Relato Completo da Cura da Jovem Obsedada de Marmande
“Meus amigos, tende a bondade de continuar, também, vossas preces por meus miseráveis companheiros, que me perseguem com a sua inveja maldosa, porque lhes escapo. Ainda ontem eu me perguntava o que eles dirão de mim; hoje eu lhes digo: Venci; meu passado está perdoado, pois soube arrepender-me. Fazei como eu, travai a batalha contra o mal, que vos mantém cativo nesse lugar de tormentos e de desespero; saí de lá vencedores. Se, como a vossa, a minha mão criminosa encharcou-se de sangue, ela vos levará a água santa da prece que lava os estigmas do reprovado. Meu Deus, perdão! “Obrigado, meus amigos, pelo bem que me fizestes. Pedirei para ficar junto de vós, a partir de hoje, para assistir às vossas reuniões. Necessito beber na fonte pura, conselhos para viver uma nova existência, que rogarei a Deus, quando tiver sofrido a expiação de meu passado infame, que a consciência censura.” Jules A 17 de janeiro, conforme a promessa de Jules, a menina não sentiu qualquer mal-estar do estômago. A Pequena Cárita anunciou que ela sofreria uma prova moral, às cinco horas da tarde, durante alguns dias, ou durante o sono, prova que nada teria de penoso para ela e cujos únicos sintomas seriam sorrisos e doces lágrimas, o que realmente aconteceu, durante dois dias. Nos dias seguintes houve a mais completa ausência do menor sinal de crise. Nem por isso deixamos de observar a menina e de orar. Em 18 de fevereiro a Pequena Cárita nos ditou a seguinte instrução: “Meus bons amigos, bani todo o medo; a obsessão está acabada e bem-acabada; uma ordem de coisas estranhas para vós, mas que logo vos parecerão naturais, talvez seja a conseqüência desta obsessão, mas não obra de Jules. Algumas explanações são aqui necessárias como ensinamento. “Hoje, que conheceis a doutrina, a obsessão ou a subjugação do ser material se vos apresenta não como um fenômeno sobrenatural, mas simplesmente com um caráter diferente das doenças orgânicas. “O Espírito que subjuga penetra o perispírito do ser sobre o qual quer agir. O perispírito do obsedado recebe como uma espécie de envoltório o corpo fluídico do Espírito estranho e, por esse meio, é atingido em todo o seu ser; o corpo material experimenta a pressão sobre ele exercida de maneira indireta. “Causa admiração que a alma possa agir fisicamente sobre a matéria animada. Entretanto, é ela a autora de todos esses fatos. Ela tem por atributos a inteligência e a vontade; por sua vontade ela dirige, e o perispírito, de natureza semimaterial, é o instrumento do qual ela se serve. “O mal físico é aparente, mas a combinação fluídica, que vossos sentidos não podem captar, esconde um número infinito de mistérios, que se revelarão com o progresso da doutrina, considerada do ponto de vista científico. “Quando o Espírito abandona sua vítima, sua vontade não age mais sobre o corpo, mas a impressão que recebeu o perispírito pelo fluido estranho de que foi carregado, não se apaga de repente e continua ainda por algum tempo a influir sobre o organismo. No caso de vossa jovem doente: tristezas, lágrimas, langores, insônias, distúrbios vagos, tais são os efeitos que poderão produzir-se em conseqüência dessa libertação; mas, tranqüilizai-vos, vós, a menina e sua família, pois essas conseqüências não representarão perigo para ela. “O dever me chama, de maneira especial, a levar a bom termo o trabalho que iniciei convosco. Agora é preciso agir sobre o próprio Espírito da menina, por uma doce e salutar influência moralizadora. “Quanto a vós, meus amigos, continuai a orar e a observar atentamente todos esses fenômenos; estudai sem cessar; o campo está aberto e é vasto. Dai a conhecer e fazei compreender todas as coisas, e pouco a pouco as idéias espíritas se insinuarão no Espírito de vossos irmãos, que o aparecimento da doutrina encontrou incrédulos ou indiferentes.” Pequena Cárita Observação – Devemos um justo tributo de elogios aos nossos irmãos de Marmande pelo tato, prudência e devotamento esclarecido de que deram prova nessa circunstância. Por este retumbante sucesso Deus lhes recompensou a fé, a perseverança e o desinteresse moral, já que não buscavam nenhuma satisfação ao amor-próprio; o mesmo não teria ocorrido se o orgulho tivesse ofuscado sua boa ação. Deus retira seus dons a quem quer que não os use com humildade; sob o império do orgulho, as mais eminentes faculdades mediúnicas se pervertem, alteram-se e se extinguem, porque os Espíritos bons retiram o seu concurso. As decepções, os dissabores, as desgraças efetivas desde esta vida, muitas vezes são a conseqüência do desvio da faculdade de seu objetivo providencial. Poderíamos citar mais de um exemplo infeliz entre os médiuns que suscitavam as mais belas esperanças. A tal respeito, nunca nos penetraríamos demasiadamente das instruções contidas na Imitação do Evangelho, nos 285, 326 e seguintes, 333, 392 e seguintes. Recomendamos às preces de todos os bons espíritas o Espírito obsessor Jules, acima citado, a fim de o fortalecer em suas boas resoluções e fazer que compreenda o que se ganha fazendo o bem.
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Mês Junho
Ano 1864