O Lavrador Thomas Martin e Luís XVIII
e Luís XVIII As revelações feitas a Luís XVIII por um lavrador da Beauce, pouco depois da segunda entrada dos Bourbons, tiveram no tempo uma grande repercussão e, ainda hoje, a sua lembrança não se apagou. Mas poucas pessoas conhecem os detalhes deste incidente, cuja chave agora só o Espiritismo pode dar, como de todos os fatos deste gênero. É um assunto de estudo muito interessante, porque os fatos, quase contemporâneos, são de perfeita autenticidade, já que são constatados por documentos oficiais. Dar-lhe-emos um resumo sucinto, mas suficiente para que sejam apreciados. Thomas-Ignace Martin era um pequeno lavrador do burgo de Gallardon, situado a quatro léguas de Chartres. Nascido em 1783, tinha, por conseguinte, trinta e três anos quando se deram os acontecimentos que vamos relatar. Morreu no dia 8 de maio de 1834. Era casado, pai de quatro filhos menores e gozava em sua comuna da reputação de um homem perfeitamente honesto. Os relatórios oficiais o descrevem como um homem de bom-senso, embora de grande ingenuidade, por conta de sua ignorância das coisas mais vulgares; de caráter brando e pacífico, não se metia em nenhuma intriga; de perfeita retidão em todas as coisas e de completo desinteresse, de que deu numerosas provas, o que exclui toda idéia de ambição de sua parte. Assim, quando voltou à sua cidade após a visita ao rei, retomou suas ocupações habituais como se nada tivesse acontecido, evitando mesmo falar do que lhe havia sucedido. Ao partir para Paris, o diretor do hospício de Charenton teve o maior trabalho do mundo para fazê-lo aceitar 25 francos para as despesas de viagem. No ano seguinte, estando sua mulher grávida do quinto filho, uma pessoa distinta por sua posição e que conhecia a mediocridade de sua fortuna, mandou propor por um terceiro, 150 francos para cobrir as necessidades nessa circunstância. Martin recusou, dizendo: “Só pode ser por causa destas coisas que me acontecem que me oferecem dinheiro, porque, sem isto, não falariam de mim, nem mesmo me conheceriam. Mas como a coisa não vem de mim, nada devo receber por isto. Assim, agradecei a essa pessoa porque, embora eu não seja rico, nada quero receber.” Em outras circunstâncias recusou somas mais consideráveis, que o teriam deixado à vontade. Martin era simples, mas nem crédulo, nem supersticioso; praticava seus deveres religiosos escrupulosamente, mas sem exagero ou ostentação e sempre justo no estrito limite do necessário, visitando seu cura no máximo uma vez por ano. Por conseguinte, nele não havia nem falsa devoção, nem superexcitação religiosa. Nada em seus hábitos e em seu caráter era susceptível de exaltar-lhe a imaginação. Tinha visto com prazer a volta dos Bourbons, mas sem se ocupar de política de modo algum e sem se envolver com qualquer partido. Dedicado inteiramente ao trabalho dos campos, desde a infância, não lia livros nem jornais. Compreende-se facilmente a importância dessas informações sobre o caráter de Martin no caso de que se trata. Desde que um homem não é movido nem pelo interesse, nem pela ambição, nem pelo fanatismo, nem pela credulidade supersticiosa, conquista sérios títulos à confiança. Ora, eis de modo sumário como se passaram os acontecimentos que lhe sucederam. No dia 15 de janeiro de 1816, por volta das duas e meia da tarde, ele estava só, ocupado em adubar um campo a três quartos de légua de Gallardon, num cantão muito deserto, quando, de repente, se lhe apresentou um homem de cerca de cinco pés e uma ou duas polegadas, corpo delgado, rosto afilado, delicado e muito branco, vestindo uma levita ou redingote dourado, totalmente abotoado e caindo até os pés, com os sapatos amarrados com cordões e com um chapéu redondo de copa alta. Esse homem disse a Martin: “Deveis ir ao encontro do rei e lhe dizer que sua pessoa corre perigo, bem como a dos príncipes; que gente má ainda tenta derrubar o governo; que vários escritos ou cartas já circulam em algumas províncias de seus Estados a esse respeito; que é preciso que exerça uma polícia rigorosa e geral em todos os seus Estados e, sobretudo, na capital; que também é preciso que reabilite o dia do Senhor, a fim de que o santifiquem, pois esse dia santo é desconhecido por grande parte de seu povo; que mande interromper os trabalhos públicos nesses dias; que faça ordenar preces públicas pela conversão do povo; que o estimule à penitência; que mande abolir e aniquilar todas as desordens que se cometem nos dias que antecedem a quaresma; a não ser assim, a França cairá em novas desgraças.” Um pouco surpreso pela súbita aparição, Martin lhe respondeu: “Mas bem podeis ir encontrar outros, que não eu, para uma incumbência como esta. Não é com mãos assim (sujas de esterco) que vou falar ao rei!” – Não, replicou o desconhecido, sois vós que ireis. – Mas, replicou Martin, já que sabeis tanto, bem podeis ir vós mesmo procurar o rei e lhe dizer tudo isto. Por que vos dirigis a um pobre homem como eu, que nem sabe explicar-se? – Não serei eu a ir, disse o desconhecido, sereis vós; prestai atenção no que digo e fazei tudo o que vos ordeno. Depois destas palavras Martin o viu desaparecer mais ou menos assim: seus pés pareceram elevar-se do solo, a cabeça baixar e o corpo, se encolhendo, acabou por desaparecer à altura da cintura, como se se tivesse evaporado no ar. Mais espantado por esta maneira de desaparecer do que pela aparição súbita, Martin quis ir-se embora, mas não pôde; ficou, mau grado seu, e voltou à sua tarefa que, devendo durar duas horas e meia, não durou senão hora e meia, o que redobrou o seu espanto. Talvez achem pueris certas recomendações que Martin deveria fazer ao rei, sobretudo no que concerne à observação do domingo, em relação ao meio, aparentemente sobrenatural, empregado em lhas transmitir, e às dificuldades que tal providência deveria encontrar. Mas é provável que não fosse senão uma espécie de passaporte para chegar a ele, porque o objetivo principal da revelação, que era muito mais grave, não devia ser conhecido, como se verá mais tarde, senão no momento da entrevista. O essencial era que Martin pudesse chegar até o rei, e para isso a intervenção de alguns membros do alto clero era necessária. Ora, sabe-se a importância que o clero atribui à observação do domingo; como o soberano não haveria de sensibilizar-se, quando a voz do céu ia fazer-se ouvir por um milagre? Convinha, pois, favorecer Martin, em vez de o desanimar. Todavia, era preciso que as coisas marchassem por si mesmas. Martin apressou-se em contar ao seu irmão o que lhe tinha acontecido e ambos foram comunicá-lo ao cura da paróquia, o Sr. Laperruque, que se esforçou por dissuadir Martin a levar a coisa à conta de sua imaginação. No dia 18, às seis horas da tarde, tendo Martin descido ao porão para apanhar batatas, o mesmo indivíduo lhe apareceu de pé, ao seu lado, enquanto estava ajoelhado, ocupado em as recolher. Apavorado, lá deixa a candeia e foge. No 18, nova aparição à entrada de um lagar e Martin ainda foge. No domingo, 21 de janeiro, Martin entrava na igreja à hora das vésperas; quando tomava água benta, percebeu o desconhecido, que também a tomava e que o seguiu até a entrada de seu banco. Durante toda o desenrolar do ofício esteve muito recolhido e Martin notou que ele não tinha o chapéu na cabeça nem nas mãos. Ao sair da igreja o seguiu até sua casa, caminhando ao seu lado, com o chapéu na cabeça. Chegados ao portão largo, achou-se de repente diante dele, face a face, e lhe disse: “Desobrigai-vos de vosso encargo e fazei o que vos disse; não vos deixarei em paz enquanto vossa obrigação não for cumprida.” Mal pronunciou estas palavras, desapareceu, sem que desta vez, nem das aparições seguintes, Martin o tivesse visto desaparecer gradualmente, como da primeira vez. Em 24 de janeiro, nova aparição no celeiro, seguida destas palavras: “Fazei o que vos ordeno; é tempo.” Notemos estes dois modos de desaparecimento: o primeiro, que não poderia ser o caso de um ser corporal em carne e osso, sem dúvida tinha por objetivo provar que era um ser fluídico, estranho à humanidade material, circunstância que deveria ser realçada 50 anos mais tarde e explicada pelo Espiritismo, cujas doutrinas confirmava, ao mesmo tempo que devia fornecer um assunto de estudo. Sabe-se que nestes últimos tempos a incredulidade procurou explicar as aparições por efeitos de óptica e que, quando apareceram em alguns teatros fenômenos artificiais deste gênero, produzidos por uma combinação de espelhos e luzes, houve uma grita geral na imprensa, para dizer: “Eis, enfim, descoberto o segredo de todas as aparições! É com o auxílio de tais meios que essa crença absurda se espalhou em todos os tempos e que pessoas crédulas se deixaram iludir por subterfúgios!”
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Mês Dezembro
Ano 1866