Capítulo 9
E acrescentam: “A sua perda é desde então irreparável, mantendo-se eles no seu orgulho perante Deus.” Aliás, de que lhes serviria não manterem tal orgulho, uma vez que todo arrependimento é inútil? Se ao menos tivessem uma esperança de reabilitação, fosse qual fosse o seu preço, o bem teria um objetivo para eles. Assim não acontece, porém; se perseveram no mal é porque lhes trancaram a porta da esperança. Mas por que Deus lhes trancaria essa porta? Para se vingar da ofensa decorrente da sua insubmissão. E assim, para saciar o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus prefere não somente vê-los sofrer, mas agravar o mal com mal maior; impelir à perdição eterna todas as criaturas do gênero humano, quando por um simples ato de clemência podia evitar tão grande desastre, aliás previsto, de toda a eternidade! Trata-se, neste caso, de um ato de clemência, de uma graça pura e simples que pudesse transformar-se em estímulo ao mal? Não; mas de um perdão condicional, subordinado a sincero retorno ao bem. Em vez de uma palavra de esperança e misericórdia, é como se Deus dissesse: Pereça toda a raça humana antes que minha vingança! E com semelhante doutrina muita gente ainda se admira de que haja incrédulos e ateus! É assim que Jesus nos representa seu Pai? Ele que nos deu a lei expressa do esquecimento e do perdão das ofensas, que nos mandou pagar o mal com o bem, que prescreveu o amor aos inimigos como a primeira das virtudes que nos conduzem ao céu, pretenderia desse modo que os homens fossem melhores, mais justos e mais indulgentes que o próprio Deus?
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Os demônios
Tema Os demônios segundo a Igreja
Item 19