S.P.E.E. – Discurso de Encerramento do Ano Social
Eis aí, senhores, o que nos mostram os exemplos que a cada instante se desdobram aos nossos olhos, tanto no mundo dos Espíritos quanto no mundo corpóreo, situação que podemos aproveitar para nós próprios, ao mesmo tempo que procuramos torná-la proveitosa aos outros. No entanto, perguntarão, não iremos atrair os Espíritos maus, evocando criaturas que pertenceram à escória da sociedade? Não, porque jamais sofremos a sua influência. Só há perigo quando é o Espírito que se impõe; nunca, porém, quando somos nós que nos impomos a ele. Sabeis perfeitamente que esses Espíritos não acodem ao vosso chamado senão constrangidos e forçados; que, em geral, se acham tão incomodados em vosso meio que sempre têm pressa em retirar-se. Para nós sua presença é objeto de estudo, porque para conhecer é preciso ver tudo. O médico só chega ao apogeu do saber quando explora as chagas mais repugnantes. Ora, essa comparação do médico é muito justa, desde que sabeis a quantidade de chagas que temos cicatrizado e os sofrimentos que aliviamos. Nosso dever é mostrar-nos caridosos e benevolentes com os seres de além-túmulo, assim como devemos proceder com os nossos semelhantes. Senhores, pessoalmente eu desfrutaria de um privilégio inconcebível se tivesse ficado ao abrigo da crítica. Não nos pomos em evidência sem nos expormos aos dardos daqueles que não pensam como nós. Mas há duas espécies de crítica: uma que é ma-lévola, acerba, envenenada, onde a inveja se trai em cada palavra; a outra, que visa à sincera pesquisa da verdade, tem características completamente diversas. A primeira não merece senão o desdém; jamais com ela me incomodei. Somente a segunda é discutível. Algumas pessoas disseram que fui muito precipitado nas teorias espíritas, que ainda não era tempo de estabelecê-las e que as observações não se achavam ainda bastante completas. Permiti-me algumas palavras sobre o assunto. Duas coisas devem ser consideradas no Espiritismo: a parte experimental e a parte filosófica, ou teórica. Abstração feita do ensino dos Espíritos, pergunto se, em meu nome, não tenho o direito, como qualquer outra pessoa, de lucubrar um sistema filosófico. O campo das opiniões não se encontra aberto a todo mundo? Por que, então, não poderia dar a conhecer o meu? Compete ao público julgar se ele tem ou não tem sentido. Mas essa teoria, em vez de me conferir qualquer mérito, se mérito existe, eu declaro que emana inteiramente dos Espíritos. – Seja, dirão alguns, mas estais indo muito longe. Aqueles que pretendem dar a chave dos mistérios da Criação, desvendar o princípio das coisas e da natureza infinita de Deus, não vão muito mais longe do que eu, que declaro, da parte dos Espíritos, que não é dado ao homem aprofundar essas coisas, sobre as quais não podemos estabelecer senão conjecturas mais ou menos prováveis. – Andais muito depressa. – Seria um erro tomar a dianteira de certas pessoas? Aliás, quem as impede de caminhar? – Os fatos não se acham ainda perfeitamente observados. – Mas se eu, certo ou errado, creio tê-los observado suficientemente, devo esperar a boa vontade daqueles que ficaram para trás? Minhas publicações não barram o caminho a ninguém. – Estando os Espíritos sujeitos a erro, quem garante que aqueles que vos ensinaram não se terão enganado? – Com efeito, toda a questão se resume nisso, considerando-se que a objeção de precipitação é muito pueril. Pois bem! Devo dizer em que se funda a minha confiança na veracidade e na superioridade dos Espíritos que me instruíram. Primeiramente direi que, conforme o seu conselho, nada aceito sem controle e sem exame; não adoto uma idéia senão quando me parece racional, lógica, concorde com os fatos e as observações e se nada de sério vem contradizê-la. Mas meu julgamento não poderá ser um critério infalível. O assentimento que encontrei da parte de numerosas pessoas mais esclarecidas do que eu me fornece a primeira garantia. Mas eu encontro outra, não menos preponderante, no caráter das comunicações que foram obtidas desde que me ocupo de Espiritismo. Posso dizer que jamais escapou uma só dessas palavras, um único desses sinais pelos quais sempre se traem os Espíritos inferiores, mesmo os mais astuciosos. Jamais dominação; jamais conselhos equívocos ou contrários à caridade e à benevolência; jamais prescrições ridículas. Longe disso; neles não encontrei senão pensamentos generosos, nobres, sublimes, isentos de pequenez e de mesquinharia. Numa palavra: suas relações comigo, nas menores como nas maiores coisas, sempre foram de tal modo que, se tivesse sido um homem a me falar, eu o teria considerado o melhor, o mais sábio, o mais prudente, o mais moralizado e o mais esclarecido. Eis aí, senhores, os motivos de minha confiança, corroborada pela identidade do ensino dado a uma porção de outras pessoas, antes e depois da publicação de minhas obras. O futuro dirá se estou certo ou errado. Enquanto isso, eu creio ter auxiliado o progresso do Espiritismo, trazendo algumas pedras ao seu edifício. Mostrando que os fatos podem assentar-se no raciocínio, terei contribuído para fazê-lo sair do atalho frívolo da curiosidade, a fim de fazê-lo adentrar no caminho sério da demonstração, isto é, na única via que pode satisfazer os homens que pensam e que não se detêm na superfície. Termino, senhores, pelo rápido exame de uma questão de atualidade. Fala-se de outras sociedades que desejam rivalizar com a nossa. Dizem que uma já conta com trezentos membros e possui recursos financeiros apreciáveis. Prefiro crer que não seja uma fanfarrice, tão pouco lisonjeira para os Espíritos que a ti-vessem suscitado, quanto para aqueles que se lhe fizeram eco. Se for uma realidade, nós a felicitamos sinceramente, caso obtenha a necessária unidade de sentimentos para frustrar a influência dos Espíritos maus e consolidar a sua existência. Ignoro completamente quais são os elementos da sociedade, ou das sociedades que dizem querer formar-se. Farei apenas uma observação geral. Em Paris e alhures há uma porção de reuniões íntimas, como outrora foi a nossa, em que as pessoas se ocupam mais ou menos seriamente com as manifestações espíritas, sem falar dos Estados Unidos, onde elas se contam aos milhares. Conheço algumas em que as evocações são feitas nas melhores condições, obtendo-se coisas notáveis. É a conseqüência natural do número crescente de médiuns, que se desenvolvem de todos os lados, a despeito dos sarcasmos; quanto mais avançarmos, mais esses centros se multiplicarão. Formados espontaneamente de elementos muito pouco numerosos e variáveis, tais centros nada têm de fixo ou de regular e não constituem sociedades propriamente ditas. Para uma sociedade regularmente organizada são necessárias condições de vitalidade muito diferentes, justamente em razão do número de pessoas que a compõem, de sua estabilidade e de sua permanência. A primeira de todas é a homogeneidade de princípios e da maneira de ver. Toda sociedade composta de elementos heterogêneos traz em si o germe da dissolução; podemos considerá-la morta por antecipação, seja qual for o seu objetivo: político, religioso, científico ou econômico. Uma sociedade espírita requer outra condição – a assistência dos Espíritos bons – se quisermos obter comunicações sérias. A não ser assim, caso permitamos aos maus tomarem pé, não obteremos senão mentiras, decepções e mistificações. Esse é o preço de sua própria existência, visto que os maus serão os primeiros agentes de sua destruição. Eles a minarão pouco a pouco, caso não a façam desabar logo de início. Sem homogeneidade, nada de comunhão de pensamentos e, portanto, nada da calma nem do recolhimento que se deseja. Ora, os bons só comparecem onde encontram essas condições; como encontrá-las numa reunião cujas crenças são divergentes, onde alguns membros nem mesmo crêem e, em conseqüência, o espírito de oposição e de controvérsia domina incessantemente? Eles só assistem aqueles que desejam ardentemente esclarecer-se para o bem, sem pensamento preconcebido, e não para satisfazer a vã curiosidade. Querer formar uma sociedade espírita fora dessas condições seria dar provas da mais absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. Seríamos os únicos capazes de as reunir? Seria lastimável e muito ridículo assim pensar. O que fizemos, por certo outros poderão fazê-lo. Que outras sociedades se ocupem, portanto, de trabalhos iguais aos nossos, que prosperem e se multipliquem mil vezes melhor, porque será um sinal de progresso nas idéias morais; tanto melhor, sobretudo se forem bem assistidas e se tiverem boas comunicações, pois não temos a pretensão de ser os únicos privilegiados nesse campo. Como só visamos à nossa instrução pessoal e ao interesse da ciência, que nossa sociedade não oculte nenhum pensamento de especulação, nem direto nem indireto, nenhuma visão ambiciosa; que sua existência não repouse sobre uma questão de dinheiro e que as demais sociedades sejam consideradas como irmãs nossas, e não como concorrentes. Se formos invejosos, provaremos que somos assistidos pelos Espíritos maus. Caso uma dessas sociedades se formasse tendo em vista a nos criar rivalidade, com a idéia preconcebida de nos suplantar, revelaria, por seu objetivo, a própria natureza dos Espíritos que presidiram à sua formação, já que esse pensamento não seria bom, nem caridoso, nem os Espíritos bons simpatizam com os sentimentos de ódio, ciúme e ambição.
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Mês Julho
Ano 1859