Esse é o caso da maioria daqueles que têm falado do Espiritismo. Eles formaram uma opinião apenas sobre o nome e fizeram como um juiz que desse uma sentença sem se dar ao trabalho de examinar as peças do processo. Daí resultou que o julgamento deles soou falso, e que, em lugar de convencer, eles fizeram rir. Quanto àqueles que têm estudado seriamente o assunto, a maioria mudou de opinião, e mais de um adversário tornou-se seu partidário, quando viu que se tratava de algo completamente diferente do que ele havia acreditado.
Visitante: — O senhor fala do exame de livros em geral; acredita que seja materialmente possível, a um jornalista, ler e estudar todos aqueles que lhe passam pelas mãos, principalmente quando se trata de novas teorias que ele precisaria aprofundar e verificar? Seria o mesmo que exigir de um impressor que ele lesse todas as obras que saem de suas prensas.
A.K.: — A um raciocínio tão judicioso eu não tenho nada a responder, a não ser que, quando não se dispõe do tempo para fazer conscientemente uma coisa, é melhor não nos envolvermos com ela, e que mais vale fazer somente um trabalho bom do que dez de má qualidade.
Visitante: — Não creia que minha opinião tenha sido formada irrefletidamente. Vi pessoas, que eram consideradas como estando sob a influência dos espíritos, escreverem, mesas girarem e baterem,(5) mas estou convencido de que ali havia charlatanismo.
A.K.: — Quanto pagou para ver tudo isso?
Visitante: — Absolutamente nada, seguramente.
A.K.: — Então, temos charlatães de uma espécie singular, e que vão reabilitar esse nome. Até o momento ainda não se havia visto charlatães desinteressados. Se uma vez, fortuitamente, algum gracejador de mau gosto quis se divertir, deve-se daí concluir que as outras pessoas fossem suas cúmplices? Por outro lado, com que finalidade seriam coniventes em uma mistificação? “Para divertir a sociedade”, dirá o senhor. Eu admito que alguém se preste uma vez a uma brincadeira, mas quando uma brincadeira dura meses e anos, creio que é o mistificador que é mistificado. É provável que, pelo único prazer de fazer acreditar em uma coisa, que se sabe que é falsa, alguém se fatigue, horas inteiras junto a uma mesa? O prazer não valeria a pena!
Antes de concluir pela existência de fraude, é preciso, inicialmente, perguntar que interesse alguém pode ter em enganar. Ora, o senhor há de convir que existem situações que excluem qualquer suspeita de fraude, e pessoas cujo caráter já é uma garantia de probidade.
Seria diferente se se tratasse de uma especulação, porque a atração pelo ganho é má conselheira; porém, mesmo admitindo-se que, neste último caso, um fato de manobra fraudulenta seja positivamente constatado, isso não provaria nada contra a realidade do princípio, visto que se pode abusar de tudo. O fato de existirem pessoas que vendem vinho adulterado, não quer dizer que não haja vinho puro. O Espiritismo não é mais responsável por aqueles que abusam desse nome e o exploram do que a ciência médica o é pelos charlatães que propagam suas drogas, nem a religião pelos sacerdotes que abusam do seu ministério.
O Espiritismo, pela sua novidade e por sua própria natureza, devia prestar-se a abusos, mas ele deu os meios de reconhecê-los, definindo claramente seu verdadeiro caráter e recusando qualquer solidariedade com aqueles que o exploravam ou o desviavam de seu objetivo exclusivamente moral para fazer dele um negócio, um instrumento de adivinhação ou de pesquisas fúteis.
Desde que o próprio Espiritismo traça os limites nos quais se encerra, determina o que diz e o que não diz, o que pode e o que não pode, o que está ou o que não está em suas atribuições, o que ele aceita e o que repudia, o erro pertence àqueles que, não se dando ao trabalho de estudá-lo, julgam-no pelas aparências; aos que, porque encontram saltimbancos vestindo-se com o nome de espíritas para atrair os transeuntes, dirão gravemente: “Eis aí o que é o Espiritismo”. Sobre quem, definitivamente, recai o ridículo? Não é sobre o saltimbanco que exerce a sua profissão, nem sobre o Espiritismo cuja doutrina escrita desmente semelhantes afirmações, mas sobre os críticos convencidos a falar sobre o que não sabem, ou a alterar conscientemente a verdade.
Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que está contra a sua própria essência, o fazem, ou por ignorância ou com intenção; no primeiro caso, existe leviandade, no segundo, má-fé. Neste último caso, eles se assemelham a certos historiadores que alteram os fatos históricos no interesse de um partido ou de uma opinião. Um partido sempre se desacredita pelo emprego de semelhantes meios, e não consegue o seu objetivo.
Repare bem que eu não pretendo que a crítica deva, necessariamente, aprovar nossas idéias, mesmo após havê-las estudado; não censuramos, de modo algum, aqueles que não pensam como nós. O que é evidente para nós, pode não ser para todo mundo; cada um julga as coisas sob o seu ponto de vista, e do fato mais positivo nem todos tiram os mesmos resultados. Se um pintor, por exemplo, coloca em seu quadro um cavalo branco, qualquer pessoa poderá dizer que esse cavalo fez um mau efeito, e que um preto seria mais conveniente; haverá erro, porém, se ela disser que o cavalo é branco, quando ele é preto; é assim que procede a maioria dos nossos adversários.
Em resumo, cada um é perfeitamente livre para aprovar ou para criticar os princípios do Espiritismo, dele deduzir conseqüências boas ou más que lhe agradem, mas a consciência obriga a todo crítico sério não dizer o contrário do que é na realidade, ora, para isso, a primeira condição é não falar do que não sabe.
Visitante: — Voltemos, eu lhe peço, às mesas que se movem e que falam. Elas não poderiam ter sido preparadas?
A. K.: — É sempre a questão da boa-fé a qual respondi. No momento em que o embuste for provado, eu o deixarei aos seus cuidados; se o senhor assinalar fatos evidenciados de fraude, de charlatanismo, de exploração ou de abuso de confiança, eu os entrego ao seu castigo, declarando desde já que não os defenderei, porque o Espiritismo sério é o primeiro a repudiá-los, e porque denunciar o abuso é ajudar a preveni-los e prestar um serviço à Doutrina. Porém, generalizar essas acusações, estender sobre uma multidão de pessoas honradas a reprovação que alguns indivíduos isolados merecem, é um abuso de outro gênero, porquanto é uma calúnia.
Admitindo-se que as mesas fossem preparadas, seria necessário um mecanismo bem engenhoso para que elas pudessem fazer movimentos e ruídos tão variados. Como é que ainda não se conhece o nome do hábil fabricante que os confecciona? Entretanto, ele deveria ter uma grande celebridade, pois que esses aparelhos estão espalhados nas cinco partes do mundo. Também é preciso convir que seu procedimento é bem sutil, pois que ele pode se adaptar a qualquer mesa sem deixar nenhum traço exterior. Como é que, desde Tertuliano(6) (ele também falou das mesas girantes e falantes) até o presente, ninguém pôde ver nem descrever tal aparelho?
Visitante: — Eis aí o que o engana. Um célebre cirurgião reconheceu que certas pessoas podem, pela contração de um músculo da perna, produzir um ruído semelhante àquele que o senhor atribui à mesa, de onde se conclui que os seus médiuns se divertem à custa da credulidade.
A.K.: — Então, se é um estalo do músculo, não é a mesa que está preparada. A prova mais evidente de que nem uns nem outros conhecem a verdadeira causa dessa pretensa fraude é que cada um a explica à sua maneira.
Eu respeito a ciência desse sábio cirurgião, só que algumas dificuldades se apresentam para a aplicação da sua teoria às mesas falantes. A primeira é que é singular que essa faculdade, excepcional até o momento e vista como um caso patológico, tenha, de repente, se tornado tão comum; a segunda é que é preciso ter um enorme desejo de mistificar para fazer seu músculo estalar durante duas ou três horas consecutivas, quando isso não lhe oferece mais que fadiga e dor; a terceira é que eu não entendo como esse músculo entra em relação com as portas e as paredes nas quais as batidas se fazem ouvir; a quarta, finalmente, é que é preciso a esse músculo esta lador uma propriedade bem maravilhosa para fazer mover uma pesada mesa, levantá-la, abri-la, fechá-la, mantê-la em suspensão sem ponto de apoio, e, depois, fazê-la quebrar ao cair. Ninguém desconfiava, nem de leve, que esse músculo tivesse tantas virtudes. (Revue Spirite, junho de 1859, p. 141: “O músculo estalador”.)
O célebre cirurgião do qual o senhor falou, estudou o fenômeno da tiptologia(7) naqueles que o produzem? Não; ele constatou um efeito fisiológico anormal, entre alguns indivíduos que nunca se ocuparam com mesas que batem, e, achando certa analogia com o efeito que se produz nas mesas, e sem um exame mais amplo, concluiu, com toda a autoridade da sua ciência, que todos aqueles que fazem as mesas falarem(8) devem ter a propriedade de fazer estalar seu músculo curto perônio, e que eles não são mais que impostores, quer sejam príncipes ou operários, quer sejam pagos ou não.
Pelo menos ele estudou o fenômeno da tiptologia em todas as suas fases? Ele verificou se, com a ajuda desses estalos musculares, poder-se-ia produzir todos os efeitos tiptológicos? Não, nada mais, do contrário ele se teria convencido da insufi-ciência do seu procedimento; mas isso não o impediu de proclamar sua descoberta em pleno Instituto. Este não é, para um sábio, um julgamento muito grave? O que resta dele hoje em dia? Eu lhe confesso, se eu tivesse de sofrer uma operação cirúrgica, hesitaria muito em me confiar a esse médico porque temeria que ele não julgasse minha doença com mais perspicácia.
Já que esse julgamento é um dos argumentos sobre os quais o senhor parece ter de se apoiar para sustentar um ataque contra o Espiritismo, isso me tranqüiliza completamente sobre a força dos outros argumentos que o senhor fará valer, se não for buscá-los em fontes mais autênticas.