Capítulo 8
O estudo na Mansão era fascinante, mas reclamava tempo. No entanto, a oportunidade que nos fora oferecida era das mais valiosas. Hilário e eu solicitamos o assentimento das autoridades a que devíamos consideração e efetuamos proveitosa entrosagem de serviços, permanecendo sediados no instituto por alguns meses, de maneira a recolher ensinamentos e fixar observações. Foi assim que nos dispusemos a partilhar com Silas o trabalho atinente ao “processo Antônio Olímpio”, a cuja fase inicial assistíramos com fervoroso interesse. Após seis dias sobre a reunião em que ouvimos a palavra de Sânzio, o grande Ministro, a irmã Alzira veio ao estabelecimento, em obediência ao programa que Druso passou a traçar para as tarefas que lhe diriam respeito. Designado pelo diretor da casa, Silas recebeu-a em nossa companhia, alegando que, juntos, atenderíamos ao problema, agindo em cooperação. A nobre criatura, depois das saudações usuais, esclareceu-nos que, amparada por amigos de certa colônia socorrista, fazia o possível por ajudar ao filho que deixara na Terra. Luís, cujo Espírito se afinava com os antigos sentimentos paternos, apegando-se aos lucros materiais exagerados, — informou-nos a interlocutora, — sofria tremenda obsessão no próprio lar. Sob teimosa vigilância dos tios desencarnados, que lhe acalentavam a mesquinhez, detinha larga fortuna, sem aplicá-la em coisa alguma. Enamorara-se do ouro com extremada volúpia. Submetia a esposa e dois filhinhos às mais duras necessidades, receoso de perder os haveres que tudo fazia por defender e multiplicar. Clarindo e Leonel, não satisfeitos com lhe seviciarem a mente, conduziam para a fazenda usurários e tiranos rurais desencarnados, cujos pensamentos ainda se enrodilhavam na riqueza terrestre, para lhe agravarem a sovinice. Luís, desse modo, respirava num mundo de imagens estranhas, em que o dinheiro se erigia em tema constante. Perdera, por isso, o contato com a dignidade social. Tornara-se inimigo da educação e acreditava tão somente no poder do cofre recheado para solucionar as dificuldades da vida. Adquirira o doentio temor de todas as situações em que pudessem surgir despesas inesperadas. Possuía grandes somas em estabelecimentos bancários que a própria companheira desconhecia, tanto quanto mantinha em custódia no lar enormes bens. Fugia deliberadamente à convivência afetiva, relaxara a própria apresentação individual e encravara-se em deplorável misantropia, obcecado pelo pesadelo do ouro que lhe consumia a existência. Em seguida, a distinta senhora, buscando orientar as nossas futuras atividades, participou-nos que o afogamento dos cunhados se verificara em seus tempos de recém-casada, quando o filhinho mal ensaiava os primeiros passos, e que, após seis anos sobre a dolorosa ocorrência, encontrara, ela também, a desencarnação no lago terrível. Antônio Olímpio lhe sobrevivera, na Esfera carnal, quase três lustros e, por vinte anos, precisamente, padecia nas trevas. Luís, dessa forma, alcançava a madureza plena, tendo atravessado os quarenta anos de experiência física. Ante a palavra do Assistente, que indagou quanto aos seus tentames de socorro ao marido desencarnado, Alzira declarou que isso lhe fora realmente impossível, porque as vítimas se haviam transformado em carcereiros ferozes do infeliz delinquente, e como, até então, não conseguira escudar-se em qualquer equipe de trabalho assistencial, não lhe permitiam os verdugos qualquer aproximação. Ainda assim, em ocasiões fortuitas, dispensava ao filho, à nora e aos dois netos algum amparo, o que se lhe fazia extremamente difícil, de vez que os obsessores velavam, irredutíveis, guerreando-lhe as influências. À vista da pausa espontânea que se fizera em nosso entendimento, num testemunho de comovedora humildade consultou a Silas se a Mansão poderia facultar-lhe uma visita ao esposo, antes da viagem à procura do filho, segundo as tarefas programadas. O Assistente aquiesceu, com o maior carinho e guiamo-la, nós três, até o compartimento em que Antônio Olímpio repousava. Avizinhando-se-lhe do leito, e ao vê-lo ainda prostrado e inconsciente, notei que o semblante da nobre senhora acusava visível alteração. As lágrimas borbulhavam-lhe, incoercíveis, dos olhos, agora conturbados por imensa dor. Afagou-lhe a cabeça, em que os traços fisionômicos, a meu ver, se reajustavam, pouco a pouco, e chamou-o pelo nome várias vezes. O enfermo abriu os olhos, pousando-os sobre nós sem qualquer expressão de lucidez, pronunciando monossílabos desconexos. Registando-lhe a ruína mental, a notável mulher pediu a Silas permissão para orar, em nossa companhia, junto do esposo, o que lhe foi concedido prazerosamente. Diante da nossa surpresa, Alzira ajoelhou-se à cabeceira, guardou-lhe o busto de encontro ao colo, à maneira de abnegada mãe procurando reter um filhinho doente, e, levantando os olhos lacrimosos para o Alto, clamou, humilde, segundo a sua fé: “Mãe Santíssima! “Anjo tutelar dos náufragos da Terra, compadece-te de nós e estende-nos tuas mãos doces e puras!… “Reconheço, Senhora, que ninguém te dirige, debalde, a palavra de aflição e de dor… “Sabemos que o teu coração compassivo é luz para os que se tresmalham nas sombras do crime, e amor para todos os que mergulham nos abismos do ódio… “Perdoaste aos que te aniquilaram o Filho Divino nos tormentos da cruz e, além da paciência com que lhes suportaste os insultos, vieste ainda do Céu, ofertando-lhes braços protetores! “Mãe Bondosa, tu que ergues os caídos de tantas gerações terrenas e que saras, piedosamente, as feridas de quantos se petrificaram na crueldade, lança caridoso olhar sobre nós, meu esposo e eu, jungidos às consequências de duplo homicídio que nos fazem sangrar os corações. Eu e ele estamos enovelados nas teias de nosso delito. Embora estivesse ele sem mim, nas águas fatídicas, enquanto nossos irmãos experimentavam a asfixia mortal, partílho-lhe as responsabilidades e identifico-me associada ao crime, também eu… “Meu esposo, Mãe do Céu, devia ter o coração envolvido em pesada nuvem, quando se desvairou na estranha deliberação que nos chagou as consciências… “Para os outros poderá ele ser tido como um impenitente que se apropriou de recursos alheios, infligindo a morte aos próprios irmãos, menos para meu filho e para mim, que lhe recebemos os maiores testemunhos de amor… Para outros, será réu, diante da Lei… Para nós, porém, é o companheiro e o amigo fiel… Para os outros, parecerá um egoísta sem direito à remissão, mas, para nós, é o benfeitor que nos assistiu na Terra, com imensurável ternura… “Como não ser egoísta e criminosa também eu, Mãe Querida, se lhe usufruí os bens e me alimentei do carinho de seu coração? Como não ser igualmente responsável na culpa, se toda a culpa dele se prendia ao propósito, embora louco, de assegurar-me superioridade em minha condição de mulher e de mãe?!… “Advoga-nos a causa, Mediadora Celeste! “Faze-nos voltar, juntos, à carne em que delinquimos, para que possamos expiar nossos erros!… “Concede-me a graça de segui-lo, como servidora contente e agradecida, religada a quem devo tanta felicidade!… “Reúne-nos novamente no mundo e auxilia-nos a devolver com lealdade e valor aquilo que roubamos. “Não permitas, Anjo Divino, que venhamos a sonhar com o Céu, antes de resgatar nossas contas na Terra, e ajuda-nos a aceitar, dignamente, a dor que reedifica e salva!… “Mãe, atende-nos! “Estrela de nossa vida, arranca-nos da escuridão do vale da morte!…” Diante de nós, o inesperado compelia-nos ao êxtase. Enquanto falava em lágrimas, coroara-se Alzira de safirino esplendor. A doce claridade a se lhe irradiar do coração inundara todo o aposento e, assim que a sua voz emudeceu, embargada e ofegante, excelso jorro de prateada luz desceu do Alto, atingindo-nos a todos e comunicando-se especialmente ao enfermo, que desferiu longo gemido de dor humanizada e consciente. A prece de Alzira lograra um êxito que as operações magnéticas de Druso não haviam conseguido alcançar. Antônio Olímpio descerrou desmesuradamente as pálpebras e mostrou no olhar a lucidez dos que despertam de longo e torturado sono… Agitou-se, sentindo na face as lágrimas da esposa que o beijava, enternecida, e bradou, tomado de selvagem contentamento: — Alzira! Alzira!… Ela conchegou-o, de encontro ao peito, com mais ternura, como quem quisesse pacificar-lhe o espírito atormentado, mas, a um sinal de Silas, dois enfermeiros aproximaram-se, restituindo-o ao sono. Tentei algo dizer à sublime mulher, cuja oração nos erguera a tão culminante emotividade, mas não consegui. Somente aqueles que viajaram, por muitos e muitos anos, sob a névoa da saudade e da angústia, poderão entender a comoção que naquela hora nos dominara, irresistível. Procurei observar o semblante de Hilário, mas meu companheiro mergulhara a cabeça nas mãos e, fitando o valoroso Assistente, notei que Silas buscava enxugar as lágrimas dos olhos… Consolei-me. Os grandes corações daquela casa de amor igualmente choravam, tanto quanto eu, mísero pecador, em luta por sanar minhas deficiências e, contemplando Alzira, que se achava agora de pé, acariciando os cabelos do infeliz, tive a ideia de que um anjo do Céu visitava um penitente do inferno. Foi Silas quem nos arrancou ao silêncio, oferecendo o braço à abnegada irmã, para a saída, e explicando, prestimoso: — A oração trouxe-lhe imenso bem, no entanto, não lhe convém o despertamento senão gradativo. O sono natural e reparador ainda é uma necessidade em sua restauração positiva.
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