Capítulo 4
Uma questão cabe introduzir aqui: convém que ele disponha de alguma forma de mediunidade ostensiva? Em Espiritismo, não há posições dogmáticas. Minha opinião pessoal é a de que algumas formas de mediunidade são desejáveis. Colocaria em primeiro lugar a intuitiva, através da qual o doutrinador possa receber as inspirações de seus amigos espirituais, responsáveis pelo trabalho, e desenvolvê-las junto ao manifestante, com seus próprios recursos e suas próprias palavras. Em segundo lugar, poria a vidência, que certamente auxiliará na visão de cenas e quadros, ou da aparência pessoal do Espírito manifestante e de seus eventuais companheiros. Será também útil dispor da faculdade de clariaudiência, e, neste caso, ouviria diretamente as instruções e “recados” do mundo espiritual, que fossem de interesse para o seu trabalho. Isto, porém, não o coloca inteiramente a salvo de alguma palavra, soprada desavisadamente, que o leve a falsos caminhos. Creio poder afirmar que não seria desejável qualquer forma de mediunidade que colocasse o dirigente, ou doutrinador, em estado de inconsciência. Ele precisa manter-se lúcido durante todo o período de trabalho. Uma confreira, experimentada nas lides espíritas, contou-me que certa vez se encontrou ante a contingência de dirigir uma sessão de desobsessão. Relutantemente, concordou em assumir o encargo, pois temia que sua ostensiva mediunidade de incorporação interferisse com a boa marcha do trabalho. Realmente, foi o que aconteceu. Ao iniciar a tarefa do diálogo com um Espírito manifestante, começou a sentir-se envolvida, perdeu o fio da conversação e, sentindo-se girar “como um parafuso” — disse ela —, daí a pouco estava, por sua vez, também incorporada, criando certo pânico na sessão. Depois dessa experiência, ela passou a recusar, com firmeza, qualquer solicitação para funcionar como doutrinadora, dedicando-se a outras atividades, tão nobres quanto essa, para as quais estava perfeitamente preparada, com a abençoada mediunidade de cura. Suponho que, por isso, a faculdade mais comumente encontrada num doutrinador é, precisamente, a intuição. Se ele procura sintonizar-se com o mundo espiritual, esta via de comunicação bastará ao seu trabalho. Por ela, seus companheiros mais esclarecidos se comunicarão, com eficiência e oportunidade, para a ajuda de que ele não pode prescindir. De uma vez por todas, tiremos de nossa cabeça a noção falaz de que o bom doutrinador pode dispensar a colaboração dos Espíritos Superiores. Mais de uma vaidade tem sido explodida por causa disso, e não poucas obsessões pertinazes têm resultado dessa ingênua e perigosa imaturidade. Já fazemos muito quando não atrapalhamos os dedicados companheiros da Espiritualidade Maior. Se manifestamos a tola pretensão de dispensar-lhes a ajuda, eles se afastarão, com tristeza, é certo, mas com serenidade e sem remorsos, de vez que jamais impõem a sua presença, nem a sua vontade. Não há bom doutrinador sem a colaboração e o apoio dos Espíritos mais esclarecidos. E, em breve, não haverá nem bom nem mau, porque o pretensioso ficará literalmente aniquilado pela obsessão ou pela fascinação de Espíritos ardilosos, que se apresentam com nomes pomposos e se arvoram, por sua vez, em doutrinadores do doutrinador, pregando estranhas e confusas ideias. Com isto, chegamos a outra faculdade necessária ao doutrinador: a humildade. Ele vai precisar dela, com frequência impressionante. A princípio, para aceitar as ironias, agressões e impertinências dos pobres irmãos atormentados. Depois, se e quando conseguir convencer, o companheiro, de seus enganos e de seus erros, para não assumir a atitude do vencedor que pisa na garganta do vencido, para mostrar o seu poder e confirmar a sua vaidade e seu orgulho. É a partir do momento em que o turbulento manifestante de há pouco se converte em verdadeiro trapo humano, arrependido e em pranto, que o doutrinador deve mostrar toda a sua compaixão humilde e o seu respeito pela dor alheia. Tem, ainda, que ser humilde no aprendizado. Cada manifestação traz a sua lição, a sua informação, a sua surpresa. Em trabalho mediúnico, estamos sempre aprendendo e nunca sabemos o suficiente. Se não nos aproximarmos dele com humildade, pouco ou nenhum progresso conseguiremos realizar. A humildade é necessária, também, quando não conseguimos convencer o companheiro infeliz. Precisamos estar preparados para a derrota, em muitos casos. Nada de pretensões tolas de que o trabalho foi cem por cento positivo. Claro que positivo, em sentido genérico, ele sempre o é. Mesmo naquele que não conseguimos demover de seus propósitos, se tivermos tido habilidade e tato, teremos realizado, no seu coração, a sementeira da verdade. Um dia — não importa quando — ele vai lembrar-se do que lhe dissemos e conferi-lo com a realidade. Não contemos, porém, com o êxito total da conversão imediata e definitiva, ao amor, de todos os Espíritos que nos são trazidos. Muitos daqueles dramas, que se desenrolam diante de nós, arrastam-se há séculos. Não se ajustam em minutos de conversa. Humildade, pois, para aceitar esses casos e continuar lutando. Não somos super-homens, nem semideuses. Humildade, ainda, quando precisarmos reconhecer o potencial intelectual do irmão espiritual com o qual nos defrontamos. E isso é muito frequente. Não quer dizer que nos devamos curvar servilmente diante dele, rendendo homenagens à sua inteligência e ao seu conhecimento; quer dizer que precisamos admitir, às vezes, que não estamos em condições de superá-lo naquilo que constitui o seu ponto forte. Nem é essa a técnica recomendada. Suponhamos que compareça, para conversar conosco, um Espírito de elevada cultura, que lecionou em Faculdades, ocupou assentos em Academias, recebeu, enfim, as honrarias que tantos buscam, em vez da paz interior. Não é no terreno dele que nos vamos medir, não é discutindo Filosofia, com ele, que vamos convencê-lo de seus enganos. Nesse campo, ele dispõe de mais recursos do que nós. E foi justamente o debate inútil e o vão filosofar que arruinaram sua vida espiritual. Ele precisa de atenção, fraternidade, respeito e sinceridade, não de debates estéreis, nos quais facilmente nos vencerá, para consolidar a sua vaidade lamentável. Um pouco de humildade, da nossa parte, o levará a respeitar-nos também, enquanto a exibição inútil de precários conhecimentos filosóficos, e de medíocre cultura intelectual, só poderá estimular nele o desprezo por nós e pela nossa posição. Nada, pois, de aparentar o que ainda não somos. E, mesmo que o fôssemos, a humildade, ainda assim, seria indicada. Lembremos ainda uma qualidade: o destemor. Já disse alhures que, em trabalho mediúnico, temos que ser destemidos, sem ser temerários. Coragem não é o mesmo que imprudência. O destemor é de extrema utilidade nas tarefas de doutrinação. Fustigados pela interferência dos grupos mediúnicos em seus tenebrosos afazeres, os Espíritos violentos comparecerão possuídos de irritação, rancor e ódio, mesmo. Manifestam-se aos berros, dão murros na mesa, ameaçam céus e terras, procuram intimidar e propõem-se a vigiar-nos implacavelmente, a atacar nossos pontos fracos ou fazer um cerco impiedoso em torflo de nossa família, provocar acidentes, doenças, perturbações. O arsenal de ameaças é vasto, e eles manipulam, com extrema sagacidade, as armas da pressão. Se nos deixarmos impressionar pelas verdadeiras cenas que fazem, estaremos realmente perdidos, porque nos colocaremos na faixa vibratória desejada por eles, Os benfeitores espirituais sempre nos advertem, de maneira tranquila e segura: — Nada de temores infundados. Sofremos apenas aquilo que está nos nossos compromissos espirituais, e não em decorrência do trabalho de desobsessão. É verdadeiro, isso. Seria injusto, por parte das leis supremas, que, evidentemente, governam o Universo, se a paga da dedicação ao irmão que sofre resultasse em sofrimento indevido e em punição imerecida. Estariam subvertidos todos os princípios da Justiça Divina, se assim fosse. É até possível que uma ou outra, das ameaças esbravejadas contra nós, se cumpra, ou seja, aconteça acidentalmente, como doença inesperada cm um de nós, ou em membro da nossa família. Estejamos certos de que, na sessão seguinte, virá de novo o irmão infeliz, para se vangloriar: — Eu não disse? Não tema, siga em frente. O trabalho está sob a proteção de forças positivas e abençoadas. Isto, porém, não significa que deveremos e poderemos deixar cair as guardas. A proteção existe, mas não para dar cobertura à imprudência, à irresponsabilidade. Não custa, pois, anotar mais uma das aptidões necessárias ao bom desempenho do trabalho mediúnico, em geral, e do doutrinador, em particular: a prudência. Se, porém, um acontecimento desagradável realmente acontecer conosco, ou com alguém da nossa convivência, nitidamente ligado ao trabalho mediúnico, nem assim devemos nos desesperar e intimidar: estejamos certos de que estava já nos nossos compromissos, e mais: os recursos socorristas virão, sem dúvida alguma. * A longa digressão acerca das aptidões desejáveis a um doutrinador não deve necessariamente desencorajar aquele que pretende se preparar para a tarefa. Ele precisa saber que o trabalho é árduo, os riscos são muitos, as qualificações são, idealmente, rigorosas e numerosas, e nenhuma projeção especial o espera. Ao contrário. quanto mais apagado o seu trabalho, mais eficaz e produtivo. Dificilmente um doutrinador reunirá tantos e tão grandes atributos pessoais. Procuramos, aqui, traçar um perfil ideal e, como todo ideal, difícil, senão impossível de ser atingido. Que isso não desencoraje ninguém à responsabilidade do trabalho. Os Espíritos amigos saberão dosar as tarefas, segundo as forças e as possibilidades de cada grupo.
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Nome do Capítulo O doutrinador
Parte Segunda