2ª Parte - Cap. 10: Ao encontro do Mestre
Atirados, previamente, num pátio escuro, até serem alojados individualmente nas divisões gradeadas e in fectas, os discípulos do Senhor aproveitaram esses rápidos momentos para conforto mútuo, para trocarem idéias e conselhos edificantes. Paulo de Tarso, todavia, não descansou. Solicitou audiência ao administrador da prisão, prerrogativa con ferida ao seu titulo de cidadania romana, sendo prestes atendido. Expôs sua doutrina sem rebuços e, impres sionando a autoridade com seu verbo fluente e sedutor, encareceu as providências atinentes ao seu caso, pedindo a presença de vários amigos como Acácio Domício e outros, para deporem no concernente à sua conduta e antecedentes honestos. O administrador vacilava na reso lução a tomar. Tinha ordens terminantes de recolher ao cárcere todos os componentes de assembléias que se filiassem à crença perseguida e execrada. No entanto, as determinações de ordem superior continham certas restrições, no sentido de preservar, de algum modo, os “hu miliores” (1), aos quais a Corte oferecia recursos de liberdade, caso prestassem juramento a Júpiter, abju rando o Cristo Jesus. Examinando os títulos de Paulo e conhecen do, através de seus informes verbais, as prestigiosas relações de que podia dispor nos círculos roma nos, o chefe da Prisão Mamertina resolveu consultar Acácio Domício, sobre as providências cabíveis no caso. Chamado ao estudo da questão, o amigo do Apósto lo compareceu solícito, procurando falar com o prisioneiro, depois de longa entrevista com o diretor da prisão. Domício explicou ao benfeitor que a situação era muito grave; que o Prefeito dos Pretorianos estava in vestido de plenos poderes para dirigir a campanha como melhor entendesse; que toda a prudência era indispen sável e que, como último recurso, só restava um apelo à magnanimidade do imperador, perante quem o Apóstolo devia comparecer para defender -se pessoalmente, caso fosse deferida a petição apr esentada a César naquele mesmo dia. (1) Humiliores eram as pessoas de condição humilde sem qualquer titulo de dignidade social. — (Nota de Emmanuel.) Ouvindo essas ponderações, o ex -rabino recordou que uma noite, em meio à tempestade, entre a Grécia e a Ilha de Malta, ouvira a voz profética de um mensageiro de Jesus, que lhe anunciava o comparecimento perante César, sem esclarecer os motivos do evento. Não seria aquele o momento previsto? Milhares de irmãos estavam presos ou em extrema desolação. Acusados de incendiários, não haviam encontrado uma voz firme e resoluta que lhes advogasse a causa com o preciso desas sombro. Percebia em Acácio a preocupação pela sua liberdade; mas, por trás das insinuações delicadas, havia um convite discreto para que ocult asse a sua fé perante o imperador, na hipótese de ser admitido à real entre vista. Compreendia os receios do amigo, mas, íntimamente, desejava alcançar a audiência de Nero, a fim de esclarecê -lo quanto aos sublimes princípios do Cristianismo. Constituir-se-ia advogado dos irmãos perseguidos e desditosos. Afrontaria de face a tirania ovante, clama ria pela retificação do seu ato injusto. Se fosse novamente preso, voltaria ao cárcere com a consciência edifi cada no cumprimento de um sagrado dever. Depois de rápida meditação sobre a conveniência do recurso que lhe parecia providencial, insistiu com Do mício para que o patrocinasse com os empenhos ao seu alcance. O amigo do Apóstolo multiplicou atividades pessoais para alcançar os fins em vista. Valendo-se do prestígio de todos os que viviam em condições de subalternidade junto do imperador, conseguiu a desejada audiência para que Paulo de Tarso se defendesse, como convinha, no apelo direto à autoridade de Augusto. No dia aprazado, foi conduzido entre guardas, à presença de Nero, que o recebeu curioso num vasto salão onde costumava reunir os favoritos ociosos da sua Corte criminosa e excêntrica. Interessava -lhe a personalidade do ex rabino. Queria conhecer o homem que mobilizara grande número de seus íntimos para apoiar-lhe o recurso. A presença do Apóstolo dos gentios causou lhe enorme decepção. Que valor poderia ter aquele velho insignifi cante e franzino? Ao lado de Tigelino e de outros conselheiros perversos, fixou ironicamente a figura de Paulo. Era incrív el tamanho interesse em torno de uma criatura tão vulgar. Quando se dispunha a recambiá -lo à prisão sem lhe ouvir o apelo, um dos áulicos lembrou que seria conveniente facultar -lhe a palavra, para que se lhe afe risse a indigência mental. Nero, que jamais perdia ocasião de ostentar suas presunções artísticas, considerou o alvitre bem apresentado e ordenou ao prisioneiro que falasse à vontade. Ladeado por dois guardas, o inspirado pregador do Evangelho levantou a fronte cheia de nobreza, fitou César e os co mpanheiros do seu séquito leviano e começou, resoluto: — Imperador dos romanos, compreendo a grandeza desta hora em que vos falo, apelando para os vossos sentimentos de generosidade e justiça. Não me dirijo, aqui, a um homem falível, a uma personalidade h umana, simplesmente, mas ao administrador que deve ser consciencioso e justo, ao maior dos príncipes do mundo e que, antes de tomar o cetro e a coroa de um Império imenso, deve considerar -se o pai magnânimo de milhões de criaturas!. As palavras do velho Ap óstolo ecoavam no recinto com o caráter de uma profunda revelação. O imperador fixava -o, admirado e enternecido. Seu temperamento caprichoso era sensível às referências pessoais, onde pre dominassem as imagens brilhantes. Percebendo que se impunha ao redu zido auditório, o convertido de Damasco prosseguiu mais corajoso: — Confiando em vossa longanimidade, pleiteei esta hora inesquecível, a fim de apelar para o vosso coração, não somente por mim, mas por milhares de homens, mulheres e crianças, que padecem nos cárceres ou sucum bem nos circos do martírio. Falo, aqui, em nome dessa multidão incontável de sofredores, perseguida com re quintes de crueldade por favoritos de vossa Corte, que deveria ser constituída de homens íntegros e humanitá rios. Acaso não chegarão aos vossos ouvidos os lamentos angustiosos da viuvez, da velhice e da orfandade? Oh! Augusto imperante do trono de Cláudio, sabei que uma onda de perversidade e de crimes odiosos varre os bairros da cidade imperial, arrancando soluços dolorosos aos vossos tutelados miserandos! Ao lado da vossa atividade governamental, por certo, rastejam víboras venenosas que é necessário extirpar, a bem da tranqüilidade e do trabalho honesto do vosso povo. Esses cooperadores per versos desviam vossos esforços do cam inho reto, espalham terror entre as classes desfavorecidas da sorte, ameaçam os mais infelizes! São eles os acusadores dos prosélitos de uma doutrina de amor e redenção. Não acrediteis no embuste dos seus conselhos que ressumam crueldade. Ninguém trabalho u, talvez, quanto os cristãos, no socorro às vítimas do incêndio voraginoso. Enquanto os patrícios ilustres fugiam de Roma desolada, enquanto os mais timidos se recolhiam aos lugares mais abrigados de perigo, os discípulos de Jesus percorriam os quarteirõ es em chamas, aliviando as vítimas infor tunadas. Alguns imolaram a vida ao altruísmo dignifi cador. E por fim, vede, os trabalhadores sinceros do Cristo foram recompensados com a pecha de autores do crime hediondo, de caluniadores sem entranhas. Acaso não vos doeu a consciência ao endossardes tão infames alegações, à revelia de uma sindicância imparcial e rigorosa? No esfervilhar das calúnias, não vi surgir uma voz que vos esclarecesse. Admito que participais, certa mente, de tão trágicas ilusões, porque n ão creio no desvirtuamento da vossa autoridade reservada às melhores resoluções em favor do Império. Ë por isso — 6 imperador dos romanos! — que, reconhecendo o grandioso poder enfeixado em vossas mãos, ouso levantar minha voz para esclarecer -vos. Atentai para a extensão gloriosa de vossos deveres. Não vos entregueis à sanha de políticos inconscientes e cruéis. Lembrai -vos de que, numa vida mais elevada que esta, ser-vos-ão pedidas contas de vossa conduta nos atos públicos. Não alimenteis a pretensão de que vosso cetro seja eterno. Sois mandatário de um Senhor poderoso, que reside nos Céus. Para vos convencerdes da singularidade de semelhante situação, volvei um olhar, apenas, ao passado brumoso. Onde os vossos antecessores? Em vossos palácios faustosos perambularam guerreiros triunfantes, reis improvisados, herdeiros vaidosos de suas tradições. Onde estão eles? A História nos conta que chegaram ao trono com os aplau sos delirantes das multidões. Vinham soberbos, ostentando magnificências nos carros do t riunfo, decretando a morte dos inimigos, adornando -se com os despojos san grentos das vítimas. Entretanto, bastou um sopro para que resvalassem do esplendor do trono para a escuridão do sepulcro. Uns partiram pelas conseqüências fatais dos próprios excessos destruidores; outros assassinados pelos filhos da revolta e do desespero. Recordando semelhante situação, não desejo transformar o culto da vida em culto da morte, mas demonstrar que a fortuna suprema do homem é a paz da consciência pelo dever cumprido. Por todas essas razões, apelo para a vossa magnanimi dade, não só por mim como por todos os correligionários que gemem à sombra dos cárceres, esperando o gládio da morte. Observando-se longa pausa no verbo eloqüente do orador, podia ver -se a estranha sensação que a sua palavra havia causado. Nero estava lívido. Tigelino, profundamente irritado, procurava um recurso para insi nuar-se com alguma observação menos digna, a respeito do postulante. As raras cortesãs presentes não disfarçavam a indizível comoçã o que lhes abalara o sistema nervoso. Os amigos do Prefeito dos Pretorianos mostra vam-se indignados, rubros de cólera. Depois de ouvir um áulico, o imperador ordenou que o apelante se conservasse em silêncio, até que tomasse as primeiras deli berações. Estavam todos surpreendidos.
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Capítulo 10
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