2ª Parte - Cap. 10: Ao encontro do Mestre
Calmo, olhos brilhantes e mãos amarradas, Paulo de Tarso, mudo até então, exclamou, surpreendendo os verdugos com a sua majestosa serenidade: — Ciente da tarefa criminosa que vos incumbe de sempenhar .. Os discípulos de Jesus não tem em os algozes que só lhes podem aniquilar o corpo. Não julgueis que vossa espada possa eliminar -me a vida, de vez que, vivendo estes fugazes minutos em corpo carnal, isso significa que vou penetrar, sem mais demora, nos tabernáculos da vida eterna, com o meu Senhor Jesus-Cristo, o mesmo que vos tomará contas, tanto quanto a Nero e Tigelino .... A patrulha sinistra estarrecia de assombro. Aquela energia moral, no momento supremo, era de molde a abalar os mais fortes. Percebendo a surpresa geral e cioso do seu mandato, o chefe da escolta tomou a iniciativa do sacrifício. Os demais companheiros pareciam desorientados, nervosos, trêmulos. O inflexível preposto de Tigelino, porém, ordenou ao prisioneiro que desse vinte passos à frente. Paulo de Tarso caminhou s erena-mente, embora, no íntimo, se recomendasse a Jesus, com preendendo a necessidade de amparo espiritual para o testemunho supremo. Ao chegar no local indicado, o sequaz de Tigelino desembainhou a espada, mas, nesse instante, tremeu -lhe a mão, fixando a vítima, e falou-lhe em tom quase imperceptível: — Lastimo ter sido designado para este feito e íntimamente não posso deixar de lamentar-vos... Paulo de Tarso, erguendo a fronte quanto lhe era possível, respondeu sem hesitar: — Não sou digno de lástima. Te nde antes compaixão de vós mesmo, porqüanto morro cumprindo deveres sagrados, em função de vida eterna; enquanto que vós ainda não podeis fugir às obrigações grosseiras da vida transitória. Chorai por vós, sim, porque eu partirei buscando o Senhor da Paz e da Verdade, que dá vida ao mundo; ao passo que vós, terminada vossa tarefa de sangue, tereis de voltar à hedionda convivência dos man dantes de crimes tenebrosos da vossa época!... O algoz continuava a fitá -lo com assombro e Paulo, notando a tremura com que ele empunhava a espada, concitou resoluto: —Não tremais!... Cumpri vosso dever até ao fim! Um golpe violento fendeu lhe a garganta, seccionando quase inteiramente a velha cabeça que se nevara aos sofrimentos do mundo. Paulo de Tarso caiu redondamente , sem articular uma palavra. O corpo alquebrado embolou-se no solo, como um despojo horrendo e inútil. O sangue jorrava em golfões nas últimas contrações da agonia rápida, enquanto a expedição regressava penosamente, muda, dentro da luz matinal e triunfant e. O valoroso discípulo do Evangelho sentia a angústia das derradeiras repercussões físicas; mas, aos poucos, experimentava uma sensação branda de alívio reparador. Mãos carinhosas e solicitas pareciam tocá -lo de leve, como se arrancassem, tão-só nesse contacto divino, as terríveis impressões dos seus amargurosos padecimentos. Tomado de surpresa, verificou que o transportavam a local distante e pensou que amigos generosos desejavam assisti-lo, em lugar mais conveniente, para que lhe não faltasse a doce consolação da morte tranqüila. Depois de alguns minutos as dores haviam desaparecido por completo. Guardando a impressão de permanecer à som bra de alguma árvore frondosa e amiga, experimentava a carícia das brisas matinais que passavam em lufadas frescas. Tentou levantar-se, abrir os olhos, identificar a paisagem. Impossível! Sentia-se fraco, qual convales cente de moléstia prolongada e gravíssima. Reuniu as energias mentais, como lhe foi possivel, e orou, suplicando a Jesus permitisse o esclarecimento de sua alma, naquela nova situação. Sobretudo, a falta de visão deixava -o submerso em angustiosa expectativa. Recordou os dias de Damasco, quando a cegueira lhe invadira os olhos de pecador, ofuscados pela luz gloriosa do Mestre. Lem brou o carinho fraternal de Ananias e chorou ao influxo daquelas singulares reminiscências. Depois de grande esforço, conseguiu levantar -se e refletiu que o homem precisava servir a Deus, ainda que tateasse em densas trevas. Foi ai que ouviu passos de alguém que se aproxi mava de leve. Ocorreu-lhe subitamente o dia inesquecível em que fora visitado pelo emissário do Cristo, na pensão de Judas. — Quem sois? — perguntou como o fizera outrora, naquele lance inolvidável. —Irmão Paulo... — começou a dizer o recém -chegado. Mas o Apóstolo dos gentios, identificando aquela voz bem -amada, interrompeu-lhe a palavra, bradando com júbilo inexprimível: — Ananias!... Ananias!... E caiu de joelhos, em pranto convulsivo. — Sim, sou eu — disse a veneranda entidade pou sando a mão luminosa na sua fronte —; um dia Jesus mandou que te restituisse a visão, para que pudesses conhecer o caminho áspero dos seus discípulos e hoje, Paulo, concedeu-me a dita de abrir-te os olhos para a contemplação da vida eterna. Levanta-te! Já venceste os últimos inimigos, alca nçaste a coroa da vida, atingiste novos planos da Redenção!... O Apóstolo levantou-se afogado em lágrimas de jubilosa gratidão, enquanto Ananias, pousando a destra nos seus olhos apagados, exclamou com carinho: — Vê, novamente, em nome de Jesus!... Desde a revelação de Damasco, dedicaste os olhos ao serviço do Cristo! Contempla, agora, as belezas da vida eterna, para que possamos partir ao encontro do Mestre amado!... Então, o devotado trabalhador do Evangelho re conheceu as maravilhas que Deus reserva aos seus cooperadores no mundo cheio de sombras. Tomado de espanto, identificou a paisagem que o rodeava. Não longe estavam as catacumbas da Via Apia. Misteriosas forças o haviam afastado do quadro triste em que se decompunham os despojos sangrentos. Sentiu -se jovem e feliz. Compreendia, agora, a grandeza do corpo espi ritual no ambiente estranho aos organismos da Terra. Suas mãos estavam sem rugas, a epiderme sem cicatrizes. Tinha a impressão de haver sorvido um misterioso elixir de juventude. Uma túnica de alvura resplandecente envolvia -o em graciosas ondulações. Mal despertava do seu deslumbramento, quando alguém lhe bateu levemente no ombro: Era Gamaliel que lhe trazia um ósculo fraternal. Paulo de Tarso sentiu-se o mais ditoso dos seres. Abraçando -se ao velho mestre e a Ananias, num só gesto de ternura, exclamava entre lágrimas: — Só Jesus me poderia conceder alegria igual. Mal não acabara de o dizer, começaram a chegar velhos companheiros de lutas terrenas, amigos de outros tempos, irmãos de svelados que lhe vinham trazer as boas-vindas, ao transpor os umbrais da eternidade. Os deslumbramentos do Apóstolo sucediam -se ininterruptos. Como se ficassem em Roma, à sua espera, todos os már tires das festividades da véspera chegaram cantando, nas pro ximidades das catacumbas. Todos queriam abra çar o generoso discípulo, oscular -lhe as mãos. Nesse ínterim, dando a impressão de nascer em maravilhosas fontes do mais além, ouviu -se uma cariciosa melodia acompanhada de vozes argentinas, que deviam ser angé licas. Surpreendido com a beleza da composição, intra duzível na linguagem humana, Paulo ouvia o venerando amigo de Damasco, que explicava solícito: - Este é o hino dos prisioneiros libertados!... Observando-lhe a intensa comoção, Ananias pergun tou qual o seu primeiro desejo na esfera dos redimidos. Paulo de Tarso, íntimamente, recordou Abigail e os anelos sagrados do coração, como aconteceria a qualquer ser humano; mas, integrado no ministério divino, que manda esquecer os caprichos mais singelos, e sem trair a gra tidão à misericórdia do Cristo, respondeu comovidamente: — Meu primeiro desejo seria rever Jerusalém, onde pratiquei tantos males e, ali, orar a Jesus, para ofertar -lhe o meu agradecimento. Tão depressa o disse e a luminosa assembléia se punha em movimento. Assombrado com o poder da voli tação, Paulo observava que as distâncias nada representavam agora para as suas possibilidades espirituais. De mais alto continuavam fluindo harmonias de sublimada beleza. Eram hinos que exaltavam a ventu ra dos trabalhadores triunfantes, e a misericórdia das bênçãos do Todo-Poderoso. Paulo desejava imprimir à divina excursão o sabor de suas reminiscências. Para esse fim, o grupo seguiu ao longo da Via Apia até Arícia, de onde se desviou em direção a Pouzz oles, em cuja igreja se deteve em preces, por alguns minutos de ventura inigualável. Daí a caravana espiritual demandou a Ilha de Malta. transportan do-se em seguida para o Peloponeso, onde Paulo se extasiou na contemplação de Corinto, dando curso a re cordações carinhosas e doces. Inflamados de entusiasmo fraternal, os componentes da caravana acompanhavam o valoroso discípulo no caminho das sagradas lembranças que lhe vibravam no coração. Atenas, Tessalônica, Fili pes, Neápolis, Trôade e Éfeso foram pontos nos quais o Apóstolo estacionara, demoradamente, orando com lágrimas de gratidão ao Altíssimo. Atravessadas as zonas da Panfilia e da Cilícia, entraram na Palestina, tomados de júbilo e sagrado respeito. Em todos os caminhos in corporavam-se emissários e trabalhadores do Cristo. Paulo não conseguia avaliar a alegria da chegada a Jerusalém, sob o prodigioso azul do crepúsculo. Obedecendo ao alvitre de Ananias, reuniram -se no cimo do Calvário e ali cantaram hinos de esperanças e de luz. Lembrando os erros do passado amarguroso, Paulo de Tarso ajoelhou -se e elevou a Jesus fervorosa súplica. Os companheiros remidos recolheram -se em êxtase, enquanto ele, transfigurado, em pranto, procurava exprimir a mensagem de gratidão ao Divino Mestre. Desenhou-se então, na tela do Infinito, um quadro de beleza singular. Como se houvesse rasgado a imensurável umbela azul, surgiu na amplidão do espaço uma senda luminosa e três vultos que se aproximavam radiantes. O Mestre estava no centro, conservando Estevão à direita e Abi gail ao lado do coração. Deslumbrado, arrebatado, o Apóstolo apenas pôde estender os braços, porque a voz lhe fugia no auge da comoção. Lágrimas abundantes perolavam-lhe o rosto também transfigurado. Abigail e Estevão adiantaram -se.
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Capítulo 10
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