De mais a mais, temos um meio infalível para não temer nenhuma rivalidade. É São Luís que no-lo oferece: Que entre vós haja compreensão e amor – disse-nos ele. Trabalhemos, pois, para nos compreendermos; lutemos com os outros, mas lutemos com caridade e abnegação. Que o amor do próximo esteja inscrito em nossa bandeira e seja a nossa divisa. Com isso afrontaremos a zombaria e a influência dos Espíritos maus. Nesse terreno, tanto melhor que se nos igualem, pois serão irmãos que chegam; depende apenas de nós, no entanto, jamais sermos ultrapassados.
Mas, dirão, tendes uma maneira de ver que não é a nossa; não podemos simpatizar com princípios que não admitimos, pois nada prova que estejais com a verdade. A isso responderei: Nada prova que estejais mais certos do que nós, porque ainda duvidais e a dúvida não é uma doutrina. Pode-se diferir de opinião sobre pontos da ciência sem se morder nem atirar pedras, o que seria pouco digno e pouco científico. Procurai, pois, do vosso lado, como pesquisamos do nosso. O futuro dará razão a quem de direito. Se nos enganarmos, o tolo amor-próprio não nos tornará obstinados por idéias falsas. Há, porém, princípios sobre os quais temos certeza de não estar enganados: é o amor do bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e de ciúme.
Esses são os nossos princípios; com eles podemos sempre simpatizar sem nos comprometermos; é o laço que deve unir todos os homens de bem, seja qual for a divergência de suas opiniões.
Somente o egoísmo interpõe uma barreira intransponível.
Tais são, senhores, as observações que julguei por bem apresentar-vos, ao deixar as funções que me houvestes confiado.
Agradeço do fundo do coração a todos aqueles que me testemunharam simpatia. Aconteça o que acontecer, minha vida está consagrada à obra que empreendemos e sentir-me-ei feliz se meus esforços puderem ajudar a fazê-la entrar no caminho sério que é a sua essência, o único que lhe pode assegurar o futuro. A finalidade do Espiritismo é tornar melhores os que o compreendem. Esforcemo-nos por dar o exemplo e mostremos que, para nós, a doutrina não é uma letra morta. Numa palavra, sejamos dignos dos Espíritos bons, se quisermos que eles nos assistam. O bem é uma couraça contra a qual virão sempre se quebrar as armas da malevolência.
Allan Kardec