Não se podia esperar de um velho franzino e doente tamanho poder de per suasão, um desassombro que raiava pela loucura, segundo as noções do patriciado. Por muito menos, velhos e pro bos conselheiros da Corte haviam alcançado o exílio ou a sentença de morte. O filho de Agripina parecia abalado. Não mais assentava no olho a impertinente esmeralda, à guisa de monóculo. Tinha a impressão de haver escutado sinistros vaticínios. Entregava-se, automaticamente, aos seus ges tos característicos, quando impressionado e nervoso. As advertências do Apóstolo penetravam -lhe o coração, suas palavras pareciam ecoar -lhe nos ouvidos para sempre. Tigelino percebeu a delicadeza da situação e aproxi mou-se. — Divino — exclamou o Prefeito dos Pretoria nos em atitude servil, a voz quase imperceptível —, se quiserdes, o atrevido poderá morrer aqui mesmo, ainda hoje! — Não, não — redargüiu Nero comovido —, este homem é dos mais perigosos que tenho encontrado. Ninguém, como ele, ousou comentar a presente situação nestes termos. Vejo, por detrás da sua palavra, muitos vultos talvez eminentes, que, conjugando valores, pode riam fazer-me grande mal. — Concordo — disse o outro hesitante, em voz muito baixa. — Assim, pois — continuou o imperador pruden temente —, é preciso parecer magnânimo e sagaz. Dar -lhe-ei o perdão, por agora, recomendando que não se afaste da cidade, até que se esclareça de todo a situação dos seguidores do Cristianismo.. Tigelino escutava com um sorriso ansioso, enquanto o filho de Agripina rematava em voz sumida: — Mas vigiarás seus menores passos, mantê -lo-ás em custódia oculta, e quando vier a festividade da re construção do Grande Circo, aproveitaremos a oportunidade para despachá-lo a lugar distante, onde deverá desaparecer para sempre. O odioso Prefeito sorriu e acentuou: — Ninguém resolveria melhor o intrincado pro blema. Terminada a breve conversação, imperceptível aos demais, Nero declarou, com enorme surpresa dos palacia nos, conceder ao apelante a liberdade que pleiteava em sua primeira defesa, mas reservava o ato de absolvição para quando se apurasse definitivamente a responsabi lidade dos cristãos. Dessarte, o defensor do Cristianismo poderia permanecer em Roma, à vontade, submetendo-se, contudo, ao compromisso de não se ausentar da sede do Império, até que seu caso pessoal fosse bastantemente esclarecido, O Prefeito dos Pretorianos lavrou a sentença em pergaminho. Paulo de Tarso, por sua vez, estava confortado e radiante. O caviloso monarca pare ceu-lhe menos mau, digno de amizad e e reconhecimento. Sentia-se possuído de grande alegria, por isso que os resultados da sua primeira defesa eram de molde a pro porcionar nova esperança aos seus irmãos na fé. Paulo retornou ao cárcere, ficando o administrador notificado das últimas disposições a seu respeito. Só então lhe deram liberdade. Assaz esperançado, procurou os amigos; mas, por toda parte, só encontrava desoladoras notícias. A maio ria dos colaboradores mais íntimos e prestimosos haviam desaparecido, presos ou mortos. Muitos haviam debandado, temerosos do extremo sacrifício. Por fim, sempre teve a satisfação de reencontrar Lucas. O piedoso médico informou -o dos acontecimentos dolorosos e trágicos que se repetiam, diariamente. Ignorando que um guarda o seguia de longe, para lhe situ ar a nova residência, Paulo, acompanhado do amigo, atingiu uma casa pobre nas proximidades da Porta Capena. Necessitando repousar e fortalecer o corpo debilitado, o velho pregador pro curou dois generosos irmãos, que o receberam com imensa alegria. Trata -se de Lino e Cláudia, dedicados servido res de Jesus. O Apóstolo dos gentios instalou -se no lar pobre, com a obrigação de comparecer à Prisão Mamertina, de três em três dias, até que se aclarasse a situação, de modo definitivo. Não obstante o consolo de que se sentia possuído, o venerável amigo do gentilismo experimentava singu lares presságios. Surpreendia -se a refletir no coroamento da carreira apostólica como se nada mais lhe restasse senão morrer por Jesus. Combatia tais pensamentos, no propósito de cont inuar propugnando pela difusão dos ensinamentos evangélicos. Não mais pôde encaminhar-se à pregação das catacumbas, dada a prostração física, mas, valia-se da colaboração afetuosa e dedicada de Lucas para as epístolas que julgava necessárias. Nessas, inclu i-se a derradeira carta que escreveu a Timóteo, aproveitando dois amigos que partiam para a Ásia. Paulo escreve esse último documento ao discípulo muito amado, tomando -se de singulares emoções que lhe enchem os olhos de lágrimas abundantes. Sua alma generosa deseja confiar ao filho de Eunice as últimas disposições, mas luta consigo mesmo, de modo a não se dar por vencido. O ex-rabino, ao traçar conceitos afetuosos, sente -se qual discípulo chamado a esferas mais altas, sem poder fur tar-se à condição de homem que não deseja capitular na luta. Ao mesmo tempo que confia a Timóteo a convicção de haver terminado a carreira, pede -lhe que envie a ampla capa de couro deixada em Trôade, em casa de Carpo, visto necessitar de agasalho para o corpo aba tido. Enquanto lhe envia as últimas impressões cheias de prudência e carinho, roga os seus bons ofícios para que João Marcos venha à sede do Império, a fim de auxiliá -lo no serviço apostólico. Quando a mão trêmula e rugosa escreve melancolicamente: — “Só Lucas está comigo” (1), o convertido de Damasco interrompe -se para chorar sobre os pergaminhos. Nesse instante, porém, sente afagar -lhe a fronte um como flabelo de asas que adejassem de leve. Brando conforto lhe invade o coração amoroso e intrépido. Nesse po nto da carta, recobra novo ânimo e volta a demonstrar decisão de luta, terminando com as recomendações atinentes às necessidades da vida material e aos seus labores evangélicos. Paulo de Tarso, entretanto, entrega a missiva a Lucas para expedi -la, sem conseguir disfarçar os seus lúgubres pressentimentos. Em vão, o carinhoso médico e devotado amigo procura desfazer aquelas apreensões. Debalde Lino e Cláudia tentam distrai-lo. Embora não abandonasse os trabalhos condizentes com a nova situação, o velho Apóstolo mergulhou-se em profundas meditações, das quais apenas se forrava para atender às necessidades triviais. Efetivamente, decorridas algumas semanas após a carta a Timóteo, um grupo armado visitou a residência (1) 2ª Epístola a Timóteo. Capítulo 4º, versí culo 11. Emmanuel) — (Nota de de Lino, depois de meia-noite, na véspera das grandes festividades com que a administração pública desejava assinalar a reconstrução do Grande Circo, O dono da casa, a esposa e Paulo de Tarso foram presos, escapando Lucas pe lo fato de pernoitar em outra parte. As três vítimas foram conduzidas a um cárcere do monte Esqui lino, dando provas de poderosa fé em face do martírio que começava. O Apóstolo foi atirado a uma cela escura e incomu nicável, Os próprios soldados se intimidavam da sua coragem. Ao despedir -se de Lino e sua mulher, enquanto esta se desfazia em lágrimas, o valoroso pregador abraçava os dizendo: — Tenhamos coragem. Esta deve ser a última vez em que nos saudamos com os olhos materiais; mas have mos de avistar-nos no reino do Cristo. O poder tirânico de César não atinge senão o corpo miserável... Em virtude de ordem expressa de Tigelino, o pri sioneiro ficou insulado de todos os companheiros. Na escuridão do cárcere, que mais se assemelhava a uma cova úmida, deu um balanço retrospectivo em todas as atividades de sua vida, entregando -se a Jesus, inteiramente confiado na sua divina misericórdia. Desejou sinceramente permanecer junto dos irmãos que, por certo, se destinavam aos espetáculos nefandos do dia imediato, es perando com eles comungar a hóstia dos martírios, quando chegasse a hora extrema. Não pôde dormir, a considerar as horas transcor ridas desde o momento da prisão, e concluiu que o dia do sacrifício estaria iminente. Nem uma réstia de Luz penetrava o cubícu lo infecto e acanhado. Percebia, so mente, vagos rumores longínquos, que Lhe davam idéia da aglomeração popular nas vias públicas. As horas pas saram em expectativas que pareciam intermináveis. De pois de angustioso cansaço, conseguiu algumas horas de sono . Acordou, mais tarde, já incapacitado de calcular as horas decorridas. Tinha sede e fome, mas orou com fervor, sentindo que fluíam brandas consolações para sua alma, das fontes da providência invisível. No fundo, es tava preocupado com a situação dos companheiros. Um guarda o informara de que enorme contingente de cris tãos seria levado ao circo e ele sofria por não ter sido chamado a perecer com os irmãos, na arena do martírio, por amor a Jesus. Mergulhado nessas reflexões, não tardou a sentir que alguém abria, cautelosamente, a porta da enxovia. Conduzido ao exterior, o ex -rabino defrontou seis homens armados que o aguardavam junto de um veículo de regulares proporções. Ao longe, no horizonte pontilhado de estrelas, delineavam -se os tons maravilho sos da madrugada próxima. O Apóstolo, silencioso, obedeceu à escolta. Ataram -lhe as mãos calejadas, brutalmente, com grosseiras cor das. Um vigilante noturno, visivelmente embriagado, aproximou-Se e escarrou-lhe na face. O ex-rabino recordou os sofrimentos de Jesus e recebeu o insulto sem revelar o mínimo gesto de amor próprio ofendido. Mais uma ordem, tomou lugar no veículo, junto dos seis homens armados que o observavam, admirados de tanta serenidade e coragem. Os cavalos trotaram lépidos como se quisessem ate nuar a friagem úmida da manhã. Chegados aos cemitérios que se enfileiravam ao longo da Via Apia, as sombras noturnas se desfaziam quase completamente, auspiciando um dia de sol radioso. O militar que chefiava a escolta mandou parar o carro e, fazendo desce r o prisioneiro, disse-lhe hesitante: — O Prefeito dos Pretorianos, por sentença de César, ordenou que fosseis sacrificado no dia imediato ao da morte dos cristãos votados às comemorações do circo, realizadas ontem. Deveis saber, portanto, que estais viven do os últimos minutos.