O Lavrador Thomas Martin e Luís XVIII
Nós refutamos, como não podia deixar de ser (Revista, julho de 1863), essa estranha explicação, digna contrapartida do famoso músculo estalante, do doutor Jobert de Lamballe, que acusava todos os espíritas de loucos e que ele mesmo, infelizmente, mofou vários anos num hospício de alienados. Mas perguntaremos, no caso de que aqui se trata, por que e como os aparelhos desta natureza, necessariamente complicados e volumosos, poderiam ter sido dispostos e manobrados num campo isolado de qualquer habitação, e onde Martin se achava absolutamente só, sem que nada tivesse percebido? Como esses mesmos aparelhos, que funcionam na obscuridade com o auxílio de luzes artificiais, poderiam ter produzido uma imagem em pleno sol? Como poderiam ter sido instantaneamente transportados para o porão e para o celeiro, locais que pouco se prestam a maquinações, para a igreja e daí seguir Martin até sua casa, sem que ninguém tivesse notado algo? Essas espécies de imagens artificiais são vistas por todos os espectadores. Como é que na igreja, e ao sair da igreja, somente Martin viu o indivíduo? Dirão que nada viu, mas que, de boa-fé, foi vítima de uma alucinação? Este explicação é desmentida pelo fato material das revelações feitas ao rei e que, como se verá, não podiam ser conhecidas previamente por Martin. Há nisso um resultado positivo, material, que não é peculiar às ilusões. O cura de Gallardon, a quem Martin dava fiel conta das aparições, e que lhes tomava nota exata, julgou por bem se dirigir ao seu bispo, em Versalhes, para o qual lhe deu uma carta de recomendação circunstanciada. Lá, Martin repetiu tudo quanto havia visto e, depois de diversas perguntas, o bispo o encarregou de perguntar ao desconhecido, de sua parte, se ele se apresentaria, seu nome, quem era e quem o enviara, recomendando-lhe que dissesse tudo ao seu cura. Alguns dias depois do regresso de Martin, o sr. cura recebeu uma carta de seu bispo, pela qual lhe testemunhava que o homem que lhe tinha enviado parecia ter grandes luzes sobre o objetivo importante de que tratava. A partir daí estabeleceu-se uma correspondência contínua entre o bispo e o cura de Gallardon. O monsenhor, por seu lado, em face da gravidade da primeira aparição, julgou por bem fazer desta um caso ministerial e de polícia; em conseqüência, enviava todo relatório que recebia do sr. cura ao Sr. Decazes, ministro da polícia geral. Terça-feira, 30 de janeiro, o desconhecido apareceu novamente a Martin e lhe disse: “Vossa incumbência está bem começada, mas os que a têm nas mãos, dela não se ocupam; eu estava presente, embora invisível, quando fizestes vossa declaração; foi-vos dito para perguntar meu nome e da parte de quem eu vinha; meu nome ficará ignorado, e aquele que me enviou (mostrando o Céu) está acima de mim. – Por que vos dirigis sempre a mim, replicou Martin, para uma missão como esta, logo eu que sou apenas um camponês? Há tanta gente de espírito! – É para abater o orgulho, disse o desconhecido, mostrando a terra; não deveis vos orgulhar do que vistes e ouvistes, porque o orgulho desagrada soberanamente a Deus; praticai a virtude; assisti aos ofícios que se fazem em vossa paróquia aos domingos e dias de festa; evitai os cabarés e as más companhias, onde se cometem toda sorte de impurezas e onde imperam as más conversas. Não façais nenhum carreto aos domingos e feriados.” Durante o mês de fevereiro, o desconhecido ainda apareceu várias vezes a Martin, dizendo-lhe, entre outras coisas: “Persisti, ó meu amigo, e conseguireis. Aparecereis diante da incredulidade e a confundireis; tenho ainda outra coisa a vos dizer que os convencerá e nada terão a responder. – Apressai vossa missão; não fazem nada do que vos tenho dito; os que têm o caso nas mãos estão inebriados de orgulho; a França está num estado de delírio; será entregue a toda sorte de desgraças. – Ireis encontrar o rei; dir-lhe-eis o que anunciei; ele poderá admitir consigo seu irmão e seus sobrinhos. Quando estiverdes diante do rei eu vos descobrirei coisas secretas do tempo de seu exílio, mas cujo conhecimento só vos será dado no momento em que fordes levado à sua presença.” Entrementes, o Sr. conde de Breteuil, prefeito de Chartres, recebeu uma carta do ministro da polícia geral, que o convidava a verificar “se essas aparições dadas como miraculosas não eram antes um jogo da imaginação de Martin, verdadeira ilusão de seu espírito exaltado, ou, enfim, se o pretenso enviado desconhecido e, talvez, o próprio Martin, não deveriam ser severamente examinados pela polícia e em seguida entregues aos tribunais.” No dia 5 de março Martin recebeu a visita de seu desconhecido, que lhe disse: “Em breve comparecereis perante o primeiro magistrado de vosso Departamento; é preciso que relateis as coisas como vos são anunciadas; não deveis levar em consideração nem a qualidade nem a dignidade.” Martin não tinha sido informado de que devia ir ao prefeito; aqui, portanto, não se trata de simples comunicação sobre uma coisa vaga: é a previsão de um fato que vai realizar-se. Isto é constantemente repetido durante a série desses acontecimentos; Martin sempre foi informado por seu desconhecido do que lhe aconteceria, das pessoas em presença das quais iria encontrar-se, dos lugares onde seria conduzido. Ora, isto não é o resultado da ilusão e das coisas quiméricas. Desde que o indivíduo diz a Martin: amanhã vereis tal pessoa, ou sereis conduzido a tal lugar e a coisa se realiza, é um fato positivo que não pode resultar da imaginação. No dia seguinte, 6 de março, acompanhado pelo sr. cura, Martin foi à casa do prefeito, em Chartres. Inicialmente este se entreteve longamente em particular com o sr. cura; depois, mandando entrar Martin, perguntou: “Mas se eu o algemasse e prendesse por anunciar semelhantes coisas, continuaríeis a dizer o que enunciais? – Como quiserdes, respondeu Martin sem se intimidar; não posso dizer senão a verdade. – Mas, prosseguiu o sr. prefeito, se aparecêsseis diante de uma autoridade superior à minha, por exemplo, perante o ministro, sustentaríeis o que acabais de dizer-me? – Sim, senhor, replicou Martin, e diante do próprio rei.” Surpreendido por tanta segurança, aliada a tamanha simplicidade, e mais ainda pelos estranhos relatos que lhe havia feito o cura, o prefeito decidiu-se a enviar Martin ao ministro. No dia seguinte, 7 de março, Martin partia com destino a Paris, escoltado pelo Sr. André, tenente de polícia, que tinha ordem de vigiar todos os seus passos e de não o deixar nem de dia, nem de noite. Hospedaram-se na Rua Montmartre, “hôtel de Calais”, num quarto de dois leitos. Na sexta-feira, 8 de março, o Sr. André conduziu Martin ao quartel-general da polícia. Ao entrar no pátio do hotel, o desconhecido se lhe apresentou e disse: “Ireis ser interrogado de várias maneiras; não vos amedronteis nem vos inquieteis, mas dizei as coisas como elas são.” Depois destas palavras, desapareceu. Não relataremos aqui todos os interrogatórios a que foi submetido Martin, pelo ministro e seus secretários, sem que ele se deixasse intimidar pelas ameaças, nem se desconcertar pelas armadilhas que lhe estendiam, para fazê-lo cair em contradição, confundindo seus interrogadores por suas respostas cheias de senso e de sangue-frio. Tendo Martin descrito seu desconhecido, o ministro lhe disse: “Pois bem! não o vereis mais, porque acabo de o prender. – Eh! Como pudeste prendê-lo, redargüiu Martin, já que ele desaparece como um relâmpago? – Se desaparece para vós, retomou o ministro, não desaparece para todo o mundo. E dirigindo-se a um de seus secretários: Ide ver se esse homem que mandei prender ainda está na prisão.” Alguns instantes depois o secretário voltou e respondeu: “Senhor, ele está sempre lá. – Pois bem! disse Martin, se o prendestes e mo mostrardes, eu o reconhecerei; eu o vi muitas vezes para isto.” A seguir veio um homem que examinou cuidadosamente a cabeça de Martin, afastando seus cabelos à direita e à esquerda; o ministro também fez o mesmo, sem dúvida para verificar se não tinha qualquer sinal indicador de loucura, ao que Martin se contentava em dizer: “Olhai quanto quiserdes, jamais adoeci em minha vida.” Voltando ao hotel, à noite Martin disse ao Sr. André: “Mas o ministro me tinha dito que havia posto na prisão o homem que me aparecia. Então o soltou, pois me apareceu depois e me disse: Fostes interrogado hoje, mas não querem fazer o que eu disse. Aquele que vistes esta manhã quis que acreditásseis que me haviam detido; dizei-lhe que ele não tem nenhum poder sobre mim e que já é tempo para o rei ser avisado.” No mesmo instante o Sr. André foi fazer o seu relatório à polícia, enquanto Martin, sem se inquietar, deitou e dormiu sossegadamente. No dia seguinte, 9, tendo Martin descido para pedir as botas do tenente, o desconhecido se apresentou no meio da escada e lhe disse: “Sereis visitado por um médico que vem constatar se tendes a imaginação impressionável ou se perdestes a cabeça; mas os que o enviam são mais loucos do que vós.” Com efeito, no mesmo dia o célebre alienista, Sr. Pinel, veio visitá-lo e o submeteu a um interrogatório apropriado a esse gênero de informação. “A despeito de sua habilidade – diz o relatório – foi incapaz de obter qualquer indicação, por menor que fosse, de provável alienação. Suas pesquisas não levaram senão a uma simples conjectura da possibilidade de alucinação e de mania intermitente.”
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Mês Dezembro
Ano 1866