— Aonde iremos, senhor? — atreveu-se Jacob a perguntar, timidamente, logo que entraram nas ruas tortuoSas. O moço tarsense pareceu refletir um minuto e ac entuou: — É verdade que trago comigo algum dinheiro; en tretanto, estou em situação muito difícil: sinto precisar mais de assistência moral que de repouso físico. Tenho necessidade de alguém que me ajude a compreender o que se passou. Sabes onde reside Sa doc? — Sei — respondeu o servo compungido. — Leva-me até lá... Depois de me avistar com algum amigo, pensarei numa estalagem. Não se passou muito tempo e ei -los à porta de um edifício de singular e soberba aparência. Muralhas bem delineadas cercavam extens o átrio adornado de flores e arbustos. Descansando junto ao portão de entrada, Saulo recomendou ao companheiro: — Não convém que me aproxime assim, sem aviso. Jamais visitei Sadoc nestas condições. Entra no átrio, chama -o e conta-lhe o que se passou comigo . Esperarei aqui, mesmo porque não posso dar um passo. Oservo obedeceu prontamente. O banco de repouso distava alguns passos do largo portão de acesso, mas ficando só, ansioso de ouvir um amigo que o compreendesse, Saulo identificou o muro, tatean do-o. Vacilante e trêmulo, arrastou-se dificilmente e atingiu a entrada, ali permanecendo. Acudindo ao chamado, Sadoc procurou saber o mo tivo da visita inesperada. Jacob explicou, com humil dade, que vinha de Jerusalém, acompanhando o doutor da Lei e desf iou os mínimos incidentes da viagem e os fins colimados; mas, quando se referiu ao episódio prin cipal, Sadoc arregalou os olhos estupidificado. Custava -lhe acreditar no que ouvia, mas não podia duvidar da sinceridade do narrador, que, por sua vez, mal en cobria o próprio assombro. O homem falou, então, do mísero estado do chefe: da sua cegueira, das lágrimas copiosas que vertia. Saulo a chorar? O amigo de Damasco re cebia as estranhas notícias com imensa surpresa, sinteti zando as primeiras impressões numa resposta desconcertante para Jacob: — O que me conta é quase inverossímil; entretanto, em tais circunstâncias, torna-se impossível acolhê-los aqui. Desde anteontem tenho a casa cheia de amigos importantes, recém -chegados de Citium (1) para uma boa reuniã o na sinagoga, sábado próximo. Cá por mim, suponho que Saulo se perturbou, inesperadamente, e não quero expô -lo a juízos e comentários menos dignos. — Mas, senhor, que lhe direi? — interpôs Jacob hesitante. — Diga que não estou em casa. — Entretanto... encontro-me só com ele, assim perturbado e enfermo e, como vedes, a noite é tempes tuosa... Sadoc refletiu um momento e acrescentou: — Não será difícil remediar. Na próxima esquina vocês encontrarão a chamada “rua Direita” e, depois de caminhar alguns passos, encontrarão a estalagem de Judas, que tem sempre muitos cômodos disponíveis. Mais tarde, procurarei lá chegar para saber do ocor rido. (1) Nota da Editora — Cicio, cidade da ilha de Chipre. Ouvindo palavras tais, que pareciam mais uma ordem que respost a a um apelo amigo, Jacob despediu -se surpreso e desanimado. — Senhor — disse ao rabino, regressando ao portão de entrada —, infelizmente vosso amigo Sadoc não se encontra em casa. — Não está? — exclamou Saulo admirado — daqui lhe ouvi a voz, embora não distinguisse o que dizia. Será possível que meus ouvidos estejam igualmente perturbados? Diante daquela observação tão expressiva e sincera, Jacob não conseguiu dissimular a verdade e contou ao rabino o acolhimento que tivera, a atitude reservada e fria de Sadoc. Seguindo as pisadas do guia, Saulo tudo ouviu, mudo, enxugando uma lágrima. Não contava com seme lhante recepção da parte de um colega que sempre considerara digno e leal, em todas as circunstâncias da vida. A surpresa chocava-o. Era natural que Sadoc temesse pela renovação de suas idéias, mas não era justo aban donasse um amigo doente, às intempéries da noite. No entanto, no rebojar de mágoas que começavam a intu mescer-lhe o coração, recordou repentinamente a visão de Jesus e refletiu que, efetivamente, possuía agora experiências que o outro não pudera conhecer, chegando à conclusão de que talvez fizesse o mesmo se os papéis estivessem invertidos. Concluído o relato do companheiro, comentou re signado: — Sadoc tem razão. Não ficava bem perturbá -lo com a descrição do fato, quando tem à mesa amigos de responsabilidade na vida pública. Além disso, estou cego... Seria um estafermo e não um hóspede. Essas considerações comoveram o companheiro, que, aliás, deixara perceber ao jovem rabino os própr ios receios. Nas palavras de Jacob, Saulo entrevira uma vaga expressão de temores injustificáveis. O procedimento de Sadoc talvez lhe houvesse aumentado as desconfianças. Suas advertências eram reticenciosas, hesitantes. Parecia intimidado, como se antevi sse ameaças à sua tranqüilidade pessoal. Nos conceitos mais simples evidenciava o medo de ser acusado como portador de alguma expressão do “Caminho”. Na sua amplitude de senso psicológico, o moço tarsense tudo compreendia. Fora verdade que ele, Saulo, rep resentava o chefe supremo da campanha demolidora, mas, de ora em diante, consagraria a vida a Jesus, assim comprometendo a quantos dele se aproximassem direta e ostensivamente. Sua transformação provocaria muitos protestos no ambiente farisaico. Pressentiu nas indecisões do guia o receio de ser acusado de algum sor tilégio ou bruxedo. Com efeito, depois de convenientemente instalados na modesta estalagem de Judas, o companheiro falou -lhe preocupado: — Senhor, pesa-me alegar minhas conveniências, mas, consoante os projetos feitos, preciso regressar a Jerusalém, onde me esperam dois filhos, a fim de nos fixarmos em Cesaréia. — Perfeitamente — respondeu Saulo, respeitando -lhe os escrúpulos —, poderás partir ao amanhecer. Aquela voz, antes agressiva e aut oritária, tornara-se agora compassiva e meiga, tocando o coração do servo nas suas fibras mais sensíveis. — Entretanto, senhor, estou hesitando — disse o velho já picado de remorso —, estais cego, necessitais de auxílio para recobrar a vista e sinto sinceramente deixar-vos ao abandono. — Não te preocupes por minha causa — exclamou o doutor da Lei resignado —; quem te disse que ficarei abandonado? Estou convicto de que meus olhos estarão curados muito em breve. Aliás — continuou Saulo como a confortar -se a si mesmo —, Jesus mandou-me entrar na cidade, a fim de saber o que me convinha. Certo, não me deixará ignorando o que devo fazer. Assim falando, não pôde ver a expressão de piedade com que Jacob o contemplava, desconcertado e oprimido. Entretanto, mau grado à mágoa que lhe causava o chefe em semelhante estado, e recordando os castigos infligidos aos seguidores do Cristo, em Jerusalém, não conseguiu subtrair -se aos íntimos temores e partiu aos primeiros albores da manhã. Saulo, agora, estava só. No véu espes so das sombras, podia entregar-se às suas meditações profundas e tristes. A bolsa farta e franca assegurou -lhe a solicitude do estalajadeiro, que, de quando em quando, vinha saber suas necessidades, mas, em vão, o hóspede foi convidado a repastos e divers ões, porque nada o demovia do seu taciturno insulamento. Aqueles três dias de Damasco foram de rigorosa disciplina espiritual. Sua personalidade dinâmica havia estabelecido uma trégua às atividades mundanas, para examinar os erros do passado, as dificuldad es do presente e as realizações do futuro. Precisava ajustar -se à inelutável reforma do seu eu. Na angústia do espírito, sentia -se, de fato, desamparado de todos os amigos. A atitude de Sadoc era típica e valeria pela de todos os correligionárioS, que jamais se conformariam com a sua adesão aos novos ideais. Ninguém acreditaria no ascendente da conversão inesperada; entretanto, havia que lutar contra todos os cépticos, de vez que Jesus, para falar -lhe ao coração, escolhera a hora mais clara e ruti lante do dia, em local amplo e descampado e na só companhia de três homens muito menos cultos que ele, e, por isso mesmo, incapazes de algo compreenderem na sua pobreza mental. No apreciar os valores humanos, experimentava a insuportável angústia dos que se encontram em completo abandono, mas, no torvelinho das lem branças, destacava os vultos de Estevão e Abigail, que lhe proporcionavam consoladoras emoções. Agora com preendia aquele Cristo que viera ao mundo principalmente para os desventurados e tristes de cor ação. Antes, revoltava-se contra o Messias Nazareno, em cuja ação presumia tal ou qual incompreensível volúpia de sofrimento; todavia, chegava a. examinar -se melhor, agora, haurindo na própria experiência as mais proveitosas ilações. Não obstante os título s do Sinédrio, as respon sabilidades públicas, o renome que o faziam admirado em toda parte, que era ele senão um necessitado da proteção divina? As convenções mundanas e os preconceitos reli giosos proporcionavam-lhe uma tranqüilidade aparente; mas, basto u a intervenção da dor imprevista para que ajuizasse de suas necessidades imensas. Abismalmente concentrado na cegueira que o envolvia, orou com fervor, recorreu a Deus para que o não deixasse sem socorro, pediu a Jesus lhe clareasse a mente atormentada pe las idéias de angústia e desamparo. No terceiro dia de preces fervorosas, eis que o hote leiro anuncia alguém que o procura. Seria Sadoc? Saulo tem sede de uma voz carinhosa e amiga. Manda entrar. Um velhinho de semblante calmo e afetuoso ali está, sem que o convertido possa ver-lhe as cãs respeitáveis e o sorriso generoso. O mutismo do visitante indiciava o desconhecido. — Quem sois? — pergunta o cego admirado. — Irmão Saulo — replica o interpelado com doçu ra —, o Senhor, que te apareceu no caminho, envio u-me a esta casa para que tornes a ver e recebas a iluminação do Espírito Santo. Ouvindo-o, o moço de Tarso tateou ansiosamente nas sombras. Quem seria aquele homem que sabia os feitos lá da estrada! Algum conhecido de Jacob? Mas... aquela inflexão de voz enternecida e carinhosa? — Vosso nome? — perguntou quase aterrado. — Ananias. A resposta era uma revelação.