Primeira Conversação
Visitante: — Vê-se, porém, que a moda das mesas girantes, que durante algum tempo foi um furor, já passou; atualmente ninguém se ocupa mais com elas. Por que isso acontece, se esse é um assunto sério? A.K.: — Porque das mesas girantes saiu algo mais sério ainda; delas saiu toda uma ciência, toda uma doutrina filosófica muitíssimo interessante para aqueles que refletem. Quando essas pessoas não tiveram mais nada a aprender diante de uma mesa que se movia, não se ocuparam mais com esse fenômeno. Para os fúteis, os que nada investigam, isso era um passatempo, um brinquedo que largaram depois de usá-lo bastante; para a Ciência, essas pessoas não são consideradas. O período da curiosidade teve o seu tempo, depois foi sucedido pelo da observação. O Espiritismo, então, entrou no domínio das pessoas sérias, que não se divertem com ele, mas que se instruem. As pessoas que o consideram como algo importante não se prestam a nenhuma experiência movida pela curiosidade, e, ainda menos, para aqueles que viriam a elas com pensamentos hostis. Como não se divertem, elas não estão dispostas a servir de divertimento para os outros; eu pertenço a esse número. Visitante: — Porém, não há nada que possa convencer melhor que a experiência, mesmo àqueles que, inicialmente, tinham como objetivo apenas a curiosidade. Se o senhor só trabalha em presença de pessoas convictas, permita que lhe diga que convence convertidos. A.K.: — Diferente de estar convencido, é estar disposto a se convencer, é a estes últimos que eu me dirijo e não àqueles que crêem rebaixar a sua inteligência vindo escutar o que eles chamam de fantasia. Com esses eu não tenho a mínima preocupação do mundo. Quanto àqueles que dizem ter o desejo sincero de se esclarecerem, a melhor maneira de provarem suas palavras é mostrar perseverança; eles são reconhecidos por outros sinais além da vontade de assistir a uma ou duas experiências: esses querem trabalhar seriamente. A convicção só é obtida com o tempo, com uma série de observações feitas com um cuidado todo especial. Os fenômenos espíritas diferem essencialmente dos que as nossas ciências exatas(9) apresentam: eles não se produzem à vontade. É preciso compreendê-los no momento em que ocorrem; é observando-os muito, e por muito tempo, que se descobre uma quantidade de provas que escapam à primeira vista, principalmente quando a pessoa não está familiarizada com as condições nas quais elas podem se encontrar, e ainda mais quando se chega cheio de prevenção. Para o observador assíduo que reflete, as provas afluem; para ele, uma palavra, um fato insignificante em aparência pode ser um raio de luz, uma confirmação. Para o observador superficial e casual, para o simples curioso, elas são nulas; eis por que eu não me presto a experiências sem resultado provável. Visitante: — Porém, para tudo é preciso um começo. O iniciante que nada sabe, que nada viu, mas que de seja se esclarecer, como pode fazê-lo se o senhor não lhe dá os meios? A.K.: — Eu faço uma grande diferença entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo sistemático. Quando vejo em alguém as disposições favoráveis, nada me custa esclarecê-lo, mas há pessoas nas quais o desejo de se instruir é apenas aparente; com elas perde-se o tempo porque, se não acham logo o que parecem procurar, e que talvez os aborrecesse se encontrassem, o pouco que vêem é insuficiente para destruir suas prevenções; elas julgam mal e fazem do que viram um objeto de zombaria que é inútil lhes fornecer. Àquele que tem o desejo de se instruir, eu direi: “Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de Física ou de Química, já que nunca se é senhor de produzir os fenômenos por livre determinação, e porque as inteligências que são os agentes desses fenômenos muitas vezes frustram todas as nossas previsões. Aqueles que, acidentalmente, o senhor pudesse ver, não apresentando nenhuma seqüência, nenhuma ligação necessária, lhes seriam pouco inteligíveis. Instrua-se primeiro pela teoria; leia e medite as obras que tratam dessa ciência, nelas aprenderá seus princípios, encontrará a descrição de todos os fenômenos, compreenderá sua possibilidade pela explicação que é dada sobre eles, e pela narração de inúmeros fatos espontâneos, dos quais o senhor pode ter sido testemunha sem se dar conta, e que lhe voltarão à memória. O senhor se esclarecerá sobre todas as dificuldades que podem se apresentar e formará, assim, uma primeira convicção moral. Então, quando a oportunidade de ver ou de operar pessoalmente se apresentar, compreenderá, qualquer que seja a ordem na qual os fatos se apresentem, porque nada lhe será estranho.” Eis aí o que aconselho a qualquer pessoa que afirme querer se instruir, e, de acordo com a resposta recebida, é fácil perceber se existe nela algo além da curiosidade.
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Título O Crítico
Capítulo I
Título do Capítulo Pequena Conferência Espírita
Tradutor Albertina Escudeiro Sêco
Editora CELD
Edição 1ª edição, 2008
ISBN 978-85-7297-421-9