Desse modo, é fácil conhecer a natureza de qualquer pessoa, em qualquer plano, através das ocupações e posições em que prefira viver. Assim é que a crueldade é o reflexo do criminoso, a cobiça é o reflexo do usurário, a maledicência é o reflexo do caluniador, o escárnio é o reflexo do ironista e a irritação é o reflexo do desequilibrado, tanto quanto a elevação moral é o reflexo do santo… Conhecido o reflexo da criatura que nos propomos retificar ou punir é, assim, muito fácil superalimentá-la com excitações constantes, robustecendo-lhe os impulsos e os quadros já existentes na imaginação e criando outros que se lhes superponham, nutrindo-lhe, dessa forma, a fixação mental. Com esse objetivo, basta alguma diligência para situar, no convívio da criatura malfazeja que precisamos corrigir, entidades outras que se lhe adaptem ao modo de sentir e de ser, quando não possamos por nós mesmos, à falta de tempo, criar as telas que desejemos, com vistas aos fins visados, por intermédio da determinação hipnótica. Através de semelhantes processos, criamos e mantemos facilmente o “delírio psíquico” ou a “obsessão”, que não passa de um estado anormal da mente, subjugada pelo excesso de suas próprias criações a pressionarem o campo sensorial, infinitamente acrescidas de influência direta ou indireta de outras mentes desencarnadas ou não, atraídas por seu próprio reflexo. E, sorrindo, o inteligente perseguidor disse, sarcástico:
— Cada um é tentado exteriormente pela tentação que alimenta em si próprio. De mim mesmo, achava-me perplexo. Nunca ouvira um verdugo, aparentemente vulgar, com tanto conhecimento e consciência de seu papel. Figurava-se-me assistir a um curso rápido de sadismo mental, extravagante e frio. Silas, mais treinado que eu, no trato com os amigos daquela condição, não exteriorizou qualquer sentimento de pesar ou de assombro na fisionomia serena. Entremostrando, porém, grande interesse em torno da preleção, considerou:
— Indiscutivelmente, a exposição é perfeita. Cada qual de nós vive e respira nos reflexos mentais de si mesmo, angariando as influências felizes ou infelizes que nos mantêm na situação que buscamos… Os Céus ou as Esferas Superiores são constituídos pelos reflexos dos Espíritos santificados e o inferno… — É o reflexo de nós mesmos, — completou Leonel com uma gargalhada. Creio que, em me assinalando o interesse no aprendizado em curso, o Assistente pediu ao irmão de Clarindo alguma demonstração prática do que afirmara teoricamente para nosso estudo, ao que ele assentiu com prazer, informando:
— O avarento sob nossa vista guarda o propósito de comprar ou extorquir determinada gleba vizinha, a qualquer preço, mesmo em se tratando de transação criminosa, para valorizar as aguadas da propriedade que nos pertence. Tratando-se de assunto no tema essencial da existência dele, que é a cobiça, facilmente recolherá as imagens que eu lhe deseje transmitir, utilizando-me da própria onda mental em que as suas ideias habitualmente se exprimem… E, passando das palavras para a ação, colocou a destra sobre a fronte de Luís, mantendo-se na profunda atenção do hipnotizador governando a presa. Vimos o pobre amigo, desligado do corpo físico, arregalar os olhos com a volúpia do faminto que contempla um prato saboroso, a distância, e exibir uma carantonha de maldade satisfeita, falando a sós:
— Agora! Agora! As terras serão minhas! Muito minhas! Ninguém concorrerá com meus preços! Ninguém!… Logo após, afastou-se, lépido, com a expressão indefinível de um louco. Acompanhamo-lo até à saída e, da extensa varanda, podíamos vê-lo, avançando, à pressa, desaparecendo, por fim, no grande maciço de arvoredo próximo, na direção de fazendola fronteiriça.
— Viram? — Exclamou Leonel, contente, — transmiti-lhe ao campo mental um quadro fantástico, através do qual as terras do vizinho estariam em leilão, caindo-lhe, enfim, nas unhas. Bastou que eu mentalizasse uma tela nesse sentido, arquitetando o sítio à venda, para que ele a tomasse por realidade indiscutível, porquanto, em se tratando de nosso reflexo fundamental, somos induzidos a crer naquilo que desejamos aconteça… Tão logo termine o fluxo controlado de minha influenciação hipnótica, retomará o corpo carnal, lambendo os beiços, na certeza de haver sonhado com a falência da granja sobre a qual pretende um título de posse. Silas, com manifesta intenção, ajuntou, sereno:
— Ah! sim!… Estamos diante de um processo de transmissão de imagens, até certo ponto análogo aos princípios dominantes na televisão, no reino da eletrônica, atualmente em voga no Plano terrestre. Sabemos que cada um de nós é um fulcro gerador de vida, com qualidades específicas de emissão e recepção. O campo mental do hipnotizador, que cria no mundo da própria imaginação as que deseja exteriorizar, é algo semelhante à câmara de imagem do transmissor comum, tanto quanto esse dispositivo é idêntico, em seus valores, à câmara escura da máquina fotográfica. Plasmando a imagem da qual se propõe extrair o melhor efeito, arroja-a sobre o campo mental do hipnotizado que, então, procede à guisa do mosaico em televisão ou à maneira da película sensível do serviço fotográfico. Não ignoramos que na transmissão de imagens a distância, o mosaico, recolhendo os quadros que a câmara está explorando, age como um espelho sensibilizado, convertendo os traços luminosos em impulsos elétricos e arremessando-os sobre o aparelho de recepção que os recebe, através de antenas especiais, reconstituindo com eles as imagens pelos chamados sinais de vídeo, e recompondo, dessa forma, as cenas televisadas na face do receptor comum. No problema em estudo, você, Leonel, criou os quadros que se propôs transmitir ao pensamento de Luís, e, usando as forças positivas da vontade, coloriu-os com os seus recursos de concentração na sua própria mente, que funcionou como câmara de imagem. Aproveitando a energia mental, muito mais poderosa que a força eletrônica, projetou-os, como legítimo hipnotizador, sobre o campo mental de Luís, que funcionou qual mosaico, transformando as impressões recebidas em impulsos magnéticos, a reconstituírem as formas-pensamento plasmadas por você nos centros cerebrais, por intermédio dos nervos que desempenham o papel de antenas específicas, a lhes fixarem as particularidades na esfera dos sentidos, num perfeito jogo alucinatório, em que o som e a imagem se entrosam harmoniosamente, como acontece na televisão, em que a imagem e o som se associam com o apoio eficiente de aparelhos conjugados, apresentando no receptor uma sequência de quadros que poderíamos considerar como sendo “miragens técnicas”. Os vingadores, tanto quanto eu mesmo, registaram o esclarecimento, sumamente surpreendidos. O Assistente, psicólogo, valera-se de argumentação à altura da que assinaláramos na boca de Leonel, certamente para cientificá-lo de que ele também, Silas, conhecia os processos da obsessão em suas minudências. Leonel, admirado, abraçou-o e exclamou:
— Companheiro, companheiro, de que escola procede você? Sua inteligência interessa-nos. O chefe de nossa expedição pronunciou alguns monossílabos e chamou-me à retirada, pretextando serviço a fazer. Os irmãos, acomodados à rebeldia, permutaram estranho olhar, como a dizerem entre si que pertencíamos a algum núcleo infernal distante e que lhes não convinha molestar-nos. Insistiram, porém, conosco a que retornássemos no dia seguinte para a troca de ideias, ao que Silas anuiu com evidente satisfação. Mais alguns minutos e o Assistente, em minha companhia, retirou Alzira e Hilário para o exterior, colocando-nos todos de regresso à Mansão. O prestimoso servidor do bem, na viagem de volta, mantinha-se silencioso, pensando, pensando… Contudo, diante de minha perplexidade, aclarou, fraterno:
— Não, André. Ainda é cedo para apresentar Alzira aos infortunados verdugos. Pela conversação de Leonel, percebi que cruzamos o caminho de duas vigorosas inteligências, cuja modificação inicial há de ser feita com amor para realizar-se com segurança… Voltaremos amanhã, sem a presença de nossa amiga, para um entendimento mais estável e, por isso mesmo, mais valioso. Passei, desse modo, a esperar ansiosamente pelo dia seguinte.