O Lavrador Thomas Martin e Luís XVIII
Para certas pessoas, parece que nada mais é preciso para ser tachado de loucura: basta não pensar como eles. Eis por que os que crêem em alguma coisa do outro mundo passam por loucos aos olhos dos que em nada acreditam. Depois da visita do doutor Pinel, o desconhecido apresentou-se a Martin e lhe disse. “É preciso que vades falar ao rei. Quando estiverdes em sua presença eu vos inspirarei sobre o que devereis dizer-lhe. Sirvo-me de vós para abater o orgulho e a incredulidade. Tratam de afastar o caso, mas se não conseguirdes o vosso intento, ele será desvendado por outra via.” No dia 10 de março, estando Martin em seu quarto, o desconhecido lhe apareceu e disse: “Eu havia dito que meu nome ficaria ignorado, mas, já que a incredulidade é tão grande, é preciso que vos revele o meu nome. Sou o anjo Rafael, anjo muito famoso junto a Deus. Tenho o poder de ferir a França com toda a sorte de flagelos.” A estas palavras, Martin foi tomado de pavor e sentiu uma espécie de crispação. Outro dia, tendo saído com Martin o Sr. André encontrou um oficial amigo seu, com o qual conversou durante uma hora, em inglês, língua que naturalmente Martin não entendia. No dia seguinte o desconhecido, que ele agora chama anjo, lhe disse: “Os que ontem estavam convosco falaram a vosso respeito, mas não entendíeis sua linguagem; disseram que vínheis para falar ao rei e um disse que quando voltasse à sua terra o outro lhe daria notícias, para saber como a coisa se teria passado.” O Sr. André, a quem Martin dava conta de todas as suas conversas com o desconhecido, ficou muito surpreendido por ver que o que tinha dito em inglês, para não ser compreendido pelo camponês, estava descoberto. Embora o relatório do doutor Pinel não concluísse pela loucura, mas apenas por uma possibilidade de alucinação, Martin não deixou de ser levado ao hospício de Charenton, onde ficou de 13 de março a 2 de abril. Lá foi objeto de minuciosa vigilância e submetido ao estudo especial dos especialistas. Igualmente fizeram inquéritos em sua terra, sobre os seus antecedentes e os de sua família, sem que, a despeito de todas as investigações, tivessem constatado a menor aparência ou causa predeterminante de loucura. Para render homenagem à verdade, deve-se dizer que ali foi sempre tratado com muita atenção da parte do Sr. Royer- Collard, diretor-chefe da casa, e por outros médicos, e que não o submeteram a nenhum desses tratamentos em uso nesses tipos de estabelecimentos. Se ali foi colocado, era bem menos por medida de seqüestro do que para ter mais facilidade de observar o seu real estado de espírito. Durante sua estada em Charenton, teve visitas muito freqüentes de seu desconhecido, as quais não apresentaram nenhuma particularidade notável, a não ser esta em que lhe disse: “Haverá discussões: uns dirão que é imaginação; outros, que é um anjo de luz; outros, ainda, que é um anjo das trevas. Eu vos permito que me toqueis.” Então, contou Martin, ele me tomou a mão direita e a apertou; depois abriu o redingote pela frente e, quando este estava aberto, pareceu-me mais brilhante que os raios do Sol. Não pude encará-lo; fui obrigado a pôr a mão em frente aos olhos. Quando ele fechou o redingote, nada mais vi brilhando; ele me pareceu como antes. Esse abrir e fechar se operaram sem nenhum movimento de sua parte. Outra vez, quando escrevia ao seu irmão, viu ao seu lado o desconhecido, que lhe ditou uma parte da carta, lembrando as predições que havia feito sobre as desgraças de que a França estava ameaçada. Eis, pois, Martin ao mesmo tempo médium vidente e escrevente. Por mais cuidado que tivessem tomado para que o caso não se espalhasse, este não deixou de causar certa sensação nas altas rodas oficiais. Entretanto, é provável que tivesse dado em nada, se o arcebispo de Reims, grande capelão de França, depois arcebispo de Paris e cardeal Périgord, nele não se tivesse interessado. Falou a Luís XVIII e lhe propôs receber Martin. O rei lhe declarou que ainda não tinha ouvido falar do caso, tanto é certo que, muitas vezes, os soberanos são os últimos a saber o que se passa em seu redor e mais lhes interessa. Em conseqüência, ordenou que Martin lhe fosse apresentado. Em 2 de abril Martin foi conduzido de Charenton à casa do ministro da polícia-geral. Enquanto esperava o momento de ser recebido, seu desconhecido lhe apareceu e disse: “Ireis falar ao rei e estareis só com ele; não temais aparecer diante dele; quanto ao que tereis a lhe dizer, as palavras vos virão à boca.” Foi a última vez que o viu. O ministro o acolheu com muita benevolência e disse que o mandaria levar ao Palácio das Tulherias. Geralmente acredita-se que Martin veio por si mesmo a Paris, apresentou-se no palácio, insistindo em falar ao rei; que, repelido, voltou à carga com tanta persistência que Luís XVIII, tendo sido informado, ordenou que o fizessem entrar. Como se vê, as coisas se passaram de outro modo. Não foi senão em 1828, quatro anos depois da morte do rei, que ele deu a conhecer as particularidades secretas que lhe revelou e que lhe causaram profunda impressão, pois tal era o objetivo essencial dessa visita; os outros motivos alegados, como dissemos, não passaram de um meio de chegar a ele. Seu desconhecido lhe deixou ignorar essas coisas até o último momento, temendo que uma indiscrição arrancada pelo artifício dos interrogatórios fizesse o projeto fracassar, o que inevitavelmente teria ocorrido. Depois de sua visita ao rei, Martin foi despedir-se do diretor de Charenton e partiu imediatamente para sua terra, onde retomou o curso habitual de seus trabalhos, sem jamais se atribuir qualquer mérito pelo que lhe tinha acontecido. O objetivo a que nos propúnhamos neste relato era mostrar os pontos pelos quais ele se liga ao Espiritismo. Sendo as particularidades reveladas a Luís XVIII estranhas ao nosso assunto, abster-nos-emos de as mencionar. Diremos apenas que elas se referiam a coisas de família da maior intimidade; comoveram o rei a ponto de o fazer chorar muito, declarando este mais tarde que as coisas que lhe tinham sido reveladas só eram conhecidas por Deus e por ele. Elas tiveram por conseqüência fazê-lo renunciar à sagração, cujos preparativos já haviam sido ordenados.25 Não reportaremos dessa entrevista senão algumas passagens da ata escrita em 1828, ditada pelo próprio Martin, onde se descreve o caráter e a simplicidade do homem. “Chegamos às Tulherias pelas três horas e sem que ninguém houvesse dito algo. Chegamos até o primeiro oficial de Luís XVIII, a quem foi entregue uma carta e que, depois de a ter lido, me disse: Segui-me. Paramos por alguns momentos, porque o Sr. Decazes estava com o rei. Quando o ministro saiu eu entrei e, antes que eu dissesse uma palavra o rei ordenou ao oficial que se retirasse e fechasse as portas. O rei estava sentado à sua mesa, diante da porta. Havia penas, papéis e livros. Saudei o rei, dizendo: “Senhor, eu vos saúdo.” O rei me disse: “Bom-dia, Martin.” Então falei com meus botões: Ele sabe o meu nome. “Certamente, senhor, sabeis por que venho”. – “Sim; sei que tendes algo a me dizer e disseram-me que era algo que só podeis dizer a mim. Sentai.” Então eu me sentei numa poltrona em frente ao rei, de modo que só havia a mesa entre nós. Perguntei-lhe como passava. – O rei me disse: “Passo um pouco melhor do que nestes dias passados; e vós, como passais? – Eu passo bem. – Qual o objetivo de vossa viagem? – E eu lhe disse: Podeis mandar chamar, se quiserdes, vosso irmão e seus filhos. O rei me interrompeu, dizendo: É inútil; eu lhes direi o que me tiverdes dito.” Depois disto, contei ao rei todas as aparições que eu tinha tido e que estão na ata. “Eu sei tudo isto; o arcebispo de Reims já mo havia dito tudo. Mas parece que tendes algo a me dizer em particular e em segredo.” Então senti virem à minha boca as palavras que o anjo me havia prometido, e disse ao rei: “O segredo que tenho a vos dizer é que...” (Seguem detalhes sobre certas medidas a tomar e a maneira de governar, que, como as instruções dadas na continuação da conversa, não podiam ser inspiradas senão naquele momento, pois estão fora do alcance do grau de cultura de Martin). “Foi a este relato que o rei, tocado de espanto e profundamente emocionado, disse: ‘Ó meu Deus! ó meu Deus! isto é bem certo; só eu, vós e Deus sabemos isto; prometei guardar o maior segredo sobre estas comunicações.’ E eu lhe prometi. Depois disto eu lhe disse: ‘Evitai fazer-vos sagrar; se o tentásseis, seríeis ferido de morte na cerimônia da sagração.’ Desde esse momento até o fim da conversa o rei chorava sempre.” Quando terminei, ele me disse que o anjo que me havia aparecido era o que conduzia o jovem Tobias a Rages e que o fez casar. Depois perguntou qual de minhas mãos o anjo havia apertado. Eu respondi: “Esta”, mostrando a direita. O rei ma tomou, dizendo: “Que eu toque a mão que o anjo apertou. Orai sempre por mim. – Claro, senhor; eu e minha família, assim como o sr. cura de Gallardon, temos sempre orado para que o caso tivesse bom termo.” Saudei o rei, dizendo-lhe: “Eu vos desejo boa saúde.
TAG Valor
Mês Dezembro
Ano 1866