O Sr. Dombre, de Marmande, enviou-nos o relato circunstanciado dessa cura, da qual já demos conhecimento aos leitores. Os detalhes que encerra são do mais alto interesse, do duplo ponto de vista dos fatos e da instrução. Como se verá, é, ao mesmo tempo, um curso de ensino teórico e prático, um guia para casos análogos e uma fonte fecunda de observações para o estudo do mundo invisível em geral, nas suas relações com o mundo visível.
Fui advertido – diz o Sr. Dombre em seu relatório – por um dos membros de nossa sociedade espírita, das crises violentas que todas as tardes, regularmente, no decurso dos últimos oito meses, sofria uma tal Tereza B...
Acompanhado do Sr. L..., médium, dirigi-me, em 11 de janeiro último, às quatro e meia da tarde, a uma casa vizinha à da doente, para tentar testemunhar a crise que, conforme ocorria todos os dias, devia acontecer às cinco horas. Lá encontramos a jovem e sua mãe, conversando com os vizinhos. A meia hora logo passou. De repente, vimos a moça levantar-se, abrir a porta, atravessar a rua entrar em sua casa, seguida pela mãe, que a tomou e a colocou toda vestida na cama. Começaram as convulsões; o corpo se contorcia; a cabeça tendia a tocar os calcanhares; o peito ofegava; numa palavra: era desagradável à vista. Entrando eu e o médium na casa vizinha, perguntamos ao Espírito Louis David, guia espiritual do médium, se era uma obsessão ou um caso patológico. O Espírito respondeu: “Pobre criança! Com efeito, ela se acha sob uma fatal influência, mesmo muito perigosa; vinde auxiliá-la. Obstinado e mau esse Espírito resistirá por muito tempo. Evitai, tanto quanto possível, que seja tratada por medicamentos, que lhe prejudicariam o organismo. A causa é toda moral. Tentai evocar esse Espírito; moralizai-o com delicadeza: nós vos auxiliaremos. Que todas as almas sinceras que conheceis se reúnam para orar e combater a mui perniciosa influência desse Espírito maldoso. Pobre pequena vítima do ciúme!”
Louis David P. – Por que nome chamaremos este Espírito?
Resp. – Jules.
Evoquei-o imediatamente. O Espírito apresentou-se de modo violento, injuriando-nos, rasgando o papel e recusando responder a certas interpelações. Enquanto nos entretínhamos com o Espírito, o Sr. B..., médico, que tinha vindo examinar a crise, chegou junto de nós e disse com certo assombro: “É singular! De repente a menina deixou de se contorcer; agora está imóvel no leito, toda estendida.” – “Isto não me causa admiração”, disse-lhe eu, “porque o Espírito obsessor está junto de nós neste momento.”
Exortei o Sr. B... a voltar para a doente e continuamos a interpelar o Espírito que, em dado momento, não mais respondeu. O guia do médium informou-nos que ele tinha ido continuar a sua obra, recomendando que não mais o evocássemos durante as crises, no interesse da menina, porque, voltando para ela com mais raiva, a torturava de modo mais intenso. No mesmo instante o médico entrou e nos informou que a crise recomeçava mais forte que nunca. Eu lhe fiz ler o aviso que acabava de nos ser dado e ficamos chocados com as coincidências, que não podiam deixar dúvidas quanto à causa do mal.
A partir dessa noite e sob recomendação dos Espíritos bons que nos assistem nos trabalhos espíritas, nós nos reuníamos todas as noites, até a cura completa.
No mesmo dia 11 de janeiro, recebemos a seguinte comunicação do Espírito protetor de nosso grupo: “Guardiã vigilante da infância infeliz, venho associar-me aos vossos trabalhos, unir os meus aos vossos esforços para libertar esta mocinha das garras cruéis de um Espírito mau. O remédio está em vossas mãos; velai, evocai e orai sem jamais vos cansardes, até a cura completa.”
Pequena Cárita Este Espírito, que toma o nome de Pequena Cárita, é o de uma jovem que conheci, morta na flor da idade e que, desde a mais tenra infância, tinha dado provas de grande angelitude e rara bondade.
A evocação do Espírito obsessor só nos valeu as mais grosseiras e obscenas injúrias, que é inútil repetir. Nossas exortações e nossas preces resvalavam sobre ele, mas não surtiram o efeito desejado.
“Amigos, não desanimeis; ele se julga forte porque vos vê aborrecidos com a sua linguagem grosseira. Evitai pregar-lhe moral neste momento. Conversai com ele familiarmente e em tom amigável, pois assim ganhareis a sua confiança e mais tarde podereis voltar a falar a sério com ele. Amigos, perseverança.”
Vossos Guias Conforme a recomendação, tornamo-nos afáveis nas interpelações, às quais ele respondeu no mesmo tom.
No dia seguinte, 12 de janeiro, a crise foi tão longa e violenta que as dos dias precedentes; durou mais ou menos uma hora e meia. A menina erguia-se no leito, repelia o Espírito com força e lhe dizia: “Vai-te! vai-te!” O quarto da doente estava cheio de gente. Alguns de nós nos achávamos junto ao leito para observar atentamente as fases da crise.
Na reunião da noite recebemos a seguinte comunicação: “Meus amigos, eu vos exorto a seguirdes, como tendes feito, passo a passo, esta obsessão que, para vós, é um fato novo.
Vossas observações serão de grande utilidade, pois casos semelhantes, em que tereis de intervir, poderão multiplicar-se.
“Creio que esta obsessão, a princípio inteiramente física, será seguida de alguma obsessão moral, mas sem perigo.
Logo vereis momentos de alegria em meio às torturas exercidas por esse Espírito mau. Reconhecê-los-eis pela presença e pela mão dos Espíritos bons. Se as torturas ainda durarem, notareis, depois da crise, a completa paralisação do corpo e, após essa paralisação, uma alegria serena e um êxtase que suavizarão a dor da obsessão.
“Observai bastante. Manifestar-se-ão outros sintomas e neles encontrareis novo material de estudo.
“O Senhor disse aos seus anjos: Ide levar minha palavra aos filhos dos homens. Ferimos a terra com a vara e esta gera prodígios. Curvai-vos, filhos: é a onipotência do Eterno que se vos manifesta.
Amigos, vigiai e orai; estamos junto de vós e do leito dos sofrimentos para secar as lágrimas.”
Pequena Cárita Evocado, o Espírito Jules estava menos intratável do que na véspera; na verdade, respondemos às suas facécias com outras, o que lhe agradava. Antes de nos deixar, fizemos nos prometesse ser menos duro em relação à sua vítima. “Tratarei de moderar-me”, disse ele; e como, por nossa vez, prometemos orar por ele, respondeu-nos: “Aceito, embora não conheça o valor desta mercadoria.”
P. [Ao Espírito]. Já que não conheceis a prece, quereis conhecê-la e escrever uma ditada por mim?
Resp. – Gostaria muito.
Ditado por nós, o Espírito escreveu a seguinte prece: “Ó meu Deus! prometo abrir minha alma ao arrependimento; fazei penetrar no meu coração um raio de amor por meus irmãos, única coisa que pode purificar-me e, como garantia desse desejo, aqui faço a promessa de... (O fim da frase era: Cessar minha obsessão; mas o Espírito não escreveu estas três últimas palavras). Acrescentou: Alto! Quereis comprometer-me, sem me avisar. Cuidado! Não gosto de armadilhas. Andais muito depressa.” E como quiséssemos saber a origem de seu ciúme e de sua vingança, continuou: “Nunca mais me faleis da menina; apenas me afastaríeis de vós.”
A crise do dia 13 não durou mais que meia hora; a luta com o Espírito foi seguida de sorrisos de felicidade, de êxtase e de lágrimas de alegria; com os olhos muito abertos e juntando as duas mãos, a menina erguia-se no leito e fitava o céu, como num quadro encantador. As predições da pequena Cárita realizaram-se em todos os pontos.
Na evocação ocorrida à noite, assim como nos dias anteriores, o Espírito Jules mostrou-se mais afável, mais submisso, e novamente prometeu moderar os seus ataques contra a menina, cuja história jamais quis contar; prometeu até mesmo orar.
Disse-nos o guia do médium: “Não confieis muito em suas palavras; podem ser sinceras, mas ele poderia estar querendo vos enganar para se livrar de vós. Ficai de guarda. Levai em consideração as suas promessas; se, mais tarde, tiverdes de o censurar, fazei-o com brandura, a fim de que ele sinta os bons sentimentos que tendes para com ele.
Louis David No dia 14 a crise foi tão curta quanto na véspera e ainda menos viva. Foi igualmente seguida de êxtase e de manifestações de alegria. As lágrimas que corriam pelas faces da menina causavam nos assistentes uma emoção que não podiam ocultar.
Reunidos às oito horas da noite, como de costume, recebemos inicialmente a seguinte comunicação: “Como deveis ter notado, operou-se hoje uma melhora sensível na menina. Devemos dizer que nossa presença influi bastante sobre o Espírito; nós lhe lembramos a promessa de ontem. A mocinha hauriu novos conhecimentos no êxtase e tentou repelir os ataques do obsessor. Na evocação de Jules, não useis de subterfúgios; evitai os detalhes que fatigam uns aos outros; sede francos e benevolentes com ele e o conquistareis mais cedo.
Conforme pudemos notar nesta última crise, ele deu um grande passo à frente.”
Pequena Cárita Evocação de Jules.
Resp. – Eis-me aqui, senhores.
P. – Quais as vossas disposições de hoje?
Resp. – São boas.
P. – Sentistes o efeito de nossas preces?
Resp. – Não muito.
P. – Perdoai à vossa vítima e sentireis uma satisfação que não conheceis; é o que sentimos no perdão das injúrias.
Resp. – Comigo é tudo ao contrário. Eu encontrava satisfação na vingança de uma injúria. A isto chamo pagar as dívidas.
P. – Mas o sentimento de ódio que conservais na alma é um sentimento desagradável que está longe de vos dar tranqüilidade.