A crítica contumaz censurou-nos por aceitarmos muito facilmente as doutrinas de certos Espíritos, sobretudo no que diz respeito às questões científicas. Tais pessoas revelam, por isso mes-mo, que ignoram o verdadeiro objetivo da ciência espírita, assim como desconhecem aquele a que nos propomos, facultando-nos o direito de lhes devolver a censura de leviandade com que nos julgaram. Certamente não nos compete ensinar a reserva com a qual deve ser acolhido aquilo que vem dos Espíritos; estamos longe de tomar todas as suas palavras como artigos de fé. Sabemos que entre eles há os que se encontram em todos os graus, de saber e de moralidade; para nós, é uma população que apresenta variedades muito mais numerosas que as que percebemos entre os homens; o que queremos é estudar essa população; é chegar a conhecê-la e compreendê-la. Para isto, estudamos as individualidades, observamos as pequenas diferenças e procuramos apreender os traços distintivos de seus costumes, de seus hábitos e de seu caráter; enfim, queremos nos identificar tanto quanto possível com o estado desse mundo.
Antes de ocupar uma residência queremos saber como é ela, se ali estaremos confortavelmente instalados, assim como conhecer os hábitos dos vizinhos e o tipo de sociedade que poderemos freqüentar. Pois bem! É a nossa morada futura, são os costumes do povo em meio ao qual iremos viver que os Espíritos nos dão a conhecer. Mas, assim como entre nós há pessoas ignorantes e de visão acanhada, que fazem uma idéia incompleta de nosso mundo material e do meio que não lhe é próprio, também os Espíritos de horizonte moral limitado não podem assimilar o conjunto e ainda se acham sob o império dos preconceitos e dos sistemas. Não podem, pois, instruir-nos a respeito de tudo quanto se relacione com o mundo espírita, da mesma forma que um camponês não o poderia fazer em relação à alta sociedade parisiense ou ao mundo científico. Seria, portanto, fazer de nosso raciocínio um deplorável juízo pensar que escutamos todos os Espíritos como se fossem oráculos. Os Espíritos são o que são e nós não podemos alterar a ordem das coisas. Como nem todos são perfeitos, não aceitamos suas palavras senão com reservas e jamais com a credulidade infantil. Julgamos, comparamos, tiramos conseqüências de nossas observações e os seus próprios erros constituem ensinamentos para nós, pois não renunciamos ao nosso discernimento.
Essas observações aplicam-se igualmente a todas as teorias científicas que os Espíritos podem dar. Seria muito cômodo ter apenas que interrogá-los para encontrar a ciência pronta e acabada e possuir todos os segredos industriais. Só conquistaremos a ciência à custa de trabalho e de pesquisas. A missão dos Espíritos não é eximir-nos dessa obrigação. Aliás, não apenas estamos conscientes de que nem todos sabem tudo, como sabemos que entre eles, como sói acontecer entre os homens, existem pseudo-sábios, que julgam saber o que não sabem e falam daquilo que ignoram com imperturbável atrevimento. Pelo fato de um Espírito dizer que é o Sol que gira em torno da Terra, nem por isso essa teoria será mais verdadeira. Saibam, pois, aqueles que nos atribuem uma credulidade tão pueril, que tomamos toda opinião emitida por um Espírito como uma opinião pessoal; que não a aceitamos senão após havê-la submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência espírita nos fornece, meios que todos conheceis.
Tal é, senhores, o fim a que se propõe a Sociedade.
Certamente não me compete ensinar-lhes coisa alguma, embora me agrade recordá-lo aqui, a fim de que minhas palavras repercutam lá fora e ninguém se equivoque quanto ao seu verdadeiro sentido. De minha parte sinto-me feliz por não ter tido senão que vos acompanhar neste caminho sério, que eleva o Espiritismo à categoria das ciências filosóficas. Vossos trabalhos já produziram frutos, mas os que produzirão mais tarde são incalculáveis se, como não duvido, vos mantiverdes em condições propícias para atrair os Espíritos bons ao vosso meio.
O concurso dos Espíritos bons é, com efeito, a con-dição sem a qual ninguém pode esperar a verdade; ora, depende de nós obter esse concurso. A primeira de todas as condições para granjearmos a sua simpatia é o recolhimento e a pureza das intenções. Os Espíritos sérios comparecem onde são chamados seriamente, com fé, fervor e confiança. Não gostam de servir de experiência nem de dar espetáculo; ao contrário, gostam de instruir aqueles que os interrogam sem pensamento preconcebido. Os Espíritos levianos, que se divertem de todas as maneiras vão a toda parte e, de preferência, aonde encontram ocasião para mistificar; os maus são atraídos pelos maus pensamentos, e por maus pensamentos devemos entender todos aqueles que não se acham de acordo com os preceitos da caridade evangélica. Em toda reunião, portanto, aquele que albergar sentimentos contrários a esses preceitos traz consigo Espíritos desejosos de semear a perturbação, a discórdia e o desamor.
A comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem é, desse modo, uma condição de primeira necessidade, não podendo ser encontrada num meio heterogêneo onde têm acesso as paixões inferiores do orgulho, da inveja e do ciúme, paixões que sempre se revelam pela malevolência e pela acrimônia de linguagem, por mais espesso seja o véu com que se procure cobri-las; é o á-bê-cê da ciência espírita. Se quisermos fechar aos Espíritos maus a porta desse recinto, fechemo-lhes primeiramente a porta de nossos corações e evitemos tudo quanto lhes possa outorgar poder sobre nós. Se algum dia a Sociedade se tornasse joguete de Espíritos mistificadores, é que a ela teriam sido atraídos.
Por quem? Por aqueles nos quais encontrassem eco, pois só comparecem onde sabem que serão ouvidos. Conhecemos o provérbio: Dize-me com quem andas e te direi quem és. Podemos parodiá-lo em relação aos nossos Espíritos simpáticos, dizendo assim: Dize-me o que pensas e te direi com quem andas. Ora, os pensamentos se traduzem por atos. Se admitirmos que a discórdia, o orgulho, a inveja e o ciúme só podem ser insuflados pelos Espíritos maus, aqueles que aqui trouxessem elementos de desunião suscitariam entraves, acusando, por isso mesmo, a natureza de seus satélites ocultos, e não poderíamos senão lamentar a sua presença no seio da Sociedade. Queira Deus que isso jamais aconteça, como o espero. Auxiliados pelos Espíritos bons, se a eles nos tornarmos favoráveis a Sociedade se consolidará, tanto pela consideração que tiver merecido, quanto pela utilidade de seus trabalhos.
Se tivéssemos em vista apenas experiências voltadas para a satisfação da curiosidade, a natureza das comunicações seria mais ou menos indiferente, pois somente as tomaríamos pelo que elas representam. Como, porém, em nossos estudos não buscamos uma diversão, nem para nós nem para o público, o que queremos são comunicações verdadeiras. Para isso, necessitamos da simpatia dos Espíritos bons, e tal simpatia só é adquirida pelos que afastam os maus com a sinceridade de suas almas. Dizer que Espíritos levianos jamais se tenham imiscuído conosco, a fim de ocultar o nosso lado vulnerável, seria muita presunção de perfeição; os Espíritos superiores chegam mesmo a permiti-lo, a fim de experimentar a nossa perspicácia e o nosso zelo na pesquisa da verdade. O nosso raciocínio, porém, deve pôr-nos em guarda contra as armadilhas que nos podem ser estendidas e, em todos os casos, nos fornece os meios de evitá-la.
O objetivo da Sociedade não consiste apenas na pesquisa dos princípios da ciência espírita; vai mais longe: estuda também as suas conseqüências morais, pois é principalmente nelas que encontra a sua verdadeira utilidade.
Ensinam nossos estudos que o mundo invisível que nos circunda reage constantemente sobre o mundo visível; eles no-lo mostram como uma das potências da Natureza. Conhecer os efeitos dessa força oculta que nos domina e subjuga mau grado nosso, não será ter a chave de mais de um problema, a explicação de uma multidão de fatos que passam despercebidos? Se esses efeitos podem ser funestos, conhecer a causa do mal não será ter um meio de preservar-se contra ele, como o conhecimento da eletricidade possibilitou-nos atenuar os efeitos desastrosos do raio?
Se então sucumbirmos não poderemos queixar senão de nós mesmos, visto não termos a ignorância como desculpa. O perigo está no domínio que os Espíritos maus exercem sobre os indivíduos, e esse domínio não é apenas funesto do ponto de vista dos erros de princípio que podem propagar, mas, também, do ponto de vista dos interesses materiais. Ensina a experiência que jamais é impunemente que nos abandonamos à sua dominação, desde que suas intenções nunca podem ser boas. Para chegar a tal fim, uma de suas táticas é a desunião, porque sabem muito bem que podem facilmente dominar quem se encontra privado de apoio.
Assim, quando querem apoderar-se de alguém, o seu primeiro cuidado é sempre inspirar-lhe a desconfiança e o isolamento, a fim de que ninguém os possa desmascarar, esclarecendo as pessoas prejudicadas com conselhos salutares. Uma vez senhores do terreno, podem fasciná-las à vontade, através de promessas sedutoras, e subjugá-las por meio da lisonja às suas inclinações, aproveitando os lados fracos que descobrem para, em seguida, melhor fazê-las sentir a amargura das decepções, feri-las em seus afetos, humilhá-las em seu orgulho e, muitas vezes, soerguê-las por um instante tão-só para precipitá-las de mais alto.