Alzira afastou-se como que mais tranquila, apesar da flagelação moral do reencontro. Minutos de valiosa conversação desfrutamos, ainda, nos diversos setores de trabalho do grande instituto, até que, no momento aprazado, nos ausentamos, os quatro, devorando o caminho que para a nossa companheira representava uma senda de retorno ao antigo lar. Na paisagem terrestre, enchia-se a madrugada de névoa rala e fria. De volta aos velhos sítios que lhe haviam assinalado a dolorosa experiência, Alzira não disfarçava a emoção de que se via objeto. Levemente amparada pelo braço de Silas, designava, aqui e ali, esse ou aquele trecho dos caminhos e pastagens que lhe evocavam mais expressivas recordações… De repente, desvelou-se-nos, em estreita planície, o casario em que se lhe desenvolvera o drama funesto. Em verdade, o luar revelava sólida construção em franca decadência. Extensos pátios laterais exibiam grandes jardins arruinados pelo pisoteio constante dos bovinos de grande porte. Porteiras desconjuntadas, tapumes derruídos e as varandas imundas falavam, sem palavras, da desídia dos moradores. E entidades estranhas, embuçadas em largos véus de sombra, transitavam, absortas, nos grandes terreiros, como se ignorassem a presença umas das outras. Com o visível receio de se fazer ouvida, a esposa de Olímpio notificou-nos, em surdina:
— São onzenários desencarnados, trazidos sub-repticiamente até aqui por Leonel e Clarindo, de modo a fortalecerem a usura no espírito de meu filho.
— Não nos enxergam? — Perguntou Hilário compreensivelmente intrigado.
— Não, — confirmou Silas.
— Com certeza nos identificam a chegada, entretanto, pelo que deduzo, encontram-se demasiadamente fixados nas ideias em que se mancomunam. Não se preocupam com a nossa presença, desde que lhes não penetremos a faixa mental, comungando-lhes os interesses.
— Isso quer dizer, — comentei, — que se algo lhes falássemos acerca da fortuna terrena, excitando-lhes o gosto da posse humana, indiscutivelmente nos dispensariam a melhor atenção… — Exatamente.
— E por que não o faze-lo?
— Inquiriu meu companheiro, curioso.
— Não nos seria lícito desperdiçar tempo, — respondeu-nos o amigo, — mesmo porque o trabalho que nos compete espera por nós a reduzidos passos, e ignoramos, até agora, como se nos desdobrarão as tarefas. Com efeito, entramos e o movimento no interior doméstico era de pasmar. Desencarnados de horripilante aspecto iam e vinham, através dos corredores extensos, conversando, aloucados, como se estivessem falando para dentro de si próprios. Tentei algo registar do que me era dado ouvir e o ouro constituía assunto fundamental de todos os solilóquios a se entrechocarem sem nexo. Qual se percebesse, com mais funda acuidade, as tramas do ambiente, Silas estacou de chofre e, deixando-nos os três em recuado ângulo de velha sala, ausentou-se, recomendando-nos aguardar-lhe o retorno, cautelosamente. Pretendia estudar, com antecipação, nosso quadro de serviço. Decorridos alguns minutos, voltou a buscar-nos. Conduziu a irmã Alzira para o aposento em que Adélia, a dona da casa, repousava junto dos filhinhos, explicando que não lhe convinha um encontro com os irmãos transformados em verdugos, e ali a deixamos sob a custódia de Hilário que, evidentemente a contragosto, se deixou ficar distanciado de nós, atendendo aos imperativos de vigilância. A sós comigo, o Assistente esclareceu que para efetuar o socorro com o proveito desejável, precisaríamos, antes de tudo, saber ouvir e que, em razão disso, procurasse de minha parte não lhe estorvar as atividades, na hipótese de me sentir assaltado por qualquer estranheza, diante das atitudes que ele fosse obrigado a assumir. Compreendi quanto queria Silas dizer e dispus-me a observar, aprender e contribuir, sem alarde. Penetramos estreito compartimento, onde alguém contemplava grandes maços de papel-moeda, acariciando-os com um sorriso malicioso. No intuito de trazer-me bem informado, o Assistente segredou-me ao ouvido:
— Este é Luís, que, desligado do corpo pela influência do sono, vem afagar o dinheiro que lhe nutre as paixões. Tínhamos pela frente um homem maduro, mas de fisionomia ainda moça, relaxado nas maneiras, cujos olhos parados sobre as cédulas encimavam-lhe a esquisita expressão de cobiça vitoriosa. Relanceou apressadamente o olhar em volta, com a indiferença de quem não nos conseguia ver, e, tão logo após um minuto de observação nossa, qual se estivera ele vigiado por cérberos invisíveis, dois homens desencarnados, de presença desagradável, penetraram no pequeno recinto e, dirigindo-se desabridamente para nós, um deles interrogou:
— Quem são? Quem são vocês?
— Somos amigos, — replicou Silas, maquinalmente.
— Bem, — aventou o outro, — nesta casa ingressam somente aqueles que saibam valorizar o dinheiro… E, designando Luís, acrescentou:
— Para que ele não se esqueça de preservar a fortuna que é nossa. Intuitivamente concluí que encarávamos com Leonel e Clarindo, os irmãos espoliados de outro tempo. Certo, porque lhes devêssemos algum esclarecimento à expectativa feroz com que nos seguiam os mínimos movimentos, Silas ajuntou:
— Sim, sim… Quem não estimará os haveres que lhe pertençam?
— Muito bem! Muito bem!… — Responderam, satisfeitos, ambos os perseguidores, esfregando as mãos, na alegria de quem supostamente encontrava mais combustível para a fogueira de vingança a que se entregavam com desvario espantoso. E, adquirindo imediata confiança em nós, à face das palavras com que o Assistente lhes sossegara a inquietação, Clarindo, o mais brutalizado dos dois, passou a dizer:
— Fomos vítimas de terrível traição e perdemos o corpo aos golpes de um irmão infeliz que nos pilhou os bens, e aqui estamos para o desforço justo. Gargalhou de estranha maneira e acentuou:
— O maldito, porém, acreditou que a morte lhe apagaria o crime e que nós, os desventurados que lhe sucumbimos às mãos, estaríamos reduzidos a pó e cinza. Apossou-se-nos dos haveres, depois de promover um acidente espetacular, no qual fomos por ele assassinados sem compaixão. De que lhe valeu, no entanto, gozar à nossa custa, se a morte não existe e se os delinquentes, no corpo ou fora dele, estão algemados às consequências das suas ações? O bandido sofrerá os resultados da infâmia contra nós e aqui respira o filho dele, cujos menores movimentos governaremos, até que nos restitua a fortuna de que somos legítimos senhores… Por tempo relativamente longo, ambos despenderam largo repertório de lamentações, reforçando as cores do sinistro painel mental a que se acomodavam. E, talvez cansados de martelar nas mesmas alegações, sem qualquer resposta de nossa parte, confiaram-se a pausa mais dilatada, que Clarindo rompeu, dirigindo-se ao Assistente em tom amargo:
— Não admitem vocês que temos razão?
— Sim, — aprovou Silas, enigmático, — todos temos razão, entretanto… — Entretanto? — Atalhou Leonel, algo cínico, quererá, porventura, interferir em nossos propósitos?
— Nada disso, — consertou meu amigo com inflexão jovial.
— Desejo simplesmente lembrar que por dinheiro já lutei excessivamente, crendo que o direito prevalecia de meu lado… Certo porque a observação algo dúbia chocava os interlocutores, o chefe de nossa expedição valeu-se da expectativa natural e perguntou:
— Amigos, vemos que esta casa permanece largamente povoada de irmãos nossos ensandecidos… Serão todos eles credores desta família infortunada? O olhar inteligente que o companheiro me endereçou deu-me a perceber que o inquérito afetuoso guardava o objetivo de entreter a confiança dos vingadores intrigados. Leonel, que me parecia o cérebro da empresa delituosa, foi presto na resposta.
— É que, até agora, — falou, impassível, — precisávamos dividir o tempo entre pai e filho, e, por isso, localizamos aqui, temporariamente, os onzenários enlouquecidos que, fora do campo carnal, apenas mentalizam o ouro e os bens a que se afeiçoaram no mundo, de modo a nos favorecerem a tarefa. Acompanhando o sovina que nos obedece ao comando, constrangem-no a viver, tanto quanto possível, com a imaginação aprisionada ao dinheiro que ele ama com tresloucada paixão.
— No entanto, presentemente, — informou Clarindo, magoado, — o criminoso que sitiávamos nas trevas nos foi arrebatado à vigilância. Disporemos de mais tempo para acelerar a nossa desforra. Pagará o filho dobrado preço, já que o assassino foi ocultado aos nossos olhos… Longe de qualquer precipitação na defesa da verdade e do bem, o Assistente falou, calmo:
— O esclarecimento nos faz crer que este homem, — e designou Luís, que prosseguia fascinado pelos maços de cédulas da gaveta bojuda, — além do apego enfermiço à precária riqueza humana, ainda sofre a pressão de outras mentes, alucinadas quanto a dele, nos enganos da posse material. Neste caso, o doentio desejo de que se sente objeto é naturalmente elevado à tensão máxima… Leonel, percebendo que Silas penetrava o âmago do problema com surpreendente facilidade, explicou, entusiasmado:
— Sim, aprendemos nas escolas de vingadores que todos possuímos, além dos desejos imediatistas comuns, em qualquer fase da vida, um “desejo-central” ou “tema básico” dos interesses mais íntimos. Por isso, além dos pensamentos vulgares que nos aprisionam à experiência rotineira, emitimos com mais frequência os pensamentos que nascem do “desejo-central” que nos caracteriza, pensamentos esses que passam a constituir o reflexo dominante de nossa personalidade.