus andrajos, e munido de uma alabarda, juntei-me a um bando de... maus companheiros, vivendo a expensas de um senhor cobarde que, por sua vez, distinguia-se pelo talhe sobre seus companheiros. Mas que nos importava, a nós, a fonte de onde corriam para as nossas mãos a moeda e as provisões! Não entrarei em detalhes sobre os fatos que me são pessoais: eles são maus, horríveis e indignos de serem contados.
Compreendeis que, educado em semelhante escola, a gente possa tornar-se um homem de bem?
“Separado pela morte, o bando foi restabelecer-se no mundo dos Espíritos. Longe de evitar as ocasiões de fazer o mal, nós as buscávamos. Em meus passeios errantes, encontrei uma vítima a fazer e o fiz. O resto já sabeis.
“Orai também pelo bando, senhores, por favor! Muitas vezes vos admirais de que uma região contenha mais malfeitores que outras. É muito simples. Não querendo separar-se, lançam-se sobre uma região como uma nuvem de gafanhotos: aos lobos, as florestas; aos pombos, os pombais.
“Vivi esta existência terrena ao tempo de Luís XIII.
Minha última experiência passou-se sob o Império. Fui guerrilheiro; o bacamarte e o chapéu cônico adornado com fitas me agradavam muito. Amava o perigo, o roubo e as ações arriscadas.
Triste gosto, direis; mas que fazer alhures? Estava habituado a viver nos bandos. Deveis estar admirados dessa mudança súbita: é a obra de um anjo.
“Nada vos prometo para amanhã. Julgar-me-eis por meus atos. Uma prece, por favor; por minha vez, vou fazer uma: “Anjinho, abre tuas asas, levanta vôo para o trono do Senhor; pede-lhe o meu perdão, pondo a seus pés o meu arrependimento.”
Jules P. – Já que estais em tão bom caminho, pedi a Deus pela pobre menina...
Resp. – Não posso... seria irrisão ou crueldade que o carrasco abraçasse sua vítima.
No dia seguinte, 16 de janeiro, a menina não teve crise, mas apenas um desconforto gástrico. Aos nossos olhos, havia-se operado a libertação.
Às oito horas da noite, respondendo ao nosso apelo, o Espírito Jules deu a seguinte comunicação: “Meus amigos, permiti-me este nome. Eu, o Espírito obsessor, astuto e perverso; eu que, ainda há poucos dias, apodrecia no mal e nisso tinha prazer, vou, com o auxílio do anjo, vos pregar moral. Eu mesmo me encontro surpreso por esta mudança; pergunto-me se sou eu mesmo quem fala.
“Julgava que todo sentimento se tivesse apagado em minha alma; mas uma fibra ainda vibrava; o anjo a adivinhou e a tocou; começo a ver e a sentir. O mal me causa horror. Lancei o olhar sobre o meu passado e só vi crimes. Uma voz suave me disse: Espera; contempla a alegria e a felicidade dos Espíritos bons; purifica-te; perdoa, em vez de te vingar; ama, ao invés de odiar.
Também te amarei, eu, se quiseres amar, se te tornares melhor.
Sinto-me comovido. Agora compreendo a felicidade que experimentarão os homens, quando souberem praticar a caridade.
“Mocinha, (dirigia-se à sua vítima, presente na sessão) tu, que eu havia escolhido para minha presa, como o abutre a doce pomba, ora por mim e que o nome do reprovado se apague da tua memória. Recebi o batismo do amor das mãos do Senhor e agora visto a roupa da inocência. Pobre menina, desejo que tuas preces, dirigidas ao Senhor em meu benefício, logo me livrem do remorso que me vai acompanhar como uma expiação justamente merecida.